Viagem Solitária

João W. Nery · Capítulo 56 de 58

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Viagem Solitária

Capítulo 17

REENCONTRO DE COBAIAS

 

Pessoa “trans” é aquela que está em permanente “trans-

formação”, disposta a “trans-por” todos os obstáculos. É aquela

pessoa que “trans-gride” regras e padrões de conduta, “trans-

mitindo” à sociedade, de forma absolutamente “trans-parente”,

novas ou inexploradas possibilidades de realização. Pessoa

“trans” é aquela que “trans-cende” a si mesma, tentando

expressar ao mundo a pessoa que ela realmente é, em vez da

pessoa que o mundo acha que ela deveria ser.

Letícia Lanz

 

O dia estava lindo, o m ar, verde. No horizonte víam os a paisagem m aravilhosa do Rio. Escolhem os um a das m ais belas praias do litoral ao norte de Niterói, onde estaríam os à vontade. Meus am igos, todos de outros estados, estavam encantados com a vista e o encontro, que não ocorria há quase 30 anos.

Nós quatro carecas, m ais gordos e barbados. A calvície e a barba eram pelo horm ônio. A gordura, por vários m otivos, inclusive a idade.

O dono do quiosque onde nos sentam os e pedim os cervej a e Coca deve ter ficado com a pulga atrás da orelha com aquele grupo de am igos, todos com cicatrizes no peito e na barriga. Acho que parecíam os veteranos de algum a guerra, o que de certa form a éram os de verdade.

Graças a Davi, com quem sem pre m e com unicava, consegui contatar os outros. Apesar de não term os intim idade, a cum plicidade que im ediatam ente se estabeleceu entre nós nos fazia sentir com o se tivéssem os convivido durante todo esse tem po, ou com o irm ãos que m oram longe uns dos outros.

Sem cerim ônia, cada um percorria com o olhar atento cada detalhe dos outros. Disparado, a m inha cicatriz no peito era a m ais feia. Justifiquei:

— Foram três cirurgias, o m édico era m eu parente e não quis tirar tudo nas duas prim eiras. Revoltado, fiz até ginástica durante o pós-operatório! Foi o Farina quem finalm ente resolveu.

O m elhor resultado era o do Davi, agora um cinquentão natureba, trabalhando com o adm inistrador.

— Pois a m inha m astectom ia ficou ótim a, foi um cirurgião plástico quem fez, em 1982, de graça – conta Am adeus, um advogado evangélico que precisou se tornar corretor ao perder a antiga identidade. — Ele aj udou um m onte de gente na clínica dele. Mas eu precisei reoperar há alguns anos, porque deu fibrom a nos pontos internos, e o m astologista não caprichou na sutura – Am adeus está agora com 58 anos, fazendo bodas de prata no casam ento e com um casal de filhos adotados, j á na faculdade.

— Essa eu ganhei! – brincou am argam ente Darcy, advogado que continuou exercendo a profissão graças ao nom e am bíguo. — Olha só com o ficou, não gosto nem de lem brar o que passei, m as está m elhor do que era – consolou-se, olhando para os próprios m am ilos, grandes e tortos. Darcy era o m ais j ovem do grupo, agora com 49 anos. Já tinha sido casado, adotou um filho e agora só queria nam orar.

Dos quatro, só ele levara as cirurgias até o fim , com a neofaloplastia. Seu abdôm en era coberto de cicatrizes, pois dali tiraram o enxerto para fazer o pênis. Ele não chegou a dizer que se arrependera por não ter esperado por um a técnica m ais aprim orada, m as confessou que o resultado ficou m uito precário. Pela prim eira vez, ouvi um depoim ento com o o dele:

— Abriram várias fístulas, um verdadeiro chuveirinho, pelo m enos no início. Vivia enrolando m eu pênis com gaze. E ele acabou ficando m uito grande, a prótese que o deixava sem iereto ainda por cim a m achucava no contato com a roupa. Resolvi tirá-la. Passou um tem po, e, com o não ficava duro o suficiente para com er m ulher algum a, coloquei um a m enor – e, com um sorriso irônico, revelou: — O pior é que não fiz a cirurgia dos testículos. Sem sacanagem , eu, pelado, pareço capado.

Para cortar o clim a m elancólico, convidei todo m undo para um m ergulho. Todos saíram da água aj eitando o peru para um a posição m ais natural e confortável.

O peixinho frito que pedim os chegou, bem apropriado para a sexta-feira da Sem ana Santa. Só Davi não com eu por ser vegetariano.

— Cara, isso aqui é o paraíso! – exclam ou Darcy. — Vivo correndo do escritório para o Fórum , acom panhando processos. E tudo tem de ser de terno.

— E eu m ostrando casas e apartam entos. Sem pre com pressa para não atrasar os clientes – com pletou Am adeus.

A fabricação do pênis flácido variava para cada um . Referíam o-nos ao usado socialm ente, dentro da roupa. Am adeus foi contando que o dele era um a “engenhoca” feita de m eias e que usava um parecido, forrado de plástico, para piscina e praia. Mas não gostava m uito. Tinha de estar atento e sem pre arrum ando. Davi há m uito usava um feito de cam isinha com algodão dentro, com um saco de espum a.

— E você, João, com o faz para se resolver? – quis saber Darcy.

— O prim eiro pênis fiz com um cassetete de guarda, que na época da ditadura cham avam de “am or de m ãe”.

Todos riram . Nada com o a capacidade de rir de si m esm o! Continuei:

— Era duro que nem pau. Serrei do tam anho que queria, fiz um furo num a das pontas com um a furadeira e enfiei um a corda de varal para aguentar o peso. Não tinha j eito. Vivia sem pre arriado. O saco era de espum a. Um negócio! Com o era preto, pintei-o com um a tinta esm alte. O m áxim o que consegui foi deixá-lo averm elhado. Depois de m uitos anos, descobri um a única loj a em Copacabana, acho que num 20o andar, com a vitrine pintada de preto e um aviso de proibida a entrada de m enores. Quase alucinei quando pude com prar um pênis de silicone duro, que tinha cabeça e era pelo m enos rosa, m as não tinha saco.

Algum tem po depois, ainda sem internet, cheguei a encom endar um a um a tia que ia viaj ar para a França, e com quem eu tinha intim idade. Foi a m aior prova de am or que ela m e deu. Disse que, quando entrou no sex shop em Pigalle, ficou sem saber o que fazer. Um hom em se aproxim ou, e ela, num francês horrível, tentou explicar as instruções que eu dera. Tinha de ser o m ais natural possível, na cor, no tam anho e com saco! Depois, na alfândega, foi escolhida aleatoriam ente para abrir a m ala e viram a caixa. Mandaram abrir. Absolutam ente constrangida, aquela senhora de 68 anos disse que era para uso próprio.

Eu cuidava dele com o se fosse um a criança. Já tinha aprendido que não podia passar óleo e o lavava com sabão neutro. Enxugava-o bem e o guardava num a caixa no arm ário do banheiro. O local facilitava a colocação quando chegasse a hora H.

Dali em diante, experim entei vários, um oco com algodão, outro com vibrador. Esse descartei logo na prim eira transada. Além da com plicação antinatural para ligar, ainda tinha de aguentar aquele besouro nos ouvidos, que atrapalhava com pletam ente a m inha fantasia. E sem ela, vocês sabem , fica tudo m ais difícil.

Eu com entaria m ais tarde com o resolvi o problem a do pênis im perm eável: usava duas cam isinhas, para ficar m ais resistente, enchidas com aquele gel para endurecer cabelo, com duas bolas de encher tam bém com gel. Existem tam bém um as bolinhas de fisioterapia que, conform e o tam anho, dão um j eito razoável. Que alívio! Passei a fazer hidroginástica sem precisar pendurar depois no varal aquele m undaréu de m eias. A em pregada devia até ficar invocada, m as não dizia nada.

Davi com entou o perigo do m ercado negro de horm ônios, inclusive em academ ias de ginástica:

— Hoj e a m eninada com eça a tom ar testosterona por indicação dos am igos. Alguns oferecem até receita. A desculpa é sem pre a dificuldade do acesso ao m édico, a ansiedade em ganhar pelos e m úsculos. Resultado, se entopem de horm ônio e podem acabar com enfarto, cirrose, câncer ou um AVC (Acidente Vascular Cerebral).

Apesar de agora reconhecida pelo Sistem a Único de Saúde, a cirurgia para m udança de sexo, no nosso caso, ainda precisa de um protocolo com plicado, laudos, prontuários, exam es. Sobretudo, quem quer se operar precisa se subm eter a um diagnóstico com o “doente m ental”.

Só então Davi com entou a grande descoberta que fez pela internet: a m etoidioplastia, um a nova técnica para fazer o pênis a partir do clitóris, j á aum entado pelos horm ônios:

— Nunca tinha ouvido falar, é coisa nova. Mas sem pre achei que seria essa a solução, em vez daqueles tubos horrorosos e de cortar a barriga inteira.

Davi referia-se à técnica de que eu tinha visto fotos e film es no consultório do m eu cunhado, m uitos anos atrás, e que m e horrorizou. Foi o que fizeram no Darcy. E Davi continuou:

— Por que não usar o que j á se tem ? Inclusive com vascularização e enervação próprias. E, se for benfeito, é possível até ter orgasm o, pois o novo pênis teria as sensações do antigo clitóris!

Estávam os todos interessadíssim os.

Com o toda novidade, ainda era um a cirurgia tem erária para cobaias, com o nós.

— Ela consiste basicam ente em soltar os ligam entos internos do clitóris, para que ele ganhe um pouco m ais de tam anho. O m áxim o que se conseguiu até hoj e, com a cirurgia, foi que chegasse a dez centím etros. As etapas seguintes são a colpectom ia, que é a retirada da m ucosa vaginal e seu fecham ento, e a escrotoplastia, para a criação da bolsa escrotal. Os testículos são feitos com im plantes de solução salina de gel sólido.

E, abandonando o tom excessivam ente técnico, vendo os nossos olhos arregalados, Davi acrescentou:

— Para quem desej a m ij ar em pé, um a m icrocirurgia adicional é feita para m udar a posição da uretra. Com o disse João, essa costum a ser a m aior causa de com plicações, com o fístulas e infecções.

Eles sabiam dos problem as que tive no pós-operatório, quando pedi que tirassem a sonda, que doía m uito, e acabei m ij ando por três lugares diferentes.

Resultado: de pé, no banho, o j ato esguicha longe, m as sem pre escorre um pouco pelas pernas. Sentado no vaso, preciso m e inclinar para a frente para não m olhar o chão. Outra consequência é que m eu pau cresceu pouco, porque foi em butido pela neouretra.

— O m eu chega a uns três centím etros, e o seu Am adeus? – perguntou Davi.

— Acho que uns cinco, no m áxim o.

A precondição da cirurgia era a histerectom ia, que todos nós j á tínham os feito.

— Portanto – concluiu Davi, com um sorriso –, estam os aptos! A últim a vez que m e inform ei, o custo girava em torno de 20 a 30 m il dólares, dependendo aí do profissional, do país e afins.

— Meu, é m uita grana para um corretor fodido! – desabafou Am adeus.

Resolvem os dar m ais um m ergulho e voltar para o alm oço, que Sandra havia preparado especialm ente para as visitas.

Depois da feij oada vegetariana, por causa do Davi, todos resolveram tirar a sesta. Davi foi o que m ais dorm iu, pois tinha bebido sem com er nada na praia. Fui o prim eiro a acordar. Estava sentado na varanda, adm irando o Cristo Redentor do outro lado da baía, quando os outros apareceram .

Am adeus logo disse:

— Puxa, estam os m ais do que abençoados aqui!

— E, por falar no filho de Deus, m e conte dos seus, Am adeus – pedi.

— Adotei os dois recém -nascidos, através do Juizado de Menores, com acom panham ento da assistente social por dois anos e guarda provisória até a adoção definitiva. O m ais velho está com 24 anos. A caçula está com 21 – Am adeus sorriu para si m esm o, enternecido. — Eles sabem da condição de filhos não biológicos, que nasceram do coração de duas alm as absolutam ente apaixonadas.

E acrescentou um pouco em baraçado:

— Mas não pretendo contar a m inha história, não tenho esse desej o. Estou orando a Deus para que m e ilum ine sobre o m om ento certo, pois tem o pela felicidade deles. No que depender de m im , buscarei am pará-los de choques em ocionais desnecessários. Am bos m oram conosco.

Depois de um a pequena pausa, perguntou:

— E o seu filho, Darcy, você tam bém o adotou recém -nascido?

— Adotei-o com cinco dias, num a creche indicada por um a am iga. Registrei diretam ente no cartório com o nascido em casa. Está com 18 anos, term inando o segundo grau e quer ser advogado tam bém .

Quiseram saber do m eu filho:

— O m eu foi adotado quando ainda estava na barriga da m inha m ulher. Foi o m aior desafio que j á enfrentei. Quando ele tinha 13 anos, revelei o que os seus j á sabem , que não era o pai biológico. Depois a m ãe contou o resto. Não há m ais m entiras entre nós. Foi um passo im portante para nos falarm os m ais abertam ente sobre tudo. Ficam os m ais íntim os.

E m e dirigindo a Am adeus:

— Mas m e diga um a coisa, Am adeus, com o explicou as cicatrizes para os filhotes? Para o m eu, quando era pequeno, eu disse que foi num acidente de m oto que os espelhos m e cortaram . E você disse o quê?

— Com o tive um problem a de saúde e precisei tom ar um a dose m uito grande de corticoide, engordei m uito, então contei que precisei retirar um pouco de gordura num a plástica. É que a cirurgia inicial, com o j á falei, foi feita pelo m am ilo. Depois é que a cicatriz aum entou, com as fibroses. A da barriga disse que foi um problem a na bexiga, que precisei operar.

— E você, Darcy ?

— Falei que foi num acidente de carro. Com o estava no banco da frente, o vidro m e cortou todo. Ele ainda não sabe da m inha história. Talvez conte um dia. Há uns dez anos m e separei da m ãe dele, m as consegui ficar com a guarda. Ela era m uito hum ilde e não tinha condições de educá-lo com o gostaria. Com o sem pre m orei com m eus pais, tinha sem pre gente para tom ar conta dele.

Darcy perguntou a Am adeus se ele j á tinha passado algum aperto com o filho.

— Foi no clube, fazendo exam e m édico para entrar na piscina. Fizeram um a fila de hom ens e m andaram arriar a sunga. Todos baixaram m enos eu e m eu filho, que m e acom panhou. Cheguei para o m édico e discretam ente disse que era herm afrodita. Para o garoto, contei que não gostava de ficar nu na frente dos outros. Fui liberado com um tapinha nas costas pelo m édico.

— Eu passei aperto parecido – lem brei.

Darcy, antes de continuar as cirurgias, durante um a viagem , estava doido para urinar e parou num posto de gasolina. Era um cubículo fétido, só com um m ictório, sem vaso. Não teve dúvida: urinou no chão, perto do ralo. Quando vão j untos ao banheiro público, Am adeus ensinou o filho a só usar os reservados, com a desculpa da assepsia.

Os “causos” são interrom pidos pela chegada de Davi à varanda, ainda sonolento:

— Não precisam interrom per a conversa! Estava ouvindo lá de dentro.

Levantei a questão de com o eles encaram a velhice, possivelm ente nosso segundo obstáculo corporal à sedução.

Am adeus foi o prim eiro a responder:

— Acho que é m elhor envelhecer do que m orrer m oço. Mas a velhice m e causa um a preocupação, porque não term inei as cirurgias. E, quando a gente envelhece, pode ficar na dependência do cuidado alheio.

E coçando a barba rala do queixo:

— Isso tem m e preocupado m uito, porque vivo hoj e num círculo social dentro da “norm alidade”. As pessoas da m inha relação, com exceção da fam ília, irm ãos, cunhados, e de vocês, ninguém faz ideia de com o fui. Mudei de identidade, de trabalho, de cidade, tudo novo.

Davi estava m ais preocupado com a capacidade de sedução na velhice:

— Já nem penso m ais em seduzir alguém . Não que a m inha libido tenha baixado, m as fico na fantasia, no sexo virtual. Para dizer a verdade, tenho preguiça, pois para conseguir sexo na real é a m aior trabalheira. Tenho de cantar a m ulher, investir, envolver. Depois que acho que está bem no papo, tenho de contar, e nessa hora é o m aior estresse.

Todos entendiam perfeitam ente o desabafo de Davi. Encoraj ado pela plateia tão especial, contou com o a rej eição foi um sentim ento com que precisou conviver durante a vida inteira. Ficava m uito m al quando ocorria, assim preferia evitá-la.

— No sexo virtual, ninguém sabe quem eu sou – continuou. — Não sei nem quero saber quem é a pessoa. Já tive envolvim entos dem ais e não estou a fim de nada m ais sério. Até pela internet j á tive casos tórridos, que, quando term inaram , deixaram aquele gosto ruim e o coração apertado e doendo. Não quero m ais. Hoj e, só fantasia.

Finalm ente, chegou ao ponto de que todos falavam :

— Graças a Deus, não tenho filhos. Meus sobrinhos não sabem da m inha história. Já pensei em contar, m as ainda não sei se vale a pena. Com o passar dos anos, fico im aginando que talvez tenham de cuidar de m im m ais tarde ou participar de determ inadas situações com igo, então seria honesto contar a eles. Mas é bastante difícil tom ar essa decisão. Teria prim eiro de falar com a m inha cunhada, j á que m eu único irm ão m orreu.

Para Darcy, pior que a velhice, é sofrer um acidente e não saber em que enferm aria iriam colocá-lo: se na fem inina ou na m asculina, pois em qualquer um a se sentiria constrangido. Isso se estivesse lúcido para opinar. Vivia em estado de “prontidão” por causa dessa paranoia, apesar de ter um pênis, m as descaracterizado.

Meio sem querer, ele tinha tocado num ponto nevrálgico para todos nós que não tínham os term inado as cirurgias, e por isso corríam os o risco de m ais um a vez experim entarm os na cara as patas da hum ilhação.

Tocou o telefone, e era a m ulher do Am adeus, para m andar um beij inho e saber com o ele estava.

A conversa foi até altas horas. Eu tinha aproveitado o feriadão da Sem ana Santa para convidar a todos para nossa casa. No outro dia, acordam os tarde, m enos Sandra, que de propósito não participava das conversas. A m aioria ali se via apenas pela segunda vez e sabia que era a chance para cada um falar do inconfessável. Dali a dias, todos teriam de voltar para as velhas e solitárias rotinas.

Com o anfitrião, propus um a visita ao MAC, o Museu de Arte Contem porânea, feito pelo Oscar Niem ey er. Um a obra-prim a arquitetônica, parecendo um a nave espacial, rodeada de vidros.

— Perfeito! Que m elhor lugar teria para ETs com o nós! – brincou Darcy.

Era um local para se ficar duplam ente sensibilizado. A exposição de arte e um visual im pressionante. Para aproveitar o passeio, depois da visita ao m useu, sentam os num as pedras perto do m ar, com endo pipoca e recebendo um a brisa gostosa da baía de Guanabara.

Ainda tínham os m uito o que nos falar.

Ali m esm o surgiu o assunto da prótese para transar. Cada um se arranj ou de um j eito. Am adeus com prou um a de silicone oca, que enchia de algodão, depois costurava num a cueca de lycra, com abertura, e botava a cam isinha. Davi só trepava virtualm ente. Darcy usava seu próprio pênis, m as não deixou claro se chegava ao orgasm o. Pelo pouco que explicou, tinha m ais sensibilidade na base do que na ponta.

Quando com ecei a falar, virou “festa”:

— Com a pesquisa para o m eu livro, acabei descobrindo um pau revolucionário!

Gargalhada geral. De propósito, assum i um tom de vendedor fazendo propaganda do seu produto. Continuei:

— Ele é de um silicone m ais m aleável e encontrado em sex shops, m as pode ser com prado pela internet. Você acha de vários tam anhos e pode escolher se ele fica “vertebrado” ou “invertebrado”!

O tom era de brincadeira, m as o assunto seriíssim o. Era possível retirar a “vértebra” de dentro dele para usá-lo no dia a dia, flácido. Ou prendê-lo para baixo com a própria cueca. O único problem a de tirar sem pre a vértebra era o risco de danificá-lo rapidam ente, j á que o m aterial é delicado.

— Com prei um para m im , aqui no Brasil m esm o, e não foi caro. A vantagem é que não precisa se trocar para transar. Só faz um barulhinho m eio chato quando dobra ou estica. Mas com o estou ficando surdo m esm o...

Todos quiseram o endereço eletrônico. De propósito, deixei para o fim a grande novidade que eu tinha descoberto: a prótese flácida, ou soft packs, j á à venda no Brasil. O m aterial cham a-se cyberskin, m ais m oderno que o silicone. Ele adquire a tem peratura do corpo, e a textura é sem elhante à da pele.

Fiz um a pequena pausa para apreciar o efeito de m inhas palavras. Silêncio total. Satisfeito, retom ei:

— Com prei um , o m enor, porque parece que ele estica com o tem po. Tem de várias cores tam bém . Dem orou quase um m ês para chegar. Mas é fantástico! Agora, exige cuidados m aiores, além da lavagem frequente: precisa ser hidratado com hidratante com um ou “em panado” diariam ente com m aisena.

— Isso é um saco. Por que tem de passar m aisena? Não serve talco? – perguntou Davi.

— Me falaram que talco pode dar câncer de cérvix. A m aisena é porque a prótese é m uito porosa, então, se ficar úm ido, contam ina com bactérias e fungos. O m ais im portante é para não virar um a geleia com o tem po.

Dei os detalhes: o tam anho m íni custa cerca de 12 dólares m ais o frete, e achei ideal para o uso diário, porque é confortável e dá um a aparência natural. Só não gostei de o saco ser achatado atrás, reduzindo o volum e. Podem -se com prar dois packs e colar os sacos um no outro. Para evitar que fique dançando, existe um a saqueira especial que o m antém no lugar. Mas podem os inventar a nossa própria ou usar suspensórios escrotais, achados em loj as de produtos esportivos ou farm ácias. Vi no YouTube um cara que usava um elástico am ericano, dava duas voltas e prendia o pênis flácido.

Tam bém j á soube que existem próteses soft pack j á preparadas com tubos internos, o que perm ite urinar de pé. Essa é um a boa, né? E para quem tem grana, ainda existem as feitas à m ão, eretas ou flácidas, por encom enda, presas com adesivos cirúrgicos. Encom enda-se num a loj a nos Estados Unidos ou de um protético australiano. Dizem que beiram a perfeição.

— Dem ais! – exclam ou Am adeus. — Quanta evolução nestes 30 anos, desde o seu “am or de m ãe” até esses benfeitos à m ão...

E encerrou a conversa:

— Vam os logo para casa, que estou doido para ver seus pênis novos e anotar direitinho as dicas.