Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 7 de 60

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Complexo de Cinderela

O complexo de Cinderela

Eu queria fatos. Eu queria teorias. Eu queria ouvir m ulheres falarem sobre suas vidas, agora que, supostam ente, som os livres para ser livres. Eu sentia que algo estava acontecendo, algo sobre o que não se falava nem se escrevia, algo negligenciado por todos os artigos e pesquisas. A necessidade psicológica de evitar a independência — o "desej o de salvação" — m e parecia um ponto im portante, provavelm ente o m ais im portante no que concerne às m ulheres hoj e. Fom os criadas para depender de um hom em e sentirm o-nos nuas e apavoradas sem ele. Fom os ensinadas a crer que, por serm os m ulheres, não som os capazes de viver por nossa conta, que som os frágeis e delicadas dem ais, com absoluta necessidade de proteção. De form a que agora, na era da conscientização, quando nossos intelectos nos ditam a autonom ia, o em ocional não-resolvido nos derruba. A um só tem po alm ej am os libertar-nos dos grilhões e ter quem (cuidando de nós) os recoloque. Nossas propensões à dependência encontram -se em geral profundam ente enraizadas. A dependência é am eaçadora. Ela nos enche de ansiedade, pois rem ete-nos à infância, quando realm ente éram os indefesas. Fazem os o possível para esconder essas necessidades de nós m esm as. Especialm ente agora, com toda essa pressão social para a independência, torna-se tentador m anterm os essa outra parte de nós abafada, reprim ida.

Essa parte enterrada e negada é o problem a. Ela se anuncia em fantasias e sonhos. Por vezes assum e a form a de fobia. Ela afeta o m odo pelo qual as m ulheres pensam , agem e falam — e não apenas algumas m ulheres, m as virtualm ente todas. As necessidades ocultas de dependência estão causando dificuldades à dona-de-casa sustentada, que precisa pedir ao m arido perm issão para com prar um vestido, bem com o à profissional bem -sucedida que tem insónia quando o am ante sai da cidade. Alexandra Sy m onds, psiquiatra de Nova York, estudiosa do fenôm eno da dependência, diz que ele afeta a m aioria das m ulheres que ela conheceu. Mesm o as m ulheres aparentem ente vitoriosas em suas carreiras e vidas privadas, segundo ela, tendem a "subordinar-se aos outros, a se tornar dependentes e, inadvertidam ente, devotar a m aior parte de suas energias em busca de am or, aj uda e proteção contra o que é visto com o difícil, ou desafiante, ou hostil no m undo".

 

O complexo de Cinderela

 

Existe som ente um instrum ento pelo qual podem os obter a "libertação": é em ancipar-nos interiorm ente. A tese deste livro é a de que a dependência psicológica— o desejo inconsciente dos cuidados de outrem — é a força motriz que ainda mantêm as mulheres agrilhoadas. Denominei-a "complexo de

Cinderela": uma rede de atitudes e temores profundamente reprimidos que retém as mulheres numa espécie de penumbra e as impede de utilizar plenamente seu intelecto e sua criatividade. Como Cinderela, as mulheres de hoje ainda esperam por algo externo que venha transformar suas vidas. Usando m inha experiência pessoal com o ponto de partida, entrelacei as teorias psicológicas e psicanalíticas que em basam este livro com as histórias reais das entrevistadas. (Onde se fez necessário, nom es e certos detalhes foram m udados.) Nas páginas que se seguem você conhecerá m ulheres solteiras, m ulheres casadas, m ulheres que partilham um lar com seus am antes. Algum as delas dedicam -se a um a carreira, algum as j am ais se aventuraram fora de casa, algum as aventuraram -se, mas acabaram se refugiando nela novam ente. Há m ulheres sofisticadas de grandes m etrópoles e cam ponesas cortadoras de lenha; viúvas, divorciadas e m ulheres que desej am o divórcio, m as não têm coragem de pedi-lo. Há m ulheres que am am seus hom ens, m as m orrem de m edo deles. Várias das m ulheres com quem conversei tinham educação superior, algum as não; entretanto, praticam ente todas elas estavam funcionando m uito abaixo do nível de suas capacidades potenciais, vivendo num tipo de lim bo por elas m esm as construído. Esperando,

Boa parcela das m ulheres entrevistadas no curso da pesquisa para este livro desconhecem o "problem a". Suas m entes lhes dizem que tudo o que desej am — ou j á desej aram — é a liberdade. Em ocionalm ente, contudo, m ostram sinais de sofrim ento por conflitos internos profundos.

Outras lutam interm itentem ente, com vislum bres do que é que as está fazendo ansiosas e freqüentem ente deprim idas.

Outras ainda, felizm ente, encaram o problem a e reconhecem por com pleto seu profundo desej o de serem protegidas e cuidadas, conseguindo então criar nova força e um senso realista de quem são e do que realm ente são capazes de realizar. Estas m ulheres se tornam , com o as denom ina um terapeuta, corajosamente vulneráveis. Em vez de continuarem um a vida de repressão e negação, confrontam as verdades de seu íntim o, triunfando afinal sobre os tem ores que as m antinham presas a suas cozinhas. Essas são as m ulheres que verdadeiram ente se libertaram . Com elas tem os m uito o que aprender.