Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 58 de 60

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Complexo de Cinderela

O sonho revelador

 

Às vezes é som ente nos sonhos que nossos sentim entos de desam paro e frustração em ergem . Um a j ovial e atraente m ulher de cinqüenta anos que vinha tentando reunir coragem para abandonar um decepcionante casam ento de dezoito anos descreveu-m e a nitidez e vivacidade que coloriram o que ela denom inou seu "sonho da piscina". Ele teve lugar exatam ente um ano antes de sua separação, e constituiu sinal tão evidente que fê-la despertar, sentindo-se inundada de energia. Eis o que ela m e contou: "Eu estava boiando com o um cadáver num a im ensa piscina e tentando falar, m as não conseguia m e fazer com preendida. Jim (seu m arido) estava de pé ao lado da piscina, tentando falar com m eu cadáver. Eu, 'viva', estava de pé ao lado da piscina, diante de Jim , e gritava: 'Não fale com ela! Você não está vendo que essa não sou eu? Aqui! Olhe para m im ! Eu sou esta!

A am arga verdade revelada pelo sonho era que seu m arido nunca a enxergava obj etivam ente. Mais im portante ainda, revelou que ela estava ativam ente envolvida na m anutenção de seu "eu real" oculto. Essa era a verdadeira m ensagem do sonho; ao reconhecê-la, sentada na cam a no m eio da noite, ela com eçou a soluçar. Não era apenas "dele" — o m arido indiferente — que ela estava se escondendo. Era de quaisquer pessoas com quem pudesse ter tido um relacionam ento íntim o e gratificante. Conquanto desej asse aquele relacionam ento, conquanto alm ej asse desesperadam ente tê-lo, ele estava perdido para ela; dar vazão ao "eu real" era por dem ais am eaçador. A Dra. Alexandra Sy m onds contou-m e o caso de um a paciente que a procurou por estar se sentindo deprim ida. Pouco depois de com eçar a terapia, a m ulher teve um sonho. Estava pendurada do lado externo do prédio de apartam entos onde m orava, a m uitos m etros do chão, agarrando-se desesperadam ente ao beiral da j anela com as pontas dos dedos. No interior do apartam ento, o m arido passou pela j anela. A m ulher tentou gritar por socorro, m as tudo o que pôde fazer foi produzir um m urm úrio abafado. O m arido afastou-se sem ouvi-la. O poderoso sim bolism o de sonhos com o esses representa, segundo a Dra. Sy m onds, toda um a categoria de m ulheres que, em bora m uito bem -sucedidas em suas vidas profissionais, são profundam ente perturbadas pela necessidade inconsciente de serem cuidadas. Os sonhos são reveladores. Para algum as pessoas eles podem constituir-se no prim eiro indicador de que algo está errado. Eles podem tam bém apontar para o fato de que velhos padrões estão se quebrando e há m udanças em curso. Um a professora universitária com um histórico de dificuldades de auto-afirm ação sonhou que estava num autom óvel, tentando dizer ao m otorista o que fazer. Alguns m eses depois, após ter-se conscientizado do fato de necessitar exercer m ais controle sobre a própria vida, ela sonhou que estava sentada no banco de passageiros de um carro em m ovim ento, que não tinha m otorista.

Um sonho desses pode ser perturbador, m as pode tam bém , com o nesse caso, significar progresso. A m ulher avançou no sentido de atingir a fronteira do reconhecim ento de que estava só e desprotegida no m undo, sentada no banco de passageiros, num carro sem m otorista. (Um a vez que se perceba isso, pode-se m uito bem decidir sentar-se no banco do m otorista.) Um sonho pode ainda ser o arauto de um novo m undo, provindo não da fam a ou da sorte, m as derivado de algum a resolução interna. Depois de diversos anos de análise, tive o que desde então apelidei "m eu sonho do Harlem ". No sonho, o Harlem figurava com o um a m etáfora para a própria vida, um m undo estranho e heterogêneo, fervilhando de surpresas, alegrias e perigos potenciais. Foi assim que ele se desenrolou:

Estou subindo a pé um a das ruas principais do Harlem , provavelm ente a Seventh Avenue. Estou acom panhada de duas am igas. Tenho a im pressão de não ter vindo ao Harlem há m uito tem po. É assustador; porém , ao m esm o tem po, sinto não ser tão assustador. "Vou conseguir m e virar", disse com igo m esm a. "Existem j eitos e dicas especiais pra gente se virar no Harlem . Sobreviver aqui não é só questão de sorte."

O volum e de ação e m ovim ento nas ruas — a m ultidão, o barulho, os veículos — m e perturba. Estou preocupada com m inha segurança. De repente, param os para olhar a entrada de um lugarzinho apertado especializado em peixe frito. Minhas am igas entram diretam ente; eu, atordoada com a enorm e variedade de coisas a escolher, perm aneço fora, inteiram ente im obilizada. Finalm ente entro — forço-m e a entrar no "restaurante" —, torcendo para que o m ovim ento m e aj ude a optar assim que eu estej a lá dentro.

Lá, sobre o balcão, há coisas torturantem ente apetitosas — escalopes grelhados, im ensas m etade de abacates. Subitam ente vem -m e à m ente o pensam ento de que talvez eu não tenha dinheiro suficiente. Reviro os bolsos e, para m eu alívio, acho trinta e cinco cents. "Quero duas ostras", peço ao negro alto do balcão. Ele está vestido de branco, com um grande chapéu de cozinheiro à cabeça. Perpassa-lhe nos olhos um brilho m alvado e suspeito quando em purra as ostras em m inha direção. Conto m inhas m oedas desaj eitadam ente, trem endo, e ele m e agarra pelo om bro. "Vi o que você estava fazendo!", grita. "Você estava tentando cobrir a de cinco (cents) pra eu pensar que era de vinte e cinco."

"Não, não estava", protesto, zangada. "Eu só estava confusa." Pego as ostras e saio daquele lugar.

No m eio da Seventh Avenue alguns hom ens estão entretidos num j ogo de rua, pulando um a corda em m ovim ento suspensa a uns trinta centím etros do chão. Fito-os, chego à conclusão de que não pretendem m achucar ninguém , e salto sobre a corda. Contudo, fico com raiva de m inhas am igas por não m e terem avisado. "Ei!", grito. "Por que vocês não m e avisaram disto antes de eu descer da calçada?"

Elas dão de om bros e eu penso: "Quem sabe eu estej a j azendo um a tem pestade em copo d'água. Talvez atravessar um a rua m ovim entada sej a algo que sim plesm ente im plique pôr os pés no chão e seguir em frente". Quando alcanço o lado oposto da rua, m inhas am igas estão m e aguardando e as pessoas apinhadas na calçada não parecem m ais tão am eaçadoras. É sábado à tarde no Harlem . O sol brilha. Arvores frondosas enfeitam a calçada. Param os para observar algum as m enininhas brincando. Em m eus esforços para captar a m ensagem dos sonhos, atento para o que sentia e pensava durante seu desenvolvim ento. Este sonho principiou com um sentim ento de ansiedade e m al-estar num local estranho. Depois fui colocada diante de um a superabundância de opções convidativas e vi-m e incapaz de agir em m eu próprio benefício. Rem em orando o sonho, acho quase insuportável a sensação de im potência nesse sentido. Havia coisas boas à m inha disposição, m as eu não conseguia m over-m e em sua direção. Algum a coisa m e prendia, com o se eu estivesse enraizada na calçada. Im obilizada. Então veio o m om ento crucial do sonho. "Vá assim m esm o", instigava-m e um a voz interna. "Você não pode ficar aí parada."

Nesse instante, algo em m im decidiu m over-se. Após entrar no restaurante, senti-m e confusa e insegura. Tive que verificar e reverificar m inhas m oedas. Quanta dificuldade em reunir as m oedas suficientes para pagar m inha com ida! Finalm ente, passei pela experiência de ser acusada inj ustam ente — aliás, irracionalm ente — pelo hom em do balcão. Ele não só estava errado, com o foi ruim para com igo — arbitrariam ente ruim . Mas e daí? Esse tipo de loucura não podia m ais m e abater. A m aldade dos hom ens, a arbitrariedade dos hom ens eram problem as deles. Agora, capaz de cuidar de m im m esm a, se alguém não m e tratasse decentem ente, eu estava livre para afastar-m e. Foi o que fiz. Disse ao hom em que ele estava errado e saí. Fiquei apavorada na rua, m as ainda assim atravessei-a. Fiquei brava com m inhas am igas por não m e protegerem , m as notei que estava sendo tola.

O negócio era atravessar a rua — levantar e m over m eus pés, olhar se vinham carros e cam inhões, abrir cam inho entre tudo e todos — por m inha conta. Quando cheguei ao outro lado senti-m e m elhor, m enos vulnerável, realm ente deliciada com a beleza daquela tarde. Eu havia cruzado a rua sem m e ferir. Com i m inhas ostras, que estavam deliciosas, por trinta e cinco cents. Eu m e negara a ser intim idada pelo desafiante hom em do restaurante. Em lugar de ansiedade, senti prazer. Tive boas sensações observando as m enininhas entretidas em sua brincadeira. Minhas costas se aqueceram calidam ente com o sol. Senti-m e, num a palavra, inteira.