A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Uranografia geral

 

o profundo olhar do telescópio percebe através das regiões transparentes

do nosso céu e a que dais o nome de nebulosas irresolúveis, as quais vos

parecem ligeiras nuvens de poeira branca, perdidas num ponto desco-

nhecido do espaço etéreo. lá se revelam e desdobram novos mundos,

cujas condições variadas e diversas das que são peculiares ao vosso globo

lhes dão uma vida que as vossas concepções não podem imaginar, nem os

vossos estudos comprovar. é lá que em toda a sua plenitude resplandece

o poder criador. Àquele que vem das regiões que o vosso sistema ocupa,

outras leis se deparam em ação e suas forças regem as manifestações da

vida. e os novos caminhos que se nos apresentam em tão singulares regi-

ões abrem-nos surpreendentes perspectivas.48

48 Nota de Allan Kardec: Dá-se, em Astronomia, o nome de nebulosas irresolúveis àquelas em que ainda

se não puderam distinguir as estrelas que as compõem. Foram, a princípio, consideradas acervos de

matéria cósmica em vias de condensação para formar mundos; hoje, porém, geralmente se entende

que essa aparência é devida ao afastamento e que, com instrumentos bastante poderosos, todas

seriam resolúveis.

Uma comparação familiar pode dar ideia, embora muito imperfeita, das nebulosas resolúveis: são

os grupos de centelhas projetadas pelas bombas dos fogos de artifício, no momento de explodirem.

Cada uma dessas centelhas figurará uma estrela e o conjunto delas a nebulosa, ou grupo de estrelas

reunidas num ponto do espaço e submetidas a uma lei comum de atração e de movimento. Vistas de

certa distância, mal se distinguem essas centelhas, tendo o grupo por elas formado a aparência de

uma nuvenzinha de fumaça. Não seria exata esta comparação, se se tratasse de massas de matéria

cósmica condensada.

A nossa Via Láctea é uma dessas nebulosas. Conta perto de 30 milhões de estrelas ou sóis que ocu-

pam nada menos de algumas centenas de trilhões de léguas de extensão e, entretanto, não é a maior.

Suponhamos apenas uma média de 20 planetas habitados circulando em torno de cada sol: teremos

600 milhões de mundos só para o nosso grupo.

Se nos pudéssemos transportar da nossa nebulosa para outra, aí estaríamos como em meio da nossa

Via Láctea, porém com um céu estrelado de aspecto inteiramente diverso e este, malgrado as suas

dimensões colossais, nos pareceria, de longe, um pequenino floco lenticular perdido no infinito.

Mas, antes de atingirmos a nova nebulosa, seríamos qual viajante que deixa uma cidade e percorre

vasto país inabitado, antes que chegue a outra cidade. Teríamos transposto incomensuráveis espa-

ços desprovidos de estrelas e de mundos, o que Galileu denominou os desertos do espaço. À medi-

da que avançássemos, veríamos a nossa nebulosa afastar-se atrás de nós, diminuindo de extensão

às nossas vistas, ao mesmo tempo que, diante de nós, se apresentaria aquela para a qual nos diri-

gíssemos, cada vez mais distinta, semelhante à massa de centelhas de bomba de fogos de artifício.

Transportando-nos pelo pensamento às regiões do espaço além do arquipélago da nossa nebulosa,

veremos em torno de nós milhões de arquipélagos semelhantes e de formas diversas, contendo

cada um milhões de sóis e centenas de milhões de mundos habitados.

Tudo o que nos possa identificar com a imensidade da extensão e com a estrutura do universo é

de utilidade para a ampliação das ideias, tão restringidas pelas crenças vulgares. Deus avulta aos

nossos olhos, à medida que melhor compreendemos a grandeza de suas obras e nossa infimida-

de. Estamos longe, como se vê, da crença que a gênese moisaica implantou e que fez da nossa

pequenina, imperceptível Terra, a criação principal de Deus e dos seus habitantes os únicos objetos

da sua solicitude. Compreendemos a vaidade dos homens que creem que tudo no universo foi feito

para eles e dos que ousam discutir a existência do Ente supremo. Dentro de alguns séculos, causará

espanto que uma religião feita para glorificar a Deus o tenha rebaixado a tão mesquinhas propor-

ções e que haja repelido, como concepção do espírito do mal, as descobertas que somente vieram

 

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Capítulo VI

 

Eterna sucessão dos mundos

 

48. vimos que uma única lei, primordial e geral, foi outorgada

ao universo, para lhe assegurar eternamente a estabilidade, e que essa

lei geral nos é perceptível aos sentidos por muitas ações particulares que

nomeamos forças diretrizes da natureza. vamos agora mostrar que a har-

monia do mundo inteiro, considerada sob o duplo aspecto da eternidade

e do espaço, é garantida por essa lei suprema.

49. com efeito, se remontarmos à origem primária das primitivas

aglomerações da substância cósmica, notaremos que, sob o império dessa

lei, a matéria sofre as transformações necessárias, que levam do gérmen

ao fruto maduro, e que, sob a impulsão das diversas forças nascidas dessa

lei, ela percorre a escala das revoluções periódicas. primeiramente, centro

fluídico dos movimentos; em seguida, gerador dos mundos; mais tarde,

núcleo central e atrativo das esferas que lhe nasceram do seio.

Já sabemos que essas leis presidem à história do cosmo; o que

agora importa saber é que elas presidem igualmente à destruição dos as-

tros, porquanto a morte não é apenas uma metamorfose do ser vivo, mas

também uma transformação da matéria inanimada. se é exato dizer-se,

em sentido literal, que a vida só é acessível à foice da morte, não menos

exato é dizer-se que para a substância é de toda necessidade sofrer as

transformações inerentes à sua constituição.

50. temos aqui um mundo que, desde o primitivo berço, percor-

reu toda a extensão dos anos que a sua organização especial lhe permitia

percorrer. extinguiu-se-lhe o foco interior da existência, seus elementos

perderam a virtude inicial; os fenômenos da natureza, que reclamavam,

para se produzirem, a presença e a ação das forças outorgadas a esse mun-

do, já não mais podem produzir-se, porque a alavanca da atividade delas

já não dispõe do ponto de apoio que lhe era indispensável.

ora, dar-se-á que essa terra extinta e sem vida vai continuar a

gravitar nos espaços celestes, sem uma finalidade, e passar como cinza

inútil pelo turbilhão dos céus? dar-se-á permaneça inscrita no livro da

vida universal, quando já se tornou letra morta e vazia de sentido? não.

 

aumentar a nossa admiração pela sua onipotência, iniciando-nos nos grandiosos mistérios da cria-

ção. Ainda maior será o espanto, quando souberem que essas descobertas foram repelidas porque

emancipariam o espírito dos homens e tirariam a preponderância dos que se diziam representantes

de Deus na Terra.

 

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