Viagem Solitária
Capítulo 3
POR ONDE COMEÇAR?
O homem começa não apenas quando é concebido, mas
quando se determina a ser alguma coisa, quando se realiza após
este impulso para a existência.
Sartre
Com 26 anos de idade, eu tinha de representar vários papéis antagônicos e com habilidade. Não era em absoluto um a patologia de m últipla personalidade, m as som ente no sentido social. Queria m e subm eter logo a um a operação, m as cirurgias desse tipo não eram feitas no Brasil, por serem ilegais. Fiquei sem saber por onde com eçar. Sentia-m e perdido, quando recebi um telefonem a de um a am iga psicóloga, que se especializou em sexologia na Bélgica. Marcam os um encontro. Vislum brei a possibilidade de algum a novidade.
Lilian vivia com um a m ulher por quem se apaixonou. Árdua defensora dos direitos fem ininos, ficou chocada quando lhe falei do m eu interesse.
— Mas isso é um a loucura! Virar hom em ! Deve estar brincando... Nós, m ulheres, precisando tanto de m ais adeptas para aderir à nossa causa, e quer passar logo para o lado deles?
Fiquei boquiaberto com sua reação. Aos poucos, fui com preendendo que a não aceitação do m eu caso tinha raízes m ais profundas.
— Além do m ais, j am ais passará por hom em ! Se m e perm ite ser sincera, acho-a, inclusive, fem inina.
Tentei explicar-lhe com o m e sentia. Era difícil e sofrido viver duas vidas. Falei-lhe da incom patibilidade com m eu corpo e de com o isso m e m artirizava.
— Não, Joana. Está vendo tudo distorcido. A m ulher é tão rechaçada nesta cultura que a tendência é querer ser hom em , m as isso não resolve o cerne da questão.
Não adiantava. Seu enfoque era rígido. Ainda falei da m inha im possibilidade de frequentar alguns am bientes fem ininos, por não m e aceitarem com o m ulher.
— Está fazendo um bicho de sete cabeças! Está certo, você tem um j eito m asculinizado, m as não a ponto de ser confundida com um hom em . Isso é pura fantasia sua!
Lilian estava trem endam ente irritada. Deixava evidente que o assunto não lhe era indiferente, pelo contrário, até bastante am eaçador. Confirm ou o que desconfiava, quando concluiu:
— E sabe de um a coisa... Não vou ter estrutura em ocional para vê-la com o hom em . Se eu fosse você, continuaria m esm o com o hom ossexual porque som os um a classe unida. Lutando j untas, vam os conseguir m uito em breve a nossa em ancipação e reconhecim ento.
Perguntei-lhe então se j á tinha estudado a transexualidade. Adm itiu que tinha ouvido algo sobre o tem a, m as sem se aprofundar. Diante dessa revelação, encerrei a conversa, fazendo-lhe um apelo.
— Lilian, lam ento sua posição. Esperava de um a sexóloga um conhecim ento m aior sobre o assunto. Mas queria lhe pedir um favor: se souber de alguém que eu possa procurar, m e indique, pois sei que você conhece m uita gente que trabalha nessa área.
Em bora chocada com nosso triste encontro, não m e negou aj uda.
— Conheço um endocrinologista que m e parece estar liderando um a equipe que lida com esse assunto. Mas não sei o telefone do Hospital Moncorvo Filho. O nom e dele é Porto. É só o que posso dizer.
Saí chateado. Ela sem pre tinha sido um a pessoa sensível, aberta a com preender os problem as dos outros. Naquele m om ento entendi que, se desse esse passo tão decisivo para m im , não contaria com seu apoio e sua com preensão. Menos um a a m eu favor.
Consultei o catálogo telefônico e disquei o núm ero do hospital. Um a das enferm eiras m e inform ou que no dia seguinte, pela m anhã, o Dr. Porto estaria atendendo.
Às sete em ponto, eu era o prim eiro da fila de espera. Surpreendentem ente, o atendim ento era grátis e sem m uita burocracia. Um m édico apareceu e entrou na sala do Dr. Porto. Deduzi que fosse o próprio e, enquanto aguardava com ansiedade o cham ado, ia fum ando um cigarro atrás do outro.
— O próxim o pode entrar – gritou o m édico.
Sentei-m e na cadeira à sua frente e vi seu nom e bordado no j aleco. Fiquei descontrolado. Com ecei a trem er, enquanto ele m e olhava. Fiz um terrível esforço para coordenar as ideias.
— Bem , doutor... Estive com a Dra. Lilian. Falou-m e a respeito de um a equipe que funciona aqui sob sua direção e que parece estudar a questão da transexualidade. Estou interessado nessas pesquisas.
— A equipe ainda está se form ando, m as j á atendem os algum as pessoas que vieram nos procurar. Só não estou entendendo qual é o seu real obj etivo. Você é paciente ou m édico?
Consertei-m e na cadeira, dei um a fungada e falei firm e.
— Paciente. Gostaria que vocês m e fizessem um a avaliação com pleta.
O endocrinologista m e encarou.
— Aqui cuidam os som ente da parte dos exam es. Fazem os um a série deles, inclusive um a avaliação psiquiátrica, e só depois de nos certificarm os de que se trata de transexualidade, e não de hom ossexualidade ou algum a psicopatia, é que recom endam os a cirurgia.
Em bora conhecesse essa diferenciação, quis ouvir sua opinião a respeito.
— O senhor poderia m e esclarecer m elhor essa distinção?
— Na transexualidade, o indivíduo apresenta um a total inversão psíquica em relação aos seus outros sexos, com o o crom ossom ial e o fisiológico. A m ente não corresponde ao corpo com que a pessoa nasceu. Nesses casos, foi com provado que a psicoterapia é inoperante, e só a cirurgia poderia resolver o conflito. Já na hom ossexualidade, o suj eito, em bora tenha relações com o m esm o sexo, não apresenta inversão psíquica. Não quer deixar de ter o corpo que tem , apesar de, m uitas vezes, apresentar m aneirism os do sexo oposto. Nessa últim a categoria, a cirurgia não é aconselhada, pois haveria o risco de arrependim ento, o que poderia levar o paciente até o suicídio, o m esm o se dando com as psicopatias. Portanto, faz-se necessário que esse estudo preparatório sej a m inucioso, para não haver enganos. Se estiver m esm o interessado, podem os fazer um a ficha sua e dar início aos exam es. Fica a seu critério. Não cobrarem os nada por isso, m as terá de arcar com as despesas de laboratório.
Concordei im ediatam ente. Porém , ao dizer m eu nom e, a velha confusão surgiu.
— Joana? Mas... – deu um sorriso, pensando que se tratasse de um rapaz.
— Isso é bom sinal, pois até você se confundiu – com entei com um sorriso.
Franziu a testa. Preocupado, retrucou:
— Você com o m ulher, a coisa se com plica. São casos m ais raros, e as cirurgias m ais com plexas. Até agora só um nos veio às m ãos, e depois de aprovado o encam inham os aos Estados Unidos. É necessário que saiba que sua reprovação poderá ocorrer em qualquer etapa.
Continuava m e tratando no m asculino, m esm o depois de saber m eu nom e, o que fazia crescer m inha sim patia por ele. Subm eti-m e a um a triagem rápida, ficando de voltar na sem ana seguinte, quando daríam os início ao longo processo.
Estava feliz. Fiquei tão em ocionado que m e despedi com am bas as m ãos, com o se um a só fosse pouco para expressar m inha gratidão. Com eçava a galgar os prim eiros degraus do tão esperado sonho. Agora era ter paciência para esperar e saber o que Am anda iria achar de tudo isso.
Assim que cheguei em casa, contei-lhe a novidade. Perguntei sua opinião.
— O que estiver bom para você, estará para m im . É você quem tem que decidir. Não vou interferir. Ainda m ais num a coisa tão séria assim !
— Fico contente quando diz que sou eu quem deve resolver. Mas gostaria de saber com o realm ente se sente diante de tal perspectiva. Afinal de contas, você é a m ulher que am o e seria m uito doloroso realizar m eu sonho, m as perder você.
Abraçou-m e.
— Seu bobo... Já o vej o com o um hom em ! Sem dúvida, essa operação vai nos aj udar a resolver alguns problem as. Meu único receio é o risco de m orte que você pode correr. Ainda m ais que, pelo visto, não será apenas um a cirurgia. Mas estou do seu lado. Ficarei m uito feliz de ver você realizado.
Nesse dia, j antam os fora para com em orar. Am anda se revelava, a cada dia, a m elhor com panheira que poderia ter. E esse voto de fé foi m antido durante os sete anos em que estivem os j untos.