A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
Os milagres do Evangelho
onde o sepultamento era imediato.171 é, pois, de todo ponto prová-
vel que, nos dois casos acima, apenas síncope ou letargia houvesse. o
próprio Jesus declara positivamente, com relação à filha de Jairo: “Esta
menina,” disse ele, “não está morta, está apenas adormecida.”
dado o poder fluídico que ele possuía, nada de espantoso há
em que esse fluido vivificante, acionado por uma vontade forte, haja
reanimado os sentidos em torpor; que haja mesmo feito voltar ao corpo
o espírito, prestes a abandoná-lo, uma vez que o laço perispirítico ainda
se não rompera definitivamente. para os homens daquela época, que
consideravam morto o indivíduo desde que deixara de respirar, havia
ressurreição em casos tais; mas, o que na realidade havia era cura e não
ressurreição, na acepção legítima do termo.
40. A ressurreição de lázaro, digam o que disserem, de nenhum
modo infirma este princípio. ele estava, dizem, havia quatro dias no
sepulcro; sabe-se, porém, que há letargias que duram oito dias e até
mais. Acrescentam que já cheirava mal, o que é sinal de decomposição.
esta alegação também nada prova, dado que em certos indivíduos há
decomposição parcial do corpo, mesmo antes da morte, havendo em tal
caso cheiro de podridão. A morte só se verifica quando são atacados os
órgãos essenciais à vida.
e quem podia saber que lázaro já cheirava mal? foi sua irmã
maria quem o disse. mas como o sabia ela? por haver já quatro dias
que lázaro fora enterrado, ela o supunha; nenhuma certeza, entretanto,
podia ter. (cap. Xiv, item 29.)172
171 Nota de Allan Kardec: Uma prova desse costume se nos depara nos Atos dos Apóstolos, 5:5 e seguintes.
“Ananias, tendo ouvido aquelas palavras, caiu e rendeu o Espírito e todos os que ouviram fa-
lar disso foram presas de grande temor. — Logo, alguns rapazes lhe vieram buscar o corpo e,
tendo-o levado, o enterraram. — Passadas umas três horas, sua mulher (Safira), que nada sabia
do que se dera, entrou. — E Pedro lhe disse... etc. — No mesmo instante, ela lhe caiu aos pés e
rendeu o Espírito. Aqueles rapazes, voltando, a encontraram morta e, levando-a, enterraram-na
junto do marido.”
172 Nota de Allan Kardec: O fato seguinte prova que a decomposição precede algumas vezes a morte.
No Convento do Bom Pastor, fundado em Toulon, pelo padre Marin, capelão dos cárceres, e desti-
nado às decaídas que se arrependem, encontrava-se uma rapariga que suportara os mais terríveis
sofrimentos com a calma e a impassibilidade de uma vítima expiatória. Em meio de suas dores
parecia sorrir para uma visão celestial. Como Santa Teresa, pedia lhe fosse dado sofrer mais, embo-
ra suas carnes já se achassem em frangalhos, com a gangrena a lhe devastar todos os membros.
Por sábia previdência, os médicos tinham recomendado que fizessem a inumação do corpo, logo
após o trespasse. Coisa singular! Mal a doente exalou o último suspiro, cessou todo o trabalho de
decomposição; desapareceram as exalações cadaverosas, de sorte que durante 36 horas pôde o
corpo ficar exposto às preces e à veneração da comunidade.
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Capítulo XV
Jesus caminha sobre a água
41. logo, fez Jesus que seus discípulos tomassem a barca e passassem para a outra
margem antes dele, que ficava a despedir o povo. — depois de o ter despedido,
subiu a um monte para orar e, tendo caído a noite, achou-se ele sozinho naquele
lugar.
entrementes, a barca era fortemente açoitada pelas ondas, em meio do mar, por
ser contrário o vento. — mas na quarta vigília da noite, Jesus foi ter com eles,
caminhando por sobre o mar.173
— Quando eles o viram andando sobre o mar, turbaram-se e diziam: “é um
fantasma e se puseram a gritar amedrontados.” Jesus então lhes falou, dizendo:
“tranquilizai-vos, sou eu, não tenhais medo.”
pedro lhe respondeu: “senhor, se és tu, manda que eu vá ao teu encontro, cami-
nhando sobre as águas.” disse-lhe Jesus: “vem.” pedro, descendo da barca, ca-
minhava sobre a água ao encontro de Jesus. mas vindo um grande vento ele teve
medo; e como começasse a submergir, clamou: “senhor, salva-me.” logo, Jesus,
estendendo-lhe a mão, disse: “Homem de pouca fé! por que duvidaste?” — e,
tendo subido para a barca, cessou o vento. — então, os que estavam na barca,
aproximando-se dele, o adoraram, dizendo: “és verdadeiramente filho de deus.”
(Mateus, 14:22 a 33.)
42. este fenômeno encontra explicação natural nos princípios acima
expostos, cap. Xiv, item 43.
exemplos análogos provam que ele nada tem de impossível, nem
de miraculoso, pois que se produz sob a ação das leis da natureza. pode
operar-se de duas maneiras.
Jesus, embora estivesse vivo, pôde aparecer sobre a água, com uma
forma tangível, estando alhures o seu corpo. é a hipótese mais provável.
fácil é mesmo descobrir-se na narrativa alguns sinais característicos das
aparições tangíveis. (cap. Xiv, itens 35 a 37.)
por outro lado, também pode ter sucedido que seu corpo fosse sus-
tentado e neutralizada a sua gravidade pela mesma força fluídica que man-
tém no espaço uma mesa, sem ponto de apoio. idêntico efeito se produz
muitas vezes com os corpos humanos.
173 Nota de Allan Kardec: O lago de Genesaré ou de Tiberíades.
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Os milagres do Evangelho
Transfiguração
43. seis dias depois, tendo chamado de parte a pedro, tiago e João, Jesus os
levou consigo a um alto monte afastado174 e se transfigurou diante deles. —
enquanto orava, seu rosto pareceu inteiramente outro; suas vestes se tornaram
brilhantemente luminosas e brancas qual a neve, como não há pisoeiro na terra
que possa fazer alguma tão alva. — e eles viram aparecer elias e moisés, a entreter
palestra com Jesus.
então, disse pedro a Jesus: “mestre, estamos bem aqui; façamos três tendas: uma
para ti, outra para moisés, outra para elias.” — é que ele não sabia o que dizia,
tão espantado estava.
Ao mesmo tempo, apareceu uma nuvem que os cobriu; e, dessa nuvem, uma voz
partiu, fazendo ouvir estas palavras: “este é meu filho bem-amado; escutai-o.”
logo, olhando para todos os lados, a ninguém mais viram, senão a Jesus, que
ficara a sós com eles.
Quando desciam do monte, ordenou-lhes ele que a ninguém falassem do que
tinham visto, até que o filho do Homem ressuscitasse dentre os mortos. — e eles
conservaram em segredo o fato, inquirindo uns dos outros o que teria ele querido
dizer com estas palavras: “Até que o filho do Homem tenha ressuscitado dentre os
mortos.” (Marcos, 9:1 a 9.)
44. é ainda nas propriedades do fluido perispirítico que se en-
contra a explicação deste fenômeno. A transfiguração, explicada no
cap. Xiv, item 39, é um fato muito comum que, em virtude da ir-
radiação fluídica, pode modificar a aparência de um indivíduo; mas,
a pureza do perispírito de Jesus permitiu que seu espírito lhe desse
excepcional fulgor. Quanto à aparição de moisés e elias cabe intei-
ramente no rol de todos os fenômenos do mesmo gênero. (cap. Xiv,
itens 35 e seguintes.)
de todas faculdades que Jesus revelou, nenhuma se pode apontar
estranha às condições da humanidade e que se não encontre comumente
nos homens, porque estão todas na ordem da natureza. pela superiorida-
de, porém, da sua essência moral e de suas qualidades fluídicas, aquelas
174 Nota de Allan Kardec: O Monte Tabor, a sudoeste do lago de Tabarich e a 11 quilômetros a sudeste de
Nazaré, com cerca de 1.000 metros de altura.
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Capítulo XV
faculdades atingiam nele proporções muito acima das que são vulgares.
posto de lado o seu envoltório carnal, ele nos patenteava o estado dos puros
espíritos.
Tempestade aplacada
45. certo dia, tendo tomado uma barca com seus discípulos, disse-lhes ele: “pas-
semos à outra margem do lago.” partiram então. durante a travessia, ele adorme-
ceu. — então, um grande turbilhão de vento se abateu de súbito sobre o lago, de
sorte que, enchendo-se de água a barca, eles se viam em perigo. Aproximaram-se,
pois, dele e o despertaram, dizendo-lhe: “mestre, perecemos.” Jesus, levantando-
-se, falou, ameaçador, aos ventos e às ondas agitadas e uns e outras se aplacaram,
sobrevindo grande calma. ele então lhes disse: “onde está a vossa fé?” eles, po-
rém, cheios de temor e admiração, perguntavam uns aos outros: “Quem é este que
assim dá ordens ao vento e às ondas, e eles lhe obedecem?” (Lucas, 8:22 a 25.)
46. Ainda não conhecemos bastante os segredos da natureza para di-
zer se há ou não inteligências ocultas presidindo à ação dos elementos. na
hipótese de haver, o fenômeno em questão poderia ter resultado de um ato
de autoridade sobre essas inteligências e provaria um poder que a nenhum
homem é dado exercer.
como quer que seja, o fato de estar Jesus a dormir tranquilamente,
durante a tempestade, atesta de sua parte uma segurança que se pode ex-
plicar pela circunstância de que seu espírito via não haver perigo nenhum
e que a tempestade ia amainar.
Bodas de Caná
47. este milagre, referido unicamente no evangelho de João, é
apresentado como o primeiro que Jesus operou e, nessas condições, deve-
ra ter sido um dos mais notados. entretanto, bem fraca impressão parece
haver produzido, pois que nenhum outro evangelista dele trata. fato tão
extraordinário era para deixar espantados, no mais alto grau, os convi-
vas e, sobretudo, o dono da casa, os quais, todavia, parece que não o
perceberam.
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