A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
Caracteres dos milagres
reconduzindo o homem ao terreno da realidade, fixa um ponto de para-
da aos transviamentos da imaginação e destrói as superstições. longe de
ampliar o domínio do sobrenatural, o espiritismo o restringe até os seus
limites extremos e lhe arrebata o último refúgio. se é certo que ele faz
crer na possibilidade de alguns fatos, não menos certo é que, por outro
lado, impede a crença em diversos outros, porque demonstra, no campo
da espiritualidade, a exemplo da ciência no da materialidade, o que é
possível e o que não o é. todavia, como não alimenta a pretensão de
haver dito a última palavra seja sobre o que for, nem mesmo sobre o que
é da sua competência, ele não se apresenta como absoluto regulador do
possível e deixa de parte os conhecimentos reservados ao futuro.
9. os fenômenos espíritas consistem nos diferentes modos de
manifestação da alma ou espírito, quer durante a encarnação, quer no
estado de erraticidade. é pelas manifestações que produz que a alma re-
vela sua existência, sua sobrevivência e sua individualidade; julga-se dela
pelos seus efeitos; sendo natural a causa, o efeito também o é. são esses
efeitos que constituem objeto especial das pesquisas e do estudo do es-
piritismo, a fim de chegar-se a um conhecimento tão completo quanto
possível, assim da natureza e dos atributos da alma, como das leis que
regem o princípio espiritual.
10. para os que negam a existência do princípio espiritual inde-
pendente, que negam, por conseguinte, a da alma individual e sobrevi-
vente, a natureza toda está na matéria tangível; todos os fenômenos que
concernem à espiritualidade são, para esses negadores, sobrenaturais e,
portanto, quiméricos. não admitindo a causa não podem eles admitir os
efeitos e, quando estes são patentes, os atribuem à imaginação, à ilusão,
à alucinação e se negam a aprofundá-los. daí, a opinião preconcebida
em que se acastelam e que os torna inaptos a apreciar judiciosamente o
espiritismo, porque parte do princípio de negação de tudo o que não
seja material.
11. do fato, porém, de o espiritismo admitir os efeitos, que são
corolário da existência da alma, não se segue que admita todos os efeitos
qualificados de maravilhosos e que se proponha a justificá-los e dar-lhes
crédito; que se faça campeão de todos os devaneios, de todas as utopias,
de todas as excentricidades sistemáticas, de todas as lendas miraculosas.
fora preciso conhecê-lo muito pouco, para pensar assim. seus adversários
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Capítulo XIII
julgam opor-lhe um argumento irreplicável, quando, depois de haverem
feito eruditas pesquisas sobre os convulsionários de saint-médard,138 so-
bre os camisardos das cevenas,139 ou sobre as religiosas de loudun,140
chegaram a descobrir fatos patentes de embuste, que ninguém contesta.
mas essas histórias serão, porventura, o evangelho do espiritismo? Já te-
rão seus adeptos negado que o charlatanismo haja explorado em proveito
próprio alguns fatos; que a imaginação os tenha criado; que o fanatismo
os haja exagerado muitíssimo? ele é tão solidário com as extravagâncias
que se cometam em seu nome, como a ciência o é com os abusos da
ignorância e a verdadeira religião com os abusos do fanatismo. muitos
críticos julgam do espiritismo pelos contos de fadas e pelas lendas po-
pulares, ficções daqueles contos. o mesmo seria julgar da História pelos
romances históricos ou pelas tragédias.
12. os fenômenos espíritas são as mais das vezes espontâneos e se
produzem sem nenhuma ideia preconcebida da parte das pessoas com
quem eles se dão e que, em regra, são as que neles menos pensam. Alguns
há que, em certas circunstâncias, podem ser provocados pelos agentes de-
nominados médiuns. no primeiro caso, o médium é inconsciente do que
se produz por seu intermédio; no segundo, age com conhecimento de
causa, donde a classificação de médiuns conscientes e médiuns inconscientes.
estes últimos são os mais numerosos e se encontram com frequência en-
tre os mais obstinados incrédulos que, assim, praticam o espiritismo sem
o saberem, nem quererem. por isso mesmo, os fenômenos espontâneos
revestem capital importância, visto não se poder suspeitar da boa-fé dos
que os obtêm. dá-se aqui o que se dá com o sonambulismo que, em cer-
tos indivíduos, é natural e involuntário, enquanto noutros é provocado
pela ação magnética.141
138 N.E.: Em 1729, no Cemitério de Saint-Médard, junto ao túmulo do diácono Francisco de Paris, morto
em 1727 e considerado homem muito caridoso, começaram a ocorrer milagres, pessoas passaram a
visitar o túmulo e lá sofriam convulsões e se autoinfligiam torturas.
139 N.E.: Protestantes franceses que foram expatriados por pegarem em armas após a revogação do Édito
de Nantes (1685); eram assim chamados por vestir camisa sobre suas roupas.
140 N.E.: A Possessão das Freiras de Loudun foi um suposto conjunto de possessões demoníacas que
ocorreram em Loudun, França, em 1634; as freiras sofreram convulsões e proferiram linguagem
abusiva.
141 a Nota de Allan Kardec: O livro dos médiuns, 2 Parte, cap. V; Revista espírita: dezembro de 1865; agosto
de 1865.
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