A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo
Os milagres do Evangelho
antiga e contemporânea, oferece numerosos exemplos, sem lhes faltar
sequer a tangibilidade. se notarmos as circunstâncias em que se deram
as suas diversas aparições, nele reconheceremos, em tais ocasiões, todos
os caracteres de um ser fluídico. Aparece inopinadamente e do mesmo
modo desaparece; uns o veem, outros não, sob aparências que não o tor-
nam reconhecível nem sequer aos seus discípulos; mostra-se em recintos
fechados, onde um corpo carnal não poderia penetrar; sua própria lin-
guagem carece da vivacidade da de um ser corpóreo; fala em tom breve e
sentencioso, peculiar aos espíritos que se manifestam daquela maneira;
todas as suas atitudes, numa palavra, denotam alguma coisa que não
é do mundo terreno. sua presença causa simultaneamente surpresa e
medo; ao vê-lo, seus discípulos não lhe falam com a mesma liberdade de
antes; sentem que já não é um homem.
Jesus, portanto, se mostrou com o seu corpo perispirítico, o que
explica que só tenha sido visto pelos que ele quis que o vissem. se esti-
vesse com o seu corpo carnal, todos o veriam, como quando estava vivo.
ignorando a causa originária do fenômeno das aparições, seus discípulos
não se apercebiam dessas particularidades, a que, provavelmente, não
davam atenção. desde que viam o senhor e o tocavam, haviam de achar
que aquele era o seu corpo ressuscitado. (cap. Xiv, itens 14 e 35 a 38.)
62. Ao passo que a incredulidade rejeita todos os fatos que Jesus
produziu, por terem uma aparência sobrenatural, e os considera, sem
exceção, lendários, o espiritismo dá explicação natural à maior parte
desses fatos. prova a possibilidade deles, não só pela teoria das leis fluí-
dicas, como pela identidade que apresentam com análogos fatos produ-
zidos por uma imensidade de pessoas nas mais vulgares condições. por
serem, de certo modo, tais fatos do domínio público, eles nada provam,
em princípio, com relação à natureza excepcional de Jesus.178
178 Nota de Allan Kardec: Os inúmeros fatos contemporâneos de curas, aparições, possessões, dupla
vista e outros, que se encontram relatados na Revista espírita e lembrados nas observações acima,
oferecem, até quanto aos pormenores, tão flagrante analogia com os que o Evangelho narra, que
ressalta evidente a identidade dos efeitos e das causas. Não se compreende que o mesmo fato
tivesse hoje uma causa natural e que essa causa fosse sobrenatural outrora; diabólica com uns e di-
vina com outros. Se fora possível pô-los aqui em confronto uns com os outros, a comparação mais
fácil se tornaria; não o permitem, porém, o número deles e os desenvolvimentos que a narrativa
reclamaria.
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Capítulo XV
63. o maior milagre que Jesus operou, o que verdadeiramente
atesta a sua superioridade, foi a revolução que seus ensinos produziram
no mundo, malgrado a exiguidade dos seus meios de ação.
com efeito, Jesus, obscuro, pobre, nascido na mais humilde con-
dição, no seio de um povo pequenino, quase ignorado e sem prepon-
derância política, artística ou literária, apenas durante três anos prega
a sua doutrina; em todo esse curto espaço de tempo é desatendido e
perseguido pelos seus concidadãos; vê-se obrigado a fugir para não ser
lapidado; é traído por um de seus apóstolos, renegado por outro, aban-
donado por todos no momento em que cai nas mãos de seus inimigos.
só fazia o bem e isso não o punha ao abrigo da malevolência, que dos
próprios serviços que ele prestava tirava motivos para o acusar. conde-
nado ao suplício que só aos criminosos era infligido, morre ignorado do
mundo, visto que a História daquela época nada diz a seu respeito.179
nada escreveu; entretanto, ajudado por alguns homens tão obscuros
quanto ele, sua palavra bastou para regenerar o mundo; sua doutrina
matou o paganismo onipotente e se tornou o facho da civilização. tinha
contra si tudo o que causa o malogro das obras dos homens, razão por
que dizemos que o triunfo alcançado pela sua doutrina foi o maior dos
seus milagres, ao mesmo tempo que prova ser divina a sua missão. se,
em vez de princípios sociais e regeneradores, fundados sobre o futuro
espiritual do homem, ele apenas houvesse legado à posteridade alguns
fatos maravilhosos, talvez hoje mal o conhecessem de nome.
Desaparecimento do corpo de Jesus
64. o desaparecimento do corpo de Jesus após sua morte há sido
objeto de inúmeros comentários. Atestam-no os quatro evangelistas, ba-
seados nas narrativas das mulheres que foram ao sepulcro no terceiro
dia depois da crucificação e lá não o encontraram. viram alguns, nesse
desaparecimento, um fato milagroso, atribuindo-o outros a uma subtra-
ção clandestina.
segundo outra opinião, Jesus não teria tido um corpo carnal, mas
apenas um corpo fluídico; não teria sido, em toda a sua vida, mais do
179 Nota de Allan Kardec: Dele unicamente fala o historiador judeu Flávio Josefo, que, aliás, diz bem pou-
ca coisa.
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