A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

O bem e o mal

 

21. A verdadeira vida, tanto do animal como do homem, não está no

invólucro corporal, do mesmo que não está no vestuário. Está no princípio in-

teligente que preexiste e sobrevive ao corpo. esse princípio necessita do corpo

para se desenvolver pelo trabalho que lhe cumpre realizar sobre a matéria

bruta. o corpo se consome nesse trabalho, mas o espírito não se gasta;

ao contrário, sai dele cada vez mais forte, mais lúcido e mais apto. Que

importa, pois, que o espírito mude mais ou menos frequentemente de

envoltório?! não deixa por isso de ser espírito. é precisamente como se

um homem mudasse cem vezes no ano as suas vestes. não deixaria por isso

de ser homem.

por meio do incessante espetáculo da destruição, ensina deus aos

homens o pouco caso que devem fazer do envoltório material e lhes suscita

a ideia da vida espiritual, fazendo que a desejem como uma compensação.

objetar-se-á: não podia deus chegar ao mesmo resultado por outros

meios, sem constranger os seres vivos a se destruírem mutuamente? desde

que na sua obra tudo é sabedoria, devemos supor que esta sabedoria não

existirá mais num ponto do que noutros; se não o compreendemos assim,

devemos atribuí-lo à nossa falta de adiantamento. contudo, podemos pro-

curar a pesquisa da razão do que nos pareça defeituoso, tomando por bús-

sola este princípio: Deus há de ser infinitamente justo e sábio. procuremos,

portanto, em tudo, a sua justiça e a sua sabedoria e curvemo-nos diante do

que ultrapasse o nosso entendimento.

22. uma primeira utilidade, que se apresenta de tal destruição, utili-

dade, sem dúvida, puramente física, é esta: os corpos orgânicos só se conser-

vam com o auxílio das matérias orgânicas, matérias que contêm os elemen-

tos nutritivos necessários à sua transformação. como instrumentos de ação

do princípio inteligente, os corpos precisam ser constantemente renovados,

a providência faz que sirvam à sua mútua manutenção. eis por que os seres

se nutrem uns dos outros. mas é o corpo que se nutre do corpo, sem que

o espírito se aniquile ou altere, fica apenas despojado do seu envoltório.22

23. Há também considerações morais de ordem elevada.

é necessária a luta para o desenvolvimento do espírito. na luta é

que ele exercita suas faculdades. o que ataca em busca do alimento e o

que se defende para conservar a vida usam de habilidade e inteligência,

aumentando, em consequência, suas forças intelectuais. um dos dois

22 Nota de Allan Kardec: Veja-se: Revista espírita, agosto de 1864, Extinção das raças.

 

73

Capítulo III

 

sucumbe; mas, em realidade, que foi o que o mais forte ou o mais destro

tirou ao mais fraco? A veste de carne, nada mais; ulteriormente, o espírito,

que não morreu, tomará outra.

24. nos seres inferiores da criação, naqueles a quem ainda falta o

senso moral, nos quais a inteligência ainda não substituiu o instinto, a

luta não pode ter por móvel senão a satisfação de uma necessidade mate-

rial. ora, uma das mais imperiosas dessas necessidades é a da alimentação.

eles, pois, lutam unicamente para viver, isto é, para fazer ou defender uma

presa, visto que nenhum móvel mais elevado os poderia estimular. é nesse

primeiro período que a alma se elabora e ensaia para a vida.

no homem, há um período de transição em que ele mal se distingue

do bruto. nas primeiras idades, domina o instinto animal e a luta ainda

tem por móvel a satisfação das necessidades materiais. mais tarde, contra-

balançam-se o instinto animal e o sentimento moral; luta então o homem,

não mais para se alimentar, porém, para satisfazer à sua ambição, ao seu or-

gulho, a sua necessidade de dominar. para isso, ainda lhe é preciso destruir.

todavia, à medida que o senso moral prepondera, desenvolve-se a sensibili-

dade, diminui a necessidade de destruir, acaba mesmo por desaparecer, por

se tornar odiosa essa necessidade. o homem ganha horror ao sangue.

contudo, a luta é sempre necessária ao desenvolvimento do espí-

rito, pois, mesmo chegando a esse ponto, que nos parece culminante, ele

ainda está longe de ser perfeito. só à custa de sua atividade que o espírito

adquire conhecimento, experiência e se despoja dos últimos vestígios da

animalidade. mas, nessa ocasião, a luta, de sangrenta e brutal que era, se

torna puramente intelectual. o homem luta contra as dificuldades, não

mais contra os seus semelhantes.23

 

23 Nota de Allan Kardec: Sem prejulgar das consequências que se possam tirar desse princípio, apenas

quisemos demonstrar, mediante essa explicação, que a destruição de uns seres vivos por outros em

nada infirma a sabedoria divina e que, nas leis da natureza, tudo se encadeia. Esse encadeamento

forçosamente se quebra, desde que se abstraia do princípio espiritual, razão por que muitas questões

permanecem insolúveis, por só se levar em conta a matéria.

As doutrinas materialistas trazem em si o princípio de sua própria destruição; têm contra si não

só o antagonismo em que se acham com as aspirações da universalidade dos homens e suas

consequências morais, que farão sejam elas, as doutrinas, repelidas como dissolventes da sociedade,

mas também a necessidade que o homem experimenta de se inteirar de tudo o que resulta do pro-

gresso. O desenvolvimento intelectual conduz o homem à pesquisa das causas. Ora, por pouco que

ele reflita, não tardará a reconhecer a impotência do materialismo para tudo explicar. Como é possível

que doutrinas que não satisfazem ao coração, nem a razão, nem à inteligência, que deixam proble-

máticas as mais vitais questões, venham a prevalecer? O progresso das ideias matará o materialismo,

como matou o fanatismo.

 

74

cApítulo iv

 

M

 

papel da ciência na gênese

 

1. A história da origem de quase todos os povos antigos se confunde

com a da sua religião, é por isso que seus primeiros livros versavam sobre

religião. e como todas as religiões se ligam ao princípio das coisas, que é

também o da humanidade, elas deram, sobre a formação e a ordem do

universo, explicações em concordância com o estado dos conhecimentos

da época e de seus fundadores. daí resultou que os primeiros livros sagra-

dos foram ao mesmo tempo os primeiros livros de ciência, como foram,

durante largo período, o código único das leis civis.

2. nas eras primitivas, sendo necessariamente muito imperfeitos

os meios de observação, muito eivadas de erros grosseiros haviam de ser

as primeiras teorias sobre o sistema do mundo. mas, ainda quando esses

meios fossem tão completos quanto o são hoje, os homens não teriam sabi-

do utilizá-los. Aliás, tais meios não podiam ser senão fruto do desenvolvi-

mento da inteligência e do consequente conhecimento das leis da natureza.

À medida que o homem se foi adiantando no conhecimento dessas leis,

também foi penetrando os mistérios da criação e retificando as ideias que

formara acerca da origem das coisas.

3. impotente se mostrou o homem para resolver o problema da

criação, até o momento em que a ciência lhe forneceu para isso a chave.

teve de esperar que a Astronomia lhe abrisse as portas do espaço infinito

e lhe permitisse mergulhar aí o olhar; que, pelo poder de cálculo, determi-

nasse com rigorosa exatidão o movimento, a posição, o volume, a natureza

e o papel dos corpos celestes; que a física lhe revelasse as leis da gravitação,

do calor, da luz e da eletricidade; que a Química lhe mostrasse as transfor-

mações da matéria e a mineralogia os materiais que formam a superfície do

Capítulo IV

 

globo; que a geologia lhe ensinasse a ler, nas camadas terrestres, a forma-

ção gradual desse mesmo globo. À botânica, à zoologia, à paleontologia,

à Antropologia coube iniciá-lo na filiação e sucessão dos seres organizados.

com a Arqueologia pôde ele acompanhar os traços que a humanidade

deixou através das idades. numa palavra, completando-se umas às outras,

todas as ciências houveram de contribuir com o que era indispensável para

o conhecimento da história do mundo. em falta dessas contribuições, teve

o homem como guia as suas primeiras hipóteses.

por isso, antes que ele entrasse na posse daqueles elementos de apre-

ciação, todos os comentadores da gênese, cuja razão esbarrava em im-

possibilidades materiais, giravam dentro de um círculo, sem conseguirem

dele sair. só o lograram, quando a ciência abriu caminho, fendendo o ve-

lho edifício das crenças. tudo então mudou de aspecto. uma vez achado

o fio condutor, as dificuldades prontamente se aplanaram. em vez de uma

gênese imaginária, surgiu uma gênese positiva e, de certo modo, experi-

mental. o campo do universo se distendeu ao infinito. Acompanhou-se a

formação gradual da terra e dos astros, segundo leis eternas e imutáveis,

que demonstram muito melhor a grandeza e a sabedoria de deus, do que

uma criação miraculosa, tirada repentinamente do nada, qual mutação

à vista, por efeito de súbita ideia da divindade, após uma eternidade de

inação.

pois que é impossível se conceba a gênese sem os dados que a ciên-

cia fornece, pode dizer-se com inteira verdade que: a Ciência é chamada a

constituir a verdadeira Gênese, segundo a lei da natureza.

4. no ponto a que chegou no século XiX, venceu a ciência todas as

dificuldades do problema da gênese?

não, decerto; mas não há contestar que destruiu, sem remissão, to-

dos os erros capitais e lhe lançou os fundamentos essenciais sobre dados

irrecusáveis. os pontos ainda duvidosos não passam, a bem dizer, de ques-

tões de minúcias, que a sua solução, qualquer que venha a ser no futuro,

não poderá prejudicar o conjunto. Ademais, malgrado os recursos que ela

há tido à sua disposição, faltou-lhe, até agora, um elemento importante,

sem o qual jamais a obra poderia completar-se.

5. de todas as gêneses antigas, a que mais se aproxima dos moder-

nos dados científicos, apesar dos erros que contém, que são demonstrados

hoje até a evidência, é incontestavelmente a de moisés. Alguns desses erros

 

76

Papel da Ciência na Gênese

 

são mesmo mais aparentes do que reais e provêm, ou de falsa interpretação

atribuída a certos termos, cuja primitiva significação se perdeu, ao passa-

rem de língua em língua pela tradução, ou a acepção deles mudou com os

costumes dos povos, ou, também, decorrem da forma alegórica peculiar ao

estilo oriental e que foi tomada ao pé da letra, em vez de se lhe procurar o

espírito, o significado mais fiel.

6. A Bíblia, evidentemente, encerra fatos que a razão, desenvolvida

pela ciência, não poderia hoje aceitar e outros que parecem estranhos e re-

pugnantes, pois derivam de costumes que já não são os nossos. mas, a par

disso, haveria parcialidade em se não reconhecer que ela guarda grandes e

belas coisas. A alegoria ocupa ali considerável espaço, ocultando sob o seu

véu sublimes verdades, que se patenteiam, desde que se desça ao âmago do

pensamento, pois que logo desaparece o absurdo.

por que então não se lhe ergueu mais cedo o véu? de um lado, por

falta de luzes que só a ciência e uma sã filosofia podiam fornecer e, de ou-

tro lado, pelo princípio da imutabilidade absoluta da fé, consequência de

um respeito demasiado cego pela letra, ao qual a razão deveria se submeter,

e, assim, pelo temor de comprometer a estrutura das crenças, erguida so-

bre o sentido literal. partindo tais crenças de um ponto primitivo, houve

o receio de que, se se rompesse o primeiro anel da cadeia, todas as malhas

da rede acabassem separando-se. eis por que, apesar de tudo, os olhos

se fecharam, mas fechar os olhos ao perigo não é evitá-lo. Quando uma

construção se inclina, não manda a prudência que se substituam imediata-

mente as pedras ruins por pedras boas, em vez de se esperar, pelo respeito

que infunda a vetustez do edifício, que o mal se torne irremediável e que se

faça preciso reconstruí-lo de cima a baixo?

7. levando suas investigações às entranhas da terra e às profundezas

dos céus, demonstrou a ciência, de maneira irrefragável, os erros da gêne-

se moisaica tomada ao pé da letra e a impossibilidade material de se terem

as coisas passado como são ali textualmente referidas. Assim procedendo,

a ciência desferiu fundo golpe nas crenças seculares. A fé ortodoxa ficou

combalida, porque julgou que lhe tiravam a pedra fundamental. mas com

quem havia de estar a razão: com a ciência, que caminhava prudente e

progressivamente pelos terrenos sólidos dos algarismos e da observação,

sem nada afirmar antes de ter em mãos as provas, ou com uma narrativa

escrita quando faltavam absolutamente os meios de observação? no fim de

 

77

Capítulo IV

 

contas, quem há de levar a melhor: aquele que diz 2 e 2 fazem 5 e se nega

a verificar, ou aquele que diz que 2 e 2 fazem 4 e o prova?

8. mas, objetam, se a Bíblia é uma revelação divina, então deus se

enganou. se não é uma revelação divina, carece de autoridade e a religião

desmorona, à falta de base.

uma de duas: ou a ciência está em erro, ou tem razão. se tem razão,

não pode fazer seja verdadeira uma opinião que lhe é contrária. não há

revelação que se possa sobrepor à autoridade dos fatos.

incontestavelmente, não é possível que deus, sendo todo verdade,

induza os homens em erro, nem ciente, nem inscientemente, pois, do con-

trário, não seria deus. logo, se os fatos contradizem as palavras que são

atribuídas a ele, o que se deve logicamente concluir é que ele não as pro-

nunciou, ou que tais palavras foram entendidas em sentido oposto ao que

lhes é próprio.

se, com semelhantes contradições, a religião sofre dano, a culpa não

é da ciência, que não pode fazer que o que é deixe de ser; mas dos homens

por haverem prematuramente estabelecido dogmas absolutos, de cujo pre-

valecimento hão feito questão de vida ou de morte, sobre hipóteses susce-

tíveis de serem desmentidas pela experiência.

Há coisas com cujo sacrifício temos de resignar-nos, bom ou mau

grado nosso, quando não consigamos evitá-lo. desde que o mundo mar-

cha, sem que a vontade de alguns possa detê-lo, o mais sensato é que o

acompanhemos e nos acomodemos com o novo estado de coisas, em vez

de nos agarrarmos ao passado que se esboroa, com o risco de sermos arras-

tados na queda.

9. por guardar respeito aos textos recebidos como sagrados, dever-se-

-ia obrigar a ciência a calar-se? fora tão impossível isso, como impedir que

a terra gire. As religiões, sejam quais forem, jamais ganharam coisa alguma

em sustentar erros manifestos. A ciência tem por missão descobrir as leis

da natureza. ora, sendo essas leis obra de deus, não podem ser contrárias

a religiões que se baseiem na verdade. lançar anátema ao progresso, por

atentatório à religião, é lançá-lo à própria obra de deus. é ademais, traba-

lho inútil, porquanto nem todos os anátemas do mundo seriam capazes de

obstar a que a ciência avance e a que a verdade abra caminho. Se a Religião

se nega a avançar com a Ciência, esta avançará sozinha.

 

78

Papel da Ciência na Gênese

 

10. somente as religiões estacionárias podem temer as descobertas

da ciência, as quais só são funestas às que se deixam distanciar pelas ideias

progressistas, imobilizando-se no absolutismo de suas crenças. elas, em

geral, fazem tão mesquinha ideia da divindade, que não compreendem

que assimilar as leis da natureza, que a ciência revela, é glorificar a deus

em suas obras. na sua cegueira, porém, essas religiões preferem render

homenagem ao espírito do mal, atribuindo-lhe essas leis. Uma religião que

não estivesse, por nenhum ponto, em contradição com as leis da natureza, nada

teria que temer do progresso e seria invulnerável.

11. A gênese se divide em duas partes: a história da formação do

mundo material e da humanidade considerada em seu duplo princípio,

corporal e espiritual. A ciência se tem limitado à pesquisa das leis que

regem a matéria. no próprio homem, ela apenas há estudado o envoltório

carnal. por esse lado, chegou a inteirar-se, com exatidão, das partes princi-

pais do mecanismo do universo e do organismo humano. Assim, sobre esse

ponto capital, pôde completar a gênese de moisés e retificar-lhe as partes

defeituosas.

mas a história do homem, considerado como ser espiritual, se pren-

de a uma ordem especial de ideias, que não são do domínio da ciência

propriamente dita e das quais, por este motivo, não tem ela feito objeto de

suas investigações. A filosofia, a cujas atribuições pertence, de modo mais

particular, esse gênero de estudos, apenas há formulado, sobre o ponto,

sistemas contraditórios, que vão desde a mais pura espiritualidade, até a

negação do princípio espiritual e mesmo de deus, sem outras bases, afora

as ideias pessoais de seus autores. tem, pois, deixado sem decisão a ques-

tão, por falta de verificação suficiente.

12. esta questão, no entanto, é a mais importante para o homem,

por isso que envolve o problema do seu passado e do seu futuro. A do

mundo material apenas indiretamente o afeta. o que lhe importa saber,

antes de tudo, é donde ele veio e para onde vai, se já viveu e se ainda viverá,

qual a sorte que lhe está reservada.

sobre todos esses pontos, a ciência se conserva muda. A filosofia

apenas emite opiniões que concluem em sentido diametralmente oposto,

mas que, pelo menos, permitem se discuta, o que faz com que muitas

pessoas se lhe coloquem do lado, de preferência a seguirem a religião, que

não discute.

 

79

Capítulo IV

 

13. todas as religiões são acordes quanto ao princípio da existência

da alma, sem, contudo, o demonstrarem. não o são, porém, nem quan-

to à sua origem, nem com relação ao seu passado e ao seu futuro, nem,

principalmente, e isso é o essencial, quanto às condições de que depende

a sua sorte vindoura. em sua maioria, elas apresentam como o futuro

da alma, e impõem à crença de seus adeptos, um quadro que somente a

fé cega pode aceitar, visto que não suporta exame sério. ligado aos seus

dogmas, às ideias que nos tempos primitivos se faziam do mundo mate-

rial e do mecanismo do universo, o destino que elas atribuem à alma não

se concilia com o estado atual dos conhecimentos. não podendo, pois,

senão perder com o exame e a discussão, as religiões acham mais simples

proscrever um e outra.

14. dessas divergências no tocante ao futuro do homem nasceram

a dúvida e a incredulidade. entretanto, a incredulidade dá lugar a um

penoso vácuo. o homem encara com ansiedade o desconhecido em que

tem fatalmente de penetrar. gela-o a ideia do nada. diz-lhe a consciência

que alguma coisa lhe está reservada para além do presente. Que será? sua

razão, com o desenvolvimento que alcançou, já lhe não permite admitir as

histórias com que o acalentaram na infância, nem aceitar como realidade

a alegoria. Qual o sentido dessa alegoria? A ciência lhe rasgou um canto

do véu; não lhe revelou, porém, o que mais lhe importa saber. o homem

interroga em vão, nada lhe responde ela de maneira peremptória e apro-

priada a lhe acalmar as apreensões. por toda parte depara com a afirmação

a se chocar com a negação, sem que de um lado ou de outro se apresentem

provas positivas. daí a incerteza, e a incerteza sobre o que concerne à vida

futura faz que o homem se atire, tomado de uma espécie de frenesi, para as

coisas da vida material.

esse o inevitável efeito das épocas de transição: rui o edifício do pas-

sado, sem que ainda o do futuro se ache construído. o homem se asseme-

lha ao adolescente que, já não tendo a crença ingênua dos seus primeiros

anos, ainda não possui os conhecimentos próprios da maturidade. Apenas

sente vagas aspirações, que não sabe definir.

15. se a questão do homem espiritual permaneceu, até os dias

atuais, em estado de teoria, é que faltavam os meios de observação direta,

existentes para comprovar o estado do mundo material, conservando-se,

portanto, aberto o campo às concepções do espírito humano. enquanto

 

80

Papel da Ciência na Gênese

 

o homem não conheceu as leis que regem a matéria e não pôde aplicar o

método experimental, andou a errar de sistema em sistema, no tocante ao

mecanismo do universo e à formação da terra. o que se deu na ordem

física, deu-se também na ordem moral. para fixar as ideias, faltou o ele-

mento essencial: o conhecimento das leis a que se acha sujeito o princípio

espiritual. estava reservado à nossa época esse conhecimento, como o es-

teve aos dois últimos séculos24 o das leis da matéria.

16. Até o presente, o estudo do princípio espiritual, compreendi-

do na metafísica, foi puramente especulativo e teórico. no espiritismo,

esse estudo é inteiramente experimental. com o auxílio da faculdade

mediúnica, mais desenvolvida presentemente e, sobretudo, generalizada e

mais bem estudada, o homem se achou de posse de um novo instrumento

de observação. A mediunidade foi, para o mundo espiritual, o que o te-

lescópio foi para o mundo astral e o microscópio para o dos infinitamente

pequenos. permitiu se explorassem, estudassem, por assim dizer, de visu,25

as relações do mundo espiritual com o mundo corpóreo; que, no homem

vivo, se destacasse do ser material o ser inteligente e que se observassem

os dois a atuar separadamente. uma vez estabelecidas relações com os ha-

bitantes do mundo espiritual, possível se tornou ao homem seguir a alma

em sua marcha ascendente, em suas migrações, em suas transformações.

pode-se, enfim, estudar o elemento espiritual. eis aí o de que careciam os

anteriores comentadores da gênese, para a compreenderem e lhe retifica-

rem os erros.

17. estando o mundo espiritual e o mundo material em incessante

contato, os dois são solidários um com o outro; ambos têm a sua parcela

de ação na gênese. sem o conhecimento das leis que regem o primeiro,

tão impossível seria constituir-se uma gênese completa, quanto a um es-

tatuário dar vida a uma estátua. somente agora, conquanto nem a ciência

material, nem a ciência espiritual hajam dito a última palavra, possui o

homem os dois elementos próprios a lançar luz sobre esse imenso proble-

ma. eram-lhe absolutamente indispensáveis essas duas chaves para chegar

a uma solução, ainda que aproximativa.

 

24 N.E.: Kardec se refere aos séculos XVII e XVIII.

25 N.E.: Do latim “de vista, por ter visto, por ter presenciado”.

 

81

cApítulo v

 

M

 

Antigos e modernos

 

sistemas do mundo

 

1. A primeira ideia que os homens formaram da terra, do movi-

mento dos astros e da constituição do universo, há de, a princípio, ter-se

baseado unicamente no que os sentidos percebiam. ignorando as mais

elementares leis da física e as forças da natureza, não dispondo senão

da vista como meio de observação, apenas pelas aparências podiam eles

julgar.

vendo o sol aparecer pela manhã, de um lado do horizonte, e

desaparecer, à tarde, do lado oposto, concluíram naturalmente que ele

girava em torno da terra, conservando-se esta imóvel. se lhes dissessem

então que o contrário é o que se dá, responderiam não ser possível tal

coisa, objetando: vemos que o sol muda de lugar e não sentimos que a

terra se mexa.

2. A pequena extensão das viagens, que naquela época raramente

iam além dos limites da tribo ou do vale, não permitia se comprovasse

a esfericidade da terra. como, ao demais, haviam de supor que a terra

fosse uma bola? os seres, em tal caso, somente no ponto mais elevado

poderiam manter-se e, supondo-a habitada em toda a superfície, como

viveriam eles no hemisfério oposto, com a cabeça para baixo e os pés

para cima? Ainda menos possível houvera parecido isso com o movi-

mento de rotação. Quando, mesmo aos nossos dias, em que se conhe-

ce a lei de gravitação, se veem pessoas relativamente esclarecidas não