A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Os fluidos

 

espírito pense uma coisa, para que esta se produza, como basta que mo-

dele uma ária, para que esta repercuta na atmosfera.

é assim, por exemplo, que um espírito se faz visível a um encarna-

do que possua a vista psíquica, sob as aparências que tinha quando vivo

na época em que o segundo o conheceu, embora haja ele tido, depois

dessa época, muitas encarnações. Apresenta-se com o vestuário, os sinais

exteriores — enfermidades, cicatrizes, membros amputados etc. — que

tinha então. um decapitado se apresentará sem a cabeça. não quer isso

dizer que haja conservado essas aparências, certo que não, porquanto,

como espírito, ele não é coxo, nem maneta, nem zarolho, nem decapi-

tado; o que se dá é que, retrocedendo o seu pensamento à época em que

tinha tais defeitos, seu perispírito lhes toma instantaneamente as aparên-

cias, que deixam de existir logo que o mesmo pensamento cessa de agir

naquele sentido. se, pois, de uma vez ele foi negro e branco de outra,

apresentar-se-á como branco ou negro, conforme a encarnação a que se

refira a sua evocação e à que se transporte o seu pensamento.

por análogo efeito, o pensamento do espírito cria fluidicamente

os objetos que ele esteja habituado a usar. um avarento manuseará ouro,

um militar trará suas armas e seu uniforme, um fumante o seu cachimbo,

um lavrador a sua charrua e seus bois, uma mulher velha a sua roca. para

o espírito, que é, também ele, fluídico, esses objetos fluídicos são tão

reais, como o eram, no estado material, para o homem vivo; mas, pela

razão de serem criações do pensamento, a existência deles é tão fugitiva

quanto a deste.147

15. sendo os fluidos o veículo do pensamento, este atua sobre os

fluidos como o som sobre o ar; eles nos trazem o pensamento, como o

ar nos traz o som. pode-se pois dizer, sem receio de errar, que há, nesses

fluidos, ondas e raios de pensamentos, que se cruzam sem se confundi-

rem, como há no ar ondas e vibrações sonoros.

Há mais: criando imagens fluídicas, o pensamento se reflete no en-

voltório perispirítico, como num espelho; toma nele corpo e aí de certo

modo se fotografa. tenha um homem, por exemplo, a ideia de matar a

outro: embora o corpo material se lhe conserve impassível, seu corpo

fluídico é posto em ação pelo pensamento e reproduz todos os matizes

deste último; executa fluidicamente o gesto, o ato que intentou praticar.

147 Nota de Allan Kardec: Revista espírita, junho de 1859. O livro dos médiuns, 2ª Parte, cap. VIII.

 

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Capítulo XIV

 

o pensamento cria a imagem da vítima e a cena inteira é pintada, como

num quadro, tal qual se lhe desenrola no espírito.

desse modo é que os mais secretos movimentos da alma repercu-

tem no envoltório fluídico; que uma alma pode ler noutra alma como

num livro e ver o que não é perceptível aos olhos do corpo. contudo,

vendo a intenção, pode ela pressentir a execução do ato que lhe será a

consequência, mas não pode determinar o instante em que o mesmo

ato será executado, nem lhe assinalar os pormenores, nem, ainda, afir-

mar que ele se dê, porque circunstâncias ulteriores poderão modificar os

planos assentados e mudar as disposições. ele não pode ver o que ainda

não esteja no pensamento do outro; o que vê é a preocupação habitual

do indivíduo, seus desejos, seus projetos, seus desígnios bons ou maus.

 

Qualidades dos fluidos

16. tem consequências de importância capital e direta para os en-

carnados a ação dos espíritos sobre os fluidos espirituais. sendo esses

fluidos o veículo do pensamento e podendo este modificar-lhes as pro-

priedades, é evidente que eles devem achar-se impregnados das qualida-

des boas ou más dos pensamentos que os fazem vibrar, modificando-se

pela pureza ou impureza dos sentimentos. os maus pensamentos cor-

rompem os fluidos espirituais, como os miasmas deletérios corrompem

o ar respirável. os fluidos que envolvem os espíritos maus, ou que estes

projetam são, portanto, viciados, ao passo que os que recebem a influên-

cia dos bons espíritos são tão puros quanto o comporta o grau da perfei-

ção moral destes.

17. fora impossível fazer-se uma enumeração ou classificação dos

bons e dos maus fluidos, ou especificar-lhes as respectivas qualidades, por

ser tão grande quanto a dos pensamentos a diversidade deles.

os fluidos não possuem qualidades sui generis, mas as que adqui-

rem no meio onde se elaboram; modificam-se pelos eflúvios desse meio,

como o ar pelas exalações, a água pelos sais das camadas que atravessa.

conforme as circunstâncias, suas qualidades são, como as da água e do

ar, temporárias ou permanentes, o que os torna muito especialmente

apropriados à produção de tais ou tais efeitos.

também carecem de denominações particulares. como os odores,

eles são designados pelas suas propriedades, seus efeitos e tipos originais.

 

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