A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Allan Kardec · Capítulo 34 de 81 · parte 1/3

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A Gênese: Os Milagres e as Predições Segundo o Espiritismo

Capítulo X · dos outros. essa multiplicação tão generalizada e,…

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 3 partes.

 

dos outros. essa multiplicação tão generalizada e, de certo modo, con-

temporânea, fora impossível com um único tipo primitivo.103

doutro lado, a vida de um indivíduo, sobretudo de um indivíduo

nascente, está sujeita a tantas vicissitudes, que toda uma criação poderia

ficar comprometida, sem a pluralidade dos tipos, o que implicaria uma

imprevidência inadmissível da parte do criador supremo. Aliás, se, num

ponto, um tipo se pode formar, em muitos outros pontos ele se poderia

formar igualmente, por efeito da mesma causa.

tudo, pois, concorre a provar que houve criação simultânea e múl-

tipla dos primeiros casais de cada espécie animal e vegetal.

3. A formação dos primeiros seres vivos se pode deduzir, por ana-

logia, da mesma lei em virtude da qual se formaram e formam todos os

dias os corpos inorgânicos. À medida que se aprofunda o estudo das leis

da natureza, as engrenagens que, de início, pareciam tão complicadas se

vão simplificando e confundindo na grande lei de unidade que preside

a toda a obra da criação. isso se compreenderá melhor, quando estiver

compreendida a formação dos corpos inorgânicos, que é o degrau primá-

rio daquela outra.

4. A Química considera elementares umas tantas substâncias, como

o oxigênio, o hidrogênio, o azoto, o carbono, o cloro, o iodo, o flúor, o

enxofre, o fósforo e todos os metais. combinando-se, elas formam os

corpos compostos: os óxidos, os ácidos, os álcalis, os sais e as inúmeras

variedades que resultam da combinação destes.

A combinação de dois corpos para formar um terceiro exige especial

concurso de circunstâncias: seja um determinado grau de calor, de sequi-

dão, ou de umidade; seja o movimento ou o repouso; seja uma corrente

elétrica etc. se essas circunstâncias não se verificarem, a combinação não

se operará.

 

103 N.E.: Segundo Charles Darwin [1809–1882, naturalista britânico, autor de Sobre a origem das espécies

por meio da seleção natural (1859)], as espécies teriam evoluído pelo processo de seleção natural,

ou seja, os indivíduos mais aptos a sobreviver em um determinado ambiente, apresentam mais

probabilidade de gerar uma prole que herde suas características genéticas, que por sua vez sofrem

imperceptíveis mutações genéticas de geração em geração. Ao longo de séculos, o acúmulo de

pequenas mutações genéticas acaba resultando em grandes modificações e aperfeiçoamentos se

compararmos com a primeira geração daquela espécie, podendo surgir até novas espécies, bem

diversas da primeira.

A teoria mais aceita atualmente é, então, a de que todas as espécies do planeta estão de alguma

forma interligadas, das mais simples às mais complexas.

 

168

Gênese orgânica

 

5. Quando há combinação, os corpos componentes perdem suas

propriedades características, enquanto o composto que deles resulta ad-

quire outras, diferentes das daqueles. é assim, por exemplo, que o oxigê-

nio e o hidrogênio, que são gases invisíveis, quimicamente combinados

formam a água, que é líquida, sólida ou vaporosa, conforme a tempe-

ratura. na água, a bem dizer, já não há oxigênio nem hidrogênio, mas

um corpo novo. decomposta essa água, os dois gases, tornados livres,

recobram suas propriedades: já não há água. A mesma quantidade desse

líquido pode ser assim, alternativamente, decomposta e recomposta, ao

infinito.

6. A composição e decomposição dos corpos se dão em virtude do

grau de afinidade que os princípios elementares guardam entre si.104 A

formação da água, por exemplo, resulta da afinidade recíproca que existe

entre o oxigênio e o hidrogênio; mas, se se puser em contato com a água

um corpo que tenha com o oxigênio mais afinidade do que a que este

tem com o hidrogênio, a água se decompõe: o oxigênio é absorvido e o

hidrogênio se liberta. Já não haverá água.

7. os corpos compostos se formam sempre em proporções defi-

nidas, isto é, pela combinação de uma certa quantidade dos princípios

constituintes. Assim, para formar a água, são necessárias uma parte

de oxigênio e duas de hidrogênio. se duas partes de oxigênio forem

combinadas com duas de hidrogênio, em vez de água ter-se-á o deu-

tóxido de hidrogênio, líquido corrosivo, formado, no entanto, dos

mesmos elementos que entram na composição da água, porém, noutra

proporção.

8. tal, em poucas palavras, a lei que preside à formação de todos

os corpos da natureza. A inumerável variedade deles resulta de um nú-

mero pequeno de princípios elementares combinados em proporções

diferentes.

por exemplo: o oxigênio, combinado em certas proporções, com

o carbono, o enxofre, o fósforo, forma os ácidos carbônico, sulfúrico,

fosfórico; o oxigênio e o ferro formam o óxido de ferro ou ferrugem;

o oxigênio e o chumbo, ambos inofensivos, dão origem aos óxidos de

chumbo, tais como o litargírio, o alvaiade, o mínio, que são venenosos.

 

104 N.E.: Eletronegatividade é a maior ou menor tendência de um átomo para receber elétrons e formar

um íon negativo.

 

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Capítulo X

 

o oxigênio, com os metais chamados cálcio, sódio, potássio, forma a

cal, a soda, a potassa. A cal, unida ao ácido carbônico, forma os carbo-

natos de cal ou pedras calcárias, tais como o mármore, a cré, as estalac-

tites das grutas; unida ao ácido sulfúrico, forma o sulfato de cálcio ou

gesso e o alabastro; ao ácido fosfórico, o fosfato de cálcio, base sólida,

dos ossos; o cloro e o hidrogênio formam o ácido clorídrico ou hidro-

clórico; o cloro e o sódio formam o cloreto de sódio ou sal marinho.

9. todas essas combinações e milhares de outras se obtêm arti-

ficialmente, em pequenas quantidades, nos laboratórios de Química;

elas se operam em larga escala no grande laboratório da natureza.

em sua origem, a terra não continha essas matérias em combi-

nação, mas, apenas, volatilizados, seus princípios constitutivos. Quan-

do as terras calcárias e outras, tornadas pedrosas com o tempo, se lhe

depositaram na superfície, aquelas matérias não existiam inteiramente

formadas; porém, no ar se encontravam, em estado gasoso, todas as

substâncias primitivas. precipitadas por efeito do resfriamento, essas

substâncias, sob o império de circunstâncias favoráveis, se combina-

ram, segundo o grau de suas afinidades moleculares. foi então que

se formaram as diversas variedades de carbonatos, de sulfatos etc., a

princípio em dissolução nas águas, depositadas, depois, na superfície

do solo.

suponhamos que, por uma causa qualquer, a terra voltasse ao

estado primitivo de incandescência: tudo se decomporia; os elemen-

tos se separariam; todas as substâncias fusíveis se fundiriam; todas

as que são volatilizáveis se volatilizariam. depois, outro resfriamen-

to determinaria nova precipitação e de novo se formariam as antigas

combinações.

10. estas considerações provam quanto a Química era necessá-

ria para a inteligência da gênese. Antes de se conhecerem as leis da

afinidade molecular, não era possível compreender-se a formação da

terra. esta ciência lançou grande luz sobre a questão, como o fizeram

a Astronomia e a geologia, doutros pontos de vista.

11. na formação dos corpos sólidos, um dos mais notáveis fenô-

menos é o da cristalização, que consiste na forma regular que assumem

certas substâncias, ao passarem do estado líquido, ou gasoso, ao estado

sólido. essa forma, que varia de acordo com a natureza da substância,

 

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Gênese orgânica

 

é geralmente a de sólidos geométricos, tais como o prisma, o romboi-

de, o cubo, a pirâmide. toda gente conhece os cristais de açúcar cândi;

os cristais de rocha, ou sílica cristalizada, são prismas de seis faces que

terminam em pirâmide igualmente hexagonal. o diamante é carbono

puro, ou carvão cristalizado. os desenhos que no inverno se produzem

sobre as vidraças são devidos à cristalização do vapor de água durante

a congelação, sob a forma de agulhas prismáticas.

A disposição regular dos cristais corresponde à forma particular

das moléculas de cada corpo. essas partículas, para nós infinitamente

pequenas, mas que não deixam por isso de ocupar um certo espaço,

solicitadas umas para as outras pela atração molecular, se arrumam e

justapõem segundo o exigem suas formas, de maneira a tomar cada

uma o seu lugar em torno do núcleo ou primeiro centro de atração e a

constituir um conjunto simétrico.

A cristalização só se opera em certas circunstâncias favoráveis,

fora das quais ela não pode dar-se. são condições essenciais o grau

da temperatura e o repouso absoluto. compreende-se que um calor

muito forte, mantendo afastadas as moléculas, não lhes permitiria

condensarem-se e que a agitação, impossibilitando-lhes um arranjo

simétrico, não lhes consentiria formar senão uma massa confusa e ir-

regular, donde o não haver cristalização propriamente dita.

12. A lei que preside à formação dos minerais conduz natural-

mente à formação dos corpos orgânicos.

A análise química mostra que todas as substâncias vegetais e ani-

mais são compostas dos mesmos elementos que os corpos inorgânicos.

desses elementos, são o oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono os

que desempenham papel principal. os outros entram acessoriamente.

como no reino mineral, a diferença de proporções na combinação dos

referidos elementos produz todas as variedades de substâncias orgâni-

cas e suas diversas propriedades, tais como: os músculos, os ossos, o

sangue, a bile, os nervos, a matéria cerebral, a gordura, nos animais;

a seiva, a madeira, as folhas, os frutos, as essências, os óleos, as resi-

nas105 etc., nos vegetais. Assim, na formação dos animais e das plantas,

 

105 N.E.: Os tecidos orgânicos que formam os músculos, os ossos, o sangue, o caule etc., são constituídos

por células, seres vivos microscópicos que desempenham funções especializadas, necessárias ao fun-

cionamento de cada órgão do ser a que pertencem.

 

171

Capítulo X

 

nenhum corpo especial entra que igualmente não se encontre no reino

mineral.106

13. Alguns exemplos comuns darão a compreender as transforma-

ções que se operam no reino orgânico, pela só modificação dos elemen-

tos constitutivos.

no suco da uva, não há vinho, nem álcool, mas apenas água e açú-

car. Quando o suco fica maduro e são propícias as condições, produz-se

nele um trabalho íntimo a que se dá o nome de fermentação. por esse

trabalho, uma parte do açúcar se decompõe; o oxigênio, o hidrogênio

e o carbono se separam e combinam nas proporções necessárias a pro-

duzir o álcool, de sorte que, em se bebendo suco de uva, não se bebe

realmente álcool, pois que este ainda não existe. ele se forma das partes

constituintes da água e do açúcar, sem que haja, em suma, uma molécu-

la a mais ou a menos.

no pão e nos legumes que se comem, não há certamente carne,

nem sangue, nem osso, nem bile, nem matéria cerebral; entretanto, esses

mesmos alimentos, decompondo-se e recompondo-se pelo trabalho da

digestão, produzem aquelas diferentes substâncias tão só pela transmu-

tação de seus elementos constitutivos.

na semente de uma árvore, não há madeiras, folhas, flores ou frutos

e fora erro pueril crer-se que a árvore inteira, sob microscópica forma, ali

se encontra. Quase não há, sequer, na semente, oxigênio, hidrogênio e car-

bono em quantidade necessária a formar uma folha da árvore. A semente107

contém um gérmen que desabrocha em favoráveis condições. esse gérmen

 

106 Nota de Allan Kardec: O quadro abaixo, da análise de algumas substâncias, mostra a diferença de

propriedades que resulta da só diferença na proporção em que entram os elementos constituintes.

Sobre 100 partes, temos:

Carbono Hidrog. Oxig. Azoto

Açúcar de cana 42.470 6.900 50.630 ––

Açúcar de uva 36.710 6.780 56.510 ––

Álcool 51.980 13.700 34.320 ––

Azeite de oliveira 77.210 13.360 9.430 ––

Óleo de nozes 79.774 10.570 9.122 0.534

Gordura 78.996 11.700 9.304 ––

Fibrina 53.360 7.021 19.685 19.934

107 N.E.: Na semente, como em todos os ovos que presidem à formação dos seres vivos, encontram-se

presentes os genes que contêm o código genético com as informações necessárias à formação da

planta.

 

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Gênese orgânica

 

se desenvolve por efeito dos sucos que haure da terra e dos gases que aspira

do ar. tais sucos, que não são lenho, nem folhas, nem flores, nem frutos,

infiltrando-se na planta, lhe formam a seiva, como nos animais formam o

sangue. levada pela circulação a todas as partes do vegetal, a seiva, confor-

me o órgão a que vai ter e onde sofre uma elaboração especial, se transfor-

ma em lenho, folhas e frutos, como o sangue se transforma em carne, osso,

bile etc. contudo, são sempre os mesmos elementos: oxigênio, hidrogênio,

azoto e carbono, diversamente combinados.

14. As diferentes combinações dos elementos, para formação

das substâncias minerais, vegetais e animais, não podem, pois, ope-

rar-se, a não ser nos meios e em circunstâncias propícias; fora des-

sas circunstâncias, os princípios elementares estão numa espécie de

inércia. mas desde que as circunstâncias se tornam favoráveis, come-

ça um trabalho de elaboração; as moléculas entram em movimento,

agitam-se, atraem-se, aproximando-se e se separam em virtude da lei

de afinidades e, por suas múltiplas combinações, compõem a infinita

variedade das substâncias. desapareçam essas condições e o trabalho

subitamente cessa, para recomeçar quando elas de novo se apresenta-

rem. é assim que a vegetação se ativa, enfraquece, para e prossegue,

sob a ação do calor, da luz, da umidade, do frio ou da seca; que esta

planta prospera, num clima ou num terreno, e se estiola ou perece

noutros.

15. o que diariamente se passa às nossas vistas pode colocar-nos na

pista do que se passou na origem dos tempos, porquanto as leis da natureza

não variam.

visto que são os mesmos os elementos constitutivos dos seres orgâ-

nicos e inorgânicos; que os sabemos a formar incessantemente, em dadas

circunstâncias, as pedras, as plantas e os frutos, podemos concluir daí que

os corpos dos primeiros seres vivos se formaram, como as primeiras pedras,

pela reunião das moléculas elementares, em virtude da lei de afinidade, à

medida que as condições da vitalidade do globo foram propícias a esta ou

àquela espécie.

A semelhança de forma e de cores, na reprodução dos indivíduos de

cada espécie, pode comparar-se à semelhança de forma de cada espécie de

 

173

Capítulo X

 

cristal. Justapondo-se, sob a ação da mesma lei, as moléculas produzem

conjunto análogo.108

 

Princípio vital

 

16. dizendo que as plantas e os animais são formados dos mes-

mos princípios constituintes dos minerais, falamos em sentido exclu-

sivamente material, pois que aqui apenas do corpo se trata.

sem falar do princípio inteligente, que é questão à parte, há,

na matéria orgânica, um princípio especial, inapreensível e que ainda

não pode ser definido: o princípio vital. Ativo no ser vivente, esse

princípio se acha extinto no ser morto; mas nem por isso deixa de dar

à substância propriedades que a distinguem das substâncias inorgâ-

nicas. A Química, que decompõe e recompõe a maior parte dos cor-

pos inorgânicos, também conseguiu decompor os corpos orgânicos,

porém, jamais chegou a reconstituir, sequer, uma folha morta, prova

evidente de que há nestes últimos o que quer que seja, inexistente nos

outros.

17. será o princípio vital alguma coisa particular, que tenha

existência própria? ou, integrado no sistema da unidade do elemen-

to gerador, apenas será um estado especial, uma das modificações

do fluido cósmico, pela qual este se torne princípio de vida, como

se torna luz, fogo, calor, eletricidade? é neste último sentido que

as comunicações acima reproduzidas resolvem a questão. (cap. vi,

Uranografia geral.)

seja, porém, qual for a opinião que se tenha sobre a natureza

do princípio vital, o certo é que ele existe, pois que se lhe apreciam os

efeitos. pode-se, portanto, logicamente, admitir que, ao se formarem,

os seres orgânicos assimilaram o princípio vital, por ser necessário à

destinação deles; ou, se o preferirem, que esse princípio se desenvolveu

em cada indivíduo, por efeito mesmo da combinação dos elementos,

tal como se desenvolvem, dadas certas circunstâncias, o calor, a luz e

a eletricidade.

 

108 N.E.: Hoje sabemos que os processos de reprodução de qualquer ser vivo dependem das informações

contidas nos genes dos ascendentes do ser que está sendo gerado. Cada indivíduo, com as caracterís-

ticas e funções de seus órgãos, está relacionado com o ambiente em que vive, o que o torna melhor

adaptado e garante a sobrevivência da sua espécie.

 

174

Gênese orgânica

 

18. combinando-se sem o princípio vital, o oxigênio, o hidro-

gênio, o azoto e o carbono unicamente teriam formado um mineral

ou corpo inorgânico; o princípio vital, modificando a constituição

molecular desse corpo, dá-lhe propriedades especiais. em lugar de

uma molécula mineral, tem-se uma molécula de matéria orgânica.

A atividade do princípio vital é alimentada durante a vida pela

ação do funcionamento dos órgãos, do mesmo modo que o calor,

pelo movimento de rotação de uma roda. cessada aquela ação, por

motivo da morte, o princípio vital se extingue, como o calor, quando

a roda deixa de girar. mas o efeito produzido por esse princípio sobre

o estado molecular do corpo subsiste, mesmo depois dele extinto,

como a carbonização da madeira subsiste à extinção do calor. na aná-

lise dos corpos orgânicos, a Química encontra os elementos que os

constituem: oxigênio, hidrogênio, azoto e carbono; mas não pode

reconstituir aqueles corpos, porque, já não existindo a causa, não lhe

é possível reproduzir o efeito, ao passo que possível lhe é reconstituir

uma pedra.

19. tomamos para termo de comparação o calor que se desen-

volve pelo movimento de uma roda, por ser um efeito vulgar, que

todo mundo conhece, e mais fácil de compreender-se. mais exato,

no entanto, houvéramos sido, dizendo que, na combinação dos ele-

mentos para formarem os corpos orgânicos, desenvolve-se eletricidade.

os corpos orgânicos seriam, então, verdadeiras pilhas elétricas, que

funcionam enquanto os elementos dessas pilhas se acham em con-

dições de produzir eletricidade: é a vida; que deixam de funcionar,

quando tais condições desaparecem: é a morte. segundo essa maneira

de ver, o princípio vital não seria mais do que uma espécie particular

de eletricidade, denominada eletricidade animal, que durante a vida se

desprende pela ação dos órgãos109 e cuja produção cessa, quando da

morte, por se extinguir tal ação.

 

109 N.E.: Hoje sabemos que se refere às células. O metabolismo celular, na troca iônica da bomba de

sódio e potássio, produz uma diferença de potencial elétrico, ou seja, produz eletricidade anima-

lizada, pois que é realizada por um ser vivo, a célula. Com a morte da célula, cessa a produção de

eletricidade resultante de seu metabolismo, do conjunto dos órgãos, do corpo como um todo.

 

175

Capítulo X

 

Geração espontânea110

 

20. é natural se pergunte por que não mais se formam seres vivos

nas mesmas condições em que se formaram os primeiros que surgiram na

terra.111

sobre esse ponto, não pode deixar de lançar luz a questão da gera-

ção espontânea, que tanto preocupa a ciência, embora ainda esteja di-

versamente resolvida. o problema é este: formam-se, nos tempos atuais,

seres orgânicos pela simples reunião dos elementos que os constituem,

sem germens, previamente produzidos pelo modo ordinário de geração,

ou, por outra, sem pais nem mães?

os partidários da geração espontânea respondem afirmativamente,

apoiando-se em observações diretas, que parecem concludentes. pensam

outros que todos os seres vivos se reproduzem uns pelos outros, firmados

sobre o fato, que a experiência comprova, de que os germens de certas es-

pécies vegetais e animais, mesmo dispersos, conservam latente vitalidade,

durante longo tempo, até que as circunstâncias lhes favoreçam a eclosão.

esta maneira de entender deixa sempre em aberto a questão da formação

dos primeiros tipos de cada espécie.

21. sem discutir os dois sistemas, convém acentuar que o princípio

da geração espontânea evidentemente só se pode aplicar aos seres das or-

dens mais ínfimas do reino vegetal e do reino animal, àqueles em os quais

a vida começa a despontar, em organismo extremamente simples e, de

certo modo, rudimentar. foram esses, com efeito, os primeiros que apa-

receram na terra e cuja formação houve de ser espontânea. Assistiríamos

assim a uma criação permanente, análoga à que se produziu nas primeiras

idades do mundo.

22. mas, então, por que não se formam da mesma maneira os seres

de complexa organização? Que esses seres não existiram sempre, é fato po-

sitivo; logo, tiveram um começo. se o musgo, o líquen, o zoófito, o infu-

sório, os vermes intestinais e outros podem produzir-se espontaneamente,

por que não se dá o mesmo com as árvores, os peixes, os cães, os cavalos?

 

110 N.E.: Até meados do século XIX, os cientistas acreditavam que os seres vivos eram gerados espon-

taneamente do corpo de cadáveres em decomposição; que rãs, cobras e crocodilos eram gerados a

partir do lodo dos rios. Essa hipótese, geração espontânea ou abiogênese, foi descartada.

111 N.E.: O planeta não apresenta as mesmas condições que possibilitaram a existência de seus primeiros

habitantes.

 

176

Gênese orgânica

 

param aí, por enquanto, as investigações; desaparece o fio condutor

e, até que ele seja encontrado, fica aberto o campo às hipóteses. fora,

pois, imprudente e prematuro apresentar meros sistemas como verdades

absolutas.

23. se a geração espontânea é fato demonstrado,112 por muito limi-

tado que seja, não deixa de constituir um fato capital, um marco de natu-

reza a indicar o caminho para novas observações. sabe-se que os seres or-

gânicos complexos não se produzem dessa maneira; mas, quem sabe como

eles começaram? Quem conhece o segredo de todas as transformações?

vendo o carvalho sair da glande, quem pode afirmar que não exista um

laço misterioso entre o pólipo e o elefante? (item 25.)

no estado atual dos nossos conhecimentos, não podemos estabele-

cer a teoria da geração espontânea permanente, senão como hipótese, mas

como hipótese provável e que um dia, talvez, tome lugar entre as verdades

científicas incontestes.113

 

Escala dos seres orgânicos

 

24. entre o reino vegetal e o reino animal, nenhuma delimitação

há nitidamente marcada. nos confins dos dois reinos estão os zoófitos ou

animais-plantas, cujo nome indica que eles participam de um e outro:

serve-lhes de traço de união.

como os animais, as plantas nascem, vivem, crescem, nutrem-se,

respiram, reproduzem-se e morrem. como aqueles, precisam elas de luz,

de calor e de água; estiolam-se e morrem, desde que lhes faltem esses ele-

mentos. A absorção de um ar viciado e de substâncias deletérias as enve-

nena. oferecem como caráter distintivo mais acentuado conservarem-se

presas ao solo e tirarem dele a nutrição, sem se deslocarem.

o zoófito tem a aparência exterior da planta. como planta, man-

tém-se preso ao solo; como animal, a vida nele se acha mais acentuada:

tira do meio ambiente a sua alimentação.

 

112 N.E.: Atualmente temos a Teoria da Evolução Química ou Molecular, que postula que a vida surgiu a

partir do processo de evolução química de compostos inorgânicos, dando origem a moléculas orgâ-

nicas e, depois, às primeiras e mais simples formas de vida.

113 Nota de Allan Kardec: Revista espírita, julho de 1868 o desenvolvimento da teoria da geração

espontânea. [Artigo: A geração espontânea e A gênese.]

 

177

Capítulo X

 

um degrau acima, o animal é livre e procura o alimento: em

primeiro lugar, vêm as inúmeras variedades de pólipos, de corpos ge-

latinosos, sem órgãos bem definidos, só diferindo das plantas pela fa-

culdade da locomoção; seguem-se, na ordem do desenvolvimento dos

órgãos, da atividade vital e do instinto, os helmintos ou vermes intesti-

nais; os moluscos, animais carnudos sem ossos, alguns deles nus, como

as lesmas, os polvos, outros providos de conchas, como o caracol, a

ostra; os crustáceos, cuja pele é revestida de uma crosta dura, como o

caranguejo, a lagosta; os insetos, aos quais a vida assume prodigiosa

atividade e se manifesta o instinto engenhoso, como a formiga, a abe-

lha, a aranha. Alguns se metamorfoseiam, como a lagarta, que se trans-

forma em elegante borboleta. vem depois a ordem dos vertebrados,

animais de esqueleto ósseo, ordem que abrange os peixes, os reptis, os

pássaros; seguem-se, por fim, os mamíferos cuja organização é a mais

completa.

25. se se considerarem apenas os dois pontos extremos da ca-

deia, nenhuma analogia aparente haverá; mas, se se passar de um anel

a outro sem solução de continuidade, chega-se, sem transição brusca,

da planta aos animais vertebrados. compreende-se então a possibi-

lidade de que os animais de organização complexa não sejam mais

do que uma transformação, ou, se quiserem, um desenvolvimento

gradual, a princípio insensível, da espécie imediatamente inferior e,

assim, sucessivamente, até o primitivo ser elementar. entre a glande e

o carvalho é grande a diferença; entretanto, se acompanharmos passo

a passo o desenvolvimento da glande, chegaremos ao carvalho e já não

nos admiraremos de que este proceda de tão pequena semente. ora, se

a glande encerra em latência os elementos próprios à formação de uma

árvore gigantesca, por que não se daria o mesmo do ácaro ao elefante?

(item 23.)

de acordo com o que fica dito, percebe-se que não exista gera-

ção espontânea senão para os seres orgânicos elementares; as espécies

superiores seriam produto das transformações sucessivas desses mes-

mos seres, realizadas à proporção que as condições atmosféricas se lhes

foram tornando propícias. Adquirindo cada espécie a faculdade de

reproduzir-se, os cruzamentos acarretaram inúmeras variedades. de-

pois, uma vez instalada em condições favoráveis, quem nos diz que os

 

178

Gênese orgânica

 

germens primitivos donde ela surgiu não desapareceram para sempre,

por inúteis? Quem nos diz que o nosso ácaro atual seja idêntico ao

que, de transformação em transformação, produziu o elefante? expli-

car-se-ia assim porque não há geração espontânea entre os animais de

complexa organização.

esta teoria, sem estar admitida ainda, de maneira definitiva, é a

que tende evidentemente a predominar hoje na ciência. os observado-

res sérios aceitam-na como a mais racional.

 

O homem corpóreo

 

26. do ponto de vista corpóreo e puramente anatômico, o ho-

mem pertence à classe dos mamíferos, dos quais unicamente difere por

alguns matizes na forma exterior. Quanto ao mais, a mesma compo-

sição de todos os animais, os mesmos órgãos, as mesmas funções e os

mesmos modos de nutrição, de respiração, de secreção, de reprodução.

ele nasce, vive e morre nas mesmas condições e, quando morre, seu

corpo se decompõe, como tudo o que vive. não há, em seu sangue, na

sua carne, em seus ossos, um átomo diferente dos que se encontram no

corpo dos animais. como estes, ao morrer, o homem restitui à terra o

oxigênio, o hidrogênio, o azoto e o carbono que se haviam combinado

para formá-lo; e esses elementos, por meio de novas combinações, vão

formar outros corpos minerais, vegetais e animais. é tão grande a analo-

gia que suas funções orgânicas são estudadas em certos animais, quando

as experiências não podem ser feitas nele próprio.

27. na classe dos mamíferos, o homem pertence à ordem dos bí-

manos. logo abaixo dele vêm os quadrúmanos (animais de quatro mãos)

ou macacos, alguns dos quais, como o orangotango, o chimpanzé, o

jocó,114 têm certos ademanes do homem, a tal ponto que, por muito

tempo, foram denominados: homens das florestas. como o homem, esses

macacos caminham eretos, usam cajados, constroem choças e levam à

boca, com a mão, os alimentos: sinais característicos.

28. por pouco que se observe a escala dos seres vivos, do ponto

de vista do organismo, é-se forçado a reconhecer que, desde o líquen

 

114 N.E.: Nome de origem banto ou sudanesa dado por alguns autores ao chimpanzé e ao orangotango

ou aos mamíferos antropomorfos em geral.

 

179

Capítulo X

 

até a árvore e desde o zoófito até o homem, há uma cadeia que se

eleva gradativamente, sem solução de continuidade e seus anéis todos

têm um ponto de contato com o anel precedente. Acompanhando-se

passo a passo a série dos seres, dir-se-ia que cada espécie é um aperfeiçoa-

mento, uma transformação da espécie imediatamente inferior. visto que

são idênticas às dos outros corpos as condições do corpo do homem,

química e constitucionalmente; visto que ele nasce, vive e morre da

mesma maneira, também nas mesmas condições que os outros se há

de ele ter formado.

29. Ainda que isso lhe fira o orgulho, tem o homem que se resignar

a não ver no seu corpo material mais do que o último anel da animalidade

na Terra. Aí está o inexorável argumento dos fatos, contra o qual seria

inútil protestar.

todavia, quanto mais o corpo diminui de valor aos seus olhos,

tanto mais cresce de importância o princípio espiritual. se o primeiro

o nivela ao bruto, o segundo o eleva a incomensurável altura. vemos o

limite extremo do animal: não vemos o limite a que chegará o espírito

do homem.

30. o materialismo pode por aí ver que o espiritismo, longe de

temer as descobertas da ciência e o seu positivismo, lhe vai ao encon-

tro e os provoca, por possuir a certeza de que o princípio espiritual,

que tem existência própria, em nada pode com elas sofrer.

o espiritismo marcha ao lado do materialismo, no campo da

matéria; admite tudo o que o segundo admite; mas avança para além

do ponto onde este último para. o espiritismo e o materialismo são

como dois viajantes que caminham juntos, partindo de um mesmo

ponto; chegados a certa distância, diz um: “não posso ir mais longe.”

o outro prossegue e descobre um novo mundo. por que, então, há de

o primeiro dizer que o segundo é louco, somente porque, entrevendo

novos horizontes, se decide a transpor os limites onde ao outro con-

vém deter-se? também cristóvão colombo não foi tachado de louco,

porque acreditava na existência de um mundo, para lá do oceano?

Quantos a História não conta desses loucos sublimes, que hão feito

que a humanidade avançasse e aos quais se tecem coroas, depois de se

lhes haver atirado lama?

 

180

Gênese orgânica

 

pois bem! o espiritismo, a loucura do século XiX, segundo os

que se obstinam em permanecer na margem terrena, nos patenteia

todo um mundo, mundo bem mais importante para o homem, do que

a América, porquanto nem todos os homens vão à América, ao passo

que todos, sem exceção de nenhum, vão ao dos espíritos, fazendo in-

cessantes travessias de um para o outro.

galgado o ponto em que nos achamos com relação à gênese,

o materialismo se detém, enquanto o espiritismo prossegue em suas

pesquisas no domínio da Gênese espiritual.

 

181

cApítulo Xi

 

M

 

gênese espiritual

 

• princípio espiritual • união do princípio espiritual à matéria

• Hipótese sobre a origem do corpo humano • encarnação dos

espíritos • reencarnações • emigrações e imigrações dos espíritos

• raça adâmica • doutrina dos anjos decaídos e da perda do paraíso

 

Princípio espiritual

 

1. A existência do princípio espiritual é um fato que, por assim di-

zer, não precisa de demonstração, do mesmo modo que o da existência

do princípio material. é, de certa forma, uma verdade axiomática. ele se

afirma pelos seus efeitos, como a matéria pelos que lhe são próprios.

de acordo com este princípio: “todo efeito tendo uma causa, todo

efeito inteligente há de ter uma causa inteligente”, ninguém há que não

faça distinção entre o movimento mecânico de um sino que o vento agite

e o movimento desse mesmo sino para dar um sinal, um aviso, atestando,

só por isso, que obedece a um pensamento, a uma intenção. ora, não

podendo acudir a ninguém a ideia de atribuir pensamento à matéria do

sino, tem-se de concluir que o move uma inteligência à qual ele serve de

instrumento para que ela se manifeste.

pela mesma razão, ninguém terá a ideia de atribuir pensamento ao

corpo de um homem morto. se, pois, vivo, o homem pensa, é que há nele

alguma coisa que não há quando está morto. A diferença que existe entre

ele e o sino é que a inteligência, que faz com que este se mova, está fora

dele, ao passo que está no homem a que faz que este obre.

Capítulo XI

 

2. o princípio espiritual é corolário da existência de deus; sem esse

princípio, deus não teria razão de ser, visto que não se poderia conceber

a soberana inteligência a reinar, pela eternidade afora, unicamente sobre

a matéria bruta, como não se poderia conceber que um monarca terreno,

durante toda a sua vida, reinasse exclusivamente sobre pedras. não se po-

dendo admitir deus sem os atributos essenciais da divindade: a justiça e

a bondade, inúteis seriam essas qualidades, se ele as houvesse de exercitar

somente sobre a matéria.

3. por outro lado, não se poderia conceber um deus soberana-

mente justo e bom, a criar seres inteligentes e sensíveis, para lançá-los ao

nada, após alguns dias de sofrimento sem compensações, a recrear-se na

contemplação dessa sucessão indefinita de seres que nascem, sem que o

hajam pedido, pensam por um instante, apenas para conhecerem a dor, e

se extinguem para sempre, ao cabo de efêmera existência.

sem a sobrevivência do ser pensante, os sofrimentos da vida se-

riam, da parte de deus, uma crueldade sem objetivo. eis por que o ma-

terialismo e o ateísmo são corolários um do outro; negando o efeito, não

podem eles admitir a causa. o materialismo é, pois, consequente consigo

mesmo, embora não o seja com a razão.

4. é inata no homem a ideia da perpetuidade do ser espiritual; essa

ideia se acha nele em estado de intuição e de aspiração. o homem com-

preende que somente aí está a compensação às misérias da vida. essa a

razão por que sempre houve e haverá cada vez mais espiritualistas do que

materialistas e mais devotos do que ateus.

À ideia intuitiva e à força do raciocínio o espiritismo junta a san-

ção dos fatos, a prova material da existência do ser espiritual, da sua

sobrevivência, da sua imortalidade e da sua individualidade. torna pre-

cisa e define o que aquela ideia tinha de vago e de abstrato. mostra o ser

inteligente a atuar fora da matéria, quer depois, quer durante a vida do

corpo.

5. são a mesma coisa o princípio espiritual e o princípio vital?

partindo, como sempre, da observação dos fatos, diremos que, se o

princípio vital fosse inseparável do princípio inteligente, haveria certa razão

para que os confundíssemos. mas, havendo, como há, seres que vivem e não

pensam, quais as plantas; corpos humanos que ainda se revelam animados

de vida orgânica quando já não há qualquer manifestação de pensamento;

 

184

Gênese espiritual

 

uma vez que no ser vivo se produzem movimentos vitais independentes de

qualquer intervenção da vontade; que durante o sono a vida orgânica se

conserva em plena atividade, enquanto a vida intelectual por nenhum sinal

exterior se manifesta, é cabível se admita que a vida orgânica reside num

princípio inerente à matéria, independente da vida espiritual, que é ineren-

te ao espírito. ora, desde que a matéria tem uma vitalidade independente

do espírito e que o espírito tem uma vitalidade independente da matéria,

evidente se torna que essa dupla vitalidade repousa em dois princípios dife-

rentes. (cap. X, itens 16 a 19.)

6. terá o princípio espiritual sua fonte de origem no elemento cós-

mico universal? será ele apenas uma transformação, um modo de exis-

tência desse elemento, como a luz, a eletricidade, o calor etc.?

se fosse assim, o princípio espiritual sofreria as vicissitudes da ma-

téria; extinguir-se-ia pela desagregação, como o princípio vital; momen-

tânea seria, como a do corpo, a existência do ser inteligente que, então,

ao morrer, volveria ao nada, ou, o que daria na mesma, ao todo universal.

seria, numa palavra, a sanção das doutrinas materialistas.

As propriedades sui generis [peculiares] que se reconhecem ao prin-

cípio espiritual provam que ele tem existência própria, pois que, se sua

origem estivesse na matéria, aquelas propriedades lhe faltariam. desde

que a inteligência e o pensamento não podem ser atributos da matéria,

chega-se, remontando dos efeitos à causa, à conclusão de que o elemento

material e o elemento espiritual são os dois princípios constitutivos do

universo. individualizado, o elemento espiritual constitui os seres cha-

mados Espíritos, como, individualizado, o elemento material constitui os

diferentes corpos da natureza, orgânicos e inorgânicos.

7. Admitido o ser espiritual e não podendo ele proceder da maté-

ria, qual a sua origem, seu ponto de partida?

Aqui, falecem absolutamente os meios de investigação, como para

tudo o que diz respeito à origem das coisas. o homem apenas pode com-

provar o que existe; acerca de tudo o mais, apenas lhe é dado formular

hipóteses e, quer porque esse conhecimento esteja fora do alcance da sua

inteligência atual, quer porque lhe seja inútil ou prejudicial presente-

mente, deus não lho outorga, nem mesmo pela revelação.

o que deus permite que seus mensageiros lhe digam e o que,

aliás, o próprio homem pode deduzir do princípio da soberana justiça,

 

185

Capítulo XI

 

atributo essencial da divindade, é que todos procedem do mesmo ponto

de partida; que todos são criados simples e ignorantes, com igual aptidão

para progredir pelas suas atividades individuais; que todos atingirão o

grau máximo da perfeição com seus esforços pessoais; que todos, sendo

filhos do mesmo pai, são objeto de igual solicitude; que nenhum há mais

favorecido ou melhor dotado do que os outros, nem dispensado do tra-

balho imposto aos demais para atingirem a meta.

8. Ao mesmo tempo que criou, desde toda a eternidade, mundos

materiais, deus há criado, desde toda a eternidade, seres espirituais. se

assim não fora, os mundos materiais careceriam de finalidade. mais fácil

seria conceberem-se os seres espirituais sem os mundos materiais, do que

estes últimos sem aqueles. os mundos materiais é que teriam de fornecer

aos seres espirituais elementos de atividade para o desenvolvimento de

suas inteligências.

9. progredir é condição normal dos seres espirituais e a perfeição

relativa o fim que lhes cumpre alcançar. ora, havendo deus criado des-

de toda a eternidade, e criando incessantemente, também desde toda a

eternidade tem havido seres que atingiram o ponto culminante da escala.

Antes que existisse a terra, mundos sem conta haviam sucedido a

mundos e, quando a terra saiu do caos dos elementos, o espaço estava

povoado de seres espirituais em todos os graus de adiantamento, desde

os que surgiam para a vida até os que, desde toda a eternidade, haviam

tomado lugar entre os puros espíritos, vulgarmente chamados anjos.

 

União do princípio espiritual à matéria

 

10. tendo a matéria que ser objeto do trabalho do espírito para

desenvolvimento de suas faculdades, era necessário que ele pudesse atuar

sobre ela, pelo que veio habitá-la, como o lenhador habita a floresta.

tendo a matéria que ser, no mesmo tempo, objeto e instrumento do

trabalho, deus, em vez de unir o espírito à pedra rígida, criou, para seu

uso, corpos organizados, flexíveis, capazes de receber todas as impulsões

da sua vontade e de se prestarem a todos os seus movimentos.

o corpo é, pois, simultaneamente, o envoltório e o instrumento

do espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste outro

invólucro apropriado ao novo gênero de trabalho que lhe cabe executar,

 

186

Gênese espiritual

 

tal qual se faz com o operário, a quem é dado instrumento menos gros-

seiro, à proporção que ele se vai mostrando apto a executar obra mais

bem cuidada.

11. para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio espírito

que modela o seu envoltório e o apropria às suas novas necessidades;

aperfeiçoa-o e lhe desenvolve e completa o organismo, à medida que ex-

perimenta a necessidade de manifestar novas faculdades; numa palavra,

talha-o de acordo com a sua inteligência. deus fornece ao espírito os

materiais; cabe a ele empregá-los. é assim que as raças adiantadas têm

um organismo ou, se quiserem, um aparelhamento cerebral mais aper-

feiçoado do que as raças primitivas. desse modo igualmente se explica o

cunho especial que o caráter do espírito imprime aos traços da fisiono-

mia e às linhas do corpo. (cap. viii, item 7: Alma da terra.)115

12. desde que um espírito nasce para a vida espiritual, tem, por

adiantar-se, que fazer uso de suas faculdades, rudimentares a princípio.

por isso é que reveste um envoltório adequado ao seu estado de infância

intelectual, envoltório que ele abandona para tomar outro, à proporção

que se lhe aumentam as forças. ora, como em todos os tempos houve

mundos e esses mundos deram nascimento a corpos organizados pró-

prios a receber espíritos, em todos os tempos os espíritos, qualquer que

fosse o grau de adiantamento que houvessem alcançado, encontraram os

elementos necessários à sua vida carnal.

13. por ser exclusivamente material, o corpo sofre as vicissitudes

da matéria. depois de funcionar por algum tempo, ele se desorganiza e

decompõe. o princípio vital, não mais encontrando elemento para sua

atividade, se extingue e o corpo morre. o espírito, para quem, este, ca-

rente de vida, se torna inútil, deixa-o, como se deixa uma casa em ruínas,

ou uma roupa imprestável.

14. o corpo, conseguintemente, não passa de um envoltório des-

tinado a receber o espírito. desde então, pouco importam a sua ori-

gem e os materiais que entraram na sua construção. seja ou não o corpo

do homem uma criação especial, o que não padece dúvida é que tem a

formá-lo os mesmos elementos que o dos animais, a animá-lo o mesmo

princípio vital, ou, por outra, a aquecê-lo o mesmo fogo, como tem a

 

115 N.E.: Ver Nota Explicativa, p. 375.

 

187

Capítulo XI

 

iluminá-lo a mesma luz e se acha sujeito às mesmas vicissitudes e às mes-

mas necessidades. é um ponto este que não sofre contestação.

A não se considerar, pois, senão a matéria, abstraindo do espírito,

o homem nada tem que o distinga do animal. tudo, porém, muda de

aspecto, logo que se estabelece distinção entre a habitação e o habitante.

ou numa choupana, ou envergando as vestes de um campônio,

um nobre senhor não deixa de o ser. o mesmo se dá com o homem: não

é a sua vestidura de carne que o coloca acima do bruto e faz dele um ser

à parte; é o seu ser espiritual, seu espírito.

 

Hipótese sobre a origem do corpo humano

 

15. da semelhança, que há, de formas exteriores entre o corpo do

homem e o do macaco, concluíram alguns fisiologistas que o primei-

ro é apenas uma transformação do segundo. nada aí há de impossível,

nem o que, se assim for, afete a dignidade do homem. bem pode dar-se

que corpos de macaco tenham servido de vestidura aos primeiros espíri-

tos humanos, forçosamente pouco adiantados, que viessem encarnar na

terra, sendo essa vestidura mais apropriada às suas necessidades e mais

adequadas ao exercício de suas faculdades, do que o corpo de qualquer

outro animal. em vez de se fazer para o espírito um invólucro especial,

ele teria achado um já pronto. vestiu-se então da pele do macaco, sem

deixar de ser espírito humano, como o homem não raro se reveste da

pele de certos animais, sem deixar de ser homem.

fique bem entendido que aqui unicamente se trata de uma hipó-

tese, de modo algum posta como princípio, mas apresentada apenas para

mostrar que a origem do corpo em nada prejudica o espírito, que é o ser

principal, e que a semelhança do corpo do homem com o do macaco não

implica paridade entre o seu espírito e o do macaco.

16. Admitida essa hipótese, pode dizer-se que, sob a influência e

por efeito da atividade intelectual do seu novo habitante, o envoltório

se modificou, embelezou-se nas particularidades, conservando a forma

geral do conjunto (item 11). melhorados, os corpos, pela procriação,

se reproduziram nas mesmas condições, como sucede com as árvores de

enxerto. deram origem a uma espécie nova, que pouco a pouco se afas-

tou do tipo primitivo, à proporção que o espírito progrediu. o espírito

 

188

Gênese espiritual

 

macaco, que não foi aniquilado, continuou a procriar, para seu uso, cor-

pos de macaco, do mesmo modo que o fruto da árvore silvestre reproduz

árvores dessa espécie, e o espírito humano procriou corpos de homem,

variantes do primeiro molde em que ele se meteu. o tronco se bifurcou:

produziu um ramo, que por sua vez se tornou tronco.

como na natureza não há transições bruscas, é provável que os

primeiros homens aparecidos na terra pouco diferissem do macaco pela

forma exterior e não muito também pela inteligência. em nossos dias

ainda há selvagens que, pelo comprimento dos braços e dos pés e pela

conformação da cabeça, têm tanta parecença com o macaco, que só lhes

falta ser peludos, para se tornar completa a semelhança.

 

Encarnação dos Espíritos

 

17. o espiritismo ensina de que maneira se opera a união do

espírito com o corpo, na encarnação.

pela sua essência espiritual, o espírito é um ser indefinido, abstra-

to, que não pode ter ação direta sobre a matéria, sendo-lhe indispensável

um intermediário, que é o envoltório fluídico, o qual, de certo modo,

faz parte integrante dele. é semimaterial esse envoltório, isto é, pertence

à matéria pela sua origem e à espiritualidade pela sua natureza etérea.

como toda matéria, ele é extraído do fluido cósmico universal que, nessa

circunstância, sofre uma modificação especial. esse envoltório, denomi-

nado perispírito, faz de um ser abstrato, do espírito, um ser concreto,

definido, apreensível pelo pensamento. torna-o apto a atuar sobre a ma-

téria tangível, conforme se dá com todos os fluidos imponderáveis, que

Continuar: parte 2 de 3