A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 76 de 81 · parte 1/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

cApítulo Xvi · teoria da presciência

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

M

 

teoria da presciência

 

1. como é possível o conhecimento do futuro? compreende-se

a possibilidade da previsão dos acontecimentos que devam resultar do

estado presente; porém, não a dos que nenhuma relação guardem com

esse estado, nem, ainda menos, a dos que são comumente atribuídos

ao acaso. não existem as coisas futuras, dizem; elas ainda se encontram

no nada; como, pois, se há de saber que se darão? são, no entanto, em

grande número os casos de predições realizadas, donde forçosa se torna

a conclusão de que ocorre aí um fenômeno para cuja explicação falta a

chave, porquanto não há efeito sem causa. é essa causa que vamos tentar

descobrir e é ainda o espiritismo, já de si mesmo chave de tantos misté-

rios, que no-la fornecerá, mostrando-nos, ao demais, que o próprio fato

das predições não se produz com exclusão das leis naturais.

tomemos, para comparação, um exemplo nas coisas usuais. ele

nos ajudará a compreender o princípio que teremos de desenvolver.

2. suponhamos um homem colocado no cume de uma alta

montanha, a observar a vasta extensão da planície em derredor. nessa

situação, o espaço de uma légua pouca coisa será para ele, que poderá

facilmente apanhar, de um golpe de vista, todos os acidentes do terre-

no, de um extremo a outro da estrada que lhe esteja diante dos olhos.

o viajor, que pela primeira vez percorra essa estrada, sabe que, cami-

nhando, chegará ao fim dela. constitui isso uma simples previsão da

consequência que terá a sua marcha. entretanto, os acidentes do terre-

no, as subidas e descidas, os cursos de água que terá de transpor, os bos-

ques que haja de atravessar, os precipícios em que poderá cair, as casas

hospitaleiras onde lhe será possível repousar, os ladrões que o espreitem

Capítulo XVI

 

para roubá-lo, tudo isso independe da sua pessoa; é para ele o desco-

nhecido, o futuro, porque a sua vista não vai além da pequena área que

o cerca. Quanto à duração, mede-a pelo tempo que gasta em perlustrar

o caminho. tirai-lhe os pontos de referência e a duração desaparecerá.

para o homem que está em cima da montanha e que o acompanha com

o olhar, tudo aquilo está presente. suponhamos que esse homem desce

do seu ponto de observação e, indo ao encontro do viajante, lhe diz:

“em tal momento, encontrarás tal coisa, serás atacado e socorrido.”

estará predizendo o futuro, mas, futuro para o viajante, não para ele,

autor da previsão, pois que, para ele, esse futuro é presente.

3. se, agora, sairmos do âmbito das coisas puramente materiais e

entrarmos, pelo pensamento, no domínio da vida espiritual, veremos o

mesmo fenômeno produzir-se em maior escala. os espíritos desmateria-

lizados são como o homem da montanha; o espaço e a duração não exis-

tem para eles. mas a extensão e a penetração da vista são proporcionadas

à depuração deles e à elevação que alcançaram na hierarquia espiritual.

com relação aos espíritos inferiores, aqueles são quais homens muni-

dos de possantes telescópios, ao lado de outros que apenas dispõem dos

olhos. nos espíritos inferiores, a visão é circunscrita, não só porque eles

dificilmente podem afastar-se do globo a que se acham presos, como

também porque a grosseria de seus perispíritos lhes vela as coisas distan-

tes, do mesmo modo que um nevoeiro as oculta aos olhos do corpo.

bem se compreende, pois, que, de conformidade com o grau de

sua perfeição, possa um espírito abarcar um período de alguns anos,

de alguns séculos, mesmo de muitos milhares de anos, porquanto, que

é um século em face do infinito? diante dele, os acontecimentos não

se desenrolam sucessivamente, como os incidentes da estrada diante do

viajor: ele vê simultaneamente o começo e o fim do período; todos os

eventos que, nesse período, constituem o futuro para o homem da terra

são o presente para ele, que poderia então vir dizer-nos com certeza: tal

coisa acontecerá em tal época, porque essa coisa ele a vê como o homem

da montanha vê o que espera o viajante no curso da viagem. se assim

não procede, é porque poderia ser prejudicial ao homem o conhecimento

do futuro, conhecimento que lhe pearia o livre-arbítrio, paralisá-lo-ia

no trabalho que lhe cumpre executar a bem do seu progresso. o se lhe

 

318

Teoria da presciência

 

conservarem desconhecidos o bem e o mal com que topará constitui para

o homem uma prova.

se tal faculdade, mesmo restrita, se pode contar entre os atributos

da criatura, em que grau de potencialidade não existirá no criador, que

abrange o infinito? para o criador, o tempo não existe: o princípio e o

fim dos mundos lhe são o presente. dentro desse panorama imenso, que

é a duração da vida de um homem, de uma geração, de um povo?

4. entretanto, como o homem tem de concorrer para o progresso

geral, como certos acontecimentos devem resultar da sua cooperação,

pode convir que, em casos especiais, ele pressinta esses acontecimentos,

a fim de lhes preparar o encaminhamento e de estar pronto a agir, em

chegando a ocasião. por isso é que deus, às vezes, permite se levante

uma ponta do véu; mas, sempre com fim útil, nunca para satisfação de

vã curiosidade. tal missão pode, pois, ser conferida, não a todos os espí-

ritos, porquanto muitos há que do futuro não conhecem mais do que os

homens, porém a alguns espíritos bastante adiantados para desempenhá-

-la. ora, é de notar-se que as revelações dessa espécie são sempre feitas

espontaneamente e jamais, ou, pelo menos, muito raramente, em respos-

ta a uma pergunta direta.

5. pode também semelhante missão ser confiada a certos homens,

desta maneira:

Aquele a quem é dado o encargo de revelar uma coisa oculta recebe,

à sua revelia e por inspiração dos espíritos que a conhecem, a revelação

dela e a transmite maquinalmente, sem se aperceber do que faz. é sabido,

ao demais, que, assim durante o sono, como em estado de vigília, nos

êxtases da dupla vista, a alma se desprende e adquire, em grau mais ou

menos alto, as faculdades do espírito livre. se for um espírito adiantado,

se, sobretudo, houver recebido, como os profetas, uma missão especial

para esse efeito, gozará, nos momentos de emancipação da alma, da fa-

culdade de abarcar, por si mesmo, um período mais ou menos extenso,

e verá, como presente, os sucessos desse período. pode então revelá-los

no mesmo instante, ou conservar lembrança deles ao despertar. se os

sucessos hajam de permanecer secretos, ele os esquecerá, ou apenas guar-

dará uma vaga intuição do que lhe foi revelado, bastante para o guiar

instintivamente.

 

319

Capítulo XVI

 

6. é assim que em certas ocasiões essa faculdade se desenvolve pro-

videncialmente, na iminência de perigos, nas grandes calamidades, nas

revoluções, e é assim também que a maioria das seitas perseguidas adqui-

re numerosos videntes. é ainda por isso que se veem os grandes capitães

avançar resolutamente contra o inimigo, certos da vitória; que homens

de gênio, como, por exemplo, cristóvão colombo, caminham para uma

meta, anunciando previamente, por assim dizer, o instante em que a

alcançarão. é que eles viram, essa meta, que, para seus espíritos, deixou

de ser o desconhecido.

nada, pois, tem de sobrenatural o dom da predição, mais do que

uma imensidade de outros fenômenos. ele se funda nas propriedades da

alma e na lei das relações do mundo visível com o mundo invisível, que

o espiritismo veio dar a conhecer.

A teoria da presciência talvez não resolva de modo absoluto todos

os casos que se possam apresentar de revelação do futuro, mas não se

pode deixar de convir em que lhe estabelece o princípio fundamental.

7. muitas vezes, as pessoas dotadas da faculdade de prever, seja

no estado de êxtase, seja no de sonambulismo, veem os acontecimentos

como que desenhados num quadro, o que também se poderia explicar

pela fotografia do pensamento. Atravessando o pensamento o espaço,

como os sons atravessam o ar, um sucesso que esteja no dos espíritos

que trabalham para que ele se dê, ou no dos homens cujos atos devam

provocá-lo, pode formar uma imagem para o vidente; mas, como a sua

realização pode ser apressada ou retardada por um concurso de circuns-

tâncias, este último vê o fato, sem poder, todavia, determinar o momento

em que se dará. não raro acontece que aquele pensamento não passa de

um projeto, de um desejo, que se não concretizem em realidade, donde

os frequentes erros de fato e de data nas previsões. (cap. Xiv, itens13 e

seguintes.)

8. para compreendermos as coisas espirituais, isto é, para fazermos

delas ideia tão clara como a que fazemos de uma paisagem que tenhamos

ante os olhos, falta-nos em verdade um sentido, exatamente como ao

cego de nascença falta um que lhe faculte compreender os efeitos da luz,

das cores e da vista, sem o contato. daí se segue que somente por esforço

da imaginação e por meio de comparações com coisas materiais que nos

sejam familiares chegamos a consegui-lo. As coisas materiais, porém, não

 

320

Teoria da presciência

 

nos podem dar das coisas espirituais senão ideias muito imperfeitas, ra-

zão por que não se devem tomar ao pé da letra essas comparações e crer,

por exemplo, que a extensão das faculdades perceptivas dos espíritos

depende da efetiva elevação deles, nem que eles precisem estar em cima

de uma montanha ou acima das nuvens para abrangerem o tempo e o

espaço.

tal faculdade lhes é inerente ao estado de espiritualização, ou, se o

preferirem, de desmaterialização. Quer isto dizer que a espiritualização

produz um efeito que se pode comparar, se bem muito imperfeitamente,

ao da visão de conjunto que tem o homem colocado sobre a montanha.

esta comparação objetivava simplesmente mostrar que acontecimentos

pertencentes ainda, para uns, ao futuro, estão, para outros, ao presente e

podem assim ser preditos, o que não implica que o efeito se produza de

igual maneira.

para, portanto, gozar dessa percepção, não precisa o espírito trans-

portar-se a um ponto qualquer do espaço. pode possuí-la em toda a sua

plenitude aquele que na terra se acha ao nosso lado, tanto quanto se

achasse a mil léguas de distância, ao passo que nós nada vemos além do

nosso horizonte visual. não se operando a visão, nos espíritos, do mes-

mo modo, nem com os mesmos elementos que no homem, muito diver-

so é o horizonte visual dos primeiros. ora, é precisamente esse o sentido

que nos falece para o concebermos. O Espírito, ao lado do encarnado, é

como o vidente ao lado do cego.

9. devemos, além disso, ponderar que essa percepção não se limita

ao que diz respeito à extensão; que ela abrange a penetração de todas

as coisas. é, repetimo-lo, uma faculdade inerente e proporcionada ao

estado de desmaterialização. A encarnação amortece-a, sem, contudo, a

anular completamente, porque a alma não fica encerrada no corpo como

numa caixa. o encarnado a possui, embora sempre em grau menor do

que quando se acha completamente desprendido; é o que confere a certos

homens um poder de penetração que a outros falece inteiramente; maior

agudeza de visão moral; compreensão mais fácil das coisas extramateriais.

o espírito encarnado não somente percebe, como também se

lembra do que viu no estado de espírito livre e essa lembrança é como

um quadro que se lhe desenha na mente. na encarnação, ele vê, mas va-

gamente, como através de um véu; no estado de liberdade, vê e concebe

 

321

Capítulo XVI

 

claramente. O princípio da visão não lhe é exterior, está nele; essa a ra-

zão por que não precisa da luz exterior. por efeito do desenvolvimen-

to moral, alarga-se o círculo das ideias e da concepção; por efeito da

desmaterialização gradual do perispírito, este se purifica dos elementos

grosseiros que lhe alteravam a delicadeza das percepções, o que torna

fácil compreender-se que a ampliação de todas as faculdades acompanha

o progresso do espírito.

10. o grau da extensão das faculdades do espírito é que, na en-

carnação, o torna mais ou menos apto a conceber as coisas espirituais.

essa aptidão, todavia, não é corolário forçoso do desenvolvimento da

inteligência; a ciência vulgar não a dá, tanto assim que há homens de

grande saber tão cegos para as coisas espirituais, quanto outros o são

para as coisas materiais; são-lhes refratários, porque não as compreen-

dem, o que significa que ainda não progrediram em tal sentido, ao pas-

so que outros, de instrução e inteligência vulgares, as aprendem com a

maior facilidade, o que prova que já tinham de tais coisas uma intui-

ção prévia. é, para estes, uma lembrança retrospectiva do que viram e

souberam, quer na erraticidade, quer em suas existências anteriores,

como alguns têm a intuição das línguas e das ciências de que já foram

conhecedores.

11. Quanto ao futuro do espiritismo, os espíritos, como se sabe,

são unânimes em afirmar o seu triunfo próximo, a despeito dos obstácu-

los que lhe criem. fácil lhes é essa previsão, primeiramente, porque a sua

propagação é obra pessoal deles: concorrendo para o movimento, ou diri-

gindo-o, eles naturalmente sabem o que devem fazer; em segundo lugar,

basta-lhes entrever um período de curta duração: veem, nesse período,

ao longo do caminho, os poderosos auxiliares que deus lhe suscita e que

não tardarão a manifestar-se.

transportem-se os espíritas, embora sem serem espíritos desencar-

nados, a trinta anos apenas para diante, ao seio da geração que surge; daí

considerem o que se passa hoje com o espiritismo; acompanhem-lhe a

marcha progressiva e verão consumir-se em vãos esforços os que se creem

destinados a derrocá-lo. verão que esses tais pouco a pouco desaparecem

de cena e que, paralelamente, a árvore cresce e alonga cada dia mais as

suas raízes.

 

322

Teoria da presciência

 

12. As mais das vezes, os acontecimentos vulgares da vida privada

são consequência da maneira de proceder de cada um: este, de acordo

com as suas capacidades, com a sua habilidade, com a sua perseverança,

prudência e energia, terá êxito naquilo em que outro verá malogrados

todos os seus esforços, por efeito da sua inaptidão, de sorte que se pode

dizer que cada um é o artífice do seu próprio futuro, futuro que jamais

se encontra sujeito a uma cega fatalidade, independente da sua per-

sonalidade. conhecendo-se o caráter de um indivíduo, facilmente se

lhe pode predizer a sorte que o espera no caminho por onde haja ele

enveredado.

13. os acontecimentos que envolvem interesses gerais da humani-

dade têm a regulá-los a providência. Quando uma coisa está nos desíg-

nios de deus, ela se cumpre a despeito de tudo, ou por um meio, ou por

outro. os homens concorrem para que ela se execute; nenhum, porém, é

indispensável, pois, do contrário, o próprio deus estaria à mercê das suas

criaturas. se faltar aquele a quem incumba a missão de a executar, outro

será dela encarregado. não há missão fatal; o homem tem sempre a liber-

dade de cumprir ou não a que lhe foi confiada e que ele voluntariamente

aceitou. se não o faz, perde os benefícios que daí lhe resultariam e assu-

me a responsabilidade dos atrasos que possam resultar da sua negligência

ou da sua má vontade. se se tornar um obstáculo a que ela se cumpra,

está em deus afastá-lo com um sopro.

14. pode, portanto, ser certo o resultado final de um acontecimen-

to, por se achar este nos desígnios de deus; como, porém, quase sem-

pre, os pormenores e o modo de execução se encontram subordinados

às circunstâncias e ao livre-arbítrio dos homens, podem ser eventuais as

sendas e os meios. está nas possibilidades dos espíritos prevenir-nos do

conjunto, se convier que sejamos avisados; mas, para determinarem lugar

e data, fora mister conhecessem previamente a decisão que tomará este

ou aquele indivíduo. ora, se essa decisão ainda não lhe estiver na men-

te, poderá, tal venha ela a ser, apressar ou demorar a realização do fato,

modificar os meios secundários de ação, embora o mesmo resultado che-

gue sempre a produzir-se. é assim, por exemplo, que, pelo conjunto das

circunstâncias, podem os espíritos prever que uma guerra se acha mais

ou menos próxima, que é inevitável, sem, contudo, poderem predizer o

 

323

Capítulo XVI

 

dia em que começará, nem os incidentes pormenorizados que possam ser

modificados pela vontade dos homens.

15. para determinação da época dos acontecimentos futuros, será

preciso, ao demais, se leve em conta uma circunstância inerente à natureza

mesma dos espíritos.

o tempo, como o espaço, não pode ser avaliado senão com o auxílio

de pontos de referências que o dividam em períodos que se contem. na

terra, a divisão natural do tempo em dias e anos tem a marcá-la o levan-

tar e o pôr do sol, assim como a duração do movimento de translação do

planeta terreno. As unidades de medida do tempo necessariamente variam

conforme os mundos, pois que são diferentes os períodos astronômicos.

Assim, por exemplo, em Júpiter, os dias equivalem a dez das horas terres-

tres e os anos a mais de doze anos nossos.

Há, pois, para cada mundo, um modo diferente de computar-se a

duração, de acordo com a natureza das revoluções astrais que nele se efe-

tuam. Já haverá aí uma dificuldade para que espíritos que não conheçam

o nosso mundo determinem datas com relação a nós. Além disso, fora

dos mundos, não existem tais meios de apreciação. para um espírito, no

espaço, não há levantar nem pôr de sol a marcar os dias, nem revolução

periódica a marcar os anos; só há, para ele, a duração e o espaço infini-

tos. (cap. vi, itens 1 e seguintes.) Aquele, portanto, que jamais houvesse

vindo à terra nenhum conhecimento possuiria dos nossos cálculos que,

aliás, lhe seriam completamente inúteis. mais ainda: aquele que jamais

houvesse encarnado em nenhum mundo, nenhuma noção teria das frações

da duração. Quando um espírito estranho à terra vem aqui manifestar-se,

não pode assinar datas aos acontecimentos, senão identificando-se com os

nossos usos; ora, isso sem dúvida lhe é possível, porém, as mais das vezes,

ele nenhuma utilidade descobre nessa identificação.

16. os espíritos, que formam a população invisível do nosso globo,

onde eles já viveram e onde continuam a imiscuir-se na nossa vida, estão

naturalmente identificados com os nossos hábitos, cuja lembrança conser-

vam na erraticidade. poderão, por conseguinte, com maior facilidade, de-

terminar datas aos acontecimentos futuros, desde que os conheçam; mas,

além de que isso nem sempre lhes é permitido, eles se veem impedidos pela

razão de que, sempre que as circunstâncias de minúcias estão subordinadas

 

324

Teoria da presciência

 

ao livre-arbítrio e à decisão eventual do homem, nenhuma data precisa

existe realmente, senão depois que o acontecimento se tenha dado.

eis aí por que as predições circunstanciadas não podem apresentar

cunho de certeza e somente como prováveis devem ser acolhidas, mesmo

que não tragam eiva que as torne legitimamente suspeitas. por isso mesmo,

os espíritos verdadeiramente ponderados nada nunca predizem para épo-

cas determinadas, limitando-se a prevenir-nos do seguimento das coisas

que convenha conheçamos. insistir por obter informes precisos é expor-se

às mistificações dos espíritos levianos que predizem tudo o que se queira,

sem se preocuparem com a verdade, divertindo-se com os terrores e as

decepções que causem.

17. A forma geralmente empregada até agora nas predições faz delas

verdadeiros enigmas, as mais das vezes indecifráveis. essa forma misteriosa

e cabalística, de que nostradamus nos oferece o tipo mais completo, lhes

dá certo prestígio perante o vulgo, que tanto mais valor lhes atribui, quanto

mais incompreensíveis se mostrem. pela sua ambiguidade, elas se prestam

a interpretações muito diferentes, de tal sorte que, conforme o sentido que

se atribua a certas palavras alegóricas ou convencionais, conforme a manei-

ra por que se efetue o cálculo, singularmente complicado, das datas e, com

um pouco de boa vontade, nelas se encontra quase tudo o que se queira.

seja como for, não se pode deixar de convir em que algumas apre-

sentam caráter sério e confundem pela sua veracidade. é provável que a

forma velada tenha tido, em certo tempo, sua razão de ser e mesmo sua

necessidade.

Hoje, as circunstâncias são outras; o positivismo do século dar-se-ia

mal com a linguagem sibilina. daí vem que presentemente as predições já

não se revestem dessas formas singulares; nada têm de místicas as que os

espíritos fazem; eles usam a linguagem de toda gente, como o teriam feito

quando vivos na terra, porque não deixaram de pertencer à humanidade.

Avisam-nos das coisas futuras, pessoais ou gerais, quando necessário, na

medida da perspicácia de que são dotados, como o fariam conselheiros

e amigos. suas previsões, pois, são antes advertências, do que predições

propriamente ditas, as quais implicariam numa fatalidade absoluta. Além

disso, quase sempre motivam a opinião que manifestam, por não quererem

que o homem anule a sua razão sob uma fé cega e desejarem que este últi-

mo lhe aprecie a exatidão.

 

325

Capítulo XVI

 

18. A humanidade contemporânea também conta seus profetas.

mais de um escritor, poeta, literato, historiador ou filósofo hão traçado,

em seus escritos, a marcha futura de acontecimentos a cuja realização agora

assistimos.

essa aptidão, sem dúvida, decorre, muitas vezes, da retidão do juízo,

no deduzir as consequências lógicas do presente; mas, doutras vezes, tam-

bém resulta de uma especial clarividência inconsciente, ou de uma inspi-

ração vinda do exterior. o que tais homens fizeram quando vivos, podem,

com razão mais forte e maior exatidão, fazer no estado de espíritos livres,

quando não têm a visão espiritual obscurecida pela matéria.

 

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cApítulo Xvii

 

M

 

predições do evangelho

 

• ninguém é profeta em sua terra • morte e paixão de Jesus

• perseguição aos apóstolos • cidades impenitentes • ruína do

templo e de Jerusalém • maldição contra os fariseus • minhas

palavras não passarão • A pedra angular • parábola dos vinhateiros

homicidas • um só rebanho e um só pastor • Advento de elias

• Anunciação do consolador • segundo advento do cristo • sinais

precursores • vossos filhos e vossas filhas profetizarão • Juízo final

 

Ninguém é profeta em sua terra

 

1. tendo vindo à sua terra natal, instruía-os nas sinagogas, de sorte que, tomados

de espanto, diziam: “donde lhe vieram essa sabedoria e esses milagres? — não é

o filho daquele carpinteiro? não se chama maria, sua mãe, e seus irmãos tiago,

José, simão e Judas? suas irmãs não se acham todas entre nós? donde então lhe

vêm todas essas coisas?” — e assim faziam dele objeto de escândalo. mas Jesus

lhes disse: “Um profeta só não é honrado em sua terra e na sua casa.” — e não fez lá

muitos milagres devido à incredulidade deles. (Mateus, 13:54 a 58.)

 

2. enunciou Jesus dessa forma uma verdade que se tornou provér-

bio, que é de todos os tempos e à qual se poderia dar maior amplitude,

dizendo que ninguém é profeta em vida.

na linguagem usual, essa máxima se aplica ao crédito de que alguém

goza entre os seus e entre aqueles em cujo seio vive, à confiança que lhes

inspira pela superioridade do saber e da inteligência. se ela sofre exceções,

Capítulo XVII

 

são raras estas e, em nenhum caso, absolutas. o princípio de tal verdade

reside numa consequência natural da fraqueza humana e pode explicar-se

deste modo:

o hábito de se verem desde a infância, em todas as circunstâncias

ordinárias da vida, estabelece entre os homens uma espécie de igualdade

material que, muitas vezes, faz que a maioria deles se negue a reconhecer

superioridade moral num de quem foram companheiros ou comensais,

que saiu do mesmo meio que eles e cujas primeiras fraquezas todos teste-

munharam. sofre-lhes o orgulho com o terem de reconhecer o ascenden-

te do outro. Quem quer que se eleve acima do nível comum está sempre

em luta com o ciúme e a inveja. os que se sentem incapazes de chegar à

altura em que aquele se encontra esforçam-se para rebaixá-lo, por meio

da difamação, da maledicência e da calúnia; tanto mais forte gritam,

quanto menores se acham, crendo que se engrandecem e o eclipsam pelo

arruído que promovem. tal foi e será a História da humanidade, enquan-

to os homens não houverem compreendido a sua natureza espiritual e

alargado seu horizonte moral. por aí se vê que semelhante preconceito é

próprio dos espíritos acanhados e vulgares, que tomam suas personalida-

des por ponto de aferição de tudo.

doutro lado, toda gente, em geral, faz dos homens apenas conhe-

cidos pelo espírito um ideal que cresce à medida que os tempos e os lu-

gares se vão distanciando. eles são como que despojados de todo cunho

de humanidade; parece que não devem ter falado, nem sentido como

os demais; que a linguagem de que usaram e seus pensamentos hão de

ter ressoado constantemente no diapasão da sublimidade, sem se lem-

brarem, os que tal imaginam, que o espírito não poderia permanecer

constantemente em estado de tensão e de perpétua superexcitação. no

contato da vida privada, vê-se por demais que o homem material em

nada se distingue do vulgo. o homem corpóreo, que os sentidos huma-

nos percebem, quase que apaga o homem espiritual, do qual somente

o espírito se percebe. De longe, apenas se veem os relâmpagos do gênio; de

perto, veem-se as paradas do espírito.

depois da morte, nenhuma comparação mais sendo possível,

unicamente o homem espiritual subsiste e tanto maior parece, quanto

mais longínqua se torna a lembrança do homem corporal. é por isso que

aqueles cuja passagem pela terra se assinalou por obras de real valor são

 

328

Predições do Evangelho

 

mais apreciados depois de mortos do que quando vivos. são julgados

com mais imparcialidade, porque, já tendo desaparecido os invejosos e

os ciosos, cessaram os antagonismos pessoais. A posteridade é juiz desin-

teressado no apreciar a obra do espírito; aceita-a sem entusiasmo cego, se

é boa, e a rejeita sem rancor, se é má, abstraindo da individualidade que

a produziu.

tanto menos podia Jesus escapar às consequências deste princípio,

inerente à natureza humana, quanto pouco esclarecido era o meio em que

ele vivia, meio esse constituído de criaturas votadas inteiramente à vida

material. nele, seus compatriotas apenas viam o filho do carpinteiro, o

irmão de homens tão ignorantes quanto ele e, assim sendo, não percebiam

o que lhe dava superioridade e o investia do direito de os censurar. verifi-

cando então que a sua palavra tinha menos autoridade sobre os seus, que

o desprezavam, do que sobre os estranhos, preferiu ir pregar para os que o

escutavam e aos quais inspirava simpatia.

pode-se fazer ideia dos sentimentos que para com ele nutriam os

que lhe eram aparentados, pelo fato de que seus próprios irmãos, acom-

panhados de sua mãe, foram a uma reunião onde ele se encontrava, para

dele se apoderarem, dizendo que perdera o juízo. (Marcos, 3:20 e 21, 31 a

35; O evangelho segundo o espiritismo, cap. Xiv.)

Assim, de um lado, os sacerdotes e os fariseus o acusavam de traba-

lhar pelo demônio; de outro, era tachado de louco pelos seus parentes mais

próximos. não é o que se dá em nossos dias com relação aos espíritas? e

deverão estes queixar-se de que os seus concidadãos não os tratem melhor

do que os de Jesus o tratavam? o que há de estranhável é que, no século

XiX e no seio de nações civilizadas, se dê o que, há dois mil anos, nada

tinha de espantoso, por parte de um povo ignorante.

 

Morte e paixão de Jesus

 

3. (Após a cura do lunático) — todos ficaram admirados do grande poder de

deus. e, estando todos presa de admiração pelo que Jesus fazia, disse ele a seus

discípulos: “guardai bem nos vossos corações o que vos vou dizer. o filho do Ho-

mem tem que ser entregue às mãos dos homens.” — eles, porém, não entendiam

essa linguagem; ela lhes era de tal modo oculta que nada compreendiam daquilo e

temiam mesmo interrogá-lo a respeito. (Lucas, 9:44 e 45.)

 

329

Capítulo XVII

 

4. A partir de então, começou Jesus a revelar a seus discípulos que tinha de ir a

Jerusalém; que aí tinha de sofrer muito da parte dos senadores, dos escribas e dos

príncipes dos sacerdotes; que tinha de ser morto e de ressuscitar ao terceiro dia.

(Mateus, 16:21.)

 

5. estando na galileia, disse-lhes Jesus: “o filho do Homem tem que ser entregue

às mãos dos homens; — estes lhe darão morte e ele ressuscitará ao terceiro dia, o

que os afligiu extremamente.” (Mateus, 17:21 e 22.)

 

6. ora, indo Jesus a Jerusalém, chamou de parte seus doze discípulos e lhes disse:

“vamos para Jerusalém e o filho do Homem será entregue aos príncipes dos sa-

cerdotes e aos escribas, que o condenarão à morte — e o entregarão aos gentios, a

fim de que o tratem com zombarias, o açoitem e crucifiquem; e ele ressuscitará ao

terceiro dia.” (Mateus, 20:17 a 19.)

 

7. em seguida, tomando de parte os doze apóstolos, disse-lhes Jesus: “eis que va-

mos a Jerusalém e tudo o que os profetas escreveram acerca do filho do Homem

vai cumprir-se — porquanto ele será entregue aos gentios, zombarão dele, açoitá-

-lo-ão e lhe escarrarão no rosto. — depois que o tiverem açoitado, matá-lo-ão e

ele ressuscitará ao terceiro dia.”

 

mas eles nada compreenderam de tudo isso; aquela linguagem lhes era oculta e

não entendiam o que ele lhes dizia. (Lucas, 18:31 a 34.)

 

8. ora, tendo concluído todos esses discursos, Jesus disse a seus discípulos: “sabeis

que a páscoa se fará daqui a dois dias e que o filho do Homem será entregue para

ser crucificado.”

 

Ao mesmo tempo, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo se reuniram

na corte do sumo sacerdote chamado caifás — e entraram a consultar-se mutua-

mente, à procura de um meio de se apoderarem habilmente de Jesus e de fazê-lo

morrer. — diziam: “é absolutamente necessário que não seja durante a festa, para

que não se levante qualquer tumulto no seio do povo.” (Mateus, 26:1 a 5.)

 

9. no mesmo dia, alguns fariseus vieram dizer-lhe: “vai-te, sai deste lugar, pois

Herodes quer dar-te à morte.” — ele respondeu: “ide dizer a essa raposa: Ainda

tenho que expulsar os demônios e restituir a saúde aos doentes, hoje e amanhã; no

terceiro dia, serei consumado.” (Lucas, 13:31 e 32.)

 

330

Predições do Evangelho

 

Perseguição aos apóstolos

 

10. “guardai-vos dos homens, porquanto eles vos farão comparecer nas suas as-

sembleias, e vos farão açoitar nas suas sinagogas; e sereis apresentados, por minha

causa, aos governadores e aos reis, para lhes servir de testemunhas, bem como às

nações.” (Mateus, 10:17 e 18.)

11. “eles vos expulsarão das sinagogas e vem o tempo em que aquele que vos fizer

morrer julgará fazer coisa agradável a deus. — tratar-vos-ão desse modo, porque

não conhecem nem a meu pai, nem a mim. — ora, digo-vos estas coisas, a fim

de que, quando houver chegado o tempo, vos lembreis de que eu vo-las disse.”

(João, 16:1 a 4.)

 

12. “sereis traídos e entregues aos magistrados por vossos pais e vossas mães, por

vossos irmãos, por vossos parentes, por vossos amigos e darão morte a muitos de

vós. — sereis odiados de toda gente, por causa de meu nome. — entretanto, não

se perderá um só cabelo de vossa cabeça. — pela vossa paciência é que possuireis

vossas almas.” (Lucas, 21:16 a 19.)

13. (martírio de pedro) –– “em verdade, em verdade vos digo que, quando éreis

mais moços, vos cingíeis a vós mesmos e íeis onde queríeis; mas quando fordes

velhos, estendereis as mãos e outro vos cingirá e conduzirá onde não querereis

ir.” — ora, ele dizia isso para assinalar de que morte pedro havia de glorificar a

deus. (João, 21:18 e 19.)

 

Cidades impenitentes

 

14. começou então a reprochar as cidades onde fizera muitos milagres, por não

terem feito penitência.

 

“Ai de ti, corazim, ai de ti betsaida, porque, se os milagres que foram feitos dentro

de vós tivessem sido feitos em tiro e em sídon, há muito tempo teriam elas feito

penitência com saco e cinzas. — declaro-vos por isso que, no dia do juízo, tiro e

sídon serão tratadas menos rigorosamente do que vós.”

“e tu, cafarnaum, elevar-te-ás sempre até o céu? serás abaixada até o fundo do

inferno, porque, se os milagres que foram feitos dentro de ti houvessem sido feitos

em sodoma, esta ainda talvez subsistisse hoje. — declaro-te por isso que, no dia

do julgamento, a cidade de sodoma será tratada menos rigorosamente do que

tu.” (Mateus, 11:20 a 24.)

 

331

Capítulo XVII

 

Ruína do Templo e de Jerusalém

 

15. Quando Jesus saiu do templo para ir embora, seus discípulos se acercaram

dele para lhe fazerem notar a estrutura e a grandeza daquele edifício. — ele, po-

rém, lhes disse: “vedes todas estas construções? digo-vos, em verdade, que serão

de tal maneira destruídas, que não ficará pedra sobre pedra.” (Mateus, 24:1 e 2.)

 

16. em seguida, tendo chegado perto de Jerusalém, contemplando a cidade, ele

chorou por ela, dizendo: — “Ah! se, ao menos neste dia que ainda te é concedi-

do, reconhecesses aquele que te pode proporcionar paz! mas, agora, tudo isto se

acha oculto aos teus olhos. — tempo virá, pois, para ti, desgraçada, em que teus

inimigos te cercarão de trincheiras, te encerrarão e apertarão de todos os lados;

— em que te deitarão por terra, a ti e aos teus filhos que estão dentro de ti, e não

te deixarão pedra sobre pedra, porque não reconheceste o tempo em que deus te

visitou.” (Lucas, 19:41 a 44.)

 

17. “entretanto, é preciso que eu continue a andar hoje e amanhã e o dia seguinte,

porquanto necessário é que nenhum profeta sofra morte noutra parte, que não em

Jerusalém.

 

Jerusalém, Jerusalém! que matas os profetas e apedrejas os que te são enviados,

quantas vezes hei querido reunir teus filhos, como uma galinha reúne sob as asas

seus pintinhos, e não o quiseste! — Aproxima-se o tempo em que vossa casa ficará

deserta. ora, eu, em verdade, vos digo que doravante não me tornareis a ver, até

que digais: bendito seja o que vem em nome do senhor.” (Lucas, 13:33 a 35.)

 

18. “Quando virdes um exército cercando Jerusalém, sabei que está próxima a sua

destruição. — fujam para as montanhas os que estiverem na Judeia, retirem-se os

que estiverem dentro dela e nela não entrem os que estiverem na região circun-

vizinha. — porquanto, esses dias serão os da vingança, a fim de que se cumpra

tudo o que está na escritura. — Ai das que estiverem grávidas nesses dias, visto

que este país será acabrunhado de males e a cólera do céu cairá sobre este povo.

— serão passados a fio de espada; serão levados em cativeiro para todas as nações

e Jerusalém será calcada aos pés pelos gentios, até que se haja preenchido o tempo

das nações.” (Lucas, 21:20 a 24.)

 

19. (Jesus avançando para o suplício) — ora, acompanhava-o grande multidão

de povo e de mulheres a bater nos peitos e a chorar. — Jesus, então, voltando-se,

disse: “filhas de Jerusalém, não choreis por mim; chorai antes por vós mesmas e

 

332

Predições do Evangelho

 

pelos vossos filhos — porquanto virá tempo em que se dirá: ‘ditosas as estéreis,

as entranhas que não geraram filhos e os seios que não amamentaram.’ — todos

se porão a dizer às montanhas: ‘caí sobre nós!’ e às colinas: ‘cobri-nos!’ — pois,

se tratam deste modo o lenho verde, como será tratado o lenho seco?” (Lucas,

23:27 a 31.)

 

20. A faculdade de pressentir as coisas porvindouras é um dos atri-

butos da alma e se explica pela teoria da presciência. Jesus a possuía, como

todos os outros, em grau eminente. pôde, portanto, prever os aconteci-

mentos que se seguiriam à sua morte, sem que nesse fato algo haja de

sobrenatural, pois que o vemos reproduzir-se aos nossos olhos, nas mais

vulgares condições. não é raro que indivíduos anunciem com precisão o

instante em que morrerão; é que a alma deles, no estado de desprendimen-

to, está como o homem da montanha (cap. Xvi, item 1): abarca a estrada

a ser percorrida e lhe vê o termo.

21. tanto mais assim havia de dar-se com Jesus, quanto, tendo

consciência da missão que viera desempenhar, sabia que a morte no suplí-

cio forçosamente lhe seria a consequência. A visão espiritual, permanente

nele, assim como a penetração do pensamento, haviam de mostrar-lhe as

circunstâncias e a época fatal. pela mesma razão podia prever a ruína do

templo, a de Jerusalém, as desgraças que se iam abater sobre seus habitan-

tes e a dispersão dos judeus.

 

Maldição contra os fariseus

 

22. (João batista) — vendo muitos fariseus e saduceus que acorriam para ser

batizados, ele lhes disse: “raça de víboras, quem vos ensinou a fugir da cólera que

há de cair sobre vós? — produzi então dignos frutos de penitência; não penseis

em dizer de vós para convosco: ‘temos Abraão por pai’, porquanto eu vos declaro

que deus pode fazer que destas próprias pedras nasçam filhos a Abraão. — o

machado já está posto à raiz das árvores e toda árvore que não der bons frutos será

cortada e lançada ao fogo.” (Mateus, 3:7 a 10.)

 

23. “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, porque fechais aos homens o reino

dos céus; lá não entrais e ainda vos opondes a que outros entrem!

 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que, a pretexto das vossas longas orações,

devorais as casas das viúvas; tereis por isso um julgamento mais rigoroso!

 

333

Capítulo XVII

 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que percorreis o mar e a terra para fazer um

prosélito e que, depois de o haverdes conseguido, o tornais duas vezes mais digno

do inferno do que vós mesmos!

 

Ai de vós, condutores de cegos, que dizeis: ‘se um homem jura pelo templo, isso

nada vale; quem quer, porém, que jure pelo ouro do templo, fica obrigado a cum-

prir o seu juramento!’ — insensatos e cegos que sois! A qual se deve mais estimar:

ao ouro, ou ao templo que santifica o ouro? — se um homem, dizeis, jura pelo

altar, isso nada vale; mas aquele que jurar pelo dom que esteja sobre o altar fica

obrigado a cumprir o seu juramento. — cegos que sois! A qual se deve mais esti-

mar, ao dom ou ao altar que santifica o dom? — Aquele, pois, que jura pelo altar

jura não só pelo altar, como por tudo o que está sobre o altar; — e aquele que jura

pelo templo jura por aquele que o habita; — e aquele que jura pelo céu jura pelo

trono de deus e por aquele que aí se assenta.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que pagais o dízimo da hortelã, do endro e

do cominho e que tendes abandonado o que há de mais importante na lei, a saber:

a justiça, a misericórdia e a fé! essas as coisas que deveis praticar, sem, contudo,

omitirdes as outras. — guias cegos, que tendes grande cuidado em coar o que

bebeis, por medo de engolir um mosquito, e que, no entanto, engolis um camelo!

 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que limpais por fora o copo e o prato e que

estais por dentro cheios de rapina e impureza! — fariseus cegos! limpai primeiro o

interior do copo e do prato, a fim de que também o exterior fique limpo.

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que vos assemelhais a sepulcros caiados,

que por fora parecem belos aos olhos dos homens, mas que, por dentro, estão

cheios de ossadas de mortos e de toda espécie de podridão! — Assim, por fora pa-

receis justos, enquanto que, por dentro, estais cheios de hipocrisia e de iniquidade.

 

Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas, que erigis túmulos aos profetas e adornais

os monumentos dos justos — e que dizeis: ‘se existíssemos no tempo de nossos

pais, não nos teríamos associado a eles para derramar o sangue dos profetas!’ —

Acabais, pois, assim, de encher a medida de vossos pais. — serpentes, raça de

víboras, como podereis evitar a condenação ao inferno? — eis que vou enviar-vos

profetas, homens de sabedoria e escribas e matareis a uns, crucificareis a outros e

a outros açoitareis nas vossas sinagogas e os perseguireis de cidade em cidade — a

fim de que recaia sobre vós todo o sangue inocente que há sido derramado na

terra, desde o sangue de Abel, o justo, até o de zacarias, filho de baraquias, que

matastes entre o templo e o altar! — digo-vos, em verdade, que tudo isso virá

recair sobre esta raça que existe hoje.” (Mateus, 23:13 a 36.)

 

334

Predições do Evangelho

 

Minhas palavras não passarão

 

24. então, aproximando-se dele, seus discípulos lhe disseram: “sabes que, ouvindo o

que acabaste de dizer, os fariseus se escandalizaram?” — ele respondeu: “Toda planta

que meu Pai celestial não plantou será arrancada. — deixa-os; são cegos a conduzir ce-

gos; se um cego guia outro cego, cairão ambos no barranco.” (Mateus, 15:12 a 14.)

 

25. “o céu e a terra passarão, mas as minhas palavras não passarão.”

(Mateus, 24:35.)

 

26. As palavras de Jesus não passarão, porque serão verdadeiras em

todos os tempos. será eterno o seu código de moral, porque consagra as

condições do bem que conduz o homem ao seu destino eterno. mas terão

as suas palavras chegado até nós puras de toda ganga e de falsas interpreta-

ções? Apreenderam-lhes o espírito todas as seitas cristãs? nenhuma as terá

desviado do verdadeiro sentido, em consequência dos preconceitos e da

ignorância das leis da natureza? nenhuma as transformou em instrumento

de dominação, para servir às suas ambições e aos seus interesses materiais,

em degrau, não para se elevar ao céu, mas para elevar-se na terra? terão to-

das adotado como regra de proceder a prática das virtudes, prática da qual

fez Jesus condição expressa de salvação? estarão todas isentas das apóstrofes

que ele dirigiu aos fariseus de seu tempo? todas, finalmente, serão, assim

em teoria, como na prática, expressão pura da sua doutrina?

sendo uma só, e única, a verdade não pode achar-se contida em

afirmações contrárias e Jesus não pretendeu imprimir duplo sentido às suas

palavras. se, pois, as diferentes seitas se contradizem; se umas consideram

verdadeiro o que outras condenam como heresias, impossível é que todas

estejam com a verdade. se todas houvessem apreendido o sentido verda-

deiro do ensino evangélico, todas se teriam encontrado no mesmo terreno

e não existiriam seitas.

o que não passará é o verdadeiro sentido das palavras de Jesus; o que

passará é o que os homens construíram sobre o sentido falso que deram a

essas mesmas palavras.

tendo por missão transmitir aos homens o pensamento de deus,

somente a sua doutrina, em toda a pureza, pode exprimir esse pensamento.

por isso foi que ele disse: Toda planta que meu Pai celestial não plantou será

arrancada.

 

335

Capítulo XVII

 

A pedra angular

 

27. “não lestes jamais isto nas escrituras: A pedra que os edificadores rejeitaram se

tornou a principal pedra do ângulo? foi o que o senhor fez e nossos olhos o veem

Continuar: parte 2 de 3