A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
O bem e o mal
o espírito tem por destino a vida espiritual, porém, nas primeiras
fases da sua existência corpórea, somente às exigências materiais lhe cumpre
satisfazer e, para tal, o exercício das paixões constitui uma necessidade para
a conservação da espécie e dos indivíduos, materialmente falando. mas, uma
vez saído desse período, outras necessidades se lhe apresentam, a princípio
semimorais e semimateriais, depois exclusivamente morais. é então que o
espírito exerce domínio sobre a matéria, sacode-lhe o jugo, avança pela sen-
da providencial que se lhe acha traçada e se aproxima do seu destino final.
se, ao contrário, ele se deixa dominar pela matéria, atrasa-se e se identifica
com o bruto. nessa situação, o que era outrora um bem, porque era uma
necessidade da sua natureza, transforma-se num mal, não só porque já não
constitui uma necessidade, como porque se torna prejudicial à espiritualização
do ser. muita coisa, que é qualidade na criança, torna-se defeito no adulto.
o mal é, pois, relativo e a responsabilidade é proporcionada ao grau de
adiantamento.
todas as paixões têm, portanto, uma utilidade providencial, pois, se
assim não fosse, deus teria feito coisas inúteis e até nocivas. no abuso é
que reside o mal e o homem abusa em virtude do seu livre-arbítrio. mais
tarde, esclarecido pelo seu próprio interesse, livremente escolhe entre o
bem e o mal.
O instinto e a inteligência
11. Qual a diferença entre o instinto e a inteligência? onde acaba
um e o outro começa? será o instinto uma inteligência rudimentar, ou será
uma faculdade distinta, um atributo exclusivo da matéria?
O instinto é a força oculta que solicita os seres orgânicos a atos espontâ-
neos e involuntários, tendo em vista a conservação deles. nos atos instintivos
não há reflexão, nem combinação, nem premeditação. é assim que a plan-
ta procura o ar, se volta para a luz, dirige suas raízes para a água e para a
terra nutriente; que a flor se abre e fecha alternadamente, conforme se lhe
faz necessário; que as plantas trepadeiras se enroscam em torno daquilo
que lhes serve de apoio, ou se lhe agarram com as gavinhas. é pelo instinto
que os animais são avisados do que lhes é útil ou nocivo; que buscam, con-
forme a estação, os climas propícios; que constroem, sem ensino prévio,
com mais ou menos arte, segundo as espécies, leitos macios e abrigos para
67
Capítulo III
as suas progênies, armadilhas para apanhar a presa de que se nutrem; que
manejam destramente as armas ofensivas e defensivas de que são providos;
que os sexos se aproximam; que a mãe choca os filhos e que estes procuram
o seio materno. no homem, no começo da vida o instinto domina com ex-
clusividade; é por instinto que a criança faz os primeiros movimentos, que
toma o alimento, que grita para exprimir as suas necessidades, que imita o
som da voz, que tenta falar e andar. no próprio adulto, certos atos são ins-
tintivos, tais como os movimentos espontâneos para evitar um risco, para
fugir a um perigo, para manter o equilíbrio do corpo; tais ainda o piscar
das pálpebras para moderar o brilho da luz, a respiração etc.
12. A inteligência se revela por atos voluntários, refletidos, premedita-
dos, combinados, de acordo com a oportunidade das circunstâncias. é incon-
testavelmente um atributo exclusivo da alma.
Todo ato maquinal é instintivo; o ato que denota reflexão, combinação,
deliberação é inteligente. Um é livre, o outro não o é.
o instinto é guia seguro, que nunca se engana; a inteligência, pelo
simples fato de ser livre, está, por vezes, sujeita a errar.
Ao ato instintivo falta o caráter do ato inteligente; revela, entretanto,
uma causa inteligente, essencialmente apta a prever. se se admitir que o
instinto procede da matéria, ter-se-á de admitir que a matéria é inteligente,
até mesmo bem mais inteligente e previdente do que a alma, pois que o
instinto não se engana, ao passo que a inteligência se equivoca.
se se considerar o instinto uma inteligência rudimentar, como se há
de explicar que, em certos casos, seja superior à inteligência que racioci-
na? como explicar que torne possível se executem atos que esta não pode
realizar? se ele é atributo de um princípio espiritual de especial natureza,
qual vem a ser esse princípio? pois que o instinto se apaga, dar-se-á que
esse princípio se destrua? se os animais são dotados apenas de instinto, não
tem solução o destino deles e nenhuma compensação os seus sofrimentos,
o que não estaria de acordo nem com a justiça, nem com a bondade de
deus. (cap. ii, 19.)
13. segundo outros sistemas, o instinto e a inteligência procederiam
de um único princípio. chegado a certo grau de desenvolvimento, esse
princípio, que primeiramente apenas tivera as qualidades do instinto, pas-
saria por uma transformação que lhe daria as da inteligência livre.
68