A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Os fluidos

 

excepcionalmente, em missão, num mundo inferior, têm perispírito menos

grosseiro do que o dos indígenas146 desse mundo.

11. o meio está sempre em relação com a natureza dos seres que

têm de nele viver: os peixes, na água; os seres terrestres, no ar; os seres

espirituais no fluido espiritual ou etéreo, mesmo que estejam na terra.

O fluido etéreo está para as necessidades do Espírito, como a atmosfera para

as dos encarnados. ora, do mesmo modo que os peixes não podem viver

no ar; que os animais terrestres não podem viver numa atmosfera muito

rarefeita para seus pulmões, os espíritos inferiores não podem suportar

o brilho e a impressão dos fluidos mais etéreos. não morreriam no meio

desses fluidos, porque o espírito não morre, mas uma força instintiva os

mantêm afastados dali, como a criatura terrena se afasta de um fogo mui-

to ardente ou de uma luz muito deslumbrante. eis aí por que não podem

sair do meio que lhes é apropriado à natureza; para mudarem de meio,

precisam antes mudar de natureza, despojar-se dos instintos materiais

que os retêm nos meios materiais; numa palavra, que se depurem e mo-

ralmente se transformem. então, gradualmente se identificam com um

meio mais depurado, que se lhes torna uma necessidade, como os olhos,

para quem viveu longo tempo nas trevas, insensivelmente se habituam à

luz do dia e ao fulgor do sol.

12. Assim, tudo no universo se liga, tudo se encadeia; tudo se acha

submetido à grande e harmoniosa lei de unidade, desde a mais compacta

materialidade, até a mais pura espiritualidade. A terra é qual vaso donde

se escapa uma fumaça densa que vai clareando à medida que se eleva e

essas parcelas rarefeitas se perdem no espaço infinito.

A potência divina refulge em todas as partes desse grandioso con-

junto e, no entanto, quer-se que deus, não contente com o que há feito,

venha perturbar essa harmonia! que se rebaixe ao papel de mágico, pro-

duzindo efeitos pueris, dignos de um prestidigitador! e ousa-se, ainda

por cima, dar-lhe como rival em habilidade o próprio satanás! não have-

ria modo de amesquinhar mais a majestade divina e admiram-se de que

a incredulidade progrida.

 

146 N.E.: É preciso salientar que no século XIX as teorias raciais estavam em voga, dando status científico

às desigualdades entre os seres humanos; Kardec, porém, codificou toda uma doutrina — o Espiri-

tismo —, que tem como base a igualdade entre os homens, pois que todos somos Espíritos em bus-

ca de evolução, as raças seriam apenas “roupagens” que vestimos durante determinada encarnação.

 

249

Capítulo XIV

 

tendes razão de dizer: “A fé vai-se.”, mas a que se vai é a fé em

tudo o que aberra do bom senso e da razão; é a fé idêntica à que outrora

levava a dizerem: “vão-se os deuses!” A fé, porém, nas coisas sérias, a fé

em deus e na imortalidade, essa está sempre vivaz no coração do homem

e, por mais sufocada que tenha sido sob o amontoado de histórias pue-

ris com que a oprimiram, ela se reerguerá mais forte, desde que se sinta

libertada, tal como a planta que, comprimida, se levanta de novo, logo

que a banham os raios do sol!

efetivamente, tudo é milagre na natureza, porque tudo é admirá-

vel e dá testemunho da sabedoria divina! esses milagres se patenteiam a

toda gente, a todos os que têm olhos de ver e ouvidos de ouvir e não em

proveito apenas de alguns! não! milagres não há no sentido que comu-

mente emprestam a essa palavra, porque tudo decorre das leis eternas da

criação, leis essas perfeitas.

 

Ação dos Espíritos sobre os fluidos. Criações

fluídicas. Fotografia do pensamento

 

13. os fluidos espirituais, que constituem um dos estados do flui-

do cósmico universal, são, a bem dizer, a atmosfera dos seres espirituais;

o elemento donde eles tiram os materiais sobre que operam; o meio onde

ocorrem os fenômenos especiais, perceptíveis à visão e à audição do es-

pírito, mas que escapam aos sentidos carnais, impressionáveis somente à

matéria tangível; o meio onde se forma a luz peculiar ao mundo espiri-

tual, diferente, pela causa e pelos efeitos da luz ordinária; finalmente, o

veículo do pensamento, como o ar o é do som.

14. os espíritos atuam sobre os fluidos espirituais, não manipu-

lando-os como os homens manipulam os gases, mas empregando o pen-

samento e a vontade. para os espíritos, o pensamento e a vontade são o

que é a mão para o homem. pelo pensamento, eles imprimem àqueles

fluidos tal ou qual direção, os aglomeram, combinam ou dispersam, or-

ganizam com eles conjuntos que apresentam uma aparência, uma forma,

uma coloração determinadas; mudam-lhes as propriedades, como um

químico muda a dos gases ou de outros corpos, combinando-os segundo

certas leis. é a grande oficina ou laboratório da vida espiritual.

Algumas vezes, essas transformações resultam de uma intenção;

doutras, são produto de um pensamento inconsciente. basta que o

 

250