Viagem Solitária
Capítulo 6
O OUTRO LADO
Cada qual pode ser um, nenhum, cem mil,
mas a escolha é um imperativo necessário.
Luigi Pirandello
Doze fios de barba, cuidadosam ente contados, iniciavam um incipiente cavanhaque. A voz continuava fina. Tem ia que não engrossasse nunca m ais. O resto do corpo perm anecia sem grandes m odificações, salvo pelo fato de que não “m onstruava” m ais e podia usar as roupas m asculinas que sem pre nam orava nas vitrines. Havia passado dois m eses.
Continuava aguardando um a carta do Farina em resposta à m inha, na qual indagava quando poderíam os retom ar as próxim as etapas cirúrgicas.
Entretanto, as duas cartas que chegaram nesse ínterim não foram dele. Um a era da França, de onde Van m e contava suas investigações sobre a transexualidade. Os requisitos pré-cirúrgicos eram fundam entalm ente os m esm os daqui, talvez m ais m inuciosos e dispendiosos. Van descobriu tam bém que grande parte dos operados não ia até o fim do processo cirúrgico. Muitos trans paravam j ustam ente na etapa em que m e encontrava: tiravam os seios e a genitália interna, m as não prosseguiam na reconstrução do pênis. Pelo que pude apurar, a causa era a dem ora e o sofrim ento do processo, além do custo alto e do resultado bastante precário.
A segunda carta foi de Selm a, um a transm ulher operada, am iga de um a ex-paciente do Farina, com quem conseguira m eu endereço. Contava-m e que era agora a m ulher m ais feliz do m undo, que tinha se casado e adotara um bebê.
Viria à capital para um a consulta m édica com seu filho que estava adoentado e pedia-m e que a hospedasse em m inha casa. Era pessoa hum ilde, com dificuldades financeiras.
Dez dias depois da carta de Selm a, a cam painha tocou. Era um a m ulher extrovertida e m uito falante. Foi logo perguntando se eu era o João e m e apresentando ao m arido com o filhinho no colo, que fora adotado no dia em que nascera.
Todos se m ostravam m uito afetivos, e o desvelo de Selm a pelo bebê era o de um a m ãe coruj a. Depois de tom arem alguns copos de cervej a, ela, m ais à vontade, relatou sua vida antes e depois da cirurgia:
— Quando tinha 17 anos, m eu pai m e expulsou de casa. Achava-m e um caso perdido, vergonhoso para a fam ília e para a cidade do interior onde m orávam os. Com o era m enor de idade, foi difícil arranj ar em prego. O que consegui foi trabalhar num balcão de loj a de roupas. Porém , com o era ridicularizada, e o salário não dava para quase nada, acabei indo parar num cabaré, onde um a travesti am iga era cantora. Fui aprovada no teste e aceita no palco. Gostava porque ali, pelo m enos, era vista e tratada com o m ulher. Ninguém m e reconhecia na plateia, de tão diferente que m e tornava!
A am iga lhe contou que tom ava horm ônios e que tinha lido num a revista que no Marrocos faziam operações para virar m ulher. Lá era m ais barato, e não exigiam tantos preparativos, testes e burocracias com o em outros lugares. Selm a passou três anos j untando o ordenado com as gorj etas que ganhava por fora. Conseguiu o suficiente para pagar a passagem .
Selm a respirou fundo. Tom ou m ais um gole do copo, que tentava am assar em suas m ãos.
— Chegando a Casablanca sem um tostão furado, passei as m aiores hum ilhações. Acabei tendo de m e prostituir para não m orrer de fom e, o que nem o cabaré tinha conseguido. Depois de m uita luta, consegui m e operar e fui ao consulado. Apesar de não ter identidade fem inina, m e arranj aram um a passagem para ser recam biada para cá. Retornei ao cabaré, m as não fui em casa para dar notícias. Já havia chegado há uns seis m eses quando encontrei este hom em m aravilhoso – e segurou o braço do m arido.
— Contei-lhe tudo, sem esconder nada. Não só m e deu carinho e apoio com o, inclusive, aj udou-m e a tirar todos os papéis. Depois de casarm os, m udam os para Volta Redonda, onde ele tam bém conseguiu trabalho na siderúrgica.
Selm a estava exaltada e visivelm ente perturbada com o próprio relato. Mas o que eu não esperava foi o repentino convite que m e fez, na frente do m arido:
— Você quer ver com o ficou a m inha cirurgia?
Fiquei ao m esm o tem po constrangido e curioso. Percebendo m eu olhar para o m arido, esclareceu:
— Não se preocupe. Ele entende a m inha intenção. Não pense que a m ostro a qualquer um !
Realm ente, o rapaz parecia não estar se im portando. Esperei que tom asse a iniciativa, para irm os para o quarto.
Am anda perm aneceu na sala, fazendo com panhia ao m arido.
Selm a se desabotoava, falando:
— Quando eu m e operei, há alguns anos, ainda não se falava no Dr. Farina. Teria m e poupado m uito sacrifício. Acredito que você ainda não tenha visto ao vivo, com o é feito no m eu caso, quero dizer, de hom em para m ulher.
Sua genitália apresentava um clitóris grande. Explicou-m e que havia sido aproveitado da antiga cabeça do pênis, e a uretra se posicionava acim a dele. Quanto ao resto, era perfeita.
Perguntei-lhe, então, sobre a m inha curiosidade fundam ental:
— Consegue chegar ao orgasm o?
— Na vagina m esm o, não sinto nada. Mas em cim a m e excito bastante. Algum as colegas m inhas afirm am ter o tal gozo vaginal, m as confesso que nunca senti nada. Talvez com o tem po ganhe algum a sensibilidade.
Só anos depois, conseguiriam “construir” um clitóris sensível, com o exibiu a m odelo Roberta Close nas páginas da revista Playboy, em 1984. Depois o desafio foi fazer um a vagina que pudesse se um edecer, não apenas com gel. As experiências m ais recentes parecem ter ocorrido na Tailândia, onde se poderia até optar por orgasm o clitoriano ou vaginal.
Selm a se recom pôs, e retornam os à sala. Am anda havia preparado um lanche. Com o era tarde, distribuím os alm ofadões pelo chão, im provisando cam as para ela e o m arido.
Eu ainda não sabia com o seria decisiva aquela visita.