A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 33 de 81 · parte 1/2

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Uranografia geral

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 2 partes.

 

do fato de que a vossa natureza animada começa no zoófito para

terminar no homem, de que a atmosfera alimenta a vida terrestre, de

que o elemento líquido a renova incessantemente, de que as vossas es-

tações fazem se sucedam nessa vida os fenômenos que as distinguem,

não concluais que os milhões e milhões de terras que rolam pela ampli-

dão sejam semelhantes à que habitais. longe disso, aquelas diferem, de

acordo com as diversas condições que lhes foram prescritas e de acordo

com o papel que a cada uma coube no cenário do mundo. são pedrarias

variegadas de um imenso mosaico, as diversificadas flores de admirável

parque.

 

121

cApítulo vii

 

M

 

esboço geológico da terra

 

• períodos geológicos • estado primitivo do globo • período primário

• período de transição • período secundário • período terciário • período

diluviano • período pós-diluviano ou atual. nascimento do homem

 

Períodos geológicos

 

1. A terra conserva em si os traços evidentes da sua formação.

Acompanham-se-lhe as fases com precisão matemática, nos diferentes

terrenos que lhe constituem o arcabouço. o conjunto desses estudos

forma a ciência chamada Geologia, ciência nascida neste século (XiX) e

que projetou luz sobre a tão controvertida questão da origem do globo

terreno e da dos seres vivos que o habitam. neste ponto, não há simples

hipótese; há o resultado rigoroso da observação dos fatos e, diante dos

fatos, nenhuma dúvida se justifica. A história da formação da terra está

escrita nas camadas geológicas, de maneira bem mais certa do que nos

livros preconcebidos, porque é a própria natureza que fala, que se põe a

nu, e não a imaginação dos homens a criar sistemas. desde que se notem

traços de fogo, pode dizer-se com certeza que houve fogo ali; onde se

vejam os da água, pode dizer-se que a água ali esteve; desde que se obser-

vem os de animais, pode dizer-se que viveram aí animais.

A geologia é, pois, uma ciência toda de observação; só tira dedu-

ções do que vê; sobre os pontos duvidosos, nada afirma; não emite opi-

niões discutíveis, por esperar de observações mais completas a solução

procurada. Sem as descobertas da Geologia, como sem as da Astronomia,

Capítulo VII

 

a Gênese do mundo ainda estaria nas trevas da lenda. graças a elas, o

homem conhece hoje a história da sua habitação, tendo desmoronado,

para não mais tornar a erguer-se, a estrutura de fábulas que lhe rodea-

vam o berço.

2. em todos os terrenos onde existam valas, escavações naturais ou

praticadas pelo homem, nota-se o a que se chama estratificações, isto é,

camadas superpostas. os que apresentam essa disposição se designam pelo

nome de terrenos estratificados. essas camadas, de espessura que varia des-

de alguns centímetros até 100 metros e mais, se distinguem entre si pela

cor e pela natureza das substâncias de que se compõem. os trabalhos de

arte, a perfuração de poços, a exploração de pedreiras e, sobretudo, de

minas facultaram observá-las até grande profundidade.

3. são em geral homogêneas as camadas, isto é, cada uma constituída

da mesma substância, ou de substâncias diversas, mas que existiram juntas

e formaram um todo compacto. A linha de separação que as isola umas

das outras é sempre nitidamente sulcada, como nas fiadas de uma cons-

trução. em nenhuma parte se apresentam misturadas e sumidas umas nas

outras, nos pontos de seus respectivos limites, como se dá, por exemplo,

com as cores do prisma e do arco-íris.

por esses caracteres, reconhece-se que elas se formaram sucessiva-

mente, depositando-se uma sobre outra, em condições e por causas di-

ferentes. As mais profundas são, naturalmente, as que se formaram em

primeiro lugar, tendo-se formado posteriormente as mais superficiais. A

última de todas, a que se acha na superfície, é a camada da terra vegetal,

que deve suas propriedades aos detritos de matérias orgânicas provenien-

tes das plantas e dos animais.

4. As camadas inferiores, colocadas abaixo da camada vegetal, rece-

beram em geologia o nome de rochas, palavra que, nessa acepção, nem

sempre implica a ideia de uma substância pedrosa, significando antes um

leito ou banco feito de uma substância mineral qualquer. umas são for-

madas de areia, de argila ou de terra argilosa, de marna, de seixos rolados;

outras o são de pedras propriamente ditas, mais ou menos duras, tais

como os grés, os mármores, o cré, os calcários ou pedras calcárias, as pe-

dras molares, ou carvões de pedra, os asfaltos etc. diz-se que uma rocha

é mais ou menos possante conforme é mais ou menos considerável a sua

espessura.

 

124

Esboço geológico da Terra

 

mediante o exame da natureza dessas rochas ou camadas, reconhe-

ce-se, por sinais certos, que umas provêm de matérias fundidas e, às vezes,

vitrificadas sob a ação do fogo; outras, de substâncias terrosas depostas pe-

las águas; algumas de tais substâncias se conservaram desagregadas, como

as areias; outras, a princípio em estado pastoso, sob a ação de certos agen-

tes químicos ou por outras causas, endureceram e adquiriram, com o tem-

po, a consistência da pedra. os bancos de pedras superpostas denunciam

depósitos sucessivos. o fogo e a água participaram, pois, da formação dos

materiais que compõem o arcabouço sólido do globo terráqueo.

5. A posição normal das camadas terrosas ou pedregosas, prove-

nientes de depósitos aquosos, é a horizontal. Ao vermos essas planícies

imensas, que por vezes se estendem a perder de vista, de perfeita hori-

zontalidade, lisas como se as tivessem nivelado com um rolo compres-

sor, ou esses vales profundos, tão planos como a superfície de um lago,

podemos estar certos de que, em época mais ou menos afastada, tais lu-

gares estiveram por longo tempo cobertos de águas tranquilas que, ao se

retirarem, deixaram em seco as terras que elas depositaram enquanto ali

permaneceram. retiradas as águas, essas terras se cobriram de vegetação.

se, em vez de terras gordas,50 limosas, argilosas, ou marnosas,51 próprias

a assimilar os princípios nutritivos, as águas apenas depositaram areias

silicosas, sem agregação, temos as planícies arenosas que constituem as

charnecas e os desertos, dos quais nos podem dar pequena ideia os de-

pósitos que ficam das inundações parciais e os que formam as aluviões

na embocadura dos rios.

6. conquanto a horizontal seja a posição mais generalizada e a que

normalmente assumem as formações aquosas, não é raro verem-se, nos

países montanhosos e em extensões bem grandes, rochas duras, cuja na-

tureza indica que foram formadas em posição inclinada e, até por ve-

zes, vertical. ora, como, segundo as leis de equilíbrio dos líquidos e da

gravidade, os depósitos aquosos somente em planos horizontais podem

formar-se, pois os que se formam sobre planos inclinados são arrastados

pelas correntes e pelo próprio peso para as baixadas, evidente se torna

que tais depósitos foram levantados por uma força qualquer, depois de se

terem solidificado ou transformado em pedras.

 

50 N.E.: Terra que é úmida, coesa, forte.

51 N.E.: Solos de calcário e argila, usados em olarias e como corretivo de terras agrícolas.

 

125

Capítulo VII

 

destas considerações se pode concluir, com certeza, que todas as

camadas pedrosas que, provindo de depósitos aquosos, se encontram em

posição perfeitamente horizontal, foram formadas, durante séculos, por

águas tranquilas e que, todas as vezes que se achem em posição inclina-

da, o solo foi convulsionado e deslocado posteriormente, por subversões

gerais ou parciais, mais ou menos consideráveis.

7. um fato característico e da mais alta importância, pelo teste-

munho irrecusável que oferece, consiste no existirem, em quantidades

enormes, despojos fósseis de animais e vegetais, dentro das diferentes ca-

madas. como esses despojos se encontram até nas mais duras pedras,

há de concluir-se que a existência de tais seres é anterior à formação das

aludidas pedras. ora, se levarmos em conta o prodigioso número de sé-

culos que foram necessários para que se lhes produzisse o endurecimento

e para que elas alcançassem o estado em que se acham desde tempos ime-

moriais, chega-se forçosamente à conclusão de que o aparecimento de

seres orgânicos na terra se perde na noite das idades e é muito anterior,

por conseguinte, à data que lhes assina a gênese.52, 53

8. entre os despojos de vegetais e animais, alguns há que se mos-

tram penetrados em todos os pontos de sua substância, sem que isso lhes

alterasse a forma, de matérias silicosas ou calcárias que os transformaram

em pedras, algumas das quais apresentam a dureza do mármore. são as

petrificações propriamente ditas. outros foram apenas envolvidos pela

matéria no estado de flacidez; são encontrados intactos e, alguns, inteiros,

nas mais duras pedras. outros, finalmente, apenas deixaram marcas, mas

 

52 Nota de Allan Kardec: Fóssil, do latim fossilia, fossĭlis, derivado de fossa, e de fodere, cavar, escavar a

terra, é uma palavra que em Geologia se emprega designando corpos ou despojos de corpos orgâ-

nicos de seres que viveram anteriormente às épocas históricas. Por extensão, diz-se igualmente das

substâncias minerais que revelam traços da presença de seres organizados, quais as marcas deixadas

por vegetais ou animais.

O termo petrificado se emprega relativamente aos corpos que se transformaram em pedra, pela infil-

tração de matérias silicosas ou calcárias nos tecidos orgânicos. Todas as petrificações necessariamen-

te são fósseis, mas nem todos os fósseis são petrificações.

Nos objetos que se revestem de uma camada pedregosa quando mergulhados em certas águas car-

regadas de substâncias calcárias, como as do regato de Saint Allyre, perto de Clermont, no Auvergne

(França), não são petrificações propriamente ditas, porém simples incrustações.

Os monumentos, inscrições e objetos produzidos por fabricação humana, esses pertencem à

Arqueologia.

53 N.E.: Sabemos que as primeiras formas de vida (bactérias e algas azul-esverdeadas) surgiram há cerca

de 3.500 milhões de anos, e há 570 milhões de anos as plantas e os animais complexos começaram a

se desenvolver.

 

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Esboço geológico da Terra

 

de uma nitidez e uma delicadeza perfeitas. no interior de certas pedras,

encontraram-se até marcas de passos e, pela forma do pé, dos dedos e das

unhas, chegou-se a reconhecer a espécie animal a que pertenceram.

9. os fósseis de animais absolutamente não contêm, e isso é fácil

de conceber-se, senão as partes sólidas e resistentes, isto é, as ossaturas,

as escamas e os cornos; são, não raro, esqueletos completos; as mais das

vezes, no entanto, são apenas partes destacadas, que a procedência facil-

mente se reconhece. examinando-se uma queixada, um dente, logo se vê

se pertence a um animal herbívoro ou carnívoro. como todas as partes

do animal guardam necessária correlação, a forma da cabeça, de uma

omoplata, de um osso da perna, de um pé, basta para determinar o porte,

a forma geral, o gênero de vida do animal.54 os animais terrestres têm

uma organização que não permite sejam confundidos com os animais

aquáticos.

são extremamente numerosos os peixes e os moluscos testáceos

fósseis; só estes últimos formam, às vezes, bancos inteiros de grande

espessura. pela natureza deles, verifica-se sem dificuldade se são animais

marinhos ou de água doce.

10. os seixos rolados, que em certos lugares formam rochas for-

midáveis, constituem inequívoco indício da origem deles. são arredon-

dados como os calhaus de beira-mar, sinal certo do atrito que sofreram,

por efeito das águas. As regiões onde eles se encontram enterrados, em

massas consideráveis, foram incontestavelmente ocupadas pelo oceano,

ou, durante longo tempo, por outras águas movediças, ou violentamente

agitadas.

11. Além disso, os terrenos das diversas formações se caracteri-

zam pela natureza mesma dos fósseis que encerram. As mais antigas

contêm espécies animais ou vegetais que desapareceram inteiramente

da superfície do planeta. também desapareceram algumas espécies mais

recentes; conservaram-se, porém, outras análogas, que apenas diferem

daquelas pelo porte e por alguns matizes de forma. outras, finalmen-

te, cujos últimos representantes ainda vemos, tendem evidentemente a

desaparecer em futuro mais ou menos próximo, tais como os elefantes,

 

54 Nota de Allan Kardec: No ponto a que Georges Cuvier [1769–1832, zoólogo e paleontólogo francês]

levou a ciência paleontológica, um só osso basta frequentemente para determinar o gênero, a espé-

cie, a forma de um animal, seus hábitos, e para o reconstruir todo inteiro.

 

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Capítulo VII

 

os rinocerontes, os hipopótamos etc. Assim, à medida que as camadas

terrestres se aproximam da nossa época, as espécies animais e vegetais

também se aproximam das que hoje existem.

As perturbações, os cataclismos que se produziram na terra, desde

a sua origem, lhe mudaram as condições de aptidão para entretenimento

da vida e fizeram desaparecessem gerações inteiras de seres vivos.

12. interrogando-se a natureza das camadas geológicas, vem-se a

saber, de modo mais positivo, se, na época de sua formação, a região onde

elas se apresentam era ocupada pelo mar, pelos lagos, ou por florestas e

planícies povoadas de animais terrestres. conseguintemente, se, numa

mesma região, se encontra uma série de camadas superpostas, contendo

alternativamente fósseis marinhos, terrestres e de água doce, muitas vezes

repetidas, constitui esse fato prova irrecusável de que essa região foi mui-

tas vezes invadida pelo mar, coberta de lagos e posta a seco.

e quantos séculos de séculos, certamente, quantos milhares de sé-

culos, talvez, não foram precisos para que cada período se completasse!

Que força poderosa não foi necessária para deslocar e recolocar o oceano,

levantar montanhas! por quantas revoluções físicas, comoções violentas

não teve a terra de passar, antes de ser qual a vemos desde os tempos his-

tóricos! e querer-se que tudo isso fosse obra executada em menos tempo

do que o que leva uma planta para germinar!

13. o estudo das camadas geológicas atesta, como já se disse, for-

mações sucessivas, que mudaram o aspecto do globo e lhe dividem a

história em muitas épocas, que constituem os chamados períodos geoló-

gicos, cujo conhecimento é essencial para a determinação da gênese. são

em número de seis os principais, designados pelos nomes de períodos

primário, de transição, secundário, terciário, diluviano, pós-diluviano

ou atual. os terrenos formados durante cada período também se cha-

mam: terrenos primitivos, de transição, secundários etc. diz-se, pois,

que tal ou tal camada ou rocha, tal ou tal fóssil se encontram nos terre-

nos de tal ou tal período.

14. cumpre se note que o número desses períodos não é absolu-

to, pois depende dos sistemas de classificação. nos seis principais, men-

cionados acima, só se compreendem os que estão assinalados por uma

mudança notável e geral no estado do planeta; mas a observação prova

que muitas formações sucessivas se operaram, enquanto durou cada um

 

128

Esboço geológico da Terra

 

deles. por isso é que são divididos em seis períodos caracterizados pela

natureza dos terrenos e que elevam a vinte e seis o número das formações

gerais bem assinaladas, sem contar os que provêm de modificações devi-

das a causas puramente locais.

 

Estado primitivo do globo55

 

15. o achatamento dos polos e outros fatos concludentes são indí-

cios certos de que o estado da terra, na sua origem, deve ter sido o de flui-

dez ou de flacidez, estado esse oriundo de se achar a matéria ou liquefeita

pela ação do fogo, ou diluída pela da água.

costuma-se dizer, proverbialmente: não há fumaça sem fogo. ri-

gorosamente verdadeira, esta sentença constitui uma aplicação do prin-

cípio: não há efeito sem causa. pela mesma razão, pode-se dizer: não há

fogo sem um foco. ora, pelos fatos que se passam sob as nossas vistas,

não é apenas fumaça o que se produz na terra, mas fogo bastante real,

que há de ter um foco. vindo esse fogo do interior do planeta e não do

alto, o foco lhe há de estar no interior e, como o fogo é permanente, o

foco também o há de ser.

o calor, cujo aumento é progressivo à medida que se penetra no

interior da terra e que, a certa profundidade, chega a uma temperatura

altíssima; as fontes térmicas, tanto mais quentes, quanto mais profunda

lhes está a nascente; os fogos e as massas de matéria fundida esbraseada

que os vulcões vomitam, como por vastos respiradouros, ou pelas fendas

que alguns tremores de terra abrem, não deixam dúvida sobre a existência

de um fogo interior.

16. A experiência demonstra que a temperatura se eleva de um grau

a cada 30 metros de profundidade, donde se segue que, a uma profun-

didade de 300 metros, o aumento é de 10 graus; a 3.000 metros, de 100

graus, temperatura da água a ferver; a 30.000 metros, ou seja, 7 ou 8

léguas, de 1.000 graus; a 25 léguas, de mais de 3.300 graus, temperatura

a que nenhuma matéria conhecida resiste à fusão. daí ao centro, ainda há

um espaço de mais de 1.400 léguas, ou 2.800 léguas em diâmetro, espaço

que seria ocupado por matérias fundidas.

 

55 N.E.: Na Escala do Tempo Geológico moderna, corresponde ao início da Era Pré-Cambriana.

 

129

Capítulo VII

 

conquanto não haja aí mais do que uma conjetura, julgando da

causa pelo efeito, tem ela todos os caracteres da probabilidade e leva à

conclusão de que a terra ainda é uma massa incandescente recoberta de

uma crosta sólida da espessura de 25 léguas no máximo, o que é apenas

a 120a parte do seu diâmetro. proporcionalmente, seria muito menos do

que a espessura da mais delgada casca de laranja.

Aliás, é muito variável a espessura da crosta terrestre, porquanto há

zonas, sobretudo nos terrenos vulcânicos, onde o calor e a flexibilidade

do solo indicam que ela é pouco considerável. A elevada temperatura

das águas termais constitui igualmente indício de proximidade do foco

central.56

17. Assim sendo, evidente se torna que o primitivo estado de flui-

dez ou de flacidez da terra há de ter tido como causa a ação do calor e

não a da água. em sua origem, pois, a terra era uma massa incandes-

cente. em virtude da irradiação do calórico,57 deu-se o que se dá com

toda matéria em fusão: ela esfriou pouco a pouco, principiando o resfria-

mento, como era natural, pela superfície, que então endureceu, ao passo

que o interior se conservou fluido. pode-se assim comparar a terra a um

bloco de carvão ao sair ígneo da fornalha e que sua superfície se apaga e

resfria, ao contato do ar, mantendo-se-lhe o interior em estado de igni-

ção, conforme se verificará, quebrando-o.

18. na época em que o globo terrestre era uma massa incandes-

cente, não continha nenhum átomo a mais, nem a menos do que hoje;58

apenas, sob a influência da alta temperatura, a maior parte das substân-

cias que a compõem e que vemos sob a forma de líquidos ou de sólidos,

de terras, de pedras, de metais e de cristais se achavam em estado muito

diferente. sofreram unicamente uma transformação. em consequência

 

56 N.E.: Estima-se que a espessura da crosta seja de 6km no leito dos oceanos e 40km na crosta

continental.

57 N.E.: Teoria Calórica é uma teoria obsoleta que supunha a existência de um fluido invisível e inodoro,

chamado calórico, que todos os corpos conteriam em quantidades determinadas em sua composi-

ção, era considerado o causador das alterações de temperatura até metade do século XIX. Quanto

maior fosse a temperatura de um corpo, maior seria a sua quantidade de calórico, limitada, para

cada corpo, a uma quantidade finita. A teoria do calórico explicava o comportamento dos gases e

do vapor em termos de uma distinção entre o estado livre e latente do calor. Calor livre podia ser

sentido e medido por termômetros; calor latente, por estar intimamente ligado com as ligações da

moléculas, não poderia.

58 N.E.: Parece-nos que Kardec se referia apenas à Terra propriamente dita, não levando em conta os

aerólitos e a poeira cósmica que a ela se vêm juntando.

 

130

Esboço geológico da Terra

 

do resfriamento, os elementos formaram novas combinações. o ar,

enormemente dilatado, decerto se estendia a uma distância imensa; toda

a água, forçosamente transformada em vapor, se encontrava misturada

com o ar; todas as matérias suscetíveis de se volatilizarem, tais como os

metais, o enxofre, o carbono, se achavam em estado de gás. o da at-

mosfera nada tinha, portanto, de comparável ao que é hoje; a densidade

de todos esses vapores lhe dava uma opacidade que nenhum raio de sol

podia atravessar. se nessa época um ser vivo pudesse existir na superfície

do planeta, apenas seria iluminado pelos revérberos sinistros da fornalha

que lhe estava sob os pés e da atmosfera esbraseada; ele nem sequer sus-

peitaria da existência do sol.

 

Período primário59

 

19. o primeiro efeito do resfriamento foi a solidificação da super-

fície exterior da massa em fusão e a formação aí de uma crosta resistente

que, delgada a princípio, gradativamente se espessou. essa crosta consti-

tui a pedra chamada granito, de extrema dureza, assim denominada pelo

seu aspecto granuloso. nela se distinguem três substâncias principais: o

feldspato, o quartzo ou cristal de rocha e a mica. esta última tem brilho

metálico, embora não seja um metal.

A camada granítica foi, pois, a primeira que se formou no globo, é a

que o envolve por completo, constituindo de certo modo o seu arcabouço

ósseo. é o produto direto da consolidação da matéria fundida. sobre ela

e nas cavidades que apresentava a sua superfície torturada foi que se de-

positaram sucessivamente as camadas dos outros terrenos, posteriormente

formados. o que a distingue destes últimos é a ausência de toda e qual-

quer estratificação; quer dizer: ela forma uma massa compacta e uniforme

em toda a sua espessura, que não é disposta em camadas. A efervescência

da matéria incandescente havia de produzir nela numerosas e profundas

fendas, pelas quais essa mesma matéria extravasava.

20. o efeito seguinte do resfriamento foi a liquefação de algumas

matérias contidas no ar em estado de vapor, as quais se precipitaram na

superfície do solo. Houve então chuvas e lagos de enxofre e de betume,

verdadeiros regatos de ferro, cobre, chumbo e outros metais fundidos.

 

59 N.E.: Refere-se à parte da Era Pré-Cambriana, de acordo com a Escala de Tempo Geológico moderna.

 

131

Capítulo VII

 

infiltrando-se pelas fissuras, essas matérias constituíram os veios e filões

metálicos.

sob o influxo desses diversos agentes, a superfície granítica experi-

mentou alternativas decomposições. produziram-se misturas, que forma-

ram os terrenos primitivos propriamente ditos, distintos da rocha graníti-

ca, mas em massas confusas e sem estratificação regular.

vieram, a seguir, as águas que, caindo sobre um solo ardente, se va-

porizavam de novo, recaíam em chuvas torrenciais e assim sucessivamente,

até que a temperatura lhes facultou permanecerem no solo em estado

líquido.

é a formação dos terrenos graníticos que dá começo à série dos

períodos geológicos, aos quais conviria se acrescentasse o do estado

primitivo, de incandescência do globo.

21. tal o aspecto do primeiro período, verdadeiro caos de todos

os elementos confundidos, à procura de estabilização, período em que

nenhum ser vivo podia existir. por isso mesmo, um de seus caracteres

distintivos, em geologia, é a ausência de qualquer vestígio de vida vegetal

ou animal.

impossível se torna assinar duração determinada a esse período,

do mesmo modo que aos que se lhe seguiram. mas, dado o tempo que

se faz mister para que uma bala60 de determinado volume, aquecida até

o branco, se resfrie na superfície, ao ponto de permitir que uma gota

de água possa sobre ela permanecer em estado líquido, calculou-se que,

se essa bala tivesse o tamanho da terra, necessários seriam mais de um

milhão de anos.

 

Período de transição61

 

22. no começo do período de transição, ainda pequena era a es-

pessura da sólida crosta granítica, que, portanto, resistência muito fraca

oferecia à efervescência das matérias enfogadas que ela cobria e compri-

mia. produziam-se, pois, intumescências, despedaçamentos numerosos,

por onde se escapava a lava interior. o solo apresentava desigualdades

pouco consideráveis.

 

60 N.E.: No original francês foi usado o termo “boulet”, projetil esférico de metal, munição de canhões.

61 N.E.: Refere-se à maior parte da Era Pré-Cambriana e toda a Era Paleozoica atuais.

 

132

Esboço geológico da Terra

 

As águas, pouco profundas, cobriam quase toda a superfície do glo-

bo, com exceção das partes soerguidas, que, formando terrenos baixos,

eram frequentemente alagados.

o ar gradativamente se purgara das matérias mais pesadas, tem-

porariamente em estado gasoso, as quais, condensando-se por efeito do

resfriamento, se haviam precipitado na superfície do solo, sendo depois

arrastadas e dissolvidas pelas águas.

Quando se fala de resfriamento naquela época, deve-se entender

essa palavra em sentido relativo, isto é, em relação ao estado primitivo,

porquanto a temperatura ainda havia de ser ardente.

os espessos vapores aquosos que se elevavam de todos os lados da

imensa superfície líquida, recaíam em chuvas copiosas e quentes, que obs-

cureciam o ar. entretanto, os raios do sol começavam a aparecer, através

dessa atmosfera brumosa.

uma das últimas substâncias de que o ar teve de expurgar-se, por

ser gasoso o seu estado natural, foi o ácido carbônico, então um dos seus

componentes.

23. por essa época, entraram a formar-se as camadas de terrenos

de sedimento, depositadas pelas águas carregadas de limo e de matérias

diversas, apropriadas à vida orgânica.

surgem aí os primeiros seres vivos do reino vegetal e do reino ani-

mal. deles se encontram vestígios, a princípio em número reduzido, po-

rém, depois, cada vez mais frequentes, à medida que se vai passando às

camadas mais elevadas dessa formação. é digno de nota que por toda

parte a vida se manifesta, logo que lhe são propícias as condições, nas-

cendo cada espécie desde que se realizam as condições próprias à sua

existência.

24. os primeiros seres orgânicos que apareceram na terra foram

os vegetais de organização menos complicada, designados em botânica

sob os nomes de criptógamos, acotiledôneos, monocotiledôneos, isto é,

liquens, cogumelos, musgos, fetos e plantas herbáceas.62 Absolutamente,

ainda se não veem árvores de tronco lenhoso, mas, apenas, as do gênero

palmeira, cuja haste esponjosa é análoga à das ervas.

 

62 N.E.: Atualmente se sabe que os primeiros seres vivos eram unicelulares, bactérias muito primitivas e

desprovidas de núcleos.

 

133

Capítulo VII

 

os animais desse período, que apareceram em seguida aos primei-

ros vegetais, eram exclusivamente marinhos: primeiramente, polipeiros,

radiários,63 zoófitos, animais cuja organização simples e, por assim dizer,

rudimentar, se aproxima, no máximo grau, da dos vegetais. mais tarde,

aparecem crustáceos e peixes de espécies que já não existem.

25. sob o império do calor e da umidade e em virtude do excesso

de ácido carbônico espalhado no ar, gás impróprio à respiração dos ani-

mais terrestres, mas necessário às plantas, os terrenos expostos se cobriram

rapidamente de uma vegetação pujante, ao mesmo tempo que as plantas

aquáticas se multiplicavam no seio dos pântanos. plantas que, nos dias

atuais, são simples ervas de alguns centímetros, atingiam altura e grossura

prodigiosas. Assim é que havia florestas de fetos arborescentes de 8 a 10

metros de altura e de proporcional grossura. licopódios (marroio, gênero

de musgo), do mesmo porte; cavalinhas,64 de 4 a 5 metros, que a altura

não passa hoje de um metro, e uma infinidade de espécies que não mais

existem. pelos fins do período, começam a aparecer algumas árvores do

gênero conífero ou pinheiros.

26. em consequência do deslocamento das águas, os terrenos que

produziam essas massas de vegetais foram submergidos, cobertos de novos

sedimentos terrosos, enquanto os que se achavam emersos se adornavam,

a seu turno, de vegetação semelhante. Houve assim muitas gerações de

vegetais alternativamente aniquiladas e renovadas. o mesmo não se deu

com os animais que, sendo todos aquáticos, não estavam sujeitos a essas

alternativas.

Acumulados durante longa série de séculos, esses destroços forma-

ram camadas de grande espessura. sob a ação do calor, da umidade, da

pressão exercida, pelos posteriores depósitos terrosos e, sem dúvida, de

diversos agentes químicos, dos gases, dos ácidos e dos sais produzidos pela

combinação dos elementos primitivos, aquelas matérias vegetais sofreram

uma fermentação que as converteu em hulha ou carvão de pedra. As mi-

nas de hulha são, pois, produto direto da decomposição dos acervos de

 

63 N.E.: Classe de animais invertebrados, cujos órgãos estão dispostos simetricamente em torno de um

eixo, ex.: equinodermos e pólipos.

64 Nota de Allan Kardec: Planta dos pauis, vulgarmente chamada cavalinha ou cauda de cavalo.

 

134

Esboço geológico da Terra

 

vegetais acumulados durante o período de transição. é por isso que são

encontrados em quase todas as regiões.65

27. os restos fósseis da pujante vegetação dessa época, achando-se

hoje sob os gelos das terras polares, tanto quanto na zona tórrida, segue-

-se que, uma vez que a vegetação era uniforme, também a temperatura o

havia de ser. os polos, portanto, não se achavam cobertos de gelo, como

agora. é que, então, a terra tirava de si mesma o calor, do fogo central

que aquecia de igual modo toda a camada sólida, ainda pouco espessa.

esse calor era superior de muito ao que podia provir dos raios solares, en-

fraquecidos, ademais, pela densidade da atmosfera. só mais tarde, quan-

do a ação do calor central se tornou muito fraca ou nula sobre a superfí-

cie exterior do globo, a do sol passou a preponderar e as regiões polares,

que apenas recebiam raios oblíquos, portadores de pequena quantidade

de calor, se cobriram de gelo. compreende-se que na época de que fala-

mos e ainda muito tempo depois, o gelo era desconhecido na terra.

deve ter sido muito longo esse período, a julgar pelo número e pela

espessura das camadas de hulha.66

 

Período secundário67

 

28. com o período de transição desaparecem a vegetação colossal

e os animais que caracterizavam a época, ou porque as condições atmos-

féricas já não fossem as mesmas, ou porque uma série de cataclismos haja

aniquilado tudo o que tinha vida na terra. é provável que as duas causas

tenham contribuído para essa mudança, por isso que, de um lado, o es-

tudo dos terrenos que assinalam o fim desse período comprova a ocor-

rência de grandes subversões oriundas de levantamentos e erupções que

 

65 Nota de Allan Kardec: A turfa se formou da mesma maneira, pela decomposição dos amontoados

de vegetais, em terrenos pantanosos; mas, com a diferença de que, sendo de formação muito mais

recente e sem dúvida noutras condições, ela não teve tempo de se carbonizar.

66 Nota de Allan Kardec: Na baía de Fundy (Nova Escócia), o Sr. Lyell [Charles Lyell (1797–1875), geólogo

britânico] encontrou, numa camada de hulha de espessura de 400 metros, 68 níveis diferentes, apre-

sentando traços evidentes de muitos solos de florestas, de cujas árvores os troncos ainda estavam

guarnecidos de suas raízes. (L. Figuier)

Não dando mais de mil anos para a formação de cada um desses níveis, já teríamos 68.000 anos só

para essa camada de hulha.

67 N.E.: Era Mesozoica atual.

 

135

Capítulo VII

 

derramaram sobre o solo grandes quantidades de lavas, e, de outro lado,

porque grandes mudanças se operaram nos três68 reinos.

29. o período secundário se caracteriza, sob o aspecto mineral, por

numerosas e fortes camadas que atestam uma formação lenta no seio das

águas e marcam diferentes épocas bem caracterizadas.

A vegetação é menos rápida e menos colossal que no período pre-

cedente, sem dúvida em virtude da diminuição do calor e da umidade e

de modificações sobrevindas aos elementos constitutivos da atmosfera. Às

plantas herbáceas e polpudas, juntam-se as de caule lenhoso e as primeiras

árvores propriamente ditas.

30. Ainda são aquáticos os animais, ou, quando nada, anfíbios, a

vida vegetal progride pouco na terra seca. desenvolve-se no seio dos ma-

res uma prodigiosa quantidade de animais de conchas, devido à formação

das matérias calcárias. nascem novos peixes, de organização mais aperfei-

çoada do que no período anterior. Aparecem os primeiros cetáceos. os

mais característicos animais dessa época são os reptis monstruosos, entre

os quais se notam:

o ictiossauro, espécie de peixe-lagarto que chegava a ter 10 metros

de comprimento, com mandíbulas prodigiosamente alongadas, armadas

de 180 dentes. sua forma geral lembra um pouco a do crocodilo, mas sem

couraça escamosa. seus olhos tinham o volume da cabeça de um homem;

possuía barbatanas como a baleia e, como esta, expelia água por aberturas

próprias para isso.

o plesiossauro, outro reptil marinho, tão grande quanto o ictiossau-

ro, tinha pescoço, excessivamente longo, que se dobrava como o do cisne,

e lhe dava a aparência de enorme serpente ligada a um corpo de tartaruga.

tinha a cabeça do lagarto e os dentes do crocodilo. sua pele devia ser lisa,

qual a do ictiossauro, porquanto não se lhe descobriu nenhum vestígio de

escamas ou de concha.69

o teleossauro, que mais se aproxima dos crocodilos atuais, parecen-

do estes um seu diminutivo. como os últimos, tinha uma couraça esca-

mosa e vivia, ao mesmo tempo, na água e em terra. seu talhe era de cerca

 

68 N.E.: Consultar nota 31.

69 Nota de Allan Kardec: O primeiro fóssil deste animal foi descoberto, na Inglaterra, em 1823. Depois,

encontraram-se outros na França e na Alemanha.

 

136

Esboço geológico da Terra

 

de 10 metros, dos quais 3 ou 4 só para a cabeça. A boca tinha de abertura

2 metros.

o megalossauro, grande lagarto, espécie de crocodilo, de 14 a 15

metros de comprimento. essencialmente carnívoro, nutria-se de reptis, de

pequenos crocodilos e de tartarugas. sua formidável mandíbula era arma-

da de dentes em forma de lâmina de podadeira, de gume duplo, recurva-

dos para trás, de tal jeito que, uma vez enterrados na presa, impossível se

tornaria a esta desprender-se.

o iguanodonte, o maior dos lagartos que já apareceram na terra.

tinha de 20 a 25 metros da cabeça à extremidade da cauda e sobre o

focinho um chifre ósseo, semelhante ao do iguano da atualidade, do qual

parece que não diferia senão pelo tamanho. o último tem apenas 1 metro

de comprimento. A forma dos dentes prova que ele era herbívoro e a dos

pés que era animal terrestre.70

o pterodátilo, animal estranho, do tamanho de um cisne, partici-

pando, simultaneamente, do reptil pelo corpo, do pássaro pela cabeça

e do morcego pela membrana carnuda que lhe religava os dedos prodi-

giosamente longos. essa membrana lhe servia de paraquedas quando se

precipitava sobre a presa do alto de uma árvore ou de um rochedo. não

possuía bico córneo, como os pássaros, mas os ossos das mandíbulas, do

comprimento da metade do corpo e guarnecidos de dentes, terminavam

em ponta como um bico.

31. durante esse período, que há de ter sido muito longo, como

o atestam o número e a pujança das camadas geológicas, a vida animal

tomou enorme desenvolvimento no seio das águas, tal qual se dera com

a vegetação no período que findara. mais depurado e mais favorável à

respiração, o ar começou a permitir que alguns animais vivessem em ter-

ra. o mar se deslocou muitas vezes, mas sem abalos violentos. com esse

período, desaparecem, por sua vez, aquelas raças de gigantescos animais

aquáticos, substituídos mais tarde por espécies análogas, de formas menos

desproporcionadas e de menor porte.

 

70 N.E.: Somente após a desencarnação do autor, ocorrida em 1869, foram descobertos, na Inglaterra,

fragmentos suficientes à montagem de um exemplar completo, pelos paleontólogos, permitindo

melhor elucidar detalhes da descrição desse dinossauro. Ficou, então, claro que ele tinha uma calosi-

dade óssea sobre o focinho, como os iguanídeos uma crista espinhosa no dorso, inexistindo chifres,

que, no entanto, eram bastante evidentes em outros monstros, como nos saurópodes.

 

137

Capítulo VII

 

32. o orgulho levou o homem a dizer que todos os animais foram

criados por sua causa e para satisfação de suas necessidades. mas, qual

o número dos que lhe servem diretamente, dos que lhe foi possível sub-

meter, comparado ao número incalculável daqueles com os quais nunca

teve ele, nem nunca terá, quaisquer relações? como se pode sustentar

semelhante tese, em face das inumeráveis espécies que exclusivamente

povoaram a terra por milhares e milhares de séculos, antes que ele aí

surgisse, e que afinal desapareceram? poder-se-á afirmar que elas foram

criadas em seu proveito? entretanto, tinham todas a sua razão de ser, a

sua utilidade. deus, decerto, não as criou por simples capricho da sua

vontade, para dar a si mesmo, em seguida, o prazer de as aniquilar, pois

que todas tinham vida, instintos, sensação de dor e de bem-estar. com

que fim ele o fez? com um fim que há de ter sido soberanamente sábio,

embora ainda o não compreendamos. certamente, um dia será dado ao

homem conhecê-lo, para confusão do seu orgulho; mas, enquanto isso

não se verifica, como se lhe ampliam as ideias ante os novos horizontes

em que lhe é permitido, agora, mergulhar a vista, em presença do impo-

nente espetáculo dessa criação, tão majestosa no seu lento caminhar, tão

admirável na sua previdência, tão pontual, tão precisa e tão invariável nos

seus resultados!

 

Período terciário71

 

33. com o período terciário nova ordem de coisas começa para

a terra. o estado da sua superfície muda completamente de aspecto;

modificam-se profundamente as condições de vitalidade e se aproximam

do estado atual. os primeiros tempos desse período se assinalam por

uma interrupção da produção vegetal e animal; tudo revela traços de

uma destruição quase geral dos seres vivos, depois do que aparecem su-

cessivamente novas espécies, cuja organização, mais perfeita, se adapta à

natureza do meio onde são chamados a viver.

34. durante os períodos anteriores, a crosta sólida do globo, em

virtude da sua pequena espessura, apresentava, como já se disse, bem fra-

ca resistência à ação do fogo interior. facilmente despedaçado, esse envol-

tório permitia que as matérias em fusão se derramassem livremente pela

71 N.E.: Período Terciário da Era Cenozoica atual.

 

138

Esboço geológico da Terra

 

superfície do solo. outro tanto já não se deu quando este ganhou certa

espessura. então, comprimidas de todos os lados, as matérias esbrasea-

das, como a água em ebulição num vaso fechado, acabaram por produzir

uma espécie de explosão. violentamente quebrada num sem-número de

pontos, a massa granítica ficou crivada de fendas, como um vaso rachado.

Ao longo dessas fendas, a crosta sólida, levantada e deprimida, formou

os picos, as cadeias de montanhas e suas ramificações. certas partes do

envoltório não chegaram a ser despedaçadas, foram apenas soerguidas,

enquanto noutros pontos decalcamentos e escavações se produziram.

A superfície do solo tornou-se então muito desigual; as águas que,

até aquele momento, a cobriam de maneira quase uniforme na maior

parte da sua extensão, foram impelidas para os lugares mais baixos, dei-

xando em seco vastos continentes, ou cumes isolados de montanhas, for-

mando ilhas.

tal o grande fenômeno que se operou no período terciário e que

transformou o aspecto do globo. ele não se produziu instantânea, nem

simultaneamente em todos os pontos, mas sucessivamente e em épocas

mais ou menos distanciadas.

35. uma das primeiras consequências desses levantamentos foi,

como já ficou dito, a inclinação das camadas de sedimento, primitiva-

mente horizontais e assim conservadas onde quer que o solo não sofreu

subversões. foi, portanto, nos flancos e nas proximidades das montanhas

que essas inclinações mais se pronunciaram.

36. nas regiões onde as camadas de sedimento conservaram a hori-

zontalidade, para se chegar às de formação primária tem-se que atravessar

todas as outras, até considerável profundidade, ao cabo da qual se encon-

tra inevitavelmente a rocha granítica. Quando, porém, se ergueram em

montanhas, aquelas camadas foram levadas acima do seu nível normal,

indo às vezes até a grande altura, de tal sorte que, feito um corte vertical

no flanco da montanha, elas se mostram em toda a sua espessura e super-

postas como as fiadas de uma construção.

é assim que a grandes elevações se encontram enormes bancos de

conchas, primitivamente formados no fundo dos mares. está hoje perfei-

tamente comprovado que em nenhuma época o mar há podido alcançar

semelhantes alturas, visto que para tanto não bastariam todas as águas exis-

tentes na terra, ainda mesmo que fossem em quantidade cem vezes maior.

 

139

Capítulo VII

 

ter-se-ia, pois, de supor que a quantidade de água diminuiu e,

então, caberia perguntar o que fora feito da porção que desapareceu. os

levantamentos, fato hoje incontestável, explicam de maneira lógica e ri-

gorosa os depósitos marinhos que se encontram em certas montanhas.72

37. nos lugares onde o levantamento da rocha primitiva produziu

completa rasgadura do solo, quer pela rapidez do fenômeno, quer pela

forma, altura e volume da massa levantada, o granito foi posto a nu, qual

um dente que irrompeu da gengiva. levantadas, quebradas e arrumadas,

as camadas que o revestiam ficaram a descoberto. é assim que terrenos

pertencentes às mais antigas formações e que, na posição primitiva, se

achavam a grande profundidade, compõem hoje o solo de certas regiões.

38. deslocada por efeito dos soerguimentos, a massa granítica dei-

xou nalguns sítios fendas por onde se escapa o fogo interior e se escoam

as matérias em fusão; os vulcões, que são como que chaminés da imensa

fornalha, ou, melhor, válvulas de segurança que, dando saída ao excesso

das matérias ígneas, preservam o globo de comoções muito mais terrí-

veis. daí o poder dizer-se que os vulcões em atividade são uma segurança

para o conjunto da superfície do solo.

da intensidade desse fogo é possível fazer-se ideia, ponderando-se

que no seio mesmo dos mares se abrem vulcões e que a massa de água que

os recobre e neles penetra não consegue extingui-los.

39. os levantamentos operados na massa sólida necessariamente

deslocaram as águas, sendo estas impelidas para as partes côncavas, que

ao mesmo tempo se haviam tornado mais profundas pela elevação dos

terrenos emergidos e pela depressão de outros. mas, esses terrenos tor-

nados baixos, levantados por sua vez ora num ponto, ora noutro, expul-

saram as águas, que refluíram para outros lugares e assim por diante, até

que houvessem podido tomar um leito mais estável.

os sucessivos deslocamentos dessa massa líquida forçosamente tra-

balharam e torturaram a superfície do solo. As águas, escoando-se, arras-

taram consigo uma parte dos terrenos de formações anteriores, postos a

descoberto pelos levantamentos, desnudaram algumas montanhas que

eles cobriam e lhes deixaram à mostra a base granítica ou calcária. pro-

fundos vales foram cavados, enquanto outros eram aterrados.

 

72 Nota de Allan Kardec: Camadas de calcário conchífero foram encontradas nos Andes, América do Sul,

a 5.000 metros acima do nível do oceano.

 

140

Esboço geológico da Terra

 

Há, pois, montanhas diretamente formadas pelo fogo central:

principalmente as graníticas; outras, devidas à ação das águas que, arras-

tando as terras móveis e as matérias solúveis, cavaram vales em torno de

uma base resistente, calcária, ou de outra natureza.

As matérias carreadas pelas correntes de água formaram as camadas

do período terciário, que facilmente se distinguem das dos precedentes,

menos pela composição, que é quase a mesma, do que pela disposição.

As camadas dos períodos primário, de transição e secundário, for-

madas sobre uma superfície pouco acidentada, são mais ou menos uni-

formes na terra toda; as do período terciário, formadas, em vez disso,

sobre base muito desigual e pela ação carreadora das águas, apresentam

caráter mais local. por toda parte, fazendo-se escavações de certa profun-

didade, encontram-se todas as camadas anteriores, na ordem em que se

formaram, ao passo que não se encontra por toda parte o terreno terciá-

rio, nem todas as suas camadas.

40. durante os reviramentos do solo, ocorridos no princípio des-

te período, a vida orgânica, como é fácil de conceber-se, teve que ficar

estacionária por algum tempo, o que se reconhece examinando terrenos

baldos de fósseis. desde, porém, que sobreveio um estado mais calmo,

reapareceram os vegetais e os animais. estando mudadas as condições de

vitalidade, mais depurada a atmosfera, formaram-se novas espécies, com

organização mais perfeita. As plantas, sob o ponto de vista da estrutura,

diferem pouco das de hoje.

41. no correr dos dois períodos precedentes, eram pouco extensos

os terrenos que as águas não cobriam; eram, ainda assim, pantanosos e

com frequência ficavam submersos. essa a razão por que só havia animais

aquáticos ou anfíbios. o período terciário, em o qual vários continentes

se formaram, caracterizou-se pelo aparecimento dos animais terrestres.73

Assim como o período de transição assistiu ao nascimento de uma

vegetação colossal, o período secundário ao de reptis monstruosos, tam-

bém o terciário presenciou o de gigantescos mamíferos, quais o elefante,

o rinoceronte, o hipopótamo, o paleotério, o megatério, o dinotério, o mas-

todonte, o mamute etc. estes dois últimos, variedades do elefante, tinham

 

73 N.E.: No Período Secundário, que corresponde à Era Mesozoica, ocorre o desenvolvimento e expan-

são dos dinossauros; nesta mesma Era os continentes já estavam formados. No final da Era Mesozoica,

há 65 milhões de anos, ocorre a extinção dos dinossauros.

 

141

Capítulo VII

 

de 5 a 6 metros de altura e suas defesas chegavam a 4 metros de compri-

mento. também assistiu, esse período, ao nascimento dos pássaros, bem

como à maioria das espécies animais que ainda hoje existem.74 Algumas,

das dessa época, sobreviveram aos cataclismos posteriores; outras, quali-

ficadas genericamente de animais antediluvianos, desapareceram comple-

tamente, ou foram substituídas por espécies análogas, de formas menos

pesadas e menos maciças, cujos primeiros tipos foram como que esboços.

tais o felis spelœa, animal carnívoro do tamanho de um touro, com os

caracteres anatômicos do tigre e do leão; o cervus megaceron, variedade do

cervo, cujos chifres, compridos de 3 metros, eram espaçados de 3 a 4 nas

extremidades.

 

Período diluviano75

 

42. este período teve a assinalá-lo um dos maiores cataclismos que

revolveram o globo, cuja superfície ele mudou mais uma vez de aspecto,

destruindo uma imensidade de espécies vivas, das quais apenas restam

despojos. por toda a parte deixou traços que atestam a sua generalidade.

As águas, violentamente arremessadas fora dos respectivos leitos, invadi-

ram os continentes, arrastando consigo as terras e os rochedos, desnudan-

do as montanhas, desarraigando as florestas seculares. os novos depósitos

que elas formaram são designados, em geologia, pelo nome de terrenos

diluvianos.

43. um dos vestígios mais significativos desse grande desastre são

os penedos chamados blocos erráticos. dá-se essa denominação a roche-

dos de granito que se encontram isolados nas planícies, repousando sobre

terrenos terciários e no meio de terrenos diluvianos, algumas vezes a mui-

tas centenas de léguas das montanhas donde foram arrancados. é claro

que só a violência das correntes há podido transportá-los a tão grandes

distâncias.76

44. outro fato não menos característico e cuja causa se não des-

cobriu ainda é que só nos terrenos diluvianos se encontram os primeiros

 

74 N.E.: A Paleontologia situa o surgimento dos pássaros na Era Mesozoica moderna, mais exatamente

no Período Jurássico, que corresponde ao Período Secundário desta obra.

75 N.E.: Corresponde à época do Pleistoceno, no Período Quaternário da Era Cenozoica.

76 Nota de Allan Kardec: Um desses blocos, evidentemente provindo, pela sua composição, das monta-

nhas da Noruega, serve de pedestal à estátua de Pedro, o Grande, em São Petersburgo.

 

142

Esboço geológico da Terra

 

aerólitos. pois que somente nessa época eles começaram a cair, segue-se

que anteriormente não existia a causa que os produz.

45. foi também por essa época que os polos começaram a cobrir-se

de gelo e que se formaram as geleiras das montanhas, o que indica notável

mudança na temperatura da terra, mudança que deve ter sido súbita,

porquanto, se se houvesse operado gradualmente, os animais, como os

elefantes, que hoje só vivem nos climas quentes e que são encontrados

em tão grande número no estado fóssil nas terras polares, teriam tido de

retirar-se pouco a pouco para as regiões mais temperadas. tudo denota,

ao contrário, que eles provavelmente foram colhidos de surpresa por um

grande frio e sitiados pelos gelos.77

46. esse foi, pois, o verdadeiro dilúvio universal. dividem-se as

opiniões relativamente às causas que devam tê-lo produzido. Quaisquer,

porém, que elas sejam, o que é certo é que o fato se deu.

A suposição mais generalizada é a de que uma brusca mudança so-

freu a posição do eixo e dos polos da terra; daí uma projeção geral das

águas sobre a superfície. se a mudança se houvesse processado lentamen-

te, a retirada das águas teria sido gradual, sem abalos, no passo que tudo

indica uma comoção violenta e inopinada. ignorando qual a verdadeira

causa, temos que ficar no campo das hipóteses.

o deslocamento repentino das águas também pode ter ocasionado

o levantamento de certas partes da crosta sólida e a formação de novas

montanhas dentro dos mares, conforme se verificou em começo do perío-

do terciário. mas, além de que, então, o cataclismo não teria sido geral,

isso não explicaria a mudança subitânea da temperatura dos polos.

47. na tormenta determinada pelo deslocamento das águas, perece-

ram muitos animais; outros, a fim de escaparem à inundação, se retiraram

para os lugares altos, para as cavernas e fendas, onde sucumbiram em

massa, ou de fome, ou entredevorando-se, ou, ainda, talvez, pela irrupção

 

77 Nota de Allan Kardec: Em 1771, o naturalista russo Pallas [Peter Simon Pallas (1741–1811), alemão,

se tornou famoso na Rússia] encontrou nos gelos do Norte o corpo inteiro de um mamute revestido

da pele e conservando parte das suas carnes. Em 1799, descobriu-se outro, igualmente encerrado

Continuar: parte 2 de 2