A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Capítulo V · perceberem esse fenômeno, como nos surpreendermos de que homens

 

das primeiras idades não o tenham, sequer, suspeitado?

para eles, pois, a terra era uma superfície plana e circular, qual

uma mó de moinho, estendendo-se a perder de vista na direção horizon-

tal. daí a expressão ainda em uso: ir ao fim do mundo. desconheciam-

-lhe os limites, a espessura, o interior, a face inferior, o que lhe ficava

por baixo.26

3. por se mostrar sob forma côncava, o céu, na crença vulgar, era

tido como uma abóbada real, cujos bordos inferiores repousavam na

terra e lhe marcavam os confins, era uma vasta cúpula cuja capacidade

o ar enchia completamente. sem nenhuma noção do espaço infinito,

incapazes mesmo de o conceberem, imaginavam os homens que essa

abóbada era constituída de matéria sólida, donde a denominação de fir-

mamento que lhe foi dada e que sobreviveu à crença, significando: firme,

resistente (do latim firmamentum, derivado de firmus e do grego herma,

hermatos, firme, sustentáculo, suporte, ponto de apoio).

4. As estrelas, de cuja natureza não podiam suspeitar, eram sim-

plesmente pontos luminosos, maiores ou menores, engastados na abó-

bada, como lâmpadas suspensas, dispostas sobre uma única superfície e,

por conseguinte, todas à mesma distância da terra, tal como as que se

veem no interior de certas cúpulas, pintadas de azul, figurando a do céu.

 

26 Nota de Allan Kardec: “A mitologia hindu ensinava que, ao entardecer, o astro do dia se despojava

de sua luz e atravessava o céu durante a noite com uma face obscura. A mitologia grega figura-

va puxado por quatro cavalos o carro de Apolo [deus da beleza, da luz, das artes e da profecia].

Anaximandro [(610–547 a.C.) filósofo grego pré-socrático, considerou o infinito como o princípio do

universo], de Mileto, sustentava, ao que refere Plutarco [(c. 50–125 d.C.) escritor grego], que o Sol era

um carro cheio de fogo muito vivo, que se escapava por uma abertura circular. Epicuro [(341–270

a.C., filósofo grego], segundo uns, teria emitido a opinião de que o Sol se acendia pela manhã e se

apagava à noite nas águas do oceano; segundo outros, ele considerava esse astro uma pedra-pomes

aquecida até a incandescência. Anaxágoras [(c. 500 a.C.–c. 428 a.C.) filósofo grego pré-socrático] o

tomava por um ferro esbraseado, do tamanho do Peloponeso. Coisa singular! os antigos eram tão

invencivelmente induzidos a considerar real a grandeza aparente desse astro, que perseguiram o

filósofo temerário por haver atribuído aquele volume ao facho do dia, fazendo-se necessária toda a

autoridade de Péricles [(c. 495 a.C.–429 a.C., político ateniense. Péricles foi discípulo de Anaxágoras,

que foi acusado de impiedade para com os deuses e teve que sair de Atenas.] para salvá-lo de uma

condenação à morte e para que essa pena fosse comutada na de exílio.” (Flammarion, Estudos e

leituras sobre a astronomia, p. 6.)

Diante de tais ideias, emitidas no quinto século antes do Cristo, ao tempo da maior prosperidade

da Grécia, não devem causar espanto aquelas que os homens das primeiras idades faziam sobre o

sistema do mundo.

 

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