A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Os milagres do Evangelho

 

que uma aparição tangível; numa palavra: uma espécie de agênere. seu

nascimento, sua morte e todos os atos materiais de sua vida teriam sido

apenas aparentes. Assim foi que, dizem, seu corpo, voltado ao estado

fluídico, pôde desaparecer do sepulcro e com esse mesmo corpo é que

ele se teria mostrado depois de sua morte.

é fora de dúvida que semelhante fato não se pode considerar ra-

dicalmente impossível, dentro do que hoje se sabe acerca das proprieda-

des dos fluidos; mas, seria, pelo menos, inteiramente excepcional e em

formal oposição ao caráter dos agêneres. (cap. Xiv, item 36.) trata-se,

pois, de saber se tal hipótese é admissível, se os fatos a confirmam ou

contradizem.

65. A estada de Jesus na terra apresenta dois períodos: o que pre-

cedeu e o que se seguiu à sua morte. no primeiro, desde o momento da

concepção até o nascimento, tudo se passa, pelo que respeita à sua mãe,

como nas condições ordinárias da vida.180, 181 desde o seu nascimento

até a sua morte, tudo, em seus atos, na sua linguagem e nas diversas

circunstâncias da sua vida, revela os caracteres inequívocos da corporei-

dade. são acidentais os fenômenos de ordem psíquica que nele se pro-

duzem e nada têm de anômalos, pois que se explicam pelas propriedades

do perispírito e se dão, em graus diferentes, noutros indivíduos. depois

de sua morte, ao contrário, tudo nele revela o ser fluídico. é tão marcada

a diferença entre os dois estados, que não podem ser assimilados.

o corpo carnal tem as propriedades inerentes à matéria propria-

mente dita, propriedades que diferem essencialmente das dos fluidos

etéreos; naquela, a desorganização se opera pela ruptura da coesão mo-

lecular. Ao penetrar no corpo material, um instrumento cortante lhe

divide os tecidos; se os órgãos essenciais à vida são atacados, cessa-lhes

o funcionamento e sobrevém a morte, isto é, a do corpo. não existindo

nos corpos fluídicos essa coesão, a vida aí já não repousa no jogo de ór-

gãos especiais e não se podem produzir desordens análogas àquelas. um

instrumento cortante ou outro qualquer penetra num corpo fluídico

como se penetrasse numa massa de vapor, sem lhe ocasionar qualquer

lesão. tal a razão por que não podem morrer os corpos dessa espécie e por

180 Nota de Allan Kardec: Não falamos do mistério da encarnação, com o qual não temos que nos ocupar

aqui e que será examinado ulteriormente.

181 N.E.: Kardec, em vida, não pôde cumprir esta promessa, visto que, no ano seguinte, ao dar publicação

a esta obra, foi chamado à pátria espiritual.

 

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Capítulo XV

 

que os seres fluídicos, designados pelo nome de agêneres, não podem ser

mortos.

Após o suplício de Jesus, seu corpo se conservou inerte e sem vida;

foi sepultado como o são de ordinário os corpos e todos o puderam ver

e tocar. Após a sua ressurreição, quando quis deixar a terra, não mor-

reu de novo; seu corpo se elevou, desvaneceu e desapareceu, sem deixar

qualquer vestígio, prova evidente de que aquele corpo era de natureza

diversa da do que pereceu na cruz; donde forçoso é concluir que, se foi

possível que Jesus morresse, é que carnal era o seu corpo.

por virtude das suas propriedades materiais, o corpo carnal é a

sede das sensações e das dores físicas, que repercutem no centro sensi-

tivo ou espírito. Quem sofre não é o corpo, é o espírito recebendo o

contragolpe das lesões ou alterações dos tecidos orgânicos. num corpo

sem espírito, absolutamente nula é a sensação. pela mesma razão, o es-

pírito, sem corpo material, não pode experimentar os sofrimentos, visto

que estes resultam da alteração da matéria, donde também forçoso é se

conclua que, se Jesus sofreu materialmente, do que não se pode duvidar,

é que ele tinha um corpo material de natureza semelhante ao de toda

gente.

66. Aos fatos materiais juntam-se fortíssimas considerações

morais.

se as condições de Jesus, durante a sua vida, fossem as dos seres

fluídicos, ele não teria experimentado nem a dor, nem as necessidades

do corpo. supor que assim haja sido é tirar-lhe o mérito da vida de

privações e de sofrimentos que escolhera, como exemplo de resigna-

ção. se tudo nele fosse aparente, todos os atos de sua vida, a reiterada

predição de sua morte, a cena dolorosa do Jardim das oliveiras, sua

prece a deus para que lhe afastasse dos lábios o cálice de amarguras,

sua paixão, sua agonia, tudo, até o último brado, no momento de en-

tregar o espírito, não teria passado de vão simulacro, para enganar com

relação à sua natureza e fazer crer num sacrifício ilusório de sua vida,

numa comédia indigna de um homem simplesmente honesto, indigna,

portanto, e com mais forte razão de um ser tão superior. numa palavra:

ele teria abusado da boa-fé dos seus contemporâneos e da posteridade.

 

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