A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

O bem e o mal

 

o melhor; o espírito se lhe entorpeceria na inatividade; nada inventaria,

nem descobriria. A dor é o aguilhão que o impele para a frente, na senda do

progresso.

6. porém, os males mais numerosos são os que o homem cria pelos

seus vícios, os que provêm do seu orgulho, do seu egoísmo, da sua ambi-

ção, da sua cupidez, de seus excessos em tudo. Aí a causa das guerras e das

calamidades que estas acarretam, das dissensões, das injustiças, da opressão

do fraco pelo forte, da maior parte, afinal, das enfermidades.

deus promulgou leis plenas de sabedoria, tendo por único objetivo

o bem. em si mesmo encontra o homem tudo o que lhe é necessário para

cumpri-las. A consciência lhe traça a rota, a lei divina lhe está gravada no

coração e, ademais, deus lha lembra constantemente por intermédio de

seus messias e profetas, de todos os espíritos encarnados que trazem a

missão de o esclarecer, moralizar e melhorar e, nestes últimos tempos, pela

multidão dos espíritos desencarnados que se manifestam em toda parte. Se

o homem se conformasse rigorosamente com as Leis divinas, não há duvidar de

que se pouparia aos mais agudos males e viveria ditoso na Terra. se assim pro-

cede, é por virtude do seu livre-arbítrio: sofre então as consequências do

seu proceder. (O evangelho segundo o espiritismo, cap. v, item 4 e seguintes.)

7. entretanto, deus, todo bondade, pôs o remédio ao lado do mal,

isto é, faz que do próprio mal saia o bem. um momento chega em que o

excesso do mal moral se torna intolerável e impõe ao homem a necessidade

de mudar de vida. instruído pela experiência, ele se sente compelido a pro-

curar no bem o remédio, sempre por efeito do seu livre-arbítrio. Quando

toma melhor caminho, é por sua vontade e porque reconheceu os incon-

venientes do outro. A necessidade, pois, o constrange a melhorar-se moral-

mente, para ser mais feliz, do mesmo modo que o constrangeu a melhorar

as condições materiais da sua existência (item 5).

8. pode dizer-se que o mal é a ausência do bem, como o frio é a ausên-

cia do calor. Assim como o frio não é um fluido especial, também o mal não é

atributo distinto; um é o negativo do outro. onde não existe o bem, forço-

samente existe o mal. não praticar o mal, já é um princípio do bem. Deus

somente quer o bem; só do homem procede o mal. Se na Criação houvesse um

ser preposto ao mal, ninguém o poderia evitar; mas, tendo o homem a causa do

mal em SI MESMO, tendo simultaneamente o livre-arbítrio e por guia as Leis

divinas, evitá-lo-á sempre que o queira.

 

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Capítulo III

 

tomemos para comparação um fato vulgar. sabe um proprietário

que nos confins de suas terras há um lugar perigoso, onde poderia perecer

ou ferir-se quem por lá se aventurasse. Que faz, a fim de prevenir os aciden-

tes? manda colocar perto um aviso, proibindo que prossigam os que por ali

passem, devido ao perigo. Aí está a lei, que é sábia e previdente. se, apesar

de tudo, um imprudente desatende o aviso, vai além do ponto onde este

se encontra e sai-se mal, de quem se pode ele queixar, senão de si próprio?

Assim sucede com todo o mal: evitá-lo-ia o homem se cumprisse as

leis divinas. por exemplo: deus pôs limite à satisfação das necessidades;

por meio da saciedade o homem é avisado desse limite; se o ultrapassa, fá-

-lo voluntariamente. As doenças, as enfermidades, a morte, que daí podem

resultar, provêm da sua imprevidência, não de deus.

9. decorrendo, o mal, das imperfeições do homem e tendo sido este

criado por deus, dir-se-á, deus não deixa de ter criado, se não o mal, pelo

menos, a causa do mal; se houvesse criado perfeito o homem, o mal não

existiria.

se fora criado perfeito, o homem fatalmente penderia para o bem.

ora, em virtude do seu livre-arbítrio, ele não pende fatalmente nem para o

bem, nem para o mal. Quis deus que ele ficasse sujeito à lei do progresso

e que o progresso resulte do seu trabalho, a fim de que lhe pertença o fruto

deste, da mesma maneira que lhe cabe a responsabilidade do mal que por

sua vontade pratique. A questão, pois, consiste em saber-se qual é, no ho-

mem, a origem da sua propensão para o mal.21

10. estudando-se todas as paixões e, mesmo, todos os vícios, vê-se

que as raízes de umas e outros se acham no instinto de conservação, ins-

tinto que se encontra em toda a pujança nos animais e nos seres primitivos

mais próximos da animalidade, nos quais ele exclusivamente domina,

sem o contrapeso do senso moral, por não ter ainda o ser nascido para a

vida intelectual. o instinto se enfraquece, à medida que a inteligência se

desenvolve, porque esta domina a matéria.

 

21 Nota de Allan Kardec: O erro está em pretender-se que a alma haja saído perfeita das mãos do Criador,

quando este, ao contrário, quis que a perfeição resulte da depuração gradual do Espírito e seja obra

sua. Houve Deus por bem que a alma, dotada de livre-arbítrio, pudesse optar entre o bem e o mal e

chegasse às suas finalidades últimas de forma militante e resistindo ao mal. Se houvera criado a alma

tão perfeita quanto Ele e, ao sair-lhe ela das mãos, a houvesse associado à sua beatitude eterna, Deus

tê-la-ia feito, não à sua imagem, mas semelhante a si próprio. (Bonnamy, A razão do espiritismo, cap. VI.)

 

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