A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
O bem e o mal
se fosse assim, no homem inteligente que perde a razão e entra a ser
guiado exclusivamente pelo instinto, a inteligência voltaria ao seu estado
primitivo e, quando o homem recobrasse a razão, o instinto se tornaria
inteligência e assim alternadamente, a cada acesso, o que não é admissível.
Aliás, muitas vezes o instinto e a inteligência se revelam simulta-
neamente no mesmo ato. no caminhar, por exemplo, o movimento das
pernas é instintivo; o homem põe maquinalmente um pé à frente do outro,
sem nisso pensar; quando, porém, ele quer acelerar ou demorar o passo,
levantar o pé ou desviar-se de um tropeço, há cálculo, combinação; ele age
com deliberado propósito. A impulsão involuntária do movimento é o ato
instintivo; a calculada direção do movimento é o ato inteligente. o animal
carnívoro é impelido pelo instinto a se alimentar de carne, mas as precau-
ções que toma e que variam conforme as circunstâncias, para segurar a
presa, a sua previdência das eventualidades são atos da inteligência.
14. outra hipótese que, em suma, se conjuga perfeitamente à ideia
da unidade de princípio, ressalta do caráter essencialmente previdente do
instinto e concorda com o que o espiritismo ensina, no tocante às relações
do mundo espiritual com o mundo corpóreo.
sabe-se agora que muitos espíritos desencarnados têm por missão
velar pelos encarnados, dos quais se constituem protetores e guias; que os
envolvem nos seus eflúvios fluídicos; que o homem age muitas vezes de
modo inconsciente, sob a ação desses eflúvios.
sabe-se, ademais, que o instinto, que por si mesmo produz atos in-
conscientes, predomina nas crianças e, em geral, nos seres cuja razão é
fraca. ora, segundo esta hipótese, o instinto não seria atributo nem da
alma, nem da matéria; não pertenceria propriamente ao ser vivo, seria efei-
to da ação direta dos protetores invisíveis que supririam a imperfeição da
inteligência, provocando os atos inconscientes necessários à conservação
do ser. seria qual a andadeira com que se amparam as crianças que ainda
não sabem andar. então, do mesmo modo que se deixa gradualmente de
usar a andadeira, à medida que a criança se equilibra sozinha, os espíritos
protetores deixam entregues a si mesmos os seus protegidos, à medida que
estes se tornam aptos a guiar-se pela própria inteligência.
Assim, o instinto, longe de ser produto de uma inteligência rudi-
mentar e incompleta, sê-lo-ia de uma inteligência estranha, na plenitude
da sua força, inteligência protetora, que supriria a insuficiência, quer de
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Capítulo III
uma inteligência mais jovem, que aquela compeliria a fazer, inconscien-
temente, para seu bem, o que ainda fosse incapaz de fazer por si mesma,
quer de uma inteligência madura, porém, momentaneamente tolhida no
uso de suas faculdades, como se dá com o homem na infância e nos casos
de idiotia e de afecções mentais.
diz-se proverbialmente que há um deus para as crianças, para os
loucos e para os ébrios. é mais veraz do que se supõe esse ditado. Aquele
deus, outro não é senão o espírito protetor, que vela pelo ser incapaz de se
proteger, utilizando-se da sua própria razão.
15. nesta ordem de ideias, ainda mais longe se pode ir. por muito
racional que seja, essa teoria não resolve todas as dificuldades da questão.
se observarmos os efeitos do instinto, notaremos, em primeiro lugar,
uma unidade de vistas e de conjunto, uma segurança de resultados, que
cessam logo que a inteligência livre substitui o instinto. demais, reconhe-
ceremos profunda sabedoria na apropriação tão perfeita e tão constante das
faculdades instintivas às necessidades de cada espécie. semelhante unidade
de vistas não poderia existir sem a unidade de pensamento e esta é incom-
patível com a diversidade das aptidões individuais; só ela poderia produzir
esse conjunto tão harmonioso que se realiza desde a origem dos tempos
e em todos os climas, com uma regularidade, uma precisão matemáticas,
cuja ausência jamais se nota. A uniformidade no que resulta das faculdades
instintivas é um fato característico, que forçosamente implica a unidade
da causa. se a causa fosse inerente a cada individualidade, haveria tantas
variedades de instintos quantos fossem os indivíduos, desde a planta até o
homem. um efeito geral, uniforme e constante, há de ter uma causa geral,
uniforme e constante; um efeito que atesta sabedoria e previdência há de
ter uma causa sábia e previdente. ora, uma causa dessa natureza, sendo por
força inteligente, não pode ser exclusivamente material.
não se nos deparando nas criaturas, encarnadas ou desencarnadas,
as qualidades necessárias à produção de tal resultado, temos que subir mais
alto, isto é, ao próprio criador. se nos reportamos à explicação dada sobre
a maneira por que se pode conceber a ação providencial (cap. ii, item 24);
se figurarmos todos os seres penetrados do fluido divino, soberanamente
inteligente, compreenderemos a sabedoria previdente e a unidade de vistas
que presidem a todos os movimentos instintivos que se efetuam para o
bem de cada indivíduo. tanto mais ativa é essa solicitude, quanto menos
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