Complexo de Cinderela
Capítulo II
Recuando: como as mulheres fogem aos desafios
Às vezes é m ais fácil enfrentar um desafio externo, um a crise ou um a tragédia, do que responder ao desafio que vem de dentro de nós — o im pulso de arriscar-se, de crescer.
Eu sem pre m e considerara um a lutadora, alguém que, se convocada à batalha, atirar-se-ia à lam a do cam po intrepidam ente. Houvera ocasiões que tinham requerido coragem e firm eza, e eu vencera. Logo após a dissolução de m eu casam ento, ficara evidente que caberia a m im sustentar as crianças. Meu m arido estava m entalm ente doente, padecendo de crises m aníacas que sem pre culm inavam em internações. Durante nove anos (até m orrer de um a úlcera não tratada) ele foi hospitalizado cerca de um a vez por ano. Entre as crises, m edicado com lítio, perm anecia relativam ente equilibrado. Sua doença era tão debilitante, porém , que, apesar de seu alto grau intelectual, ficou incapacitado para quaisquer serviços que não os braçais: barman, lavador de pratos e, nos últim os cinco anos de sua vida, m ensageiro. Tom ei duas decisões cuj as conseqüências por vezes se revelaram problem áticas. Não o abandonaria durante os períodos de m aior gravidade de sua doença, e não im pediria as crianças de visitá-lo, exceto quando ele estivesse agudam ente m aníaco e delirante. A psicose m aníaco-depressiva é ardilosa e enganosa. Os surtos de m ania parecem ser cíclicos, porém a precipitação de qualquer crise é im previsível. Ed costum ava chegar correndo a nosso apartam ento, convencido de estar prestes a ganhar algum a grande eleição nacional. Então, com o não dorm ia há sem anas, m ovim entando-se loucam ente sem cessar, arrem etia para as ruas, onde em breve entrava em depressão e paranóia. Eu o visitava em enferm arias de hospitais que ecoavam a solidão e o desespero. Aprendi, se é que algum dia aprendi algo, que neste m undo há coisas sobre as quais não tem os controle. Ao m esm o tem po coexistia em m im um a parte, secreta e bem oculta, que sentia pena de m im . Passar tão rapidam ente — em um ano -— da condição de "esposa" protegida e sustentada para a de "m ãe solteira" de três crianças, só, desprotegida e insegura quanto à m inha capacidade de sustentar-nos a todos, era aterrorizante. Meu único talento era escrever, um talento a duras penas desenvolvido. No início, o desafio concreto de ter que pagar o aluguel todos os m eses fascinou-m e. Eu recebia m uito apoio pelo que estava fazendo. No espaço de um ano, m etade das m ulheres que eu conhecia bem tinham deixado os m aridos e estavam vivendo sós em apartam entos grandes e caros com o o m eu, com filhos de idades aproxim adas às dos m eus e preocupações sem elhantes às m inhas. Ficam os m uito íntim as. Víam o-nos todos os dias e conversávam os ao telefone todas as noites. Sem dúvida, constituíam os um a rede de apoio m útuo, e sabe Deus com o qualquer um a de nós teria se virado sem ela. Mas estávam os tam bém negando algo essencial. Parecíam os estar m ais interessadas em conservar nossas vidas exatam ente com o tinham sido antes da partida da figura paterna do que em confrontar o desafio de fazer algo novo. O surpreendente é eu ter conseguido viver tanto tem po sem decidir nada! Não queria ser só, experim entar a condição de ser só; assim , continuei a dividir m inhas responsabilidades com os outros, com o sem pre o fizera. Nenhum a de nós realm ente desej ava tom ar decisões por si própria. Consultávam o-nos o tem po todo — particularm ente sobre coisas relativas às crianças. Em prestávam os dinheiro um as à outras e nos encontrávam os de m anhã cedinho em esquinas de nossos bairros. Às vezes, ali m esm o na rua, abraçávam o-nos e chorávam os. Não nos envergonhávam os de exprim ir abertam ente nossas fraquezas, m as tam bém achávam os nossas vidas hilariantes. Passávam os m adrugadas bebendo vinho e fum ando m aconha, e recom eçam os a nam orar com o adolescentes. Eu não tinha idéia de que tipo de hom em m e interessava ou seria bom para m im . Com portava-m e com o um a garotinha ao escolher hom ens com quem sair: este era engraçado, aquele era sério e altivo, o terceiro era sexy, m as atrevido dem ais. Sair com hom ens punha-m e em pânico. Sentia-m e com o um a m enina de catorze anos presa dentro do corpo de um a m ulher de trinta e três. Passei a encaracolar os cabelos, afinar dem ais as sobrancelhas e preocupar-m e com m eu hálito.
Estávam os crescendo, só isso. Voluptuosas, sabidonas, com aquela aparência de astúcia e sofisticação que só os habitantes de Manhattan têm — assim nos víam os. Na verdade éram os púberes com chiclete preso em nossos aparelhos corretivos de dentes. O fato de estarm os descasadas, isto é, sem hom ens em casa, desvelava o que éram os: crianças assustadas, inseguras e incrivelm ente atrasadas em term os intelectuais e psicológicos. Estávam os contentes por nos term os libertado da j aula, m as por dentro recuávam os frente à nova liberdade de dirigir nossos destinos. À nossa frente estendiam -se cam inhos escuros que conduziam à selva som bria.
Sintom ática de m eu descom prom etim ento com o m undo dos adultos era m inha am bígua atitude com relação ao dinheiro. Precisava ganhar m ais, m as não conseguia fazer nada a esse respeito. O que recebia com o escritora garantia-nos a sobrevivência todos os m eses, porém eu prosseguia contando com algum a solução m ágica que m e "abrisse um a brecha". Durante os prim eiros anos, nunca avaliei as realidades financeiras de m inha vida; nunca pensei em retornar aos estudos; j am ais elaborei algum plano que aj udasse a estabilizar m inha situação. Tal com o um avestruz, m antinha m inha cabeça firm em ente enterrada na areia, com os olhos cerrados, torcendo para que "tudo desse certo". A dura realidade se im pingia à m edida que as contas m ensais tinham de ser pagas, m as a isso eu reagia com passividade. Nenhum progresso quanto à condução de m inha vida; eu estava sim plesm ente evitando a forca.
Por outro lado, estava convencida de não querer casar-m e de novo. Quando casada, não encontrara a força necessária para com bater essa avassaladora necessidade de dependência; sozinha, era forçada a fazê-lo. Em certo sentido, m eu instinto era correto. Em bora a dependência subj azesse à m inha frenética luta com o m ulher descasada, pelo m enos eu não a sentia o tem po todo, reforçando a cada dia o desam paro em que m e encontrava quando casada. E no entanto um a parte inconsciente de m im sonhava com a prisão. Com o um a adolescente, deliciava-m e com m inha nova liberdade; contudo, ao prim eiro evento perturbador eu m e via fantasiando a proteção ilusória dos velhos tem pos. No fundo, eu havia estabelecido um a m oratória a m eu crescim ento. Devido ao m edo, vivia dentro de lim ites rígidos que m e im pediam a aprendizagem , a m elhor çxploração de m eu potencial m ental e a descoberta de novas capacidades de que não era cônscia.
Psicologicam ente falando, o problem a abrangia m ais do que m eros sentim entos de inferioridade e tim idez. Eu oscilava entre a m egalom ania e os m ais degradantes sentim entos de incom petência. Em bora m e apercebesse visceralm ente disso, não conseguia im aginar com o quebrar essa estrutura. "A m ulher é um a perdedora", segundo Janis Joplin. Fiquei fascinada com o surgim ento da concepção da m ulher com o oprim ida. Infelizm ente, os aspectos m ais tendenciosos do m ovim ento fem inista corroboravam e reforçavam m inha própria paralisia pessoal. Eu usava o fem inism o com o um a racionalização para m e m anter na m esm a situação. Em vez de concentrar-m e em m eu próprio desenvolvim ento, m inha atenção se focalizava "neles". "Eles" m e deixavam na pior. As m ulheres não conseguiam ser felizes porque os hom ens não lhes perm itiam a felicidade, e ponto final.
Algo de especial ocorreu. Minha produção literária m elhorou e m inha carreira com eçou a ter expressão. Isso tam bém m e assustava, e eu era incapaz de valer-m e de incentivos a m im m esm a. Em vez de m e contentar com o desabrochar de m eu talento literário, com ecei a sentir que não era m uito inteligente, m as apenas hábil e m anipuladora. Via-m e com o um a j ornalista que "se virava". Um a m anchete aqui, outra acolá, m as um dia eu seria desm ascarada com o a fraude que eu sabia ser.
Nesse ponto eu deveria ter com eçado a perceber que algum a coisa eu conseguia com um a tal visão negativa de m im m esm a. Na verdade eu não queria ser bem sucedida; se assim não fosse, o m undo saberia que eu de fato não precisava de ninguém para cuidar de m im . "Eu cuido de m im sozinha." Proferir essas palavras, e com sinceridade, seria o m esm o que estar sifilítica. Seria o m esm o que entregar o trunfo escondido. "Eu cuido de m im sozinha!" Quanta presunção! Seria quase com o igualar-m e aos deuses. Adm itir isso seria renunciar a todos os resíduos do desam paro que reivindicava aj uda. O j ogo então transform ou-se em : "Cuido de m im sozinha... quando posso". Infelizm ente, contudo, é im possível ficar sentado e andar ao m esm o tem po. Minha vida tornou-se ainda m ais restrita. Aprendi as form as m ais trapaceiras de evitação. Passava quase todo o m eu tem po livre — e m uito do não-livre — com outras pessoas. A j ustificativa que m e dava era que estava precisando disso após os longos e solitários anos de m eu casam ento. O que era provavelm ente verdadeiro, só que estava usando as pessoas para evitar o desenvolvim ento de m inha consciência de m im m esm a. Tornei-m e um a borboleta social, a rainha da West End Avenue. Trabalhava até tarde da noite e acordava no final das m anhãs. Até o ato de escrever tornou-se um a espécie de válvula de escape. Através dele eu cutucava o centro do vulcão, fazendo-o expelir um pouco de fum aça, e depois ia dorm ir, m ais um a vez ignorando a causa do fogo destrutivo que rugia dentro de m im .
Como a tarefa de nos sustentarmos parece exigir um esforço hercúleo, as mulheres não percebem que o comodismo é tudo, menos sinal de dignidade. É uma perda de tempo. Em última análise, é uma fuga ao desafio. As mulheres precisam fazer mais. Temos que descobrir do que é que temos medo, e ultrapassá-lo.