Complexo de Cinderela
A segunda rodada: perseguindo o mito da segurança
A esposa dependente freqüentem ente oscila entre a idealização e a derrubada do m arido. Madeleine Boroff, por exem plo, m ultiplicava a m agnitude do talento do m arido, pois isso lhe oferecia um a racionalização para tolerar a destrutividade dele — perm anecendo sua escrava. "Meu m arido gênio" é um j ogo sedutor. Perm ite-nos continuar encostando-nos nesses "gênios", m esm o quando eles são indubitavelm ente fracos de espírito.
Madeleine tam bém dim inuía Manny, preferindo pensar nele com o alguém frágil e necessitado de sua proteção. O desem penho do papel de protetora aj udava-a a resgatar um pouco de sua auto-estim a. Dando um a de grande enferm eira, a m ulher cuj a auto-estim a é frágil pode ganhar um a potência ilusória. "Está vendo com o eu m e saio bem ?" é a m ensagem expressa em cada um de seus atos. "Confie em m im . Conte com igo." (E por dentro: "Não m e abandone j am ais".) Sob o disfarce de aj uda aos m aridos, m uitas m ulheres fazem um investim ento em ocional no sentido de m anterem a fraqueza de seus m aridos. Se fracos, os hom ens sem pre precisarão de suas esposas. Se fracos, j am ais partirão. (Este, na verdade, é o paradigm a da esposa do alcoólatra: exteriorm ente com petente e com boas habilidades de organização — m as internam ente receosa de, se abandonada, dissolver-se com o um cubo de gelo à tem peratura am biente.) Obviam ente a boa m ulher possui a m esm a estrutura de caráter de boa m enina, aprendiz de passividade no colo da m ãe. As desvantagens de ter crescido obediente, dócil e "boazinha" com eçam a ser evidenciadas em todas as áreas da vida da m ulher. Um dos m ais recentes estudos verificou existir um a correlação entre a "síndrom e da boa m enina" e a dificuldade na obtenção do orgasm o. Dagm ar O'Connor, um psicólogo nova-y orkino que j á tratou m ais de seiscentas m ulheres num program a de terapia sexual no Roosevelt Hospital, com parou pacientes não-orgásticas com m ulheres orgásticas. No grupo não-orgástico, oitenta e oito por cento afirm avam terem sido "boas m eninas" quando crianças e adolescentes. Eram obedientes, bem -sucedidas na escola e nunca tiveram conflitos com os pais. É interessante notar que apenas trinta das m ulheres orgásticas se enquadravam nessa categoria. O estudo indica haver ao m enos um a probabilidade significativa de correlação entre independência psicológica e capacidade de experim entar o orgasm o. Mulheres psicologicam ente dependentes podem achar aterrorizante o m om ento de fusão com o outro, quando os lim ites de personalidade e identidade se dissipam . Essencialm ente inseguras quanto às próprias identidades, dependentes, vulnerá¬veis e indefesas, acham o m om ento de abandono apaixonado insuportável e recusam -se a se entregar por com pleto.
A segunda rodada: perseguindo o mito da segurança Não obstante sua disposição de a tudo renunciarem pela segurança, freqüentem ente as m ulheres descobrem que o casam ento não lhes traz o tão alm ej ado obj etivo. "É com o naquela canção que diz: 'Você não consegue nem dirigir sua própria vida, quanto m ais a m inha'", observou-m e um a m ulher a quem denom inarei Jéssica. "Não tarda m uito e você se surpreende perguntando-se: 'Com o é que um a pessoa tão cheia de defeitos pode cuidar de m im ?' Antes de seu segundo casam ento, Jéssica vivera sozinha com os filhos durante cinco anos, período no qual retom ara os estudos para tornar-se assistente de dentista. Logo após obter seu prim eiro em prego na pequena com unidade rural de Massachusetts, onde m ora, Jéssica deixou sua recém -adquirida independência por um belo segundo m arido. Ocorre que Ben em breve com eçou a expressar o desej o de ter um filho. Jéssica j á tinha três filhos do prim eiro casam ento e estava com trinta e quatro anos. Se era para satisfazê-lo, pensou, m elhor agora do que quando estivesse velha dem ais. Ben nunca tivera um filho. Com o ela poderia privá-lo de um bebê, se era isso que ele queria? Mas o bebê não foi tudo o que Jéssica deu a Ben. Os treze m il dólares econom izados com a venda de sua antiga casa foram liquidados no pagam ento de algum as dívidas contraídas pelo novo m arido. Atualm ente, com o bebê de um ano e m eio de idade e outro a cam inho, ela não se sente tão feliz por ter cedido tanto. "Eu quis acabar com as dívidas de Ben para que pudéssem os com eçar tudo direito. Mas agora, quando penso que não tenho m ais a casa, nem os treze m il dólares no banco, nem sequer um a profissão, fico desnorteada. Fico dizendo com igo m esm a: 'Se algo der errado, se por algum m otivo eu quiser cair fora desta relação, será realm ente m uito duro'."
A atitude de Jéssica ilustra claram ente o novo conflito fem inino. Em ocionalm ente, ela desej a o luxo de ter quem dela cuide, m as é suficientem ente inteligente para saber estar pagando um preço alto pelo que a Dra. Jessie Bernard cham a "as ciladas de segurança em dem asia". Jéssica discute sua "situação" com um a espécie de passividade, com o se não houvesse tido com prom etim ento pessoal nas circunstâncias detonadoras de tal "situação". "De repente j á não sou m ais financeiram ente independente; não sou m ais profissionalm ente independente. Qualquer dia m inha frustração vai chegar a um ponto tal que vou explodir. E a razão disso é que não tenho m ais o controle de m inha vida. Eu o perdi."
Deve-se aos sociólogos a descoberta de que, em com paração com os hom ens, as m ulheres se m odificam m uito m ais com o propósito de tentar salvar seus casam entos. Ao se casarem , a m aioria dos hom ens não têm intenções de m udar a rotina de suas vidas. Eles crêem que basicam ente continuarão fazendo as m esm as coisas, pensando da m esm a m aneira — em resum o, sendo a m esm a pessoa —, com a única diferença de agora estarem casados, e não solteiros. Algo diverso se dá com as m ulheres. Nós nos tornam os esposas do m esm o m odo com o nos tornam os m ães. Tem os a expectativa de m udar, reduzir e obscurecer qualquer linha divisória existente entre "eu" e "ele". Em sum a, esperam os fundir-nos. E em bora não concordem os conscientem ente com essa fusão, m esm o quando ela é m ais m odelada pelas idéias e atitudes dele do que pelas nossas, raram ente questionam os a estrutura criada.
"Aj ustar-se ao papel de esposa", diz Jessie Bernard, envolve um a redefinição da identidade — um a ativa rem odelação da personalidade, a fim de adequá-la aos desej os, necessidades ou exigências dos m aridos."
"Aj ustar-se ao papel de esposa" igualm ente envolve a renúncia às habilidades individuais. A chave dos grilhões de várias m ulheres casadas hoj e reside no fato de que não teriam m eios de sustento próprio, j á que quaisquer habilidades que possam ter desenvolvido antes de se casarem há m uito se atrofiaram . Mulheres que j á passaram por isso asseveram a realidade da patética falácia contida na crença de que é possível "retirar-se" por seis ou sete anos, enquanto as crianças são pequenas, e depois retornar às antigas carreiras com o se nada houvesse acontecido. Será preciso um novo treinam ento, um período de reavaliação. Não se é m ais a m esm a pessoa que se era à época do casam ento. "É um a coisa tão sutil, essa que acontece", com entou essa m ulher que desistiu da carreira e de seu ninho de treze m il dólares. "Quando estava vivendo sozinha, divorciada e solteira, sentia-m e capaz de fazer praticam ente qualquer coisa. Eu tinha responsabilidades. Mal entro novam ente num casam ento e eis-m e esperando que a outra pessoa faça toda sorte de coisas por m im . Se ele não as faz, penso: 'Não é j usto!'
Por sua própria natureza, a dependência cria a falta de confiança em si m esm a, e a insegurança pode conduzir com rapidez devastadora ao ódio de si m esm a. Estudos com parativos da variável sexual m ostram que as esposas se vêem sob um a luz m uito m ais negativa do que os m aridos. As esposas se preocupam obsessivam ente com coisas tais com o sua aparência, quão "atraentes" são. Se têm algum a dificuldade na adaptação a algum aspecto do casam ento, as esposas prontam ente se culpam , propensas a atribuírem o problem a a suas próprias falhas. Mesm o quando é o m arido quem está criando arestas no relacionam ento, as m ulheres sentem ter com etido um erro.
Dentre todas as m ulheres com quem conversei enquanto levantava dados para a elaboração deste livro, aquelas que estavam na casa dos trinta e que se tinham divorciado e casado novam ente, m as não tinham conquistado a auto-suficiência entre o prim eiro e o segundo m aridos eram as m ais dolorosam ente resignadas. "Quando saiu nosso divórcio, senti-m e com o que num lim bo até surgir m eu segundo m arido", disse um a m ulher de Little Rock. "Eu estivera apenas aguardando o próxim o m arido."
"Não tenho nenhum a experiência", disse um a m ulher com pós-graduação e que até então j am ais recebera um salário. "Nunca tive que pensar em m e sustentar, ou à m inha fam ília, e é m uito duro, difícil, com eçar a pensar nesses term os."
"Chega o dia", confessa outra, "em que a gente com eça a dizer a si m esm a: 'Ei, há realm ente algum a coisa de que não gosto nessa pessoa, algum a coisa de que eu não m e apercebi quando m e com prom eti com ela, algo que, agora que cresci e m udei, não consigo aceitar'! Aí surge: 'Muito bem , o que vou fazer? Passa-se a considerar a separação, contem pla-se o divórcio, m as j á não é tão fácil na segunda rodada."
Jéssica, a m ulher que gastou suas econom ias para saldar as dívidas do m arido, finaliza: "Você chega a um ponto em que percebe haver certas coisas que gostaria de m udar, m as provavelm ente não o fará — não se pode m udar a 'natureza anim al'. Às vezes isso m e deprim e, e então penso: Bem , deve haver algum proveito nisso tudo. Antigam ente eu pensava o tem po todo em com o gostaria de m udar as coisas, m as agora acho que o m elhor m esm o é a aceitação".