A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Os fluidos

 

a sua vida normal é a de liberdade e a vida corporal é a do servo preso à

gleba.

ele, por conseguinte, se sente feliz em deixar o corpo, como o pás-

saro em se encontrar fora da gaiola, pelo que aproveita todas as ocasiões

que se lhe oferecem para dela se escapar, de todos os instantes em que a

sua presença não é necessária à vida de relação. tem-se então o fenômeno

a que se dá o nome de emancipação da alma, fenômeno que se produz

sempre durante o sono. de todas as vezes que o corpo repousa, que os

sentidos ficam inativos, o espírito se desprende. (O livro dos espíritos,

parte 2a, cap. viii.)

nesses momentos ele vive da vida espiritual, enquanto que o corpo

vive apenas da vida vegetativa; acha-se, em parte, no estado em que se

achará após a morte: percorre o espaço, confabula com os amigos e ou-

tros espíritos, livres ou encarnados também.

o laço fluídico que o prende ao corpo só por ocasião da morte se

rompe definitivamente; a separação completa somente se dá por efeito

da extinção absoluta da atividade vital. enquanto o corpo vive, o espí-

rito, a qualquer distância que esteja, é instantaneamente chamado à sua

prisão, desde que a sua presença aí se torne necessária. ele, então, retoma

o curso da vida exterior de relação. por vezes, ao despertar, conserva das

suas peregrinações uma lembrança, uma imagem mais ou menos precisa,

que constitui o sonho. Quando nada, traz delas intuições que lhe suge-

rem ideias e pensamentos novos e justificam o provérbio: A noite é boa

conselheira.

Assim igualmente se explicam certos fenômenos característicos do

sonambulismo natural e magnético, da catalepsia, da letargia, do êxtase

etc., e que mais não são do que manifestações da vida espiritual.149

24. pois que a visão espiritual não se opera por meio dos olhos

do corpo, segue-se que a percepção das coisas não se verifica mediante

a luz ordinária: de fato, a luz material é feita para o mundo material;

para o mundo espiritual, uma luz especial existe, cuja natureza desco-

nhecemos, porém que é, sem dúvida, uma das propriedades do fluido

etéreo, adequada às percepções visuais da alma. Há, portanto, luz mate-

rial e luz espiritual. A primeira emana de focos circunscritos aos corpos

 

149 Nota de Allan Kardec: Casos de letargia e de catalepsia: Revista espírita: “Senhora Schwabenhaus”,

setembro de 1858; “A jovem cataléptica da Suábia”, janeiro de 1866.

 

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Capítulo XIV

 

luminosos; a segunda tem o seu foco em toda parte: tal a razão por que

não há obstáculo para a visão espiritual, que não é embaraçada nem

pela distância, nem pela opacidade da matéria, não existindo para ela a

obscuridade. o mundo espiritual é, pois, iluminado pela luz espiritual,

que tem seus efeitos próprios, como o mundo material é iluminado pela

luz solar.

25. Assim, envolta no seu perispírito, a alma tem consigo o seu

princípio luminoso. penetrando a matéria por virtude da sua essência

etérea, não há, para a sua visão, corpos opacos.

entretanto, a vista espiritual não é idêntica, quer em extensão,

quer em penetração, para todos os espíritos. somente os espíritos puros

a possuem em todo o seu poder. nos inferiores ela se acha enfraquecida

pela relativa grosseria do perispírito, que se lhe interpõe qual nevoeiro.

manifesta-se em diferentes graus, nos espíritos encarnados, pelo

fenômeno da segunda vista, tanto no sonambulismo natural ou magnéti-

co, quanto no estado de vigília. conforme o grau de poder da faculdade,

diz-se que a lucidez é maior ou menor. com o auxílio dessa faculdade é

que certas pessoas veem o interior do organismo humano e descrevem as

causas das enfermidades.

26. A vista espiritual, portanto, faculta percepções especiais que,

não tendo por sede os órgãos materiais, se operam em condições muito

diversas das que decorrem da vida corporal. efetuando-se fora do organis-

mo, tem ela uma mobilidade que derrui todas as previsões. indispensável

se torna estudá-la em seus efeitos e em suas causas e não assimilando-a à

vista ordinária, que ela não se destina a suprir, salvo casos excepcionais,

que se não poderiam tomar como regra.

27. necessariamente incompleta e imperfeita é a vista espiritual

nos espíritos encarnados e, por conseguinte, sujeita a aberrações. tendo

por sede a própria alma, o estado desta há de influir nas percepções que

aquela vista faculte. segundo o grau de desenvolvimento, as circunstân-

cias e o estado moral do indivíduo, pode ela dar, quer durante o sono,

quer no estado de vigília: 1o a percepção de certos fatos materiais e reais,

como o conhecimento de alguns que ocorram a grande distância, os de-

talhes descritivos de uma localidade, as causas de uma enfermidade e

os remédios convenientes; 2o a percepção de coisas igualmente reais do

mundo espiritual, como a presença dos espíritos; 3o imagens fantásticas

 

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