Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 11 de 60

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Complexo de Cinderela

Sinais do recuo

Essa é a fam osa "situação de desvantagem da m ulher". Há m uito se sabe que as m ulheres não estão realizando aquilo de que são capazes. O que não foi reconhecido é o papel que as mulheres desempenham na manutenção dessa situação desvantajosa. As m ulheres não estão apenas sendo excluídas do j ogo do poder (em bora isso sej a sistem aticam ente efetuado). Estão tam bém evitando-o ativam ente. "Com o estam os ficando independentes!", pensam os, exultantes, vendo quantas m ulheres estão deixando a vida de "dom ésticas" para trabalhar fora. Mas se lerm os entre as linhas dos resultados estatísticos do recenseam ento, notarem os que m uitas dessas m ulheres não apreciam o fato de estarem trabalhando. Elas se sentem sobrecarregadas por isso; m ais: às vezes sentem -se até exploradas por fazê-lo. Bem no íntim o, ainda crêem que as m ulheres realm ente não deveriam ter de ganhar a vida. Ao deixarem o conforto e a segurança de suas cozinhas para tornarem -se força de trabalho, várias delas são m otivadas não pelo sentido de responsabilidade por si m esm as ou por um a questão de j ustiça para com seus m aridos, m as principalm ente por um a crise externa. Acontece que perdem os as rédeas sobre a inflação, e Charlie não está ganhando o suficiente.

Ou então não existe nenhum Charlie. Charlie se casou novam ente, ou m orreu, ou sim plesm ente sum iu de um a hora para outra nos braços de um a m ulher m ais nova e m enos problem ática. Viúvas ou divorciadas, as esposas abandonadas dispõem de pouco ou nenhum dinheiro com que sustentar a si e às crianças. Sob essas circunstâncias, o sentim ento advindo do "voltar a trabalhar" não é tão construtivo e libertador quanto poderíam os im aginar. De início pode haver contentam ento, com o a alegria experim entada pelo adolescente que recebe o prim eiro pagam ento por algum trabalho, m as a excitação da libertação é logo suplantada por um a horrível suspeita: "Isso pode durar para sem pre".

 

Sinais do recuo

 

Há indicações de que pelo m enos algum as m ulheres não estão apenas paralisadas, com o tam bém envolvidas num a reação contra sua nova liberdade — enfim , fugindo dela. Um estudo efetuado pelo Wall Street Journal relata que vários executivos de indústrias se queixam da recusa de suas em pregadas em cursar program as de especialização elaborados especialm ente para elas. "Tem os que arrastá-las aos gritos e chutes", desabafou um executivo da General Motors. (Com m enos irritação, m as igual presunção, um diretor de relações industriais concluiu: "É um condicionam ento social. As m ulheres nunca tinham aspirado a esses em pregos. Fica difícil convencê-las a aspirar a eles agora".) Algum as m ulheres casadas estão abandonando seus em pregos sob a alegação de que o trabalho cria m ais cansaço e ansiedade do que podem suportar. "É com o se sentissem o Grande Sonho Am ericano escorregando por entre seus dedos", afirm a Better Homes and Gardens a respeito de um questionário (respondido por trezentas m il leitoras) sobre suas reações ao trabalho. A m aioria dessas m ulheres, casadas e com filhos, tende a deslocar as ansiedades relativas a seu desenvolvim ento para o argum ento — m ais seguro — de que "são m ais necessárias em casa". Na verdade, tendo perdido o sentido de "serem necessárias", tão im portante em sua organização psíquica, elas haviam proj etado essa perda sobre suas fam ílias, convencendo-se de que os fam iliares se sentiam "abandonados" devido à sua ausência. Algum as dessas esposas contam terem persuadido seus m aridos a m udar para casas m enores e em vizinhanças m enos agradáveis porque desej avam parar de trabalhar e "voltar a se dedicar" à fam ília — decisão essa que, segundo elas, as encheu de sentim entos de "extrem o alívio". Existe tam bém a síndrom e do "ter outro filho" — um a form a socialm ente aprovada de perm anecer no lar ou de para ele retornar. De acordo com Ruth Moulton, um a psiquiatra fem inista que pertence ao corpo docente da Colum bia University, m esm o m ulheres m uito talentosas engravidam para evitar a ansiedade resultante do desenvolvim ento de suas carreiras. Um exem plo característico, diz ela, é o caso de um a artista sua conhecida que "acidentalm ente" engravidou duas vezes num espaço de cinco anos; toda vez que a oportunidade de m ontar um a exposição se lhe apresentava, ela "escolhia" um a gravidez. Conseqüentem ente, suas exposições foram adiadas até bem depois de seus cinqüenta anos, o que, escreve Moulton, "reduziu consideravelm ente o tem po de desenvolvim ento e reconhecim ento de seu talento". Revendo os prontuários de suas pacientes nos últim os anos, a Dra. Moulton contou vinte m ulheres entre as idades de quarenta e sessenta anos que haviam usado a gravidez com o form a de escapar ao m undo externo. "Em ao m enos cinqüenta por cento desses casos", acrescentou, "um a terceira ou quarta criança foi concebida exatam ente quando os filhos m ais velhos estavam no ginásio ou no colégio e a m ãe se achava m ais livre para devotar m ais energia a algum tipo de trabalho externo."

"Com pulsão de criar filhos" é com o Moulton cham a esta síndrom e; com isso ela indica que a m aternidade não está a serviço da gratificação intrínseca da m ulher, m as constitui um a substituição à ação no m undo. (Num relatório de 1977 sobre a "Avaliação das m ulheres no exército", M. Kathleen Carpenter afirm a que "as m ulheres estão usando a gravidez com o veículo para sair" do exército.) O fenôm eno da "gravidez para evitar a tensão" certam ente não tem efeito positivo sobre a m ais reverenciada das instituições am ericanas, a vida em fam ília. Quando se tem filhos para evitar a ansiedade que se segue ao desenvolvim ento pessoal, está-se perpetuando um ciclo destrutivo. Tais m ulheres se ressentem do papel restrito e auto-lim itador que escolheram com o saída, e por vezes tornam -se fóbicas e hipocondríacas. E, talvez o m ais im portante de tudo, elas não criam filhos independentes. Moulton alerta que a dependência da m ulher se reflete sobre seus filhos, "interferindo no crescim ento independente e na individualização deles".

Um a noção que se vem im pondo atualm ente (e parece ser atraente a todo m undo: fem inistas, não-fem inistas, hom ens) é que, acim a de tudo, as m ulheres devem poder optar. Elas deveriam poder optar, por exem plo, se devem ou não trabalhar, se devem fazê-lo em esquem a de período integral ou não, se ficam em casa para se dedicar à fam ília ou não. Ninguém deveria nos pressionar, dizendo-nos que "tem os que" ou "não podem os" fazer isto ou aquilo. Sugerir que as m ulheres são covardes por ficarem em casa é tão arbitrário, avisam as fem inistas, quanto insistir em que elas lá perm aneçam quando seu desej o é de trabalhar fora. Cuidar das crianças, lim par a casa, prover o m arido dos m eios para que ele possa m anej ar as ansiedades decorrentes do ganho do pão — são contribuições sociais supostam ente im portantes, das quais qualquer m ulher pode sentir-se j ustificadam ente orgulhosa. Porem , este "direito à opção" contribuiu fortem ente para a situação de desvantagem da m ulher. Por terem a opção socialm ente legitim ada de ficar em casa, faz-se possível — e até costum eiro — o recuo fem inino frente à assunção de responsabilidades pessoais. A verdade é que m uitas m ulheres que não "precisam " trabalhar, j á que seus m aridos se dispõem a sustentá-las e têm m eios de fazê-lo, não trabalham . O crescente núm ero de m ulheres trabalhadoras guarda estreita correlação com o aum ento do núm ero de casam entos dissolvidos. Quarenta e dois por cento das m ulheres que trabalham são "chefes de fam ília". É espantoso que atualmente, dentre as mulheres casadas que vivem com os respectivos maridos, metade ainda prefira refugiar-se nas lides domésticas.

Algum a coisa está errada. Isso se torna perceptível quando se atenta para a situação econôm ica das m ulheres idosas neste país. Quando todo m undo discorre sobre opções, lucrarem os m ais perguntando-nos: "Quem tom a conta das m ulheres quando envelhecem "? A resposta, naturalm ente, é: ninguém . À época em que seus cabelos passam a ficar grisalhos, o velho sistem a "m ulheres e crianças, prim eiro" há m uito caiu por terra. A realidade as atinge em cheio quando o com panheiro m orre. As últim as estatísticas governam entais m ostram que a m édia de idade em que as m ulheres am ericanas enviúvam é de cinqüenta e seis anos. Em cada duas m ulheres nos Estados Unidos, um a deverá enviuvar com aproxim adam ente cinqüenta e seis anos. E m esm o aquelas que desde adultas sem pre trabalharam não se vêem protegidas na velhice; um a entre quatro delas será pobre — m uito m ais pobre do que hom ens na m esm a faixa etária. Em 1977 a renda m édia anual das m ulheres idosas era de três m il e oitenta e sete dólares (cinqüenta e nove dólares sem anais), ao passo que a renda m édia dos hom ens idosos era quase o dobro disso. (A principal razão pela qual essa discrepância ocorre é que a Previdência Social am ericana se define pelo sistem a salarial, e j á vim os que as m ulheres percebem apenas sessenta por cento do que ganham seus colegas hom ens.)

Esta, pois, é a triste verdade a que as m ulheres j ovens — ainda rom ânticas, ainda apaixonadas, ainda acom odadas no sonho de que as m ulheres podem com segurança deixar que outros tom em conta delas — dão as costas. O m ito dita que a segurança, para as m ulheres, está em viverem eternam ente ligadas, presas, enfurnadas "no seio da fam ília", tal com o m oluscos. Mas quando essas m esm as m ulheres envelhecem , descobrem -se totalm ente à m ercê do m undo econôm ico em que se recusaram a entrar. A desolação da velhice é a resultante mais pungente, se não a mais destrutiva, do complexo de Cinderela. Esse ponto cego que mantemos — a incapacidade (ou recusa) de vermos a conexão entre a falsa segurança do casamento e a solidão e a pobreza das mulheres mais velhas (muitas vezes viúvas) —, esse ponto cego assemelha-se a uma doença mental. Querem os tão desesperadam ente crer que alguém cuidará de nós! Querem os tão desesperadam ente crer que não tem os de nos responsabilizar por nosso próprio bem -estar!