Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 24 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 5

O COMEÇO DA GUERRA

 

Uma caminhada de mil léguas começa com o primeiro

passo.

Provérbio chinês

 

Com eçaram os exam es. Sem analm ente com parecia ao hospital. Os horm onais foram realizados num laboratório à parte e, m esm o obtendo um desconto de 50%, custaram m uito caro. Até então, os resultados não apresentavam qualquer anom alia: o crom ossom ial deu XX e a crom atina foi positiva, portanto norm ais. Quanto à análise horm onal, ocorreu o j á esperado pela equipe: um a taxa elevada de testosterona no sangue, pois m eu psiquism o estava interferindo diretam ente no sistem a endócrino. No exam e clínico, foi constatada um a genitália sem alteração, porém com certo hirsutism o e um a tonicidade m asculina acentuada.

Nessa fase prelim inar, fui classificado, de acordo com a antiga escala do Relatório Kinsey, com o apresentando até então um a hom ossexualidade de últim o grau.

O fato de j á ter trabalhado e viver em grande parte com identidade social m asculina atendia a um a im portante exigência da equipe, que hoj e se intitula “teste da vida real”, questionado por alguns teóricos, pois exige que o trans se defina com o hom em ou m ulher e nunca possa ficar no m eio, inventando outras categorias disponíveis.

Deveria ainda m e subm eter à avaliação de um psicólogo, à psicoterapia com um psiquiatra e posteriorm ente à conversa com um a assistente social, Martha Rique Reis, que foi a m elhor da equipe. Sua generosidade era tam anha que, com o tem po, tornam o-nos grandes am igos. Ela tam bém trabalhava com crianças portadoras do vírus da Aids (ganhou um prêm io pelo proj eto que criou). O psicólogo da equipe acabava de se afastar. Não o conheci. O psiquiatra era um rapaz j ovem , que se m ostrou m uito interessado no m eu caso e m e atendeu gratuitam ente. Já tinha ouvido falar dele desde a época da faculdade. Era bem conceituado no m eio profissional. A psicoterapia deveria durar cerca de um ano, podendo esse prazo ser dim inuído ou estendido, conform e as necessidades do psicodiagnóstico.

Meu horário de sessão não era fixo. Variava conform e a disponibilidade do m édico. Algum as sem anas, ia de m anhã, outras à tarde, o que m e obrigava frequentem ente a m atar m inhas próprias aulas. Várias vezes não pude ser atendido. Ia em bora sem nem ao m enos m e darem um a satisfação. Essa displicência m e aborrecia, m as, com o esse laudo era o item m ais im portante de todo o processo pré-cirúrgico, e sem ele nada poderia ser feito, continuei resignadam ente. Falava tudo de que m e lem brava e respondia a todas as perguntas, tentando fornecer o m áxim o de m aterial para um a eficaz e rápida conclusão. Esforçava-m e em não om itir nada e contava detalhes m uito íntim os, nunca revelados a ninguém . Eventualm ente, havia discordância sobre certas abordagens e interpretações, m as, a m eu ver, tudo resultava m uito produtivo.

O m édico que m e atendia estava preparando um a tese de m estrado. O tem a versava sobre a transexualidade fem inina, hoj e cham ada MtF, ou sej a, Male to Female. Mostrava-se m uito interessado em conhecer m elhor a m asculina, FtM – Female to Male. Chegou m esm o a m e perguntar se eu preferia ser tratado no m asculino ou no fem inino durante o tratam ento.

Quando nos conhecem os, com o j á havia acontecido com o Dr. Porto, fui confundido com um rapaz. Só que ele dem orou m ais para se convencer de que eu não estava representando.

Durante o tem po da avaliação, recrim inei-o com o profissional por duas vezes. Um a, quando viaj ou durante um m ês, sem m e avisar. Soube apenas quando cheguei à portaria do hospital, e a recepcionista m e inform ou de sua ausência. E não era um a viagem im prevista. A outra foi durante um de nossos papos, quando ele expôs obj etivam ente sua opinião, atitude, a m eu ver, pouco ética: “Se eu estivesse no seu lugar, não m e operaria agora. As cirurgias são precárias, e você ficaria frustrado com os resultados. No m om ento, sou contra. Eu esperaria um pouco m ais”.

Depois dessa m anifesta opinião, fiquei receoso e desconfiado. De início, ele m e tratava com o um colega, m ostrando-se form al e incôm odo. Foi preciso que lhe dissesse: “Aqui sou seu paciente, esqueça que m e form ei em Psicologia”. Até o fim , percebi sua dificuldade em m e encarar e sua prolixidade quando era forçado a falar.

Achei que chegara a hora de revelar a m eus fam iliares o que estava acontecendo. Convidei Mariana e Garcia para um j antar em nossa casa. Pedi que viessem sem as crianças. Com ecei descrevendo a angustiada vida dupla que levava. Abordei o fato de nunca ter m e sentido m ulher e da confusão de m e verem com o hom ossexual. Falei-lhes da transexualidade, da m inha alegria ao descobrir essa equipe e que estava m e subm etendo a todos esses exam es.

Refeitos do im pacto, m eu cunhado foi o prim eiro a se m anifestar. Num tom brincalhão, quebrando a seriedade do contexto, exclam ou:

— Você é um felizardo! Vai ser o prim eiro hom em a escolher o tam anho do seu pau!

Caím os na gargalhada, e, a partir desse instante, tudo ficou m ais fácil de ser dito. Quiseram saber todos os detalhes do tratam ento, das cirurgias, onde e com o eram feitas e do seu aspecto legal.

Preocuparam -se tanto com o problem a que m e pediram licença para conversar com o Dr. Porto a respeito do m eu caso. Achei construtiva a atitude, porque m ostraria a m eu m édico que pelo m enos parte dos m eus parentes estava interessada. O encontro foi m ais im portante para o casal do que para o endocrinologista. Isso era do que precisavam para se certificarem de que estava na m ão de profissionais sérios e com petentes.

Ao nos reencontrarm os, foram contundentes:

— Estam os aqui para lhe dar o nosso apoio. Ainda não sabem os em que vai dar tudo isso, nem podem os j ulgar o que é m elhor para você. Mas sentim os que está agindo honestam ente consigo m esm o, o que é o m ais im portante.

Garcia acrescentou:

— Confesso que ficava constrangido com as crianças. Outro dia, a caçula m e perguntou: “Papai, tia Joana é hom em ou m ulher?”. Quando lhe falei que era m ulher, ela ficou confusa. Disse que você não usava saia e não tinha unha nem cabelo com prido. Fiquei desconcertado. Tentei explicar que nem todas as m ulheres são assim , m as, para a sua cabecinha, sei que foi difícil.

Mariana acrescentou:

— E cada vez fica m ais com plicado. Não é só porque os m eninos estão crescendo. Outro dia, o porteiro lá do prédio veio m e perguntar se aquela m oto, que estacionava de vez em quando na garagem , era do m eu irm ão. Fiquei sem saber o que responder. Não tive coragem de confirm ar. Mesm o a m inha em pregada – que, por sinal, levou um a bronca – referiu-se a você com o “João” e esboçou um risinho debochado. Evidente que todos esses fatos nos incom odam . Além disso, m uitas vezes sou obrigada a não a convidar para certas reuniões lá em casa, porque seria difícil explicar a situação a m eus am igos convencionais.

Tinham acabado de tocar num ponto pungente. Senti-m e ao m esm o tem po contente por terem podido m e dizer tudo aquilo, m as fiquei deprim ido ao ver que a m inha presença lhes causava problem as.

— Lem bra-se do seu aniversário, Mariana, quando eu disse que não podia ir à sua casa por estar de viagem m arcada? Era m entira. Até j á tinha com prado o seu presente! Mas pensei m elhor, achei que haveria m uita gente e acabaria m e tornando um constrangim ento na sua festa. Então, inventei um a desculpa qualquer. Sei que incom odo a todos. Agora, talvez entendam o que ocorreu naquele camping na praia, quando fom os com os pais do Garcia. De m anhã, ao ir ao banheiro lavar o rosto e fazer xixi, tentei entrar no banheiro fem inino. Quando cruzei a porta, um a m oça se assustou e gritou, apontando o dos hom ens. Então, olhei para os lados, abaixei a cabeça e, no auge do tem or de que alguém m e visse, entrei no toalete m asculino. Escovava os dentes quando seu sogro apareceu! Fiquei tão aparvalhado que fingi ter entrado no banheiro errado. Felizm ente não havia m ais ninguém para assistir ao vexam e. Quando vocês souberam , Mariana am eaçou não m e convidar m ais para acam par.

Mariana não deu um a palavra. Garcia se levantou. Foi pegar um copo de água. Estavam visivelm ente abalados com o m eu relato.

Perguntei então sobre m eus pais e Leila:

— Eu até escrevi para eles inform ando sobre os últim os acontecim entos, m as até agora nada de resposta.

Mariana m e contou que recebeu um a carta de m am ãe. Mencionava o fato de estarem todos m uito chocados com as novidades, não especificando quais. Pretendia responder à m inha carta tão logo se refizesse.

No dia seguinte, o carteiro m e presenteou com um a, m as não era de Brasília, e sim da França. Van, m ais um a vez, m anifestava seu apoio. Achava tudo incrível, dizia nunca ter ouvido falar nesse tipo de cirurgia, m as que se colocava à m inha disposição para obter inform ações do que se fazia na Europa nos centros especializados.