A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Os milagres do Evangelho

 

considerado em si mesmo, pouca importância tem o fato, em

comparação com os que, verdadeiramente, atestam as qualidades espiri-

tuais de Jesus. Admitido que as coisas hajam ocorrido, conforme foram

narradas, é de notar-se seja esse, de tal gênero, o único fenômeno que

se tenha produzido. Jesus era de natureza extremamente elevada, para

se ater a efeitos puramente materiais, próprios apenas a aguçar a curio-

sidade da multidão que, então, o teria nivelado a um mágico. ele sabia

que as coisas úteis lhe conquistariam mais simpatias e lhe granjeariam

mais adeptos, do que as que facilmente passariam por fruto de grande

habilidade e destreza (item 27).

se bem que, a rigor, o fato se possa explicar, até certo ponto, por

uma ação fluídica que houvesse, como o magnetismo oferece muitos

exemplos, mudado as propriedades da água, dando-lhe o sabor do vi-

nho, pouco provável é se tenha verificado semelhante hipótese, dado

que, em tal caso, a água, tendo do vinho unicamente o sabor, houvera

conservado a sua coloração, o que não deixaria de ser notado. mais

racional é se reconheça aí uma daquelas parábolas tão frequentes nos

ensinos de Jesus, como a do filho pródigo, a do festim de bodas, do mau

rico, da figueira que secou e tantas outras que, todavia, se apresentam

com caráter de fatos ocorridos. provavelmente, durante o repasto, terá

ele aludido ao vinho e à água, tirando de ambos um ensinamento. Jus-

tificam esta opinião as palavras que a respeito lhe dirige o mordomo:

“toda gente serve em primeiro lugar o vinho bom e, depois que todos

o têm bebido muito, serve o menos fino; tu, porém, guardas até agora

o bom vinho.”

entre duas hipóteses, deve-se preferir a mais racional e os espíritas

não são tão crédulos que por toda parte vejam manifestações, nem tão

absolutos em suas opiniões, que pretendam explicar tudo por meio dos

fluidos.

 

Multiplicação dos pães

 

48. A multiplicação dos pães é um dos milagres que mais têm

intrigado os comentadores e alimentado, ao mesmo tempo, as zomba-

rias dos incrédulos. sem se darem ao trabalho de lhe perscrutar o sen-

tido alegórico, para estes últimos ele não passa de um conto pueril.

 

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Capítulo XV

 

entretanto, a maioria das pessoas sérias há visto na narrativa desse fato,

embora sob forma diferente da ordinária, uma parábola, em que se com-

para o alimento espiritual da alma ao alimento do corpo.

pode-se, todavia, perceber nela mais do que uma simples figura e

admitir, de certo ponto de vista, a realidade de um fato material, sem

que, para isso, seja preciso se recorra ao prodígio. é sabido que uma

grande preocupação de espírito, bem como a atenção fortemente presa

a uma coisa fazem esquecer a fome. ora, os que acompanhavam a Jesus

eram criaturas ávidas de ouvi-lo; nada há, pois, de espantar em que, fas-

cinadas pela sua palavra e também, talvez, pela poderosa ação magnética

que ele exercia sobre os que o cercavam, elas não tenham experimenta-

do a necessidade material de comer.

prevendo esse resultado, Jesus nenhuma dificuldade teve para

tranquilizar os discípulos, dizendo-lhes, na linguagem figurada que lhe

era habitual e admitido que realmente houvessem trazido alguns pães,

que estes bastariam para matar a fome à multidão. simultaneamente,

ministrava aos referidos discípulos um ensinamento, com o lhes dizer:

“dai-lhes vós mesmos de comer.” ensinava-lhes assim que também eles

podiam alimentar por meio da palavra.

desse modo, a par do sentido moral alegórico, produziu-se um

efeito fisiológico, natural e muito conhecido. o prodígio, no caso, está

no ascendente da palavra de Jesus, poderosa bastante para cativar a aten-

ção de uma multidão imensa, ao ponto de fazê-la esquecer-se de comer.

esse poder moral comprova a superioridade de Jesus, muito mais do que

o fato puramente material da multiplicação dos pães, que tem de ser

considerada como alegoria.

esta explicação, aliás, o próprio Jesus a confirmou nas duas pas-

sagens seguintes.

 

O fermento dos fariseus

 

49. ora, tendo seus discípulos passado para o outro lado do mar, esqueceram-

-se de levar pães. — Jesus lhes disse: “tende o cuidado de precatar-vos do fer-

mento dos fariseus e dos saduceus.” — eles, porém, pensavam e diziam entre

si: “é porque não trouxemos pães.”

 

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