Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 20 de 58

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Viagem Solitária

Parte II: Descobertas

PARTE II

DESCOBERTAS

CAPÍTULO 1

A SAÍDA DO LABIRINTO

 

O direito é o sol eterno, e o mundo não pode retardar a sua

vinda.

Phillips

 

Paris seria o lugar que escolheria para m orar. O charm e dessa cidade faz com que, vista de qualquer ângulo, sej a encantadora. E foi na excitante cidade-luz que um a esperança se acendeu, m udando daí para a frente o rum o da m inha vida.

Foi em 1975, quando passei um m ês na Europa. Tom ara conhecim ento de um voo charter que chegaria a Paris no verão. Com um a m ochila nas costas e algum as econom ias no bolso, em barquei. Meu dinheiro m al dava para com er. Entrava num superm ercado e com prava um a bisnaga, um pedaço de queij o e preparava os sanduíches que ia devorando pelo cam inho. Com ida m esm o só fui saborear 15 dias depois, na Itália, onde a vida era bem m ais barata naquela época. Viaj ava em trens noturnos de segunda classe, econom izando diárias de hotel. Perm anecia, no m áxim o, um ou dois dias em cada cidade, vendo o que m eus olhos alcançavam e indo aonde m eus pés aguentavam .

O fato de viaj ar só não era m uito acalentador. Faltava-m e m otivação para fazer alguns program as, pois não tinha alguém com quem pudesse com partilhar as em oções. Mas, de qualquer form a, foi um a sensação única estar de corpo e alm a no velho continente europeu.

Saltando onde m e dava vontade e pegando m uitas caronas para prosseguir, cheguei à Sicília. Extraordinário foi ver o trem desm em brando os vagões ao entrar na barcaça que atravessaria o Mediterrâneo rum o a Messina. Dessa terra quente, cheia de cactos e afam ada pelos m afiosos, segui direto para a região da Puglia, passando por Brindisi, no calcanhar da bota. Lá m orava um a prim a, um a das poucas pessoas com quem j á tinha conversado a m eu respeito, quando esteve no Brasil. Era um a m ulher sofrida, com um a enorm e garra em relação à vida. Adorei revê-la.

Ela e o m arido m e levaram até Alberobello, um a cidadezinha próxim a, onde a arquitetura é única no m undo. São casas redondas, todas de pedra e sem j anelas, cham adas trullis.

A característica m ais im portante de Brindisi é ter sido o fim da Via Apia que com eçava em Rom a e ser a cidade natal do poeta Virgílio. É tam bém um porto m uito próxim o da Grécia.

Subindo a costa do Adriático, cheguei a Veneza, onde, sentado na Praça de São Marcos, assisti a um a orquestra de violinos, saboreando um delicioso chá.

Não tive m uitos contratem pos na viagem . Só quando era obrigado a apresentar m eu passaporte nas fronteiras e nas pensões, o que m e deixava apreensivo. Na saída do Brasil, ao ser revistado no aeroporto, tive de entrar na fila destinada às m ulheres. Até explicar que “gato não era sapato”, foi o constrangim ento de sem pre.

Viaj ar por países diferentes e m ais desenvolvidos que o m eu, que há 11 anos estava subm etido a um a ditadura m ilitar que ainda duraria m ais dez, m e deu um a visão m ais am pla do m undo. Pude vivenciar a liberdade de expressão em sociedades m ais dem ocráticas e organizadas.

De volta a Paris, depois de subir e descer os becos de Montm artre, peram bulando por entre artistas e cabarés, peguei o m etrô para o Quartier Latin. Entrando num a livraria, com ecei a folhear algum as publicações. Não poderia prever que ali descobriria o que tanto procurava – a saída do labirinto.

Com o vendedor algum m e incom odasse, fiquei à vontade para folhear com calm a vários livros e livretos, até m inhas m ãos alcançarem um a revista científica. Trazia com o subtítulo a palavra Sexualité. Dei um a olhadela no índice. Precisam ente no capítulo cinco havia um a reportagem em que um m édico falava sobre cirurgias transgenitais, feitas em alguns países com grande sucesso. Referia-se, apenas, a transm ulheres, na época cham adas transexuais fem ininas, caso tecnicam ente m ais fácil de resolver do que o dos trans-hom ens. Citava os Estados Unidos com o um dos países precursores e m ais desenvolvidos no assunto. Inglaterra, Suécia e Dinam arca eram os m ais avançados no reconhecim ento da necessidade de m udança de identidade após a cirurgia.

Com prei im ediatam ente a revista e saí lendo pela calçada. Meu coração, taquicárdico. Resolvi sentar-m e num café para digeri-la em todos os detalhes. Meus olhos m al acreditavam no que estavam lendo. Parecia um sonho.

No dia seguinte fui para Londres. Andando por um a das ruas da cidade, esbarrei num a sex shop. Num a m esa colocada ao centro, revistas sobre pedofilia podiam ser folheadas à vontade pelos fregueses. As fotos eram reais, a m aioria de crianças orientais e desnutridas. As prateleiras estavam cobertas de instrum entos sexuais, com o enorm es pênis de plástico, bonecas de borracha e outros artefatos fetichistas. Havia um verdadeiro arsenal para relações sadom asoquistas.

Não consegui obter m uitas inform ações em Londres, nem nos outros países que visitei depois, Holanda, Alem anha e Suíça. Não dom inava o inglês, não dispunha de m uitos recursos e estava doido para retornar ao Brasil.

A ideia de m e subm eter a um a dessas operações não m e saía da cabeça. Não sabia com o nem onde, m as daquele m om ento em diante isso passou a ser a m eta fundam ental da m inha existência. Precisava ler e m e aprofundar m ais no tem a, para não tom ar nenhum a decisão precipitada.

Não foi nada anim ador entrar sozinho no m eu apartam ento e retom ar as atividades norm ais, apesar das perspectivas. O fato de não ter telefone dificultava m ais ainda o acesso aos am igos. Até a faxineira resolveu ir em bora, alegando ter arranj ado outro em prego que pagava m elhor. Ainda não existiam os celulares.

A falta de um a com panheira com eçou a apertar. Era nostálgico com er, dorm ir sem ninguém para dar bom -dia ou contar um a novidade. Não tinha m ais paciência para assistir à televisão, nem ouvir m úsica. Passei a ler até altas horas, e o sono não vinha.

Profissionalm ente estava bem . Dava aulas em três faculdades, apesar de ser considerado um tipo estranho pelos outros professores. Alguns invej avam m inha popularidade com os alunos. A m aioria não m e suscitava o m enor interesse em trocar ideias. Com ecei tam bém a fazer um m estrado em Psicologia. Cada vez m e sentia m ais único.

Mercedes soube da m inha chegada. No m eu aniversário, veio visitar-m e, em brulhada num papel colorido com fita e laço.

— Meu presente para você. Eu!

Parecia que tinha se esquecido de tudo o que passam os j untos e da im possibilidade de continuarm os casados. Conversam os am igavelm ente, até que a irritação ressurgiu. Acabam os discutindo. Finalm ente, ela m e confessou estar num a situação ruim desde que fora provisoriam ente para a casa da am iga. Pediu-m e que resolvêssem os de vez os detalhes finais da separação.

Em bora faltassem m uitos anos para term inarm os de pagar o apartam ento que havíam os com prado, propus racharm os o valor da venda. Com o ela estava term inando a faculdade de Cartografia e tinha planos de ir para o interior trabalhar, esse dinheiro poderia lhe ser útil para com eçar um a vida nova. Entretanto, num gesto inesperado, ela disse:

— Use essa grana para pagar suas futuras cirurgias. Mais que ninguém , sei o quanto são im portantes para você.

Da últim a vez em que estivem os j untos, na hora da despedida afirm ou:

— Você é um cara legal. Acho um a pena tudo ter term inado e sinceram ente espero que ainda sej a feliz.