Complexo de Cinderela
A válvula de escape do casamento
A visão que as m ulheres têm do casam ento parece não haver realm ente se m odificado m uito com os anos. Num estudo que culm inou em seu recente livro Husbands and wives (Maridos e esposas), o Dr. Anthony Pietropinto e Jacqueline Sim anuer descobriram que m uitas m ulheres ainda concebem o casam ento com o um a fortaleza. Ao escolher m arido, estão procurando o príncipe, alguém que venha resgatá-las da responsabilidade. Boa vida sexual, com panheirism o estim ulante — isso é secundário. Dê-lhes um pedestal bem acim a dos perigos do viver autêntico, e elas serão felizes por sim plesm ente se sentarem lá. O nível educacional das m ulheres que figuram no estu¬do m antém pouquíssim a relação com suas atitudes no que se refere a am or e casam ento. Um a dona-de-casa que tinha feito um curso de pós-graduação disse aos autores que escolhera seu hom em porque "Eu era o centro de sua vida. Ele fazia tudo para m e ver feliz. Senti que ele poderia ser um bom provedor e dar-m e segurança financeira". (Segurança financeira era um dos itens no topo da lista do que as m ulheres, nesse estudo, desej avam de um m arido.)
Disse outra m ulher com grau superior de educação sobre o hom em que conseguiu conquistar: "Ele realm ente é m eu m elhor am igo; sem pre foi e sem pre será. Eu dei em cim a dele até que ele se apaixonou por m im e decidiu desposar-m e".
Um a sulista contou-m e que, ao casar-se, procurava "um relacionam ento am oroso intenso, rom ântico, sexy e estim ulante". Num a com preensão tardia, porém , percebeu a falácia rom ântica de suas expectativas. "Eu queria poder ficar em casa em segurança, com as crianças, e fazer com que ele nos trouxesse estím ulo, am or e aventura."
Desconcertante nas respostas dessas m ulheres é a quantidade m ínim a de auto-envolvim ento por elas expressa. As esposas parecem obcecadas por terem provas de quanto são am adas. Sobretudo j ulgam ter direito de exigir dos m aridos o provim ento da segurança.
Dentre aquelas que assim se com portam , sobressai a m ulher que procura para m arido um m édico. Acim a de quaisquer fatores, as esposas de m édicos afirm am colocar a "segurança" com o elem ento decisivo no que esperam do casam ento. No fim das contas, porém , o conflito e a hosti¬lidade que exibem em relação aos hom ens que lhes provêem toda essa segurança são espantosos. A revista Medical/Mrs. publicou os resultados de um a pesquisa efetuada com a finalidade de se averiguar as experiências da vida real de m ulheres que haviam desposado m édicos. Às suas centenas de m ilhares de assinantes, a revista perguntava: "A vida de esposa de m édico está correspondendo a todas as suas expectativas anteriores?" e "Ela corresponde realm ente ao que você im aginava e ao prom etido pela sociedade?"
De j eito nenhum , respondem as m ulheres que tinham construído para si m esm as essa existência sofrida. "A esposa de um m édico sofre pressões m uito m aiores do que as dem ais esposas, e conta com m enos apoio em ocional ou reforço positivo do que elas", queixou-se um a m ulher. "Não podem os contar com nossos m aridos para nada, nem m esm o para pregar um prego na parede." A frustração experim entada por um a esposa de m édico de Mary land estam pava-se claram ente em sua utilização do tipo itálico. "A im possibilidade de fazê-lo com preender que horas extras não aum entam seu salário nem seu status, m as apenas o subtraem à fam ília, im pede-m e de ter tem po para um a vida só m inha, pois cabe unicam ente a m im dirigir a casa e m anter três crianças em paz!"
"O triste é", escreveu outra m ulher, um a veterana (vinte e nove anos) no casam ento com um m édico, "que fui forçada a criar um a vida própria, separada e isolada da dele." (Diversas m ulheres m ais idosas, e não poucas das m ais j ovens, acreditam que ser "forçada" a levar um a vida só sua é, na verdade, um sinal de patologia no relacionam ento. A m ulher cuj o m arido não lhe preenche "adequadam ente" a vida, ofertando-lhe tanto um a razão de ser quanto um m eio de escapar a seus problem as de desenvolvim ento, é um fracasso.) Para seu grande desapontam ento, as esposas de m édicos descobrem haver um a razão inversa entre a quantidade de segurança financeira que recebem dos m aridos e o que alm ej am ainda m ais: a segurança em ocional. "Reforços", "apoio", "am igos e vida fam iliar" — são itens aos quais o m édico-provedor não retribui na m edida em que os recebe, segundo a pesquisa. Nessa linha, não são poucas as esposas de m édicos que acham os m aridos indivíduos entediantes e lim itados. Diferentem ente delas, eles não têm "interesses não-profissionais" ilum inando sua existência. Eles realm ente não fazem nada. (Por não possuir um a existência própria, a esposa acha difícil, se não im possível, com preender que o m arido aprecia essa parte da vida não associada à dela.) Para com pletar o quadro, há ainda o m arido m édico que age com o um tirano dem agogo dentro de casa.
Um tanto levianam ente, a revista inquiriu suas leitoras: "Você sofre devido ao status 'de divindade' atribuído a seu m arido?", ao que quarenta e oito por cento delas gritaram : "Sim "! Um a esposa, obviam ente exasperada e desnorteada, com entou: "O m aior problem a é a incapacidade de m eu m arido perceber que, em bora possa ser um deus no hospital, onde sua palavra é lei, espera-se coisa diferente num relacionam ento fam iliar sadio. Ele costum a dar ordens a m im e a nossos filhos, o que nos desgosta a todos... Ele é um neurocirurgião, e eu realm ente entendo as pressões com que ele se defronta na sala de cirurgia, m as j á estou com trinta e seis anos, m eus filhos com onze e doze, e estou m e cansando dessa rotina toda. De agora em diante, até conseguir achar um a saída m elhor, pretendo ignorá-lo".
Com o essas m ulheres parecem ludibriadas! Elas desej am segurança, sim ; para elas, contudo, segurança significa m uito m ais do que ter alguém que lhes pague as contas. Significa carinhos, afagos. Alguém que se sente a seu lado durante os j ogos do tim e j uvenil do Júnior e os recitais de piano de Alice. Alguém que colabore na preparação da horta caseira e lhes faça parceria em ocasionais j ogos de golfe. Em lugar disso, lucraram tão-som ente um sobrenom e para apresentar ao m undo. Um a casa, m óveis — enfim , obj etos que, por direito, são dele.