Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 36 de 60

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Complexo de Cinderela

"Não é justo!"

 

Porque a j ustiça — ou m elhor, a inj ustiça — vem sendo um problem a tão central para as m ulheres, a questão de "o que é j usto" pode facilm ente ser usada com o m ecanism o de defesa — e ocultação — de sentim entos de inadequação. Tal qual o caçula obcecado com o tratam ento negativo recebido da fam ília, as m ulheres usam a inj ustiça com que vêm sendo tratadas historicam ente para se aquartelarem contra posteriores tratam entos negativos. Isoladas por seus sentim entos de "vítim as", perm anecem enclausuradas. Sim ilarm ente às esposas desativadas, nelas atua um sistem a de reforço negativo. É um ciclo doloroso. Num sentido clínico, obj etivo, as m ulheres são m enos autoconfiantes que os hom ens. Fom os criadas de um m odo que nos im pede de executar a separação psicológica que conduz à autoconfiança. Culturalm ente isso pode ser um a realidade, m as parar aí é auto-derrotar-nos. E, contudo, é precisam ente neste ponto que m uitas m ulheres desistem .

"Não é j usto eu ter m e colocado entre os cinco m elhores no exam e de qualificação e agora m e lim itar a tirar o pó dos relatórios deles, e fazer pesquisas para os casos deles", diz Vivian Knowlton. "Não é j usto ter vivido praticam ente sem vida social durante os três anos em que fiz especialização, m e m atando para tirar aquelas notas 10, e agora passar horas a fio sob um a lâm pada fluorescente exam inando velhos códigos j urídicos."

As coisas não estavam correndo segundo nenhum a das norm as que tinham governado a vida de Vivian até então. Sua vida profissional estava exigindo um grau de independência de que ela nunca necessitara para tirar seus 10 na faculdade. De form a m uito concreta, as norm as haviam m udado. "Isso faz que eu m e sinta trapaceada, com o se tivesse sido destinada a algo grandioso e excitante — todo o m undo da lei estava lá à m inha disposição para ser devorado —, e, agora, esta horrível decepção."

Vivian realm ente acredita que tudo o que seus colegas do sexo m asculino fazem de algum a m aneira prescinde de "esforços". Ela se sente com petindo com os hom ens e com invej a deles; porém , sente-se assim tam bém com Natalie, a outra advogada do escritório. Aparentem ente "eles" possuem algum a coisa que ela não possui, algo que utilizam para vencer. Esta ê a isca m ais traiçoeira na psicologia fem inina contem porânea. Vivian se vale da posição de desvantagem cultural para m ascarar m uitas de suas em oções m ais dolorosas — em oções essas que a im pedem de construir a verdadeira autoconfiança e a auto-estim a sem as quais não tem chances de se libertar.

As m ulheres m antêm suas necessidades de dependência m uito além do ponto do desenvolvim ento em que tais necessidades são norm ais e sadias. Escondem os dos outros — e, pior que isso, escondem os de nós próprias — o fato de carregarm os a dependência dentro de nós com o algum a doença auto-im une. Carregam o-la conosco desde o m aternal até a faculdade, ou até a pós-graduação, e depois em nossas carreiras e no conveniente "arranj o" de nossos casam entos. Tal com o um punhal cravado no coração, a dependência se enterra profundam ente no centro de nossos relacionam entos com nossos m aridos, nossos am igos e até nossos filhos. Grande parte do tem po — para várias de nós, todo o tem po —, nossa m á vontade em erguer-nos sobre nossos próprios pés passa despercebida porque é esperada. As m ulheres são seres "relacionais". Elas se dedicam a cuidar, e necessitam de cuidados. Essa, aprendem os por tantos e tantos anos, é a natureza fem inina.

E, em bora ela nos m utile, não a questionam os.