Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 19 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 13

COMUM DE DOIS GÊNEROS

 

Viver o peso real

de nunca se sentir o bastante de leveza,

banhado constantemente de espumantes estranhezas,

saber-se olhado – sem modelos.

 

É preciso os sentidos.

Pegar, só em sonhos – enlouquece.

Gritar por carne e sem carne!

 

Não me peço liberdade

Naquilo, que nem mesmo tenho

direito de me aprisionar.

(Poem a “Estranho”, do autor).

 

— Dona Joana! – gritou o técnico radiologista, chegando à porta.

Todos os rostos convergiram para m im quando m e levantei na sala de espera. Ouvi alguém sussurrar: “Cham aram Joana, não foi?”. O pior, entretanto, seria agora, quando enfrentaria a cara do profissional. Mais um desgaste brutal e hum ilhante.

Estiquei-lhe o braço e entreguei a receita num erada.

— Dona Joana... – repetiu, com o perguntando onde ela estava.

— Sou eu – disse tim idam ente, com um fio de voz, tentando evitar que alguém m ais pudesse ouvir.

Olhou-m e interrogativam ente. Pigarreou e tornou a perguntar, com o se precisasse de confirm ação para esclarecer o m al-entendido:

— O senh... Quer dizer, a senhora é dona Joana?

— Isso m esm o. O que faço agora? – perguntei-lhe em seguida, para encerrar a cena asfixiante.

— Entre na cabine e coloque este cam isolão – ordenou-m e.

Essa abreugrafia era um dos quesitos exigidos para o novo em prego que conseguira graças à Isabela.

Nunca tive grupos de am igos que m e acom panhassem durante as várias fases da m inha vida. Houve alguns, esporádicos, com quem com partilhava os m om entos m ais variados, com o j ogar cartas, contar piadas ou filosofar, e aqueles que eram som ente com panhia para ir a algum lugar. Am igos que a gente considera “do peito” praticam ente não existiram até os 30 anos.

Isabela se destacou neste m eu corredor existencial com o um a pessoa especial. Conheci-a na faculdade, porém só ao térm ino do curso é que viem os a nos descobrir. Sobressaía na classe pelo brilhantism o intelectual. Um desses cérebros privilegiados, desenvoltos, acim a de tudo na área dos insights.

Acredito que tenha se dedicado tanto ao estudo com o um a form a de com pensar sua avassaladora carência afetiva. Um a m ulher j ovem que apresentava um saudosism o de décadas passadas, as quais não tinha vivido. Seus ídolos da tela eram os dos anos 1930 ou 1940. Gostava de se vestir à m oda antiga. Apesar da sua preferência pelo tradicionalism o, era um a pessoa sem preconceitos. Muito culta, falava vários idiom as. Fiquei im pressionado quando soube que lera Shakespeare no original com apenas 15 anos!

Isabela era um a hipótese. Se não tivesse nascido, teria de ser inventada! Afeiçoei-m e a ela de m aneira profunda e um tanto estranha. Parecia que nosso entendim ento se dava em outra dim ensão. Tínham os am bos a certeza de serm os um desafio à nossa geração. Dedicou-se à Psicolinguística, a desm itificar falsos valores na linguagem e à descoberta de outros, tornando-se um a autoridade no assunto. Quanto a m im , sentia-m e igualm ente portador de algo novo, m ais por um a contingência inata do que por elaboração m ental.

Adm irava-a por não ter um a visão da vida absoluta e determ inista. Nem tudo precisava de um a “razão de ser”. As coisas sim plesm ente “eram ”, sem a obrigatoriedade de haver nelas o caráter de necessidade ou causalidade.

Sua voz era suave, e por trás de um a aparência calm a e tranquila se escondia um a rebeldia zom beteira. Certo senso anárquico. Atraía-m e sua generosidade, a grande vitalidade, sua inesgotável história e, sobretudo, a germ inação interm inável de textos e livros. Descendente de italianos, sofreu com a educação que teve e que deixou algum as m arcas não inteiram ente cicatrizadas. Penso que eu representava para ela um ser que recolhia na própria dor um a alegria que irradiava, a felicidade de saber viver: brincalhão e ingênuo.

Vendo a situação precária em que eu vivia, não tendo dinheiro suficiente para pagar o aluguel, Isabela indicou m eu nom e a um professor de grande influência para dar aulas num a universidade. No táxi, estava escudado atrás de quatro “portas-paredes”. Não tinha chefe ou patrão a quem tivesse de prestar satisfações nem precisava expor a m inha verdadeira condição. Essa m udança foi um desafio colossal para m im . Com o m estre, passaria ao polo oposto. Seria funcionário de um a instituição, em que m e exigiriam um a apresentação oficial de docum entos, irrefutavelm ente na condição de m ulher. Se não fosse pelo dinheiro, acredito que não teria feito a troca. Nesse novo ofício, inesperadam ente, encontrei com pensações que não poderia im aginar. Obtive prestígio intelectual. Meus fam iliares se sentiam orgulhosos com m eu progresso profissional.

O que m e atraiu no novo em prego, sobretudo, foi que visualizei um a necessidade de voltar a estudar e poder questionar com os futuros psicólogos os tão traiçoeiros estereótipos.

No prim eiro dia de contato com as turm as, a m inha im agem provocava choque e curiosidade. Os alunos não entendiam bem m inha figura am bígua. Ainda por cim a parecia j ovem dem ais para a função, e eu acabara de m e form ar. Dizia logo em voz alta e clara o m eu nom e, tentando evitar confusões posteriores.

Apesar de conquistar aos poucos os estudantes, continuava deslocado no m eio dos professores. Precisava ser o m elhor para desfazer o m al-estar que causava. Estudava, dava aulas em pé, para sustentar um razoável grau de m otivação, tratava os alunos com igualdade.

Lecionei durante quatro anos em três universidades. Fui adquirindo traquej o, e com o tem po m inha silhueta se acom odava m elhor na retina dos que conviviam com igo. Orientava m eus alunos para se posicionarem criticam ente e se com prom eterem com os fatos. Vez por outra m e colocava com o protagonista, o que favorecia um a em patia. Esse clim a de liberdade fez com que m uitos deles viessem a m im para contar seus problem as e suas experiências pessoais.

Quase não havia alunos hom ens. A m aioria era de m oças. Com eçou a se esboçar um fenôm eno novo na m inha vida de rej eitado-m or pelas m ulheres. Algum as alunas se apaixonaram por m im . Às vezes casadas. Sem entenderem o que estava acontecendo, algum as m e confessaram o conflito que viviam , pois não se consideravam hom ossexuais. Era gratificante ser am ado, em bora m e sentisse constrangido e até am edrontado.

Com eti a infantilidade de com partilhar esses fatos com Mercedes. Do prim eiro que contei, ela riu. Após o segundo, não gostou. Com o tem po, foi-se criando um a crosta de ressentim entos m útuos. Éram os tam bém j ovens dem ais para estarm os atentos aos pequenos j ogos da relação. Quando acordam os, era tarde dem ais.

Não havia m ais a paixão incendiária dos prim eiros tem pos. O decréscim o do interesse sexual tam bém estava prescrito na fórm ula m atrim onial. Mas ficar só para quê? Para crescer interiorm ente, com o aconselhavam os orientais? E quem está acostum ado a dorm ir com as pernas entrelaçadas? Restou-m e a racionalização de que “toda experiência é válida, e essa de estar só ainda não tinha vivido”.

Sentia-m e frustrado sexualm ente e fracassado no casam ento. Ela não m e procurava m ais, nem para fazer am or, nem para conversar. Enquanto o desinteresse e a apatia aum entavam dentro de casa, no cam po profissional obtinha cada vez m ais sucesso e adm iração. Com ecei a vacilar. Tom ado pela vaidade, deixei-m e levar por experiências afetivas com alunas.

Hoj e, noto que, no am or, m inha vida prim ou por um m ecanism o: o de ser guiado sem grandes iniciativas. Quando criança, subm etia-m e a toda sorte de exigências, em bora reclam ando, m as sem pre servil; o que gostava, não podia expressar de m aneira obj etiva e clara. Sabia que seria um a luta vã. Depois de adulto, quando m e tornei foco de atenções am orosas, não m e em penhava arduam ente na escolha. Elas se apaixonavam , e eu m e lim itava a aceitá-las ou não.

Essas escapulidas traziam -m e algum as crises de consciência, m esm o sabendo que para alguns índios sul-am ericanos a sexualidade e o casam ento não tinham nada em com um . Tam bém não m e consolava pensar no que Darcy Ribeiro, que era um m estre em acum ular casos am orosos, costum ava m e dizer sobre o am or rom ântico: “É um a invenção burguesa de m eados do século XIX, e que, tendo sua expressão m áxim a em Werther, causou um a onda enorm e de suicídios por toda a Europa”. E acrescentava: “O bom do am or é que podem os am ar várias vezes”.

Em todos esses casos, a relação sexual era o ponto m ais doloroso. Parece incrível e m esm o um desperdício, m as só conseguia usufruir um prazer verdadeiro depois que o “coito perceptivo” estivesse consum ado. Era quando m e certificava de que a parceira m e percebia com o um hom em e estava atraída m ais pelo que sentia do que propriam ente pelo que via no m eu corpo. Esse coito era necessariam ente um processo dem orado. E com o as relações eram passageiras, term inavam antes m esm o que pudesse m e deliciar. Lim itava-m e ao coquetism o da fêm ea m e seduzindo. Apesar da curiosidade de conhecer as várias condutas e preferências fem ininas, com pouquíssim as cheguei a ter relações sexuais. Contribuía tam bém o fato de que só conseguia m e despir totalm ente quando estava realm ente envolvido.

Resolvi botar um ponto final. Não queria assistir ao esfacelam ento total de algo que, no fim das contas, tinha sido rico e bom .

Mercedes resolveu sair por conta própria e ir m orar tem porariam ente com Pilar, um a antiga am iga.

Fiquei só. Meio perdido dentro daquele apartam ento de dois quartos, onde os obj etos m e lem bravam constantem ente de sua presença. Não parei m ais em casa.

A fam ília ignorou por com pleto m inha separação. Em bora eu fosse o responsável pelo rom pim ento, isso não o tornava m enos sofrido. A perda foi ainda m ais doída por não ter um pretexto para sentir ódio.

Refugiei-m e no trabalho, aproveitando para ler e estudar.

Fui convidado para congressos, redigi alguns trabalhos que chegaram a ser publicados em revistas especializadas. Assum i novas cadeiras na universidade, com eçando a estudar Antropologia e Sociologia. O tem po com eçou a escassear para poder dar vazão a tantos em preendim entos e solicitações. Abandonei por com pleto a ginástica em casa.

Essa roda-viva m e obrigava a conhecer novas pessoas, tendo de travar contato com personalidades do cam po profissional. A pressão por um a m elhor aparência aum entava e se form alizou quando fui solicitado a com parecer ao gabinete do diretor do m eu departam ento na universidade.

— Não tenho qualquer censura a lhe fazer quanto ao seu desem penho – disse-m e o diretor –, em bora você se rebele quanto às norm as exigidas pelo estabelecim ento, com o não fazer a cham ada em sala, sentar em cim a da m esa e usar gíria e palavrão em sala. Mas isso não é o m ais relevante...

Senti que a bom ba viria agora. Previa do que se tratava, j á que, com o professor, acabava de ser declarado exem plar.

— É um assunto delicado. A cúpula vem m e pressionando a seu respeito. O seu j eito... Não m e leve a m al, estou falando para o seu próprio bem , porque sou seu am igo. Cuide um pouco m ais da sua aparência.

A coação não era para m e vestir m elhor, m as com o m ulher! No fundo achava graça, porque j ustam ente as pessoas m ais tradicionais eram as que m ais exigiam que m e travestisse. Vestir-m e bem , j á o fazia. Usava calças, cam isas e sapatos finos, com prados nas m elhores loj as da cidade. Porém , dentro da concepção vigente, continuava sem m e enquadrar com o “bem -vestido ou de boa aparência”.

Com o hom em , sentia a im possibilidade da total elegância devido à forçada largura da cam isa e ao fato de as calças não terem o caim ento j usto e perfeito que eu gostaria.

A postura encurvada acentuava o porte fora de prum o. Só era visto com o m ulher na sala de aula pela forçosa apresentação, que, inapelavelm ente, tinha de fazer. Fora isso, os outros alunos, professores e em pregados da universidade que não m e conheciam viam -m e com o hom em . Inclusive, um a das m inhas grandes dificuldades era ir ao banheiro. Arrisquei-m e um dia para nunca m ais.

A m oça que tom ava conta do toalete, vendo-m e entrar e diante de algum as alunas m inhas, exclam ou escandalizada:

— Moço, aqui é banheiro das m ulheres! O dos hom ens é lá do outro lado!

Passei vários apertos do gênero até descobrir um banheiro só para professores. Isolado, m as que m e obrigava a subir três lances de escada.

Viver dois gêneros num a só vida era enlouquecedor. Cansava-m e de estar sem pre pulando de um lado para outro. Um a hora, engrossava a voz, em outra era obrigado a afiná-la; ou m e viam com o um m enino de 16 anos e m e barravam em qualquer am biente im próprio para m enores, ou com o um a m ulher que j á passava da idade de casar. Num prim eiro contato, nunca sabia com o estavam m e vendo. Antes de falar, esperava pelo tratam ento, se ia ser senhor ou senhora. Só então sintonizava m eu m odo de agir. Estava farto de condutas tão diam etralm ente opostas, em que m inha im agem era j ogada pelos outros conform e as conveniências.

O m elhor conceito que encontrei para definir essa sensação foi o de “am biência”, definido por Kurt Lewin:

 

Am biência é um fator essencial para se j ulgar ou com preender um fato, sej a ele um gesto ou um a palavra, que tom am sentidos diferentes conform e o lugar em que se estej a. Analogicam ente, todas as ações de um suj eito se baseiam no “terreno” em que ele se situe. E para que haj a certa segurança e clareza nas suas decisões, é preciso que ele saiba em que “terreno” está pisando, ou isso o

levará a um a incerteza no com portam ento, por nunca se sentir à vontade. É provável que, devido a esta insatisfação, desenvolva condutas inibitórias ou de exagero.

 

Concluí que nunca conhecera direito o terreno em que pisava. Desconhecia o grupo no qual pudesse m e inserir e m e identificar. Minhas norm as de conduta eram indefinidas por desconhecer os valores que deveria seguir, a partir de um estigm a bem definido. O grupo hom oerótico, no qual fui m uitas vezes enquadrado, apenas aceitava as m inhas relações com m ulheres, m as desde que gostasse tam bém de “ser” um a. Não era o caso.

Havia na parte final de Copacabana um a boate cham ada Alfredão, frequentada som ente por lésbicas. Cheguei a ir algum as vezes. Em duas delas, o porteiro não m e deixou entrar por parecer um hom em . Tam bém estive em boates m istas de gays e lésbicas, m as eram os gays que sentiam atração por m im .

Em bora pertencesse a vários outros grupos – profissional, fam iliar, estudantil (com ecei a fazer m estrado), em nenhum desses o estigm a deixava de ser m anipulado. Não tinha o tranquilo escudo para m e defender por m eio de nenhum grupo sexual específico. Não conhecia nenhum com que pudesse m e identificar. Desde cedo fui obrigado a aprender a m e proteger por conta própria das pressões de todos os grupos.

Havia duas forças que atuavam e que com eçavam a se m odificar: um a resultante dos m eus próprios desej os e esperanças; outra “induzida” socialm ente para ser m ulher. Na m inha infância e adolescência, em bora m eu desej o correspondesse aos valores m asculinos, a fronteira que m e separava deles era praticam ente intransponível. Por isso, destruía im ediatam ente toda e qualquer esperança de realização. Ia m e bastando com a fantasia. Tornar-m e um hom em de verdade era um sonho irrealizável. Daí, m inha ansiedade ter crescido à m edida que, aperfeiçoando-m e no vestuário e na postura m asculina, sendo tratado e confundido com o tal, a barreira parecia se enfraquecer.

Só m uito m ais tarde é que, finalm ente, m e encontraria.