A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Deus

 

de êxtase, quando a alma se acha tão desprendida dos laços da matéria que

torna possível o fato durante a encarnação. tal privilégio, aliás, exclusiva-

mente pertenceria a almas de eleição, encarnadas em missão, que não em

expiação. mas como os espíritos da mais elevada categoria refulgem de

ofuscante brilho, pode dar-se que espíritos menos elevados, encarnados

ou desencarnados, maravilhados com o esplendor de que aqueles se mos-

tram cercados, suponham estar vendo o próprio deus. é como quem vê

um ministro e o toma pelo seu soberano.

37. sob que aparência se apresenta deus aos que se tornaram dig-

nos de vê-lo? será sob uma forma qualquer? sob uma figura humana, ou

como um foco de resplendente luz? A linguagem humana é impotente

para dizê-lo, porque não existe para nós nenhum ponto de comparação

capaz de nos facultar uma ideia de tal coisa. somos quais cegos de nascen-

ça a quem procurassem inutilmente fazer compreendessem o brilho do

sol. A nossa linguagem é limitada pelas nossas necessidades e pelo círculo

das nossas ideias; a dos selvagens não poderia descrever as maravilhas da

civilização; a dos povos mais civilizados é extremamente pobre para des-

crever os esplendores dos céus, a nossa inteligência muito restrita para os

compreender e a nossa vista, por muito fraca, ficaria deslumbrada.

 

61

cApítulo iii

 

M

 

o bem e o mal

 

• origem do bem e do mal • o instinto e a inteligência

• destruição dos seres vivos uns pelos outros

 

Origem do bem e do mal

 

1. sendo deus o princípio de todas as coisas e sendo todo sabedoria,

todo bondade, todo justiça, tudo o que dele procede há de participar dos

seus atributos, porquanto o que é infinitamente sábio, justo e bom nada

pode produzir que seja ininteligente, mau e injusto. o mal que observa-

mos não pode ter nele a sua origem.

2. se o mal estivesse nas atribuições de um ser especial, quer se lhe

chame Arimane,20 quer satanás, ou ele seria igual a deus, e, por conse-

guinte, tão poderoso quanto este, e de toda a eternidade como ele, ou lhe

seria inferior.

no primeiro caso, haveria duas potências rivais, incessantemente em

luta, procurando cada uma desfazer o que fizesse a outra, contrariando-se

mutuamente, hipótese esta inconciliável com a unidade de vistas que se

revela na estrutura do universo.

no segundo caso, sendo inferior a deus, aquele ser lhe estaria su-

bordinado. não podendo existir de toda a eternidade como deus, sem ser

igual a este, teria tido um começo. se fora criado, só o poderia ter sido por

 

20 N.E.: Arimã ou Arimane para os seguidores do zoroastrismo, é o nome do senhor das trevas; seus mé-

todos são vis e enganadores, ele corrompe os homens com desejos que os desviam da vida correta.

Capítulo III

 

deus, que, então, houvera criado o espírito do mal, o que implicaria nega-

ção da bondade infinita. (veja-se: O céu e o inferno, cap. iX: Os demônios.)

3. entretanto, o mal existe e tem uma causa.

os males de toda espécie, físicos ou morais, que afligem a huma-

nidade, formam duas categorias que importa distinguir: a dos males que

o homem pode evitar e a dos que lhe independem da vontade. entre os

últimos, cumpre se incluam os flagelos naturais.

o homem, cujas faculdades são restritas, não pode penetrar, nem

abarcar o conjunto dos desígnios do criador; aprecia as coisas do ponto

de vista da sua personalidade, dos interesses factícios e convencionais que

criou para si mesmo e que não se compreendem na ordem da natureza.

por isso é que, muitas vezes, se lhe afigura mau e injusto aquilo que consi-

deraria justo e admirável, se lhe conhecesse a causa, o objetivo, o resultado

definitivo. pesquisando a razão de ser e a utilidade de cada coisa, verificará

que tudo traz o sinete da sabedoria infinita e se dobrará a essa sabedoria,

mesmo com relação ao que lhe não seja compreensível.

4. o homem recebeu em partilha uma inteligência com cujo auxílio

lhe é possível conjurar, ou, pelo menos, atenuar muito os efeitos de todos

os flagelos naturais. Quanto mais saber ele adquire e mais se adianta em

civilização, tanto menos desastrosos se tornam os flagelos. com uma orga-

nização sábia e previdente, chegará mesmo a lhes neutralizar as consequên-

cias, quando não possam ser inteiramente evitados. Assim, com referência,

até, aos flagelos que têm certa utilidade para a ordem geral da natureza e

para o futuro, mas que, no presente, causam danos, facultou deus ao ho-

mem os meios de lhes paralisar os efeitos.

Assim é que ele saneia as regiões insalubres, imuniza contra os mias-

mas pestíferos, fertiliza terras áridas e se esforça em preservá-las das inun-

dações; constrói habitações mais salubres, mais sólidas para resistirem aos

ventos tão necessários à purificação da atmosfera e se coloca ao abrigo das

intempéries. é assim, finalmente, que, pouco a pouco, a necessidade lhe

fez criar as ciências, por meio das quais melhora as condições de habitabi-

lidade do globo e aumenta o seu próprio bem-estar.

5. tendo o homem que progredir, os males a que se acha exposto

são um estimulante para o exercício da sua inteligência, de todas as suas

faculdades físicas e morais, incitando-o a procurar os meios de evitá-los. se

ele nada houvesse de temer, nenhuma necessidade o induziria a procurar

 

64