A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
Antigos e modernos sistemas do mundo
se bem hoje sejam outras as ideias, o uso das expressões antigas
se conservou. Ainda se diz, por comparação: a abóbada estrelada; sob a
cúpula do céu.
5. igualmente desconhecida era então a formação das nuvens pela
evaporação das águas da terra. A ninguém podia acudir a ideia de que
a chuva, que cai do céu, tivesse origem na terra, donde ninguém a via
subir. daí a crença na existência de águas superiores e de águas inferiores,
de fontes celestes e de fontes terrestres, de reservatórios colocados nas
altas regiões, suposição que concordava perfeitamente com a ideia de
uma abóbada sólida, capaz de os sustentar. As águas superiores, escapan-
do-se pelas frestas da abóbada, caíam em forma de chuva e, conforme
fossem mais ou menos largas as frestas, a chuva era branda, torrencial e
diluviana.
6. A ignorância completa do conjunto do universo e das leis que o
regem, da natureza, da constituição e da destinação dos astros, que, aliás,
pareciam tão pequenos, comparativamente à terra, fez necessariamente
fosse esta considerada como a coisa principal, o fim único da criação e
os astros como acessórios, exclusivamente criados em intenção dos seus
habitantes. esse preconceito se perpetuou até os nossos dias, apesar das
descobertas da ciência, que mudaram, para o homem, o aspecto do
mundo. Quanta gente ainda acredita que as estrelas são ornamentos do
céu, destinados a recrear a vista dos habitantes da terra!
7. não tardou, porém, se apercebessem do movimento aparente
das estrelas, que se deslocam em massa do oriente para o ocidente,
despontando ao anoitecer e ocultando-se pela manhã, conservando suas
respectivas posições. semelhante observação, contudo, não teve, duran-
te longo tempo, outra consequência que não fosse a de confirmar a ideia
de uma abóbada sólida, a arrastar consigo as estrelas, no seu movimento
de rotação.
essas ideias primárias, ingênuas, constituíram, no curso de largos
períodos seculares, o fundo das crenças religiosas e serviram de base a
todas as cosmogonias antigas.
8. mais tarde, pela direção do movimento das estrelas e pelo pe-
riódico retorno delas, na mesma ordem, percebeu-se que a abóbada ce-
leste não podia ser apenas uma semiesfera posta sobre a terra, mas uma
esfera inteira, oca, em cujo centro se achava a terra, sempre chata, ou,
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Capítulo V
quando muito, convexa e habitada somente na superfície superior. Já
era um progresso.
mas qual o suporte da terra? fora inútil mencionar todas as su-
posições ridículas, geradas pela imaginação, desde a dos indianos,27 que
a diziam suportada por quatro elefantes brancos, pousados estes sobre
as asas de um imenso abutre. os mais sensatos confessavam que nada
sabiam a respeito.
9. entretanto, uma opinião geralmente espalhada nas teogonias
pagãs situava nos lugares baixos, ou, por outra, nas profundezas da terra,
ou debaixo desta, não se sabia bem, a morada dos réprobos, chamada
inferno, isto é, lugares inferiores, e nos lugares altos, além da região das
estrelas, a morada dos bem-aventurados. A palavra inferno se conservou
até os nossos dias, se bem haja perdido a significação etimológica, des-
de que a geologia retirou das entranhas da terra o lugar dos suplícios
eternos e a Astronomia demonstrou que no espaço infinito não há baixo
nem alto.
10. sob o céu puro da caldeia, da índia e do egito, berço das mais
antigas civilizações, o movimento dos astros foi observado com tanta
exatidão, quanto o permitia a falta de instrumentos especiais. notou-se,
primeiramente, que certas estrelas tinham movimento próprio, inde-
pendente da massa, o que não consentia a suposição de que se achas-
sem presas à abóbada. chamaram-lhes estrelas errantes ou planetas, para
distingui-las das estrelas fixas. calcularam-se-lhes os movimentos e os
retornos periódicos.
no movimento diurno da esfera estrelada, foi notada a imobilida-
de da estrela polar, em cujo derredor as outras descreviam, em vinte e
quatro horas, círculos oblíquos paralelos, uns maiores, outros menores,
conforme a distância em que se encontravam da estrela central. foi o
primeiro passo para o conhecimento da obliquidade do eixo do mundo.
viagens mais longas deram lugar a que se observasse a diferença dos
aspectos do céu, segundo as latitudes e as estações. A verificação de que
a elevação da estrela polar acima do horizonte variava com a latitude,
abriu caminho para a percepção da redondeza da terra. foi assim que,
27 N.E.: De acordo com a mitologia hindu, a terra era a metade de uma esfera, sustentada por quatro
elefantes sobre uma grande tartaruga, Chukwa. Isso explicaria o “movimento da Terra pelos céus”.
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