Viagem Solitária
Capítulo 2
O PRIMEIRO AVENTUREIRO
Todos nós, mais cedo ou mais tarde, somos forçados a tomar
lugar num banquete de consequências.
R. L. Stevenson
Ainda dorm ia quando m e levaram para o quarto. Lentam ente fui recobrando o m eu estado norm al. Tinham sido cinco horas de cirurgia. Um gosto horrível na boca. Sentia náusea. Precisei de seis cobertores para dim inuir a m inha trem edeira. Dorm ia e acordava em pequenos intervalos. À noitinha, ao acordar, senti um a ardência brutal na uretra e um a trem enda vontade de fazer xixi. Violeta avisou que eu estava com um a sonda e só poderia retirá-la se m e dispusesse a usar a nova uretra, m esm o que doesse um pouco. Eram as ordens m édicas. Entretanto, quando a vi com a com adre na m ão, com ecei a dar trabalho.
— Aí não m ij o de j eito nenhum ! Morro intoxicado, faço na cam a, m as isso não uso.
A enferm eira, com toda a paciência, se ofereceu:
— Se acha que aguenta, então vam os até o banheiro. É logo ali, à esquerda.
A cam a nem era daquelas especiais, hospitalares, que levantam o encosto e os pés. Violeta colocou m inhas pernas para fora da cam a e abraçou-m e. Com cuidado, fiquei de pé. Tudo com eçou a girar. Pedi que não m e largasse. Aos poucos, os obj etos foram parando. Agora era só suportar a dor acim a da barriga e, principalm ente, a de baixo. Cam inhei curvo e vagarosam ente, para não forçar os pontos do tórax e do ventre.
Outra epopeia foi sentar na privada. Novam ente, fiquei pelado na frente dela. Quando veio o prim eiro j ato, levei um susto. Não caiu dentro do vaso! A dor era fina, m as o prazer de estar urinando para cim a era o m aior do m undo! As sensações se m isturavam . Porém , quando foi chegando ao fim , a urina escorreu pelo restante da genitália. Contorci-m e todo. Parecia que estava em cham as! Gritei por Violeta. Estava queim ando tudo. Correu para apanhar um vidro de m ercúrio. Com um algodão na m ão, abaixou-se e m e deu um banho do m edicam ento. A ardência foi dim inuindo. Respirei aliviado.
Quando deitei novam ente, Am anda apagou as luzes do quarto e cantou “Parabéns para você”. Estava com pletando 27 anos. Tinha com prado o único bolinho que encontrara, daqueles que acabam em um a dentada. Mas não aguentei com er.
Cada vez que sentia vontade de fazer xixi, o m edo tom ava conta de m im .
Sabia da dor lancinante que iria sentir. Já carregava com igo o “elixir m ilagroso”, com o o tinha apelidado. A dor era tão grande, que lá pela quinta ida ao banheiro j á pouco m e im portava que Violeta olhasse ou não para o m eu sexo. Tudo o que desej ava era poder parar de sentir dor.
Am anda não pregou olho a noite inteira, aj udando-m e a m e virar, pegando água para m olhar m inha boca ressequida, acalm ando-m e para dorm ir ou distraindo-m e quando chegava a hora de tom ar as inj eções cavalares.
Acim a de tudo, havia a sensação de estarm os ilhados. Não podíam os com unicar a ninguém onde estávam os. Am anda sentia-se responsável e preocupada para que nada de errado m e acontecesse. Não conhecíam os ninguém na cidade, e Farina j á tinha ido em bora sem avisar quando voltaria. Sabíam os que no dia seguinte teríam os de sair dali, com o com binado. E se as dores aum entassem ? Vez por outra, sentia no olhar de Am anda um a apreensão que desm entia sua aparente tranquilidade.
Farina apareceu no fim da m anhã. Foi com o se víssem os um porto para o nosso barco à deriva.
— Com o está se sentindo hoj e, rapaz? – perguntou brincando.
— Agora bem m elhor, m as urinar ainda dói m uito. Esse negócio é assim m esm o?
— Deixe-m e dar um a olhada – e arregaçou as m angas.
Am anda sabiam ente se afastou.
— Mas com o está isso de m ercúrio! Não bote m ais nada aí! O que você tem é um a cistitezinha, m as logo o antibiótico a debela. Vou deixar com a enferm eira a receita de tudo o que deve seguir tom ando e a alta. Mas nada de grandes esforços, está m e ouvindo? Dei só um a passadinha para ver com o estava. Já estou atrasado para um a cirurgia. Qualquer coisa m e ligue. Fique tranquilo. Daqui a um a sem ana tirarem os os pontos. A cirurgia foi um sucesso!
Troquei a roupa, e com a receita veio a conta. Com o Farina havia explicado, foram com preensivos e cobraram o m ínim o indispensável. Senti-m e com as forças redobradas para poder tom ar um táxi e conseguir chegar à pensão.
À tarde, Am anda fez um a ligação a cobrar para a casa de Mariana. Deu as boas novas.
Ao com pletar um a sem ana na pensão, voltei ao consultório para tirar os pontos. Estava louco para arrancar as ataduras e ver logo os resultados no m eu tórax.
De luvas e com pinças nas m ãos, Farina com eçou a desenrolar as ataduras. Abaixei a cabeça e colei o queixo no peito. Ele não gostou:
— Fique ereto senão não posso trabalhar!
Supliquei-lhe então:
— Me deixa ver só um pouquinho... Esperei um a vida inteira por esse m om ento, e agora vai m e proibir? É um a sacanagem ...
O cirurgião pediu à aj udante que trouxesse um espelho. Quando m e olhei, escancarei um sorriso.
— Que tal, gostou? Ainda está inchado e com hem atom as, m as daqui a algum tem po, estará novinho em folha! – preveniu ele.
Mal conseguia falar. Fiquei louco de vontade de passar a m ão pelo peito: estava lisinho... lisinho... Era realidade! Todavia, continuei só olhando, até que o m édico m e advertiu:
— Ô, senhor vaidoso, vai m e dar licença para retirar o espelho ou não?
Quando saí dali, estava com curativos, m as sem faixa. A cam isa colada ao peito, com o sem pre havia sonhado!
Minha uretra antiga ainda estava costurada. Farina m e aconselhou a com prim i-la com o dedo sem pre que urinasse, a fim de forçar o uso da nova.
A cistite perdurou por quatro dias consecutivos. Só quando passou a dor foi que pude curtir os efeitos desse recente orifício, que agora se posicionava bem m ais acim a do outro.
Se m e sentasse no vaso e m e inclinasse bem para a frente, poderia urinar sem m olhar o chão. Mas para quê? Maravilha m esm o era levantar a tam pa e m ij ar de pé! Ainda não havia um pênis para eu segurar, e ter de colocar o dedo tam bém m e incom odava, m as j á dava para sentir o gostinho de com o seria futuram ente...
Fiquei tão eufórico com a descoberta, que pela prim eira vez perm iti que Am anda m e visse urinar. Quando a olhei ali ao m eu lado, senti um a inibição tão grande que o m ij o não saía. Pedi-lhe então que fechasse os olhos, abrindo-os só depois que ouvisse o barulhinho. Ao ver o j ato, deu um gritinho de contentam ento.
A partir daí, m ij ar virou divertim ento. Ficava esperando a vontade chegar e, im ediatam ente, cham ava Am anda, que corria para vir assistir.
Ficam os na pensão o tem po suficiente para term inar os curativos, esgotar o prazo de folga do trabalho de Am anda e aguentar sem problem as as seis horas de volta, dessa vez em ônibus leito. Virei um cordeirinho de tão m anso. Segui à risca todas as recom endações m édicas. Contrariam ente às reações que tivera nas duas últim as plásticas de m am a, dessa vez exagerei nos cuidados. Fiquei em repouso absoluto. Só saí de casa depois de com pletado um m ês de cirurgia, quando fui ligar para o Dr. Porto.
O andrologista ficou surpreso ao saber que não só tinha obtido o laudo com o tam bém m e operado. A decisão e a viagem para São Paulo foram tão corridas que eu nem tinha falado com ele antes.
— Você é um danado! Já vi que, quando quer um a coisa, consegue m esm o! Mas m e diga, com o correu tudo?
— Às m il m aravilhas! Estou m e sentindo, literalm ente, um novo hom em !
Porto caiu num a gargalhada gostosa.
— Precisam os ver isso de perto. Quando aparece? Está na hora de darm os início à horm onioterapia.
— Ótim o, m as ainda preciso repousar. Vam os m arcar para a sem ana que vem . Estou doido para sentir esses efeitos horm onais tão esperados!
— Com você não é preciso m arcar nada. Apareça qualquer dia na parte da tarde, que o atenderei.
— Vê lá se não vai m e deixar esperando a tarde toda, com o das outras vezes. Não estou em condições de gangrenar a bunda agora – alertei-o em tom de brincadeira.
— Pode deixar. Darei um j eito para que isso não aconteça.
Norm alm ente, a horm onioterapia é m inistrada na fase pré-operatória. Sua finalidade principal é aj ustar o transexual à nova identidade social, antes m esm o da cirurgia. Entretanto, no m eu caso, em bora a vontade fosse grande, tive receio de que pudesse m e atrapalhar no trabalho. Além do m ais, j á estava adaptado ao papel do sexo oposto. Ficaria difícil explicar o aparecim ento de caracteres sexuais secundários, com o barba e engrossam ento da voz. Em bora tivesse precisam ente três fios de cabelo no queixo e um na altura do m axilar, tratados com m uito carinho, os efeitos da testosterona apenas produziram resultados após quatro m eses, em um processo extrem am ente lento.
Porto confessou que seu conhecim ento sobre o assunto era puram ente teórico. Na prática, nenhum caso com o o m eu tinha sido ainda estudado seriam ente.
— Sabem os das consequências em tese, m as exatam ente o que poderá advir dessa inversão, sinceram ente, não sei. Por isso, terem os m uita precaução com o m etabolism o. Farem os exam es periódicos de dosagem e controle horm onal. Sobretudo, estarem os atentos ao seu fígado, pois há perigo de lesões ou outras com plicações, caso sej am ingeridas doses excessivas.
Mais um a vez m e arriscaria, subm etendo-m e com o cobaia.
A sensação de ser o prim eiro aventureiro nessa escalada científica m e atem orizava, e não m e atraía em nada a ideia de m orrer com o herói.
De qualquer m aneira, o passo estava dado. O j eito era ir em frente. Apesar de todas as adversidades, o futuro era m ais prom issor do que catastrófico.
A m otocicleta ficou parada na garagem por m ais de dois m eses. De início, eu só saía acom panhado de Am anda na garupa, porque era ela quem dava o quique da partida, j á que não tinha partida elétrica. Receava que o esforço pudesse arrebentar algum a coisa lá em baixo.
Mas todo o m eu cuidado não foi suficiente, e apareceram as fístulas. Com ecei a urinar por três lugares ao m esm o tem po, sendo obrigado a m e sentar novam ente no vaso quando ia ao banheiro. Soube que era um risco com um , por causa do efeito corrosivo da urina, m as não m e prej udicaria a saúde.
Estava apenas com eçando o longo cam inho que ainda teria pela frente.