A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Uranografia geral

 

As mesmas leis que a elevaram acima do caos tenebroso e que a

galardoaram com os esplendores da vida, as mesmas forças que a go-

vernaram durante os séculos da sua adolescência, que lhe firmaram os

primeiros passos na existência e que a conduziram à idade madura e à

velhice, vão também presidir à desagregação de seus elementos constitu-

tivos, a fim de os restituir ao laboratório onde a potência criadora haure

incessantemente as condições da estabilidade geral. esses elementos vão

retornar à massa comum do éter, para se assimilarem a outros corpos,

ou para regenerarem outros sóis. e a morte não será um acontecimen-

to inútil, nem para a terra que consideramos, nem para suas irmãs.

noutras regiões, ela renovará outras criações de natureza diferente e, lá

onde os sistemas de mundos se desvaneceram, em breve renascerá outro

jardim de flores mais brilhantes e mais perfumadas.

51. desse modo, a eternidade real e efetiva do universo se acha

garantida pelas mesmas leis que dirigem as operações do tempo. desse

modo, mundos sucedem a mundos, sóis a sóis, sem que o imenso me-

canismo dos vastos céus jamais seja atingido nas suas gigantescas molas.

onde os vossos olhos admiram esplêndidas estrelas na abóbada da

noite, onde o vosso espírito contempla irradiações magníficas que res-

plandecem nos espaços distantes, de há muito o dedo da morte extinguiu

esses esplendores, de há muito o vazio sucedeu a esses deslumbramen-

tos e já recebem mesmo novas criações ainda desconhecidas. A distância

imensa a que se encontram esses astros, por efeito da qual a luz que nos

enviam gasta milhares de anos a chegar até nós, faz com que somente

hoje recebamos os raios que eles nos enviaram longo tempo antes da

criação da terra e com que ainda os admiremos durante milhares de anos

após a sua desaparição real.49

Que são os seis mil anos da humanidade histórica, diante dos pe-

ríodos seculares? segundos em vossos séculos. Que são as vossas obser-

vações astronômicas, diante do estado absoluto do mundo? A sombra

eclipsada pelo sol.

 

49 Nota de Allan Kardec: Há aqui um efeito do tempo que a luz gasta para atravessar o espaço. Sendo

de 70.000 léguas por segundo a sua velocidade, ela nos chega do Sol em 8 minutos e 13 segundos.

Daí resulta que, se um fenômeno se passa na superfície do Sol, não o percebemos senão 8 minutos

mais tarde e, pela mesma razão, ainda o veremos 8 minutos depois da sua cessação. Se, em virtude

do seu afastamento, a luz de uma estrela consome mil anos para nos chegar, só mil anos depois da

sua formação veremos essa estrela. (Veja-se, para explicação e descrição completa desse fenômeno,

a Revista espírita de março e maio de 1867, resenha de Lúmen, por C. Flammarion.)

 

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Capítulo VI

 

52. logo, reconheçamos, aqui como nos nossos outros estudos,

que a terra e o homem são nada em confronto com o que existe e que as

mais colossais operações do nosso pensamento ainda se estendem apenas

sobre um campo imperceptível, diante da imensidade e da eternidade de

um universo que nunca terá fim.

e, quando esses períodos da nossa imortalidade nos houverem

passado sobre as cabeças, quando a história atual da terra nos aparecer

qual sombra vaporosa no fundo da nossa lembrança; quando, durante

séculos incontáveis, houvermos habitado esses diversos degraus da nossa

hierarquia cosmológica; quando os mais longínquos domínios das idades

futuras tiverem sido por nós perlustrados em inúmeras peregrinações,

teremos diante de nós a sucessão ilimitada dos mundos e por perspectiva

a eternidade imóvel.

 

A vida universal

 

53. essa imortalidade das almas, tendo por base o sistema do

mundo físico, pareceu imaginária a certos pensadores prevenidos; quali-

ficaram-na ironicamente de imortalidade viajora e não compreenderam

que só ela é verdadeira ante o espetáculo da criação. entretanto, pode-se

tornar compreensível toda a sua grandeza, quase diríamos: toda a sua

perfeição.

54. Que as obras de deus sejam criadas para o pensamento e a in-

teligência; que os mundos sejam moradas de seres que as contemplam e

lhes descobrem, sob o véu, o poder e a sabedoria daquele que as formou,

são questões que já nos não oferecem dúvida; mas, que sejam solidárias

as almas que os povoam, é o que importa saber.

55. com efeito, a inteligência humana encontra dificuldade em

considerar esses globos radiosos que cintilam na amplidão como simples

massas de matéria inerte e sem vida. custa-lhe a pensar que não haja,

nessas regiões distantes, magníficos crepúsculos e noites esplendorosas,

sóis fecundos e dias transbordantes de luz, vales e montanhas, onde as

produções múltiplas da natureza desenvolvam toda a sua luxuriante pom-

pa. custa-lhe a imaginar, digo, que o espetáculo divino em que a alma

pode retemperar-se como em sua própria vida, seja baldo da existência e

carente de qualquer ser pensante que o possa conhecer.

 

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