Complexo de Cinderela
Disfarçando o conflito através da labuta doméstica
Além de aj udar-nos a reprim ir nossa ansiedade relativa à am bição e à realização, a m anutenção do papel de rainhas do lar nos aj uda a ignorar igualm ente outros tem as. O estado exaustivo causado pelas constantes ocupações pode obscurecer m uita coisa. Todas nós j á ouvim os falar de m ulheres — algum as de nós são essas m ulheres — que possuem m eios de pagar em pregadas, m as não o fazem . Por quê? Precisam ente porque, contando com aj uda, ver-nos-íam os perigosam ente livres.
As m ulheres estão com eçando a descobrir que nada é m ais am eaçador do que ir ao encontro da liberdade. É um m edo nem um pouco atenuado pelo fato de tender a detonar com o um a bom ba-relógio, desde o m om ento em que as necessidades básicas de sobrevivência são satisfeitas e inexiste a pressão financeira que j ustifique a am bição fem inina.
Disfarçando o conflito através da labuta doméstica
O talentoso casal Evely n e Richard Melton tem um a renda fam iliar em m uito superior à da m aioria dos am ericanos. Essa renda lhes é garantida por em pregos que desagradam a am bos. Richard ganha aproxim adam ente setenta m il dólares anuais com o diretor de arte de um a agência de publicidade. Evely n ganha tam bém m ais ou m enos isso com o m odelo. Conj untam ente, sua renda, livre dos pagam entos de contas dom ésticas, ultrapassa os cem m il dólares anuais. Todavia, por um a série de erros financeiros que os levaram a adquirir m ais do que realm ente podem m anter (em parte para com pensar o tédio originado do fato de trabalharem em coisas pelas quais não sentem m ais entusiasm o), Richard e Evely n dizem não lhes sobrar dinheiro para contratar serviçais. Portanto, Evely n faz o serviço de casa, o que im plica — com o sem pre — não som ente encerar o chão e lim par os banheiros, m as ainda todo o trabalho decorrente da organização de um lar e da criação dos filhos. Três ou quatro vezes por sem ana, ela tom a o trem de subúrbio para Manhattan, onde trabalha com o m odelo; ela tam bém lim pa, cozinha, vai ao superm ercado e lava roupa. É ela quem m arca todos os com prom issos e consultas com m édicos e dentistas para os m em bros da fam ília, e quem cuida para que eles não se esqueçam deles. É ela quem leva os filhos de autom óvel a todos os lugares. "Isso é só por m ais alguns anos", consola-se a si m esm a. Bem , na verdade, cinco ou seis anos. Seu filho m ais novo está na quarta série. (É o segundo casam ento para am bos.)
O que Richard está fazendo enquanto isso? Bem , Richard está extrem am ente ocupado. Entre suas aulas de levantam ento de peso e m ergulho, para não m encionar as horas que passa à noite tirando cópias e revelando film es em seu quarto escuro, quase não dispõe de tem po durante o dia. Deve-se dizer a seu favor que Richard não é um a pessoa frívola. Ele está lançando as bases para um a grande m udança de vida, planej ando trocar a agência (no m om ento adequado, é claro, em term os de estabilidade financeira) por um a atividade que o apaixona: a fotografia. O conflito de Richard em relação à sua atual situação — trabalhar quarenta horas sem anais em algo que detesta, em vez de fazer o que descobriu adorar — sobrepuj a tudo o m ais. Aos quarenta e seis anos, Richard Melton sente-se com o um hom em encurralado pela m orte. Tantos anos desperdiçados chateando-se com o trabalho na agência, para som ente agora, perto dos cinqüenta, descobrir sua verdadeira vocação! Está fora de questão para ele im aginar-se perdendo um segundo sequer de seu precioso tem po fazendo o serviço de casa! Cada partícula de energia disponível que possui canaliza-se para o que ele cham a seu "trabalho real": a fotografia. Entre o levantam ento de peso e a concentração despendida na escolha do que fotografar, seu rosto afinou-se m uito e seus olhos estão extrem am ente fundos. Ele é um hom em que acalenta um segredo no coração — o fato de ter recebido um a segunda chance. Evely n, com quem se encontra casado há dois anos, de esposa veneradora transform ou-se num a pessoa que às vezes se sente enlouquecida pela am argura e pela raiva. Richard reserva-lhe tudo o que se relaciona com a casa, e vai-se tornando cada vez m ais inacessível a ela. Em todos esses m eses, o único sucesso que ela obteve no sentido de conseguir que ele m exesse um dedo dentro de casa foi ensinar-lhe a fazer saladas. De vez em quando ele entra na cozinha e arrum a algum as folhas de alface num prato — principalm ente quando ela não está lá para fazê-lo por ele. Quanto ao resto, Richard sim plesm ente não vê, parece incapaz de perceber que ela está constantem ente fazendo o serviço dom éstico, as com pras e o planej am ento; é ela quem providencia tudo, lim pa a casa e cozinha para receber os am igos e a fam ília dele; é ela quem cuida do filho dele por ocasião de suas tem poradas com o pai — além de cuidar de seus próprios filhos. "Você não precisa fazer isso", Richard retruca quando ela reclam a. "Mas alguém tem que fazê-lo", ela replica.
Ele dá de om bros. Por que alguém tem que fazê-lo? Ele se pergunta, daquele j eito com que apenas as pessoas que sem pre tiveram suas necessidades dom ésticas satisfeitas por Outrem podem se perguntar. Ele conclui que isso é um problem a dela, algo cuj a "elaboração" toca apenas a ela. (Intuitivam ente ele está correto quanto a isso — ela tem que adotar um a posição própria em relação ao problem a; — porém , por desconhecer os m otivos de seu próprio ressentim ento, ele escapa à sua parcela de responsabilidade na situação.) A essa altura a atm osfera entre os dois se acha obviam ente pesada. Richard está confuso com relação ao m otivo pelo qual a esposa se m ostra tão tensa e distante. Evely n acha que o m otivo de suas atitudes é tão claro quanto a gelatina que serve aos filhos na sobrem esa. Há, contudo, algo que escapa tam bém a ela. Inconscientem ente, Evely n não está se perm itindo com unicar a Richard sua concepção do que está ocorrendo. É estranho. Ela consegue com unicar seus gostos e desgostos, seus tem ores e ressentim entos relativos a praticam ente tudo o m ais que acontece. Sai-se bastante bem no cuidar de si m esm a; entretanto, aparentem ente não consegue reconhecer e libertar-se da paralisante arm adilha em que se m eteu, desem penhando o papel da Hausfrau. Por quê?
Porque, em sua vida particular, Evely n não tem nenhum equivalente para a fotografia de Richard — nenhum trabalho de que goste, nenhum envolvim ento passional com qualquer coisa fora de casa. Em bora ganhe quase tanto quanto o m arido, ela sente que, em term os de criatividade, Richard ocupa um m undo separado, o que a leva a sentir-se distanciada e só. Na cabeça de Evely n, o quarto escuro de Richard é um a espécie de rendez-vous. O que ela sente é quase ciúm e sexual. Quando adentra o quarto escuro, ele a está abandonando, da m esm a m aneira com o se houvesse se dirigido à alcova de outra m ulher. O ciúm e se instala nas ocasiões em que nos acham os m enos seguras e integradas internam ente. À m edida que ela foi notando com o o m arido, sem pre tão adorador dela, estava investindo paixão em sua arte, Evely n com eçou a se defrontar com um a crise em sua própria vida — especificam ente, o que fazer consigo. Há m uito com prom etida com um em prego que utilizava apenas um a porção m ínim a de seus talentos, ela aprendera a abstrair-se de si m esm a, entregando-se às atividades de criada, governanta e m ãe. Houve época em que o ocupar-se com os itens que definem a dona-de-casa perfeita lhe propiciara a sensação de ser ao m enos útil. Coisa que não m ais ocorre, e é parte da razão de estar se sentindo tão perdida. Os tem pos — e os padrões de expectativas em relação às m ulheres — m udaram .
Há dez anos Evely n tinha o que m uitos consideravam um a vida invej ável, incluindo um a carreira fascinante e independência financeira. Todos se im pressionavam com a facilidade com que ela com binava o trabalho com a vida dom éstica. Era perita na cozinha. Enchera a casa com adoráveis peças de antiguidades caçadas em leilões e loj inhas desconhecidas. Cada ano, organizava festas de aniversário m aravilhosas para os filhos, e freqüentem ente oferecia requintados j antares aos am igos. No Dia de Ação de Graças, não era raro sentar-se à sua m esa, coberta com toalhas de linho branco adam ascado e talheres de prata, acom panhada de outras vinte e nove pessoas. Mas agora era diferente. Agora seu obj etivo parecia ser o de trabalhar em algum a coisa que a desafiasse, algum a coisa gratificante. Todo o nível de envolvim ento fem inino no m undo fora um pouco elevado. Parcialm ente em conseqüência disso, a velha "solução" dos papéis m últiplos — a atividade frenética da esposa-m ãe-trabalhadora — não funciona m ais para Evely n. No entanto, ela tende a agarrar-se a ela por recear com prom eter-se com algo novo. Durante o últim o ano, ela considerou tudo, desde m atricular-se num curso de literatura de ficção num a faculdade próxim a, até prestar vestibular para m edicina; porém , na hora H, Evely n parece não conseguir dar um só passo. Ela vem trilhando o m esm o cam inho por tanto tem po que não m ais precisa pensar nas coisas. Ela vem fazendo tudo o que se deve fazer a fim de perm anecer à frente no m undo dos m odelos desde seus dezoito anos de idade, quando foi para a cidade grande. Ela era boa nisso, droga! Conhecia todos os truques. Por que deveria j ogar tudo fora agora? Nem todo m undo com m ais de trinta anos ainda consegue ganhar dinheiro com isso. Entretanto, um a vozinha dentro dela discorda. Ela precisa de um novo cam inho. Ela realm ente não pode m ais evitar o conflito. Ele vai crescendo com dolorosa prem ência em todos os sentim entos conscientes — a raiva, o ressentim ento, a sensação de estar sendo ferida e explorada. Exteriorizando seus conflitos internos, ela responsabiliza Richard pelo que ela m esm a não se sente capaz de fazer. Isto é: sair de casa. Fazer algum a coisa. Vender a casa de cam po, contratar um a em pregada ou prom over quaisquer outras m udanças necessárias para facilitar sua volta aos estudos ou ao início de um a nova profissão — algo que lhe perm ita desabrochar com o ser total e a robusteça com um a nova energia.
As m ulheres continuam exercendo o papel de donas-de-casa tenham ou não um a carreira fora, porque ainda se sentem dependentes dos m aridos e necessitam de algum a coisa — um serviço — com que lhes retribuir. Essa é a razão pela qual as m ulheres investem m ais na idéia de fam ília do que os hom ens. É por isso que, não obstante as horas que despendem no em prego, elas persistem na invenção de pratos elaborados a partir de sobras, na preparação de pães e biscoitos caseiros, na confecção de colchas de retalhos que com binem com as cortinas ou o papel de parede do quarto das crianças.
A segurança do casam ento — de ser am ada e ter quem dela necessite — pode ser um a bênção para aquela que está sob pressão íntim a de fazer algum a coisa por si só m as tem m edo. Qualquer reação negativa por parte "dele" pode ser convenientem ente transform ada num fator externo que venha distraí-la de seus próprios tem ores internos. O trabalho, especialm ente se concebido com o instrum ento do próprio desenvolvim ento pessoal e não apenas com o m eio de "aj udar a pagar as contas", é um a form a de separar-se ou individualizar-se. Portanto, pode ser considerado com o um afastam ento do outro — coisa realm ente assustadora. Melhor m arcar passo no "casam ento". "Eu realm ente m e im porto com m inha fam ília", é a racionalização para esse recuo vital básico. A exaustão expressa pelas m ulheres de hoj e com relação à sua "dupla carga" é o resultado de um conflito — a contradição entre querer resguardar os seguros lim ites dom ésticos sem pre apreciados pelas m ulheres e o desej o de ser livre e realizadora. Este conflito não resolvido e, por conseguinte, paralisante gera o pânico do gênero fem inino, retém as m ulheres em em pregos ou atividades profissionais de nível inferior a seu potencial intelectual e as m antém prisioneiras do "lar".
A m aior parte de nós ainda não tom ou um a verdadeira decisão relativam ente às próprias vidas. A tentativa de m anter um a situação na qual nem desistim os de nossa independência, nem de nossa dependência, esgota nossas energias. Conscientem ente, culpam os os hom ens por não m udarem , m as, inconscientem ente, ansiam os por que perm aneçam do j eito que são.