Viagem Solitária
Capítulo 12
ENTRE HOMENS
Quando perdemos o medo de perder,
acabamos descobrindo a imensa alegria de achar.
Thom as J. Burke
Foi o táxi que m e m ostrou m ais claram ente algo que, enquanto m ulher, j am ais experim entara: o relacionam ento entre dois hom ens. Há um com panheirism o, um a solidariedade, um a espécie de carinho, m esm o quando não são am igos, que nunca senti entre duas m ulheres ou m esm o entre um hom em e um a m ulher. É um a cam aradagem , um a expansividade afetiva intensa e espontânea, sej a para com em orar o nascim ento de um filho, sej a a vitória de um tim e de futebol.
A prim eira vez foi na véspera do Natal. Peguei um tipo que parecia um bicheiro, com três am igos. Eu tinha resolvido trabalhar até a hora do j antar. O m ais velho do grupo, que devia ser o chefe, fez sinal com o braço. Sentou na frente, os outros três atrás, e foi logo m e propondo:
— Quer ser m eu chofer a tarde toda? Olha que vai ser negócio para você. Pago bem e só preciso que m e leve a alguns lugares.
Por serem elem entos com pletam ente estranhos, resolvi arriscar. Afinal, quem está no fogo é para se queim ar. Com o m e testar nesta nova vida, senão vivendo tudo que m e aparecesse?
— Ótim o! Então, para com eçar, vam os tom ar um as biritas para com em orar o nascim ento de Nosso Senhor. E é tudo por m inha conta, pessoal!
De pé, no balcão, entornam os algum as garrafas de cervej a, enquanto o term ôm etro da rua m arcava 39 ºC. Por dentro das m inhas ataduras peitorais, devia estar uns 45 ºC. Suado e j á m eio enj oado, queria sair dali, m as não podia fazer desfeita. Sobretudo, diante de um convite form ulado com tam anha boa vontade. O chefão bateu no m eu om bro e com unicou:
— Enquanto term inam aí o últim o gole, vou aqui ao lado com prar uns negocinhos pras m inhas m ulheres.
Passaram -se uns dez m inutos até retornar com um par de sapatos e dois buquês de flores.
Voltam os ao carro. Sob sua orientação, fom os virando um a esquina atrás da outra, até ordenar:
— Meu filho, dá um a paradinha aqui, que m eus dois am igos vão saltar.
Continuou sentado na frente, o outro atrás. Sentia-m e apreensivo, tem endo que percebessem algo. O uso do cinto de segurança não era obrigatório, m as eu j á o usava. Zoando, perguntou-m e se eu dirigia tão rápido que precisasse ficar am arrado para não sair voando.
Andam os m ais alguns quarteirões, até chegarm os à frente da casa do últim o am igo dele. Mas, quando fui estacionar, o chefão m andou que parasse o carro, para ele descer. Ficou m e controlando para ver se conseguia encostar o carro direitinho, j unto ao m eio-fio, sem roçar o pneu. A bebida tinha m e deixado m eio alegre, m as ainda estava bem longe do porre.
Levantou o polegar num gesto de aprovação e, sorrindo, disse:
— Desligue a chave, e vam os entrar. Quero que conheça a fam ília dele. É um brinco! É um a m eninada danada, e tenho m uito orgulho de ter sido convidado para padrinho do caçula. Vam os lá, rapaz, a casa é sua! – e passou o braço, cingindo m eus om bros.
Com o estava por sua conta, resolvi ir até o fim daquela história, pagando para ver no que ia dar.
As casas da vila em Cintra Vidal, hoj e Pilares, subúrbio do Rio, eram todas iguais. A porta a que nos dirigíam os j á estava aberta. Apareceu um a senhora gorda, de quem não consegui descobrir a idade. Bastante acabada, possivelm ente devido aos quatro m oleques, que não paravam um m inuto à sua volta. Desculpando-se pela bagunça da casa e lim pando as m ãos no avental encardido, foi fazer um a caipirinha bem geladinha.
Fui apresentado com o am igo do com padre, e, hum ildem ente, deu-m e a m ão, dizendo:
— Maria do Rosário Gonçalves, sua criada.
Os m eninos corriam pela sala com as barrigas enorm es de verm es.
Sentam os à m esa. Ela ficou em pé, ao lado do m arido. Com o se m e conhecesse há m uito, dirigiu-m e o olhar e, sorrindo, falou:
— O senhor não pode im aginar com o essas crianças dão trabalho! Não adianta nem botar roupa neles, porque num instantinho ficam tudo parecendo uns porcos saídos da lam a – fez um a pausa e com pletou: — Tom a m ais um copinho. Som os pobres, m as um a branquinha não falta para os am igos.
Perm anecem os lá uns 15 m inutos, até o bicheiro fazer um sinal, indicando que estava na hora de irm os.
Já no táxi, abraçou m eu banco e m e dando um tapinha na perna, exclam ou:
— Gostei de você, garoto! Sabe de um a coisa? Você é o filho que gostaria de ter tido!
Senti um arrepio correr pela espinha, e m eus olhos se encheram de água. Acho que foi a bebida, o calor do sol e das pessoas que m e deixaram tão em ocionado. Pensei im ediatam ente no m eu pai. Com o gostaria de ter ouvido essas palavras da sua boca. Durante anos lutei para ser am ado desse m odo por ele, para que m e entendesse. Por m ais que m e esforçasse, a form a nunca era a certa ou, quem sabe, por defesa, nunca deixava que fosse. E esse suj eito sentado aqui ao m eu lado que m e conhece há poucas horas j á dem onstra um calor que não sentira por parte do m eu pai nesses 23 anos de convivência. Apesar de seu ar m alandro, senti que estava sendo sincero. Lem brei-m e de Jam es Dean, num a cena do film e Vidas Amargas, quando tentou dar um presente de aniversário ao pai e não foi com preendido.
— Você é casado? – perguntou-m e de supetão.
Concentrando-m e novam ente em ter de engrossar a voz, respondi sem pensar.
— Sou.
— Tem filhos?
Para dar um ar de hom em respeitável e sério e garantir m ais a m inha débil figura, espantando para m ais longe qualquer desconfiança, respondi com firm eza:
— Tenho dois – um a com ichão foi prolongando aquela sensação de ser pai. Divaguei sobre o que gostaria que fosse verdade. — É um casal. São lindos! Precisa ver o garoto... Inteligente com o ele só! Já fala papai, e a garota com eçou a andar sem ana passada. Parece m ais com a m ãe, m as o m oleque é a m inha cara!
Parei de repente. Para que continuar aquilo? Não queria m entir para um suj eito que estava sendo tão legal com igo. Já tinha passado a vontade de ver com o era a sensação de dizer isso a alguém que estivesse acreditando e m e valorizando com o sem pre desej ei. Poder ser, por um m om ento, tão igual a todo m undo!
— É, rapaz, sei com o é isso. Mas esse tem po j á passou para m im . Tenho três filhas grandes, e a m ais velha j á é casada. Daqui a pouco, sou avô... Bem , vire aí à esquerda e siga em frente, porque vam os dar um a paradinha rápida na casa do m eu bom bonzinho. Vai ver que chuchuzinho! Só tem 18 aninhos, m as adora o papai aqui. E tem m ais: é só chegar que para o que estiver fazendo para m e atender!
Dito e feito. Encostei o carro. Era um barraco de m adeira nos fundos de um terreno baldio, com lixo na frente. A m ocinha, m anicure, atendia um a freguesa. Ao aparecerm os na porta, sua m ãe gritou:
— Ô, seu Válter! Vam os entrando, que a casa é sua! Vou cham ar a Sueli.
Dispensando a freguesa às pressas, Sueli deu um beij o na boca do seu Válter. E só então m e apresentou:
— Este aqui é o m eu am igo, o chofer de táxi que hoj e tá por m inha conta. É gente boa... Agora vê um uisquinho aí para nós dois e uns negocinhos para salgarm os a boca. Ah, essas flores aqui são para você enfeitar a casa no Natal.
A m oça estava de shorts, com a blusa am arrada na cintura, bem de acordo com o clim a de dezem bro. Retirou-se toda satisfeita, com a bunda rebolando.
Em dois m inutos, eu m e vi com um novo copo de bebida na m ão. Não dava para recusar. Ainda tentei, m as j á ia se ofendendo quando então dei o prim eiro gole. Aleguei que era só para acom panhar, porque iria dirigir m uito ainda e não poderia m e exceder. Antes do prim eiro gole, pedi um copo d’água. Com essa j ustificativa, concordou e aproveitou para brincar com igo:
— É bom m esm o. Pensa que eu não vi? Você deu um a roçadinha no m eio-fio com o pneu – e caiu num a sim pática gargalhada.
Válter irradiava tal m agnetism o ao seu redor que fiquei fascinado pelo dom ínio com que sincronizava todo o gestual e o que falava. Dizia o certo na hora certa, o que as pessoas precisavam e queriam ouvir. Era com o se tivesse descoberto a arte de bem viver. Meus valores, em bora totalm ente distintos dos dele, apenas serviam para ressaltar a diferença entre nossas vidas, expondo-nos a um curioso contraste.
Ficam os m ais algum tem po com Sueli e, em seguida, voltam os para o carro.
— Meu filho, o últim o pulo. Manda brasa, porque agora é a vez da Gigi, a m inha rainha, a m ulata da m inha vida e com alm a de branca. Gente m uito fina, um docinho de coco.
Aquela expressão, “alm a de branca”, não tinha m e caído bem , m as entendi e fiquei calado.
Ainda tentei dizer, m ais um a vez, que não ia dem orar, m as adm ito que, em bora cansado, estava curioso para conhecer o bibelô tão falado do bicheiro. Atravessam os todo o bairro da Vila da Penha e nos em brenham os pelo subúrbio, onde estacionei diante de um prédio de três andares. Subim os um a escada íngrem e, que com eu nosso fôlego.
Tocou a cam painha, e a porta abriu sem dem ora. Era realm ente um a beleza de m ulher! Corpinho perfeito, um a voz suave, m esclada de sedução. Vestida com um robe, decotado e curto, convidou-nos a sentar na sala. Tudo forrado de plástico, desde o estofado dos sofás até os invólucros dos enfeites sobre os m óveis, evitando que a poeira os estragasse.
Válter beij ou o buquê e esticou o braço.
— Flores para a m inha rainha.
Mais um a vez, veio bebida. Tom ei apenas m eio copo de cervej a e, desculpando-m e por querer estar naquele dia festivo tam bém com os m eus, despedi-m e. Válter desceu com igo até o autom óvel. Abriu a carteira e m e presenteou com um a boa quantia.
— Com panheiro, é um a pena ter de ir... Mas entendo. Hoj e é Natal. Ainda nos verem os por aí. Esse m undo é pequeno – bateu-m e no om bro, apertou forte m inha m ão, e nos acenam os, enquanto m e afastava.
Já eram três horas da tarde quando a bexiga com eçou a reclam ar. Procurei urgente um lugar onde pudesse m e aliviar. Entrei num a churrascaria. Era um dom ingo e estava repleta. Catei o banheiro dos hom ens e m e deparei com aquela vala com um , onde todos os m achos m ij am em conj unto. Felizm ente havia reservados, m as estavam ocupados. Fiquei à espera, absorto em qual das portas se abriria, quando um suj eito, segurando o pau em um a das m ãos, virou-se e exclam ou:
— Ô, cara, o que é que há? Tá com vergonha de m ij ar na frente dos outros?
Refazendo-m e do im previsto, gaguej ei:
— Não... Não, é que não é m ij o...
As portas eram m eias-portas e não tinham trancas. Cubículos nauseantes de suj eira. Fiquei pensando com o faria para segurar a porta e ao m esm o tem po as calças, a fim de não m olhá-las no chão repugnante. Além do m ais, não podia sentar naquela tam pa nem ficar à m ercê de que alguém inadvertidam ente em purrasse a porta e m e visse desarm ado, naquela posição. Estiquei o braço o m ais que pude, m as quando segurei a porta não alcancei o vaso. Já estava quase urinando nas cuecas, quando m e lem brei de que, por acaso, tinha ficado com um barbante no bolso. Am arrei-o no trinco e só assim pude m e aliviar com calm a.
Saí da churrascaria e m al rodei duas quadras, um gordo fez sinal. Mas só depois de parar foi que vi a figura insólita, agora sentada ao m eu lado. A cam isa era de um tecido feito seda, com estam paria havaiana. As calças brancas, assim com o os sapatos e as m eias. O cabelo, curto e engom ado. As unhas, envernizadas, e as do dedo m ínim o enorm es. O tipo extravasava vaidade por todos os poros. O bigodinho bem aparado, artisticam ente m oldado em cim a da boca quase sem lábios.
Era daqueles a quem não se precisa aj udar para com eçar qualquer tipo de conversa. O assunto que escolheu não se relacionava nem com ele, nem com os outros, m as com igo.
— O que faz além de trabalhar aqui? Estuda? Nam ora? Com e as m enininhas que encontra? Vam os lá, rapaz, desem bucha que quero saber.
O cinquentão falava entre o brincalhão e o agressivo. Parecia ter bebido um pouco. Senti que teria de m e im por, porque ele j á se m ostrava confiante dem ais. Além de tudo, não iria fazer a m enor cerim ônia para tentar arrancar de m im o que quisesse.
— Curso a faculdade de Psicologia – afirm ei com voz grossa e sério.
Arregalou os olhos, elogiou-m e e resolveu tirar partido da m inha inform ação.
— Muito bem ! Então, j á que é psicólogo, quero que m e analise. Vam os, diga-m e com o sou, em que trabalho, tudo!
O tom agora era antipático, autoritário e, sobretudo, intim ista. Um desafio folgado, querendo m e estrangular. Tentei m anter a calm a.
— Ainda sou um estudante, e psicólogo não é adivinho. Para analisá-lo, seriam necessários tem po e testes específicos. Não é com um a rápida conversa que se pode avaliar a personalidade de alguém .
Entretanto, m inha explicação não teve a m ínim a repercussão. Insistente, falou sarcasticam ente:
— O que é isso, garoto? Tá com m edo? Você é ou não é psicólogo? Vou lhe dar três m inutos para m e analisar. Vam os lá, deixe de frescura e m e diga, em que trabalho?
Sua expressão debochada ia se acentuando. Com o nunca se está livre de, a qualquer m om ento, um a agressão passar a ser física, decidi arriscar sua profissão. Procurei algo que fosse bem geral.
— O senhor trabalha em escritório...
O chute foi na m osca, m as ele quis saber precisam ente qual era o seu cargo na repartição.
Resolvi dar-lhe um a alta posição, pois, m esm o que errasse, na certa iria agradá-lo.
— O senhor deve ser o chefe da seção – afirm ei categoricam ente.
Sorriu com escárnio, confirm ando, porém insatisfeito.
— E com o chefe, garoto, o que é que eu faço? Com o as secretárias, dou a bunda para o diretor? Vam os lá!
Faltavam ainda um as cinco quadras quando m e fez essa pergunta. Tive de enrolar para ganhar tem po.
— Bem , isso é algo difícil de dizer assim , m as creio que o senhor é m uito esperto para ser passado para trás. Acho que deve sem pre conseguir o que quer.
Era evidente que estava gozando com a m inha cara. Um tipo perigoso, que nunca se sabe o que poderá fazer ou dizer. Não tinha condições de lhe dar um a resposta ao alcance de sua pergunta. Fazia-m e de ingênuo e m etia o pé no acelerador o m ais fundo possível. Porém , a quantidade de sinais da Rua Coração de Maria, no Méier, não aj udava.
Nessa altura, o cara j á segurava a m inha coxa. Aproxim ou-se m ais. Ficou claro o que estava pretendendo. Senti-m e enoj ado com aquele toque. Com ecei a tem er que tudo fosse acabar da pior form a e que m e visse obrigado a reagir.
Quando notou que estávam os chegando, m udou o rum o da conversa, tentando aproveitar os últim os m om entos:
— Garoto, você é m uito sim pático e te convido para sair com igo hoj e à noite. Que tal, topa? Não m e diga que vai desprezar um a oferta dessas...
Em bora assustado, não pude deixar de achar côm ica a situação. Mas, na verdade, era eu que o tapeara o tem po todo. Apesar de sua esperteza e sua experiência de vida, tão sagaz em seus contatos e suas m anobras, não tinha percebido nada. Dei-lhe a m inha desculpa oficial para tais ocasiões, m as que soou extrem am ente babaca.
— Am igo, não m e leve a m al, m as sou um hom em casado.
— E daí? Casado m as não capado. Não m e vem com esse papo de casam ento. Você é m uito j ovem para j á ter se am arrado. Além do m ais, m esm o que fosse, o que é que tem ? Não vou tirar pedaço!
Segurei o cartão para ver se com isso saltava, m as sua bunda ainda não desgrudava do banco.
— Escute, garoto, com o é seu nom e?
— João – respondi j á cansado.
— Então, João, fico esperando o seu toque. Vai ser um program a diferente. Tenho certeza de que vai gostar. Vam os, diga que vai telefonar!
Com o tudo dependia daquela resposta, fiz que sim com a cabeça, e finalm ente saltou.
Engrenei rapidam ente a prim eira e arranquei a toda velocidade.
Do alto do viaduto da Mangueira, j oguei fora o cartão que ele deixou em cim a do banco.
Graças ao táxi, m antive um a casa com Mercedes sem a aj uda de ninguém .
Até o dia em que o m otorista que eu havia contratado para dirigi-lo à noite foi m e procurar em casa, depois de bater com o carro. Perguntou ao porteiro pela dona do táxi, com o constava nos docum entos. Depois do vexam e, tive de m e m udar e vender o carro todo am assado.