Complexo de Cinderela
Síndrome da "boa mulher"
A identidade de Madeleine estava tão m isturada à do m arido que ela não conseguia ver — tinha m edo de ver — o quanto ele estava dorm itado pelas exigências da vida adulta e pelo caos em ocional criado por seus conflitos internos. Quando Manny foi tom ado por delírios de "beatniquism o" e insistiu em que partissem e fossem m orar em Rom a antes que o prim eiro filho nascesse, Madeleine tam bém foi assaltada por visões da Via Veneto, e seguiu-o com o um cãozinho afeiçoado. Ela não tinha m uita certeza de com o ou com que dinheiro viveriam ; no entanto, de qualquer m odo, aquilo não era de sua alçada. Anos depois, quando Manny sentiu chegada a hora de saírem do "cortiço de Springfield" e com prarem um a casa no cam po, Madeleine tam bém desej ou com prar um a casa no cam po, em bora j am ais tivesse pensado naquela possibilidade e não fizesse idéia de com o conseguiriam pagar as prestações da hipoteca. Quando Manny sentiu que tinha de conquistar sua chance de ser um escritor acim a de qualquer coisa, Madeleine organizou a fam ília toda no sentido de aj udá-lo a realizar seu sonho.
Até que, um dia, a equação não funcionou m ais. Madeleine afinal percebeu que as crianças estavam crescendo e logo sairiam de casa, e que ela teria que viver até o últim o de seus dias com o Grande Escritor de Esboços Am ericano e sua garrafa de vinho barato. Tal com o ocorre com tantas outras m ulheres, a perspectiva da partida dos filhos serviu com o um tapa no rosto, despertando-a rudem ente para a verdade de sua em botada servidão. O que faria agora? Quem seria? Pois via que não era um indivíduo separado e identificável; era som ente um a parte "deles".
Síndrome da "boa mulher"
A m ulher que devota toda a vida a m anter o m arido de pé e os filhos "protegidos" não é um a santa, é um a covarde. Em lugar de experim entar os terrores de ser só, de ter que encontrar e assegurar seu próprio ancoradouro, ela perm anece encostada em alguém , m esm o sofrendo adversidades inacreditáveis. Se ela é realm ente boa nisso, nem chega a aparentar que sofre m uito. É o tipo de m ulher que parece estar sem pre "num a boa". Que parece forte e vigorosa em situações em que a m aioria das pessoas se reduziria a um farrapo. Que, apesar de tudo, é "m aravilhosa com os filhos".
A "boa m ulher" dá tudo de si para agradar aos outros. Quanto às tarefas relacionadas com o seu desenvolvim ento, contudo, deixa m uito a desej ar. Ela coloca o casam ento "a serviço da regressão", para usar a term inologia psicológica indicativa de que inconscientem ente ela espera retornar, m ediante o relacionam ento com o m arido, a um período m ais rem oto e seguro. De acordo com os psicólogos do ego, Rubin e Gertrude Blanck, para a boa m ulher o casam ento se torna "um m eio de garantir cuidado e sustento... um m eio de ganhar um lar, em vez de construir o seu... um a oportunidade de aliviar conflitos, em vez de resolvê-los".
Acobertam ento usado para m ascarar im pulsos neuróticos, um a relação dessas precisa ser contínua e delicadam ente m anipulada. "Algum as das m ulheres que m e procuram para tratam ento possuem um sentido m uito aguçado do que vai funcionar em seus casam entos", diz Mareia Perlstein. "É claro que elas estão enganadas nessa pressuposição do que funciona, do contrário não estariam se suj eitando à terapia. Externam ente, o m ecanism o que utilizam pode parecer dar certo; no fundo, contudo, elas não são felizes. Sentem um enorm e vazio pela falta de significado de suas vidas. Seu único referencial de com petência associa-se à capacidade de controlar — de conseguir o que desej am através da dependência." Em relacionam entos dependentes existem diferentes m aneiras de se m anter o equilíbrio desej ado. Às vezes a esposa finge que o m arido lhe é superior. Prom over isso pode requerer verdadeiros atos de contorcionism o. Algum as m ulheres fazem tão pouco — lim itam tão severam ente suas vidas — que chegam a se fazerem m enos com petentes. À vontade apenas quando se sentem inferiores aos m aridos, elas se suj eitam , e efetivam ente dão as costas a si m esm as — às suas próprias necessidades, talentos e interesses. (Leon Saltzm an, psiquiatra, com para esse com portam ento à atitude "do prisioneiro, escravo ou m em bro de um grupo m inoritário que acaba aceitando a condição aviltante de seu status a fim de obter o m áxim o possível de segurança e vantagens". Em outras palavras: há vantagens em se perm anecer num estado de cativeiro — vantagens tão grandes que várias m ulheres preferem persistir na escravidão a serem privadas da segurança proporcionada pela servidão.) Outro truque é fazer exatam ente o oposto: dim inuir os hom ens, fazendo-os ver o quanto eles se assem elham às crianças. "Os hom ens são todos iguais", é o que se ouve nos parques, cozinhas e salas de estar da Am érica. "Estive num j antar onde todas as m ulheres presentes eram donas-de-casa, e todos os m aridos eram astrofísicos renom ados do Cal Tech", contou-m e Barrie Thorne, socióloga. "Todos os m aridos sentavam -se em um dos cantos da sala discutindo buracos negros, e todas as esposas sentavam -se no canto oposto falando de quão infantis eram seus m aridos."
Essa conduta fem inina constitui sinal seguro de sofrim ento. Trocando entre si o confortante clichê "todos os hom ens são bebês", elas externam parte da dor pelo ruir de seus sonhos de m eninas, sem se arriscarem a m udanças. Elas nada fazem por suas vidas. Sim plesm ente se queixam . (Ou, se são boas m ulheres, não se queixam .)