A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Uranografia geral

 

56. mas a essa ideia eminentemente justa da criação, faz-se mister

acrescentar a da humanidade solidária e é nisso que consiste o mistério

da eternidade futura.

uma mesma família humana foi criada na universalidade dos

mundos e os laços de uma fraternidade que ainda não sabeis apreciar

foram postos a esses mundos. Se os astros que se harmonizam em seus vas-

tos sistemas são habitados por inteligências, não o são por seres desconhecidos

uns dos outros, mas, ao contrário, por seres que trazem marcado na fronte o

mesmo destino, que se hão de encontrar temporariamente segundo suas fun-

ções de vida e suas mútuas simpatias. é a grande família dos espíritos que

povoam as terras celestes; é a grande irradiação do espírito divino que

abrange a extensão dos céus e que permanece como tipo primitivo e final

da perfeição espiritual.

57. por que singular aberração se há podido crer fosse mister negar

à imortalidade as vastas regiões do éter, quando a encerravam dentro de

um limite inadmissível e de uma dualidade absoluta? o verdadeiro siste-

ma do mundo deveria, então, preceder à verdadeira doutrina dogmática

e a ciência preceder à teologia? esta se transviará tanto que irá colocar

sua base sobre a metafísica? A resposta é fácil e nos mostra que a nova

filosofia se assentará triunfante nas ruínas da antiga, porque sua base se

terá erguido vitoriosa sobre os antigos erros.

 

Diversidade dos mundos

 

58. Acompanhando-nos em nossas excursões celestes, visitastes co-

nosco as regiões imensas do espaço. debaixo das nossas vistas, os sóis

sucederam aos sóis, os sistemas aos sistemas, as nebulosas às nebulosas;

diante dos nossos passos, desenrolou-se o panorama esplêndido da har-

monia do cosmo e antegozamos a ideia do infinito, que somente de

acordo com a nossa perfectibilidade futura poderemos compreender em

toda a sua extensão. os mistérios do éter nos desvendaram o seu enigma

até aqui indecifrável e, pelo menos, concebemos a ideia da universalidade

das coisas. cumpre que agora nos detenhamos a refletir.

59. é belo, sem dúvida, haver reconhecido quanto é ínfima a terra

e medíocre a sua importância na hierarquia dos mundos; é belo haver

abatido a presunção humana, que nos é tão cara, e nos termos humilhado

 

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Capítulo VI

 

ante a grandeza absoluta; ainda mais belo, no entanto, será que interpre-

temos em sentido moral o espetáculo de que fomos testemunhas. Quero

falar do poder infinito da natureza e da ideia que devemos fazer do seu

modo de ação nos diversos domínios do vasto universo.

60. Acostumados, como estamos, a julgar das coisas pela nossa

insignificante e pobre habitação, imaginamos que a natureza não pode

ou não teve de agir sobre os outros mundos, senão segundo as regras que

lhe conhecemos na terra. ora, precisamente neste ponto é que importa

reformemos a nossa maneira de ver.

lançai por um instante o olhar sobre uma região qualquer do vos-

so globo e sobre uma das produções da vossa natureza. não reconhece-

reis aí o cunho de uma variedade infinita e a prova de uma atividade sem

par? não vedes na asa de um passarinho das canárias, na pétala de um

botão de rosa entreaberto a prestigiosa fecundidade dessa bela natureza?

Apliquem-se aos seres que adejam nos ares os vossos estudos, des-

çam eles à violeta dos prados, mergulhem nas profundezas do oceano,

em tudo e por toda a parte lereis esta verdade universal: A natureza oni-

potente age conforme os lugares, os tempos e as circunstâncias; ela é una

em sua harmonia geral, mas múltipla em suas produções; brinca com

um sol, como com uma gota de água; povoa de seres vivos um mundo

imenso com a mesma facilidade com que faz se abra o ovo posto pela

borboleta.

61. ora, se é tal a variedade que a natureza nos há podido eviden-

ciar em todos os sítios deste pequeno mundo tão acanhado, tão limita-

do, quão mais ampliado não deveis considerar esse modo de ação, pon-

derando nas perspectivas dos mundos enormes! quão mais desenvolvida

e pujante não a deveis reconhecer, operando nesses mundos maravilho-

sos que, muito mais do que a terra, lhe atestam a inapreciável perfeição!

não vejais, pois, em torno de cada um dos sóis do espaço, apenas

sistemas planetários semelhantes ao vosso sistema planetário; não vejais,

nesses planetas desconhecidos, apenas os três reinos que se estadeiam ao

vosso derredor. pensai, ao contrário, que, assim como nenhum rosto de

homem se assemelha a outro rosto em todo o gênero humano, também

uma portentosa diversidade, inimaginável, se acha espalhada pelas mo-

radas eternas que vogam no seio dos espaços.

 

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