Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 44 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 5

PAI DE ALUGUEL

 

Se não falas, vou encher o meu coração

Com o teu silêncio, e aguentá-lo.

Ficarei quieto, esperando como a noite

Em sua vigília estrelada.

Rabindranath Tagore

 

Confirm ado. Fui sozinho ao laboratório pegar o resultado do exam e de urina. Lola estava realm ente grávida! Fiquei na m aior felicidade, m esm o sem saber qual seria m eu lugar nessa paternidade.

Disse a ela que só assum iria o filho se ela se afastasse totalm ente do pai biológico, inclusive sem lhe dar a notícia. Ela topou. Tudo o que pediu foi que evitássem os agressões desnecessárias. E que não fum asse perto dela.

Estava desem pregado. Vivia de bicos, pintando apartam entos. Para a sogra, eu era psicólogo, m as ela estranhava que eu não tivesse consultório nem desse aulas. Claro que notava m inhas m ãos grossas. Certam ente achava m inha história m eio esquisita. Ainda podia desconfiar de que o filho não fosse m eu. Quando Lola foi dar a notícia à m ãe, preferi não ir.

Decidi investir num a nova profissão, o que m e fez m uito bem . Com ecei um curso de shiatsu com o conhecido professor Sohaco, em Copacabana. Meses depois, fiz o de m assagem ocidental, à base de óleos.

Pela prim eira vez, Lola m e proibiu de entrar no quarto. Botou m eu travesseiro e lençol no corredor. Eu a estava achando com pletam ente desligada de m im . Era com o se existissem apenas ela e o bebê. Estava m e dando esse filho, m as que preço teria de pagar por esse presente que tam bém era dela? Chegava a ser m ais cruel do que poderia im aginar.

Eu precisava contar para m inha fam ília, m as não sentia m uita vontade, nem m esm o para Van ou Suzana, a prim a querida. Achava que todos iriam se assustar m ais do que curtir. Não queria preocupar ninguém , precisava de um tem po.

Lola ficou poderosa com a gravidez e sabia disso. Iria m e estraçalhar se não cedesse sem pre. Será que eu conseguiria passar nesse teste? Fez-m e prom eter nunca revelar que o filho não era m eu, com exceção dos am igos e da fam ília.

Por qualquer briguinha, am eaçava sair de casa. Dizia que preferia ficar sozinha. Sexo, nem pensar. No m áxim o, abraçadinhos na cam a. Fiquei brocha. A indiferença de Lola m e desestabilizou. Continuei m eio angustiado, sem fom e e sem sono. Lem brei-m e dos m eus 15 anos, quando entrou ladrão na casa de tia Estela. O m esm o m edo de estar sozinho de noite.

Lola estava m uito preocupada em se cuidar para o filho. Só com ia arroz integral, m uitos legum es e frutas, tom ava as vitam inas e o cálcio que o m édico m andou. Eu perdi três quilos. Esperava que acordasse para o fato de que o garoto tinha um pai. Pelo m enos de aluguel.

Um dia, Leila, m inha irm ã, ligou. Acabei chorando e desabafando. Aceitei seu oferecim ento para contar a m eus pais e m inhas irm ãs. Com o previa, ninguém ficou entusiasm ado, m as m am ãe ofereceu apoio.

Com prei o prim eiro presente para o neném , um porta-bebê, sem m e lem brar de que eu j á sofria da coluna. Para a m ãe, um disco do Caetano, Totalmente demais.

Lola vivia enj oada. Não aguentava cheiro algum , nem m e beij ar. Eu não conseguia parar de fum ar. Com prei um m aço de Califórnia, um cigarro forte e barato, que fum ava longe dela. Vez por outra, tom ava um tranquilizante para dorm ir.

Até que um dia ela m e cham ou de papai e à noite de paizão. Disse que gostaria que eu conhecesse o pai biológico. Que era um a pessoa suave e tím ida, cursava Biologia e que tinha um a noiva, por isso ela não podia ficar com ele.

Na história da noite que era só dela e do rapaz, eu não existia. Não podia exercer qualquer controle sobre suas lem branças e suas saudades. Ela tinha razão, podia fazer de m im o que quisesse.

Com quatro m eses de gravidez ela foi fazer um a ultrassonografia. Achávam os que era um a m enina, m as, quando o m édico disse que não, apaixonam o-nos de im ediato pela novidade. Escolhi o nom e. Yuri. Lola gostou.

Eu adorava sair na rua ao lado daquela barriga grande. De repente, passei a ser visto com o um hom em fértil. Minha sogra passou a m e olhar com m ais respeito. Fiquei m ais seguro, orgulhoso e responsável pelo m oleque. Eu e Lola nos tornam os cúm plices. Ia sem pre com ela fazer os exam es pré-natais, com o qualquer hom em m oderno. Aos poucos, a sociedade ia exigindo que o pai ficasse grávido tam bém . Não literalm ente, com o viria a acontecer com os trans-hom ens.

Herdam os quase todo o enxoval dos am igos e dos parentes. De m óveis, com prei um a cadeira alta para ele com er e um banquinho que só poderia usar m ais tarde. Tam bém com pram os a banheirinha. O berço foi em prestado. O arm ário veio de um brechó e foi decorado com um fundo de m ar, os peixes pintados por cada am igo que chegava lá em casa.

Nossa relação tinha m elhorado. Conversávam os com frequência sobre nossas expectativas de com o ele seria.

Às vezes m e abraçava am orosa e acreditava que eu seria um bom pai. Aprendem os a fazer am or em outras posições. Eu gostava de encostar a cabeça na barriga dela para ouvir os barulhos e sentir os pontapés, tendo um as conversinhas com ele. Ela adorava quando eu passava óleo de am êndoas na barrigona.

Com oito m eses, ainda íam os à praia de m oto, tom ando cuidado para que ela não levasse qualquer tom bo.

Quanto m ais pesada ficava, m ais precisava de m im . Quase não brigávam os m ais.

Eu achava que m eu filho ia querer conhecer o pai biológico quando soubesse a verdade. Teria essa curiosidade, se fosse ele. Poderia aj udá-lo nessa procura. Pensei que algum dia eu ainda seria grato a esse cara.

Meu coração estava cheio de esperança de que pudesse entendê-lo. Tinha receio de nossa cultura estúpida, prepotente e m achista. Com certeza eu m e em penharia para que transcendesse essa lim itação. Não im portava se não fui eu quem o tinha gerado. Seria eu quem o aj udaria a se tornar um hom em de verdade.