Viagem Solitária
Capítulo 8
DOLORES
Coragem de ser é uma atitude ética e filosófica na qual o
homem afirma seu próprio ser, a despeito daqueles elementos de
seu meio e de sua existência, que entram em conflito com sua
autoafirmação essencial.
Paul Tillich
Estava cansado deste arm azenam ento de am or cativo, de vontades proibidas. Continuar claudicando, sem poder ser, contando apenas com direitos am ordaçados. O consolo era brincar com o m eu caleidoscópio m ental! Não adiantava m e inventar e reinventar. Os dias prosseguiam sem gozo. Um a dor lancinante, com m inha alm a alheia ao corpo que a vestia. Oprim ida por ser sem pre a som bra de um vulto que ninguém via. Tudo o que passava e que nunca passava. Precisava m e rasgar todo. Abrir-m e com pletam ente. Acabar com este sem nexo. Parar de só m e roçar em tudo superficialm ente. Mergulhar m ais fundo na m inha alm a! Precisava do alívio de poder viver partilhando m eu corpo. Não queria que a esperança m e forçasse a dorm ir continuam ente. Desse desterro habitado por m im , um a pergunta ficava sem pre sem resposta: “E por quem foi que m e trocaram ?”.
Esm olava aceitações. Vivia à som bra de um estigm a de solução ignorada. Assim cam inhava: com um a tristeza de valente alegria. Alheado do que sabia por não saber o que era.
Carregava um infecundo viver de esquivas. A sátira pungente de m e sentir um hom em eunuco, sem a perm issão da deform ação!
Com o m e entregar ao am or com este corpo tão sem consenso, pleno de m utilações?
Já não esperava m ais, quando, finalm ente, pude brindar este anelo tão desej ado.
Dolores tinha a m esm a idade que eu e era da m esm a turm a na faculdade. Transpirava sensibilidade por todos os poros. Um a m ulher bonita, pequena e com o dom do m ovim ento. Traços do rosto um tanto exóticos, seios pequenos e rij os e um a j ovialidade que a tudo contam inava. Enquanto conversávam os, puxava da bolsa qualquer pedaço de papel para rabiscar seus croquis. Ensinou-m e um a nova m aneira de ver a realidade. Não através do evidente sol, m as pelo esboço das som bras que os obj etos proj etavam . Trabalhava no Museu Nacional da Quinta, desenhando a bico de pena, no m icroscópio, hem ípteros, um a classe de insetos.
Nosso relacionam ento se tornou um a densa m istura. Com eçou no dia em que m e deu para ler um calham aço de poem as seus. Fui descobrindo aos poucos o ser m aravilhoso que era. Quando m e dei conta, estava apaixonado.
Aconteceu lindam ente. A ânsia de tocá-la era tão intensa que pela prim eira vez tirava a roupa sem grande dificuldade. Não havia técnicas nem conhecim ento – am bos virgens iniciantes nessa arte. Com o dois anim ais no cio, nos olham os, nos cheiram os, nos tocam os. Sem o requinte que o ritual sexual hum ano exige, explodim os no êxtase do prazer.
Não havia papéis. Mal nos tocávam os e chegávam os ao orgasm o.
Em bora j á estivesse bastante m achucado pela m inha inversão corporal, ainda não sentia a dor terrível que só m ais tarde iria aparecer: a im possibilidade de m e sentir penetrando e ej aculando num a vagina, sem ter pênis, nem esperm a, sem poder fecundar a m ulher que am ava.
À m edida que m ais m e envolvia, surgiu a necessidade de querer m e certificar de com o era visto por ela. O velho problem a de talvez a estar atraindo não com o hom em , m as pelo m eu deform ado corpo de m ulher. De um a form a ou de outra, sondava essa dúvida. Não queria um a m ulher hom ossexual, m as alguém tão hetero a ponto de desej ar som ente hom ens, que fosse capaz de ter a ilusão, até física, de estar diante de um . Essa necessidade foi se tornando cada vez m ais prim ordial e talvez tenha sido a m inha m aior cruz e burrice na vida. Naquela época, ainda não dim ensionava o perigo e a loucura dessa exigência em ocional a que denom inei “coito perceptivo”.
Para não haver dúvidas da parte dela nem depressões m inhas, esclareci-a logo da m inha insensibilidade nos seios, ou m elhor, da sua inexistência. O fato é que, para m eu alívio, nunca dem onstrou m aior interesse.
Certa vez, depois de um orgasm o intenso, m e perguntou ingenuam ente:
— Você gozou?
Que facada! Por uns segundos, não entendi bem o que desej ava saber. Em seguida, constatei a m inha falta de ereção e ej aculação, com o que seria evitada essa m assacrante pergunta. Fiquei sem saber com o reagir. Se respondesse, estaria evidenciando a m inha hum ilhante condição. Se m e calasse, porém , poderia dar m argem a interpretações errôneas.
Paulatinam ente, fui assum indo um papel ativo na relação. Em decorrência, surgiu um entrave com as barreiras sociais. Não podia dem onstrar m inha afetividade na rua nem em casa. Era obrigado a m entir, para sair com Dolores. Mam ãe costum ava dizer, em tom m alicioso, que m e “fixava” em determ inadas am igas. Para acabar com essa farsa, resolvi abrir o j ogo. Arm ei-m e de coragem , cham ei m am ãe ao quarto. Pedi que se sentasse e m e ouvisse, sem m e interrom per.
— Mãe, o que preciso dizer não é algo inteiram ente novo. Você m e conhece bem desde criança. Lem bra que, aos nove anos, m e levou a um a psicóloga porque eu m e sentia um m enino? Pois é, antes disso j á m e via diferente. Durante m inha vida inteira gostei de m eninas. A doutora analisou isso com o um a conduta puram ente im itativa de papai, m as sinto que sou m ais do que um m acaquinho. O fato é que, hoj e, gosto de Dolores...
Dei um a paradinha, m as não tive coragem de encará-la. Antes que pudesse esboçar qualquer reação, continuei:
— Há algum tem po estam os j untos. Se lhe conto tudo isso, é porque não suporto m ais esta situação de hipocrisia aqui em casa. Não faz m eu estilo m entir e continuar a dissim ular um fato que é tão im portante para m im .
Nesse m om ento, m am ãe não aguentou e replicou energicam ente:
— Mas, m inha filha, o que você sente por “esta m ulher” é um a am izade! Am or, a gente sente por hom em !
Percebi que ia ser difícil nos entenderm os, tanto pela referência debochada e im pessoal a Dolores quanto pela sua recusa em ver o óbvio. Contudo, sem perder a calm a, pelo m enos no tom da voz, consertei logo a sua possível ilusão:
— Mãe, j á am ei m uito e tam bém tive m uitas am izades. Sei m uito bem distinguir um a coisa da outra. Posso lhe garantir que o que sinto por Dolores é am or. E tem m ais: pretendo, assim que for possível, ter a m inha casa e m orar com ela.
Antes que m am ãe enfartasse, em bora não fosse um a pessoa propensa às chantagens em ocionais, resolvi esclarecer m eus verdadeiros m otivos.
— Sim plesm ente quero ter a m inha casa. Com o todo m undo, depois que cresce e fica adulto. Não é só quando se casa que se sai da casa dos pais. Não é por revolta ou por não gostar daqui. Desej o apenas ter o m eu canto. Terei, inclusive, prazer em recebê-los lá. Você m esm a não disse que a tendência natural é os filhos crescerem para o m undo? Tenho certeza de que gostaria que soubéssem os dirigir nossas vidas com o pessoas capazes e em ancipadas!
Essas últim as ideias, na verdade, não lhe eram inteiram ente novas, pois Leila, diariam ente, buzinava isso nos ouvidos do pessoal lá de casa, “para irem se acostum ando”. Além do m ais, m am ãe era um a m ulher bastante liberal, criando-nos com independência, o que contribuiu para que nós quatro desenvolvêssem os espírito de liderança e iniciativa.
Para dar um desfecho am eno, com pletei:
— Não quero ter um a relação falsa com você. Sei que sua visão é outra. Foi educada num a época diferente. Não a estou obrigando a m e aceitar. Não tenho esse direito. Desej o som ente partilhar aspectos im portantes da m inha vida. Espero que não tenha se ofendido com o m eu plano de ter o m eu canto. Não esqueça que, assim com o fez o seu, tam bém quero fazer o m eu.
A única frase que conseguiu dizer no fim foi:
— Está bem , m inha filha. Vou pensar.
Fiquei sem saber em que pensaria. Entretanto, pediu-m e um prazo de um a sem ana.
Findo o prazo estipulado, aproxim ei-m e:
— Com o é, m ãe, j á pensou?
Não sei se esperava por essa abordagem , porém sua resposta foi im ediata:
— Resolvi não proibir a entrada de Dolores nesta casa.
Apesar de sua resolução m e parecer óbvia, reconheci que tinha sido sábia. Mas, m esm o assim , protestei:
— Não teria sentido algum proibir Dolores de entrar aqui, pois, se isso acontecesse, eu é que sairia – falei, com o a prim eira coisa que m e veio à cabeça.
Até hoj e, não sei qual teria sido a m inha verdadeira atitude caso ela realm ente proibisse.
O tem po passou. Nunca m ais se com entou nada a esse respeito. Em relação a m eu pai, vim a saber que m am ãe andara conversando com ele. O velho nunca se m anifestou a respeito.
Minha relação com Dolores durou seis m eses. Em bora a am asse m uito, faltava-lhe suavidade, certo encanto fem inino. Não se enfeitava. Sem vaidade, o pior é que isso que exigia dela ela com eçou tam bém a esperar de m im .
Nunca fui adepto da restrição de papéis bem definidos no âm bito sexual. No m eu caso, um a variável interferia decisivam ente. Por falta de definições apriorísticas, dando m argem a m e confundir com um a m ulher, a clareza de papéis passou a ser um recurso indispensável, para m aior integração com igo e com a parceira. Num vínculo hetero, pelas próprias condições sociais e anatôm icas, tudo está definido de saída. Sej a o hom em ativo, sej a o passivo, a sua identidade sexual não é questionada. Tinha de lançar m ão de certos artifícios para fazer com preender com o m e sentia. De qualquer form a, não creio que a sintonia sej a tão perfeita quando, num casal, am bos são passivos ou totalm ente ativos. Na verdade, ninguém é inteiram ente um a coisa nem outra. Existe tam bém a questão da preferência, de com o o suj eito gosta m ais de am ar e ser am ado, independentem ente dos papéis.
Se bem que fui um a pessoa bastante dinâm ica e ativa, acredito que o fato de, na nossa cultura, o hom em ser o elem ento catalisador tenha m e fortalecido ainda m ais nesse sentido. Foi um a m aneira de m e fazer conhecer m elhor pelo outro, j á que o físico não aj udava. Quando era solicitado a m e colocar num a posição “de receber”, sentia-m e am eaçado, com o se confundido com um a fêm ea. Esvaziava-se então a excitação sexual. Daí a necessidade de ter um a m ulher dócil, feita para a entrega.
Dolores saía totalm ente desse parâm etro. Era um a m ulher enérgica, m esm o fora da cam a, quase um a espoleta, provocando um a espécie de com petição, o que foi apressando o térm ino da relação.
Posteriorm ente, quando fortaleci m eu poder de atração m asculina, a atividade da com panheira chegava a m e excitar. Pude então saborear a tranquilidade da passividade. Deleitar-m e com um a m ulher m e acarinhando.
Socialm ente, sentia-m e igualm ente obrigado a desem penhar o papel de cavalheiro: abrir portas, pagar contas, cham ar garçons. Questionava intim am ente o convencionalism o que essas atitudes representavam , m as queria atuar, sim plesm ente, com o todos os dem ais. Poder degustar pelo m enos um m ínim o do que os casais “norm ais” experim entavam . A conduta de Dolores se opunha a isso. Fiquei confuso. Paralelam ente ao fato de querer defender um a posição igualitária para am bos os sexos, sem nenhum despotism o ou fragilidade, precisava tam bém m anipular esses artifícios, para deixar claro o que era.
Não m e entendia e certa vez m ostrou-se chateada:
— Quando se tem certeza de um a coisa, não é preciso ficar provando a toda hora!
O processo de deterioração da relação com Dolores foi sofrido e gradativo. Consum ou-se definitivam ente quando m e disse ao telefone:
— Não! Com você, nem vontade de ir para a cam a tenho m ais!
Fingindo ainda não entender, fiz a pergunta tem ida:
— Mas, afinal, o que pretende?
Não vacilou:
— Foi tudo m uito bom , m as realm ente não dá m ais. Preciso é de um a m ulher! Descobri que é do que gosto e...
O fim da frase não ouvi m ais. Foi um soco no estôm ago. Saber que esse tem po todo tinha sido enganado. E não podia culpá-la. Fui enganado por m im m esm o! Era tragicôm ico!
Botei o fone no gancho e, pela segunda vez, desej ei profundam ente m orrer.