Complexo de Cinderela
Arrebatando-se à armadilha da dependência
Devo advertir que o m om ento em que m eu "eu interior" disse "Vá!" nada tinha a ver com força de vontade. É im possível "pôr-se de pé na base do tapa", do "ou vai ou racha", e passar à ação entre conflitos extrem ados. Se força de vontade fosse a resposta ao problem a, eu nunca teria escrito este livro. Aquele im pulso para a frente do "eu interior" surgiu com o resultado de um longo e significativo processo, o processo de identificar as contradições dentro de m im e então elaborá-las. A vontade não pode ser com andada a nosso bel-prazer. Quando se está inteiro e sem conflitos, a vontade opera autom aticam ente. Por outro lado, quando se é invadido por sentim entos e atitudes m utuam ente opostos, a vontade é anulada. Isso quer dizer que se torna im possível escolher o que fazer na vida; age-se apenas segundo um a com pulsão à ação. Perm anece-se no m esm o em prego m edíocre não porque nos agrada e o escolhem os, ou porque, nas palavras de algum as m ulheres, "m eu trabalho não é tão im portante para m im com o m inha fam ília". Tal qual a advogada Vivian Knowlton, perm anece-se nele porque a necessidade de subordinar-se está em relação inversa à necessidade de vencer, e fica-se paralisada entre as duas necessidades. No cam po do am or, não se escolhe o parceiro pela alegria de com partilhar a vida com outro ser hum ano. Se estam os em conflito, com o Caroline Burkhardt, casam o-nos devido a um a necessidade com pulsiva e indiscrim inada de serm os am adas, desej adas, aprovadas, cuidadas.
É essa m esm a necessidade que nos cega para o fato de que nem todo m undo é bom e digno de confiança — e então desm oronam os quando alguém se nos revela m au ou hostil.
É essa necessidade que nos leva a fazer qualquer coisa para evitar brigas, desaprovação, olhares carrancudos.
Enfim , é essa necessidade que nos leva a subordinar-nos, a adotar posições secundárias, a autom aticam ente assum ir culpas. Disso à síndrom e do "pobre de m im ", é som ente um pequeno passo. As m ulheres que são dom inadas pela com pulsão de adotar posições secundárias acabam realm ente prej udicando suas potencialidades. Num certo grau, tornam -se aquilo a que são levadas a se tornar: hesitantes, inseguras, excessivam ente vulneráveis.
Arrebatando-se à armadilha da dependência
Não m uito depois de haver abandonado a vida de "m oça bem -com portada" e fugido para as liberdades irrestritas de Paris, no outono de 1929, Sim one de Beauvoir conheceu o hom em que viria a ser seu am igo, m entor e am ante pelo resto da vida: Jean-Paul Sartre. Am bos tinham vinte e poucos anos, sendo ele um pouco m ais velho que ela. Em m uitos aspectos, sua ligação rápida e sólida com esse hom em perm itiu-lhe rom per os laços fam iliares que tanto a tinham reprim ido durante a adolescência. Foi um a fuga para um terreno extrem am ente exótico e intelectual. No início, os dois am antes passavam praticam ente todo o tem po j untos, liam os m esm os livros, procuravam os m esm os am igos e, em geral, cultivavam suas idéias tão sim bioticam ente que, em sua autobiografia, Sim one usa frases com o "nós acham os" e "nossa idéia". Quando com ecei a ler sua descrição do relacionam ento que m antinha com Sartre na época, fiquei aturdida com a quantidade de fusão existente naquela relação. Ela parecia tão inteiram ente enredada na sensibilidade dele que se fazia difícil im aginar que ela um dia se desem baraçaria o bastante para entregar-se ao excelente trabalho intelectual e criativo que veio a desenvolver individualm ente m ais tarde. É bem verdade que Sartre era um gênio; contudo, essa m ulher brilhante e interessante constituía-se com o que num obj eto dele, suj eito. "Eu o adm irava por construir seu destino com as próprias m ãos, sem aj uda externa", ela escreve. "Longe de sentir-m e constrangida por vê-lo superior a m im , tal idéia m e proporcionava alento."
Ela contava apenas vinte e um anos e era aparentem ente tão rom ântica com o qualquer j ovem de sua idade. Entretanto, se quisesse se libertar do padrão destrutivo que ia tão claram ente se delineando em seu relacionam ento com Sartre, ela teria que fazer algum a coisa — algum a coisa radical. "Minha confiança nele era tão com pleta", escreve, "que m e oferecia o tipo de segurança absoluta e infalível que anteriorm ente eu encontrara em m eus pais ou em Deus." Sim one e Jean-Paul cam inhavam j untos pelas ruas de Paris, conversavam interm inavelm ente, bebiam nos bares até as duas da m anhã. Ela se surpreendia quase levitando num delírio de felicidade. "Meus anseios m ais profundos estavam agora satisfeitos", prossegue sua narrativa. "Não m e restava nada por alm ej ar a não ser que aquele estado de triunfante felicidade continuasse eternam ente." A euforia durou m ais de um ano, até a irrupção de algo inquietante que veio sutilm ente abalar aquele gozo pleno. Ela com eçou a suspeitar de haver renunciado a um a parte essencial de seu "eu". Sua com placente entrega à onda de estím ulos sensuais e intelectuais oferecidos por Paris estava com eçando a exercer um efeito fragm entador sobre ela. A ficção que escrevia era m arcada pela indiferença. Faltava-lhe convicção. "Por vezes eu sentia estar fazendo algo com o um a tarefa de escola, ou produzindo paródias", prossegue. Durante dezoito anos, De Beauvoir viveu num agudo estado de conflito. "Em bora eu ainda perseguisse entusiasticam ente todas as coisas boas deste m undo, estava com eçando a pensar que elas estavam m e afastando de m inha real vocação; eu estava trilhando o cam inho da auto-traição e da auto-destruição." Os livros que sem pre lera tão obsessivam ente, percebia agora, lia-os sem concentração, sem vistas a um enriquecim ento intelectual. Apenas esporadicam ente escrevia em seu diário. Im pelida pelo desej o de ter tudo, estava de m ãos e pés atados. "Não conseguia forçar-m e a renunciar a nada", confessa, "de sorte que fiquei incapaz de fazer opções."
A dúvida passou a invadir Sim one. Quanto m ais perm anecia inativa — intelectual e em ocionalm ente subordinada a Sartre —, m ais se convencia de sua m ediocridade. "Sem som bra de dúvida eu estava abdicando de m im m esm a", registrou m ais tarde. Vivenciar um relacionam ento de subserviência com Sartre lhe dera um a falsa paz de espírito, um a espécie de estado de êxtase livre de ansiedade no qual não se esperava m uito dela, apenas que fosse um a com panheira adequada.
Inevitavelm ente até essa adequação com eçou a se deteriorar. "Você antes tinha tantas idéias novas, Castor", dizia Sartre, usando o apelido que lhe dera. (Daí ele passou a adverti-la do perigo de transform ar-se em "um a dessas m ulheres introvertidas".)
Posteriorm ente, num a análise m ais m adura, De Beauvoir reconheceu quão perigosam ente fácil lhe fora existir, quando m oça, subj ugada a outrem . Alguém "m ais fascinante" do que ela. Alguém a quem podia idealizar e a cuj a som bra podia sentir-se pequena e segura.
Havia, é claro, um preço a pagar. Um a vozinha sutil passou a filtrar-se através da consciência da j ovem . "Não sou nada", dizia. Ela deu-se conta de "haver interrom pido um a existência própria; agora era apenas um a parasita". Apesar de ser considerada pelas fem inistas um a das idealizadoras do fem inism o m oderno, Sim one de Beauvoir não visualizava a solução do seu problem a com o algo unicam ente determ inado pela cultura. Em bora reconhecesse que até seu m odo de encarar o problem a tinha raízes no fato de ser m ulher, "foi com o indivíduo", afirm a, "que tentei resolvê-lo".
Abruptam ente e com determ inação, Sim one decidiu aceitar um cargo de professora por um ano — longe de Sartre, longe de Paris — na cidade de Marselha. Tinha esperanças de que a solidão a fortalecesse "contra a tentação com que vinha duelando havia dois anos: a de capitular". Em Marselha, Sim one m ontou um esquem a de atividades rigoroso e obsessivo com o form a de exorcizar seu im pulso para a dependência. Nos dois dias da sem ana em que não trabalhava ela cam inhava — não de m odo casual, com o num m ero passeio, m as com a perseverança de alguém que com bate um grave defeito físico. Punha um vestido velho e sapatos confortáveis e arrum ava um a cestinha com lanche. Saía então para sua aventura para o desconhecido, subindo todos os picos, descendo todas as encostas, explorando "todos os vales, gargantas e desfiladeiros".
À m edida que aum entava o núm ero de quilôm etros percorridos, sua força e resistência cresciam . No princípio ela andava durante som ente cinco ou seis horas, m as em breve era capaz de cobrir traj etos que requeriam nove ou dez horas. Com o tem po, chegou a ultrapassar a m arca de quarenta quilôm etros diários de cam inhada. "Visitei cidades grandes e pequenas, vilarej os, abadias e castelos... Com perseverança e tenacidade, redescobri m inha m issão de salvar as coisas do esquecim ento."
Enquanto antes, diz ela, fora "intim am ente dependente de outras pessoas", contando com que lhe propiciassem regras e obj etivos, agora ela estava tendo que abrir seu próprio cam inho sem auxílio externo, dia após dia. Ela pegava carona com m otoristas de cam inhão, de m odo a atingir depressa as m ais distantes estradinhas. Adotou um a posição ativa e agressiva em relação a seus propósitos. "Quando estava escalando rochas e m ontanhas, ou descendo penhascos, procurava descobrir atalhos, de sorte que cada expedição se re-velava um trabalho de arte."
Durante aquele ano ocorreram três coisas que a assustaram . Um a vez ela foi seguida por um cachorro em seu passeio solitário, e o cão com eçou a enlouquecer de sede com o passar das horas. (Por fim ele atirou-se num regato que encontraram .) Outra vez o m otorista de cam inhão que lhe dera carona repentinam ente saiu da estrada principal e dirigiu o veículo para o único ponto deserto em toda a área. Assim que percebeu o que estava acontecendo, ela im aginou rapidam ente um plano. No m om ento em que o cam inhão dim inuiu a velocidade para fazer um a curva, Sim one abriu a porta e am eaçou saltar com o veículo ainda em m ovim ento. Envergonhado, relata ela, o hom em parou e deixou-a partir.
O terceiro episódio envolveu um a cadeia de profundas gargantas que ela ia percorrendo num a tarde ensolarada. A trilha se estreitava gradativam ente; ela calculou ser im possível retornar pelo m esm o cam inho por onde viera e, portanto, seguiu em frente. "Finalm ente", prossegue, "um a parede rochosa, íngrem e, lá estava, bloqueando a passagem , e tive que recuar, voltando a cruzar um a depressão após outra. Por fim cheguei a um a falha na rocha que não ousei saltar."
Aqui sem dúvida houve um rito concreto de passagem — situação na qual poucas m ulheres se aventurariam deliberadam ente. "Não havia ruídos, exceto o som produzido por um a cobra deslizando entre as pedras secas. Nenhum a alm a viva j am ais passaria por aquele desfiladeiro; e se eu quebrasse um a perna ou torcesse um tornozelo, o que seria de m im ? Gritei, m as não obtive resposta. Continuei gritando por um quarto de hora. O silêncio era apavorante." Sim one criara um a situação da qual ela não poderia desistir sem pôr em risco sua vida. O que fez? A única coisa que poderia fazer. Muniu-se de toda a coragem e, no fim , conseguiu descer com segurança.
Os am igos de De Beauvoir preocupavam -se com ela e aconselhavam -na a desistir daquelas perigosas cam inhadas so¬litárias. Em especial, insistiam que parasse de pedir caronas. Porém , ela estava num a m issão m uito m ais relevante que qualquer coisa que eles im aginassem . Com firm e propósito, ela estava recuperando sua alm a.
O que significa assum ir a pessoa que se é? Significa assum ir a responsabilidade pela própria existência. Criar a própria vida. Planej ar a própria program ação. As cam inhadas de Sim one de Beauvoir se constituíam no m étodo e eram o sím bolo de seu renascim ento com o indivíduo. "Sozinha andei sob a névoa que cobria o cum e de Sainte-Victoire, e percorri a cordilheira do Pilon de Roi, avançando contra um forte vento que atirou m inha boina vale abaixo. Sozinha novam ente, perdi-m e num a ravina m ontanhosa na cadeia do Luberon. Esses m om entos, com todo o seu calor, ternura e fúria, pertencem a m im e a ninguém m ais." Em 14 de j ulho, Dia da Bastilha, pronta para regressar a Paris, ela era, sob m uitos aspectos, um a pessoa diferente. Fizera am igos e avaliara pessoas por sua conta unicam ente. Descobrira o prazer de estar só. Revendo as lições que aprendeu naquele ano adm irável, ela escreveu: "Não li m uito, e o rom ance que escrevi não tinha valor. Por outro lado, trabalhei na profissão que escolhera sem perder o ânim o e reconquistei um novo entusiasm o. Eu estava saindo triunfante dos testes a que m e subm etera: a separação e a solidão não haviam destruído m inha paz de espírito".