A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Deus

 

o nascimento até a morte, seria um autômato. ora, as forças orgânicas da

natureza são puramente automáticas.

tudo isso é verdade, mas essas forças são efeitos que hão de ter

uma causa e ninguém pretende que elas constituam a divindade. elas

são forças materiais e mecânicas; não são por si mesmas inteligentes,

o que também é verdade; mas são postas em ação, distribuídas, apro-

priadas às necessidades de cada coisa por uma inteligência que não é a

dos homens. A aplicação útil dessas forças é um efeito inteligente que

denota uma causa inteligente. um pêndulo se move com automática re-

gularidade e é nessa regularidade que lhe está o mérito. é toda material

a força que o faz mover-se e nada tem de inteligente. mas que seria esse

pêndulo se uma inteligência não houvesse combinado, calculado, dis-

tribuído o emprego daquela força, para fazê-lo andar com precisão? do

fato de não estar a inteligência no mecanismo do pêndulo e do fato de

que ninguém a vê, seria racional deduzir-se que ela não existe? Julgamo-

-la pelos seus efeitos.

A existência do relógio atesta a existência do relojoeiro; a engenho-

sidade do mecanismo lhe atesta a inteligência e o saber. Quando um reló-

gio vos indica a hora que desejais saber, quem se lembrará de dizer: aí está

um relógio bem inteligente?

outro tanto ocorre com o mecanismo do universo: Deus não se

mostra, mas se revela pelas suas obras.

7. A existência de deus é, pois, uma realidade comprovada não só

pela revelação, como pela evidência material dos fatos. os povos selvagens

nenhuma revelação tiveram; entretanto, creem instintivamente na exis-

tência de um poder sobre-humano. eles veem coisas que estão acima das

possibilidades do homem e deduzem que essas coisas provêm de um ente

superior à humanidade. não demonstram raciocinar com mais lógica do

que os que pretendem que tais coisas se fizeram a si mesmas?

 

Da natureza divina

 

8. não é dado ao homem sondar a natureza íntima de deus. Para

compreender Deus, ainda nos falta o sentido, que só se adquire com a comple-

ta depuração do Espírito. mas se o homem não pode penetrar a essência de

deus, pode ter como premissa a sua existência. o homem pode, então,

 

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Capítulo II

 

pela razão chegar a conhecer-lhe os atributos necessários e concluir que

esses atributos só podem ser divinos, deduzindo daí quem é deus.

sem o conhecimento dos atributos de deus, impossível seria com-

preender-se a obra da criação. esse é o ponto de partida de todas as cren-

ças religiosas e por não se terem reportado aos atributos, como ao farol

capaz de as orientar, que a maioria das religiões errou em seus dogmas. As

que não atribuíram a deus a onipotência imaginaram muitos deuses; as

que não lhe atribuíram soberana bondade fizeram dele um deus ciumen-

to, colérico, parcial e vingativo.

9. Deus é a suprema e soberana inteligência. é limitada a inteligência

do homem, pois que não pode fazer, nem compreender tudo o que existe.

A de deus, abrangendo o infinito, tem que ser infinita. se a supuséssemos

limitada num ponto qualquer, poderíamos conceber outro ser mais inte-

ligente, capaz de compreender e fazer o que o primeiro não faria e assim

por diante, até o infinito.

10. Deus é eterno, isto é, não teve começo e não terá fim. se tivesse

tido princípio, houvera saído do nada. ora, não sendo o nada coisa algu-

ma, coisa nenhuma pode produzir. ou, então, teria sido criado por outro

ser anterior e, nesse caso, este ser é que seria deus. se lhe supuséssemos

um começo ou fim, poderíamos conceber uma entidade existente antes

dele e capaz de lhe sobreviver, e assim por diante, ao infinito.

11. Deus é imutável. se estivesse sujeito a mudanças, nenhuma esta-

bilidade teriam as leis que regem o universo.

12. Deus é imaterial, isto é, a sua natureza difere de tudo o que cha-

mamos matéria. de outro modo, não seria imutável, pois estaria sujeito às

transformações da matéria.

deus carece de forma apreciável pelos nossos sentidos, sem o que

seria matéria. dizemos: a mão de deus, o olho de deus, a boca de deus,

porque o homem, nada mais conhecendo além de si mesmo, toma a si

próprio por termo de comparação para tudo o que não compreende. são

ridículas essas imagens em que deus é representado pela figura de um

ancião de longas barbas e envolto num manto. têm o inconveniente de

rebaixar o ente supremo até as mesquinhas proporções da humanidade.

daí a lhe emprestarem as paixões humanas e a fazerem-no um deus colé-

rico e ciumento não vai mais que um passo.

 

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