Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 40 de 58

Páginas do PDF

Viagem Solitária

Parte IV: Paternidade

PARTE IV

PATERNIDADE

CAPÍTULO 1

LOLA DANÇA

 

Quero teu proveito de égua,

mais que tua fama de fêmea.

Beber a sede da fome,

comer a carne do amor.

Escalarei tua sacada,

cuidarei do teu gato,

até rasgar teu envelope

e cheirar como uma manga.

Mas não serei a goteira na tua cama,

mesmo que não me torne

o fogo cativo

da tua carne provisória.

(Poem a “Desej o”, do autor)

 

Num dos salões vazios do baile, Lola dançava freneticam ente. Ainda m eio deprê pelo térm ino com Am anda, fora arrastado por m inha irm ã Van para aquela festa.

Cheguei perto dela. Gostou. Dançam os toda a noite, bebendo, suando, beij ando. Um a m ulher sensual, dez anos m ais j ovem do que eu e com um a descontração envolvente. No fim , propôs passarm os a noite j untos.

— Hoj e não vai dar.

— O que é? Não gostou de m im ?

— Preciso te dizer um a coisa.

Era a prim eira vez que iria contar m inha história para um a m ulher por quem estava interessado. Encoraj ado pelo álcool, fui rápido e sucinto:

— Nasci com um corpo de m ulher. Fiz um a cirurgia e virei hom em .

Fez um a cara de quem não tinha entendido direito. Eu tam bém não estava a fim de explicar m ais nada. Peguei um guardanapo e escrevi m eu telefone.

— Tom a. Se um dia conseguir digerir essa história, m e liga.

Na época, eu construía casas para vender em sociedade com a m ana m ais velha, Mariana, num a praia próxim a a Niterói, Itaipuaçu. Durante a sem ana ficava lá, dorm indo na casa em prestada de um a am iga.

Tinha m e separado de Am anda e vendido m eu apartam ento, dividindo ao m eio a grana e os pertences. Com o que m e coube, saí para as construções. Só vinha ao Rio quinzenalm ente, para a casa de m eus pais. Quando cheguei, m am ãe m e deu o recado que um a m oça ligara. Fiquei na m inha, ansioso para ver se insistiria. Dois dias depois, o telefone tocou.

— Oi, sou Lola, lem bra-se de m im ? Da festa.

Abri o m aior sorriso.

— Claro que m e lem bro. Com o vai você?

Foi bem direta.

— Estou com saudade. Queria te ver.

— Saudade ou curiosidade?

Respondeu saudade. Claro que era por curiosidade, com o m ais tarde m e confirm aria.

Descobri, assim , que a m inha história, em vez de repelir, poderia servir até com o atrativo, um a isca capaz de ser beliscada pelas m ulheres m ais curiosas e afoitas, com o as que pagam para ver. E ela pagou por oito anos.

Muito diferente de Am anda, Lola sabia dar ótim as gargalhadas. Era extrovertida, cheia de am igos, tinha seu próprio sol. Com o professora de alongam ento e dança contem porânea, exibia um a postura im pecável. Fui despertando para um a m aior consciência corporal. Suas m ãos m e tocavam e m e m assageavam , aliviando tam bém m inhas dores lom bares.

Com pletam ente apaixonado, e ela, deslum brada por ter, aos 23 anos, sua prim eira casa. Nada nela era rígido. Suas roupas tinham estilo, m as eram , sobretudo, confortáveis. Os horários e os conceitos, m aleáveis. Um a vez ou outra aparecia um am igo com um baseado, e fum ávam os num delicioso relaxam ento. A afetividade aflorava, intensificando a sexualidade. Adm irava sua descontração e sua determ inação.

Ela j á tinha experim entado do chá de cogum elos ao LSD. Nada a viciava. Até os cigarros eram m eus, os quais pegava sensualm ente da m inha boca para dar um as baforadas. Já rolara algum as experiências sexuais com hom ens, m as a que lhe dera m aior prazer, m e disse um dia, fora com um a m ulher. Essa revelação m e deixou m eio am eaçado, achando que poderia estar traçando um a com paração. Resolvi não esquentar. Nossa cam a era m uito excitante. Porém , quando ela assum ia um a postura m ais ativa, eu m e sentia m ais inseguro. Não conseguia relaxar. O que só fui aprender m uitos anos m ais tarde.

Alugam os um apartam ento em Niterói. Com ecei a curtir m ais a cidade, onde tudo era tão perto. Ela adorava sair de m oto com igo. Nos fins de sem ana, ficávam os o dia inteiro na praia, com eçando em Itacoatiara, com os am igos. Term inávam os saboreando um a caldeirada no bar da dona Maria, enquanto assistíam os ao pôr do sol em Itaipu.

O Réveillon de 1984 foi no clube Lagoinha, em Santa Teresa. Fom os com um grupo de am igos. Quando deu m eia-noite, dirigim o-nos para a piscina, que ficava no m eio da m ata. Felizm ente a ilum inação não era m uita. Tinha tom ado bastante cervej a e, quando vi o tram polim de três m etros, achei a oportunidade de m e exibir para Lola e os am igos.

Subi as escadas e criei certo clim a para que todos m e olhassem . Concentrei-m e e dei um salto que era um a volta e m eia, caindo de cabeça. Acho até que fui bem , m as quando entrei na água, senti que o m eu pau tinha pulado para fora do calção. Fiquei um tem pão no fundo, fazendo um esforço para tentar enxergar algo. Ao subir à tona, sob os aplausos de todos, procurava aflito, e nada.

Maldita hora em que resolvi saltar! Ele não estava boiando. Desesperado, não sabia o que fazer. A água estava gélida, apesar de j á ser verão. Continuei parado na borda, enquanto Lola m e aguardava sair. Estávam os j untos há pouco tem po, e não m e sentia à vontade de lhe contar o acontecido. Resolvi nadar um pouco para esquentar e dar um tem po, para ver se subia à tona. Nada.

Quando j á ia desistir, vi algo lá na outra borda, boiando com o um peixe m orto. Nadei rapidam ente e, olhando para os lados, coloquei-o novam ente no lugar. Que alívio! Trem ia quando saí da água. Lola quis saber o que tinha acontecido. Inventei um a dor de ouvido, m as tenho certeza de que não acreditou.

 

Desde que m e operei, passei a tom ar testosterona. No princípio, era de 15 em 15 dias, depois o intervalo foi aum entando, segundo a prescrição de Porto. Deixei crescer o cavanhaque e o bigode. Fiquei com um a cara m ais de hom em responsável. O resto da barba continuou falhado. Pelo corpo tam bém fiquei bem m ais peludo, inclusive na barriga e no peito. Os cabelos com eçaram a cair, insinuando um a leve careca m eio estranha. Apareceram as prim eiras rugas.

Lola m e aj udou a desengavetar e publicar m eu livro Erro de Pessoa, usando pseudônim o. Apesar de não fazer noite de autógrafos nem poder aparecer de frente para as câm eras nas várias entrevistas que dei para j ornais e tevês – com o a Paulo Markun, na época na Folha de S.Paulo; a Mary Ventura, do antigo Jornal do Brasil; e a Solange Bastos, da extinta TV Manchete –, a venda foi m uito boa e esgotou a edição. O dinheiro dos direitos autorais foi pouco, m as perm itiu que eu term inasse a casa e a vendesse.

Com ecei a fazer um curso de extensão em Sexologia no Hospital Moncorvo Filho, pois a equipe sabia que eu era psicólogo e não m e exigiu diplom a. Nessas aulas conheci Monira, um a colega de turm a, m édica, m alcasada e com duas filhas pequenas. Ficam os am igos e resolvem os com eçar tam bém a fazer aulas de dança de salão na Estudantina. Era m uito alegre e carinhosa. Já sabia da m inha história pela própria equipe de professores. Chegam os a dorm ir j untos, um a noite apenas, e foi bom conseguir m e desinibir com outra m ulher.

Nessa época tam bém conheci o Herbert Daniel, escritor com vários livros publicados, o prim eiro guerrilheiro gay assum ido, soropositivo e que m e convidou para participar de um grupo form ado som ente por hom ens de diferentes orientações sexuais, para discutir a identidade m asculina. Cada reunião era feita num a casa, e o assunto escolhido variava conform e o interesse do grupo. Lem bro-m e de que quase todos invej avam as m ulheres não apenas pelo fato de poderem gerar filhos quando quisessem , m as tam bém por guardá-los só para si, sem sentir necessidade de com unicar a existência da criança ao pai biológico.

Um gay do grupo era louco para ser pai, porém não queria um a m ulher com quem dividir o filho ou a vida. Outro tem a colocado foi a questão de com o brincar ou continuar acariciando naturalm ente o corpo das filhas depois que elas viravam m oças. Foi tam bém discutido o com plexo do pau pequeno. Até que ponto isso realm ente era im portante para nós ou para as m ulheres?

Infelizm ente, Herbert Daniel m orreu, e o grupo se desfez.

Na época, soube que j á havia uns 600 grupos só de hom ens nos Estados Unidos, discutindo com o seria a identidade desse “novo hom em ” num m undo em que as m ulheres não suportavam m ais o m achism o.

 

Andando por Copacabana, descobrim os casualm ente um a sex shop. Lola m e incentivou a entrar. Acabei com prando um daqueles pênis rígidos com cinto, o m ais parecido possível com o real, em tam anho, cor e textura. Mas não tinha saco.

Chegando à nossa casa, com eçam os um sarro, e, quando j á estava bem excitado, fui direto para o banheiro. Am arrei o cinto e o coloquei dentro da cueca, de um a form a que só o pau aparecesse. Olhei-m e então no espelho. Pela prim eira vez via m eu corpo com o um obj eto de desej o. Fiquei louco de tesão, sonhando que agora quase todos os m eus problem as estariam resolvidos. Finalm ente, tinha um a alternativa além da m ão. Voltei ao quarto e, sem nenhum a inibição, pude penetrá-la, podendo ao m esm o tem po abraçá-la. Gozei im ediatam ente, com o num a ej aculação precoce.

Ficou puta, com toda razão.

— Calm a! Parece até um garotinho agoniado. Vai devagar...

Com o tem po, fui aprendendo a usá-lo m elhor. Às vezes, colocava cam isinha, por ser m ais higiênico e esconder o seu artificialism o. Era rosa dem ais para o m eu gosto. Na m inha cabeça, era tam bém um a j ustificativa para ela não engravidar.

Um dia, Lola sugeriu que o usasse na m ão, com o um obj eto m esm o de sacanagem . Não gostei da sugestão e m e recusei. Já o tinha assum ido com o parte do m eu corpo.

Talvez pelo uso eventual de lubrificante, com eçou a despelar. Fiquei desesperado. Lola aos poucos foi tendo dificuldade para transar, dizendo que era duro dem ais, ou reclam ando do tam anho, e que preferia a m ão.

Mesm o assim , fui atrás de outro pênis para substituir o “degradado”. Era m uito exigente nesse tipo de com pra. Achava as cores fortes, o m aterial pouco m aleável, os cintos precários e m alfeitos. Queria um com saco, e a m aioria não tinha. Outros eram ocos, funcionando com o um tipo de cam isinha para hom ens que queriam aum entar o pênis. Outros ainda tinham vibrador, o que os tornava m ais artificiais ainda.

Nossa relação foi seguindo aos trancos e barrancos.

Desconfiava que ela estivesse m eio apaixonada por outro. Nem que fosse o protagonista de um a história do livro de Rubem Fonseca, com o um dia m e confessou. Dois m eses m ais tarde, aconteceu. Virei o grande herói.