Complexo de Cinderela
Libertando-se
E então a afirm ação derradeira, a afirm ação que parece tão pequena, tão óbvia, um a vez que se haj a passado pelos rigores necessários para se alcançar esse estado de equilíbrio: "Eu sabia que agora podia contar com igo m esm a".
Quando com eçam os a ver quanto contribuím os para nossa própria fraqueza e vulnerabilidade, quanto na realidade nutrim os e defendem os nossa dependência, então, lentam ente, com eçam os a sentir-nos m ais fortes. "Quanto m ais enfrentam os nossos conflitos e buscam os nossas próprias soluções", escreveu Karen Horney, "m aior liberdade e força ganham os." É quando assum im os a responsabilidade por nossos problem as que o centro de gravidade com eça a fazer o crucial deslocam ento do outro para o eu. Neste ponto, algo notável acontece. Mais energia fica à nossa disposição. A força anteriorm ente perdida no vazam ento de energia, no processo exaustivo de repressão daqueles aspectos de nossas personalidades que sentíam os serem inaceitáveis ou assustadores. Se deixam os de precisar defender-nos e proteger-nos deles, essa m esm a energia se torna disponível para atividades m ais positivas. Tornam o-nos gradualm ente m enos inibidas, m enos invadidas pelo m edo e pela ansiedade, m enos atorm entadas pelo auto-desprezo. O velho pânico do gênero fem inino, que tanto nos acom panhou, desaparece. Tem os m enos m edo dos outros. Tem os m enos m edo de nós m esm as.
Libertando-se
O obj etivo final é a espontaneidade em ocional — um a vivacidade interna que perm eia tudo o que fazem os, todos os proj etos de trabalho, todas as interações sociais, todos os relacionam entos am orosos. Ela provém da convicção: "Sou a força básica de m inha vida". E ela conduz ao que Karen Horney denom ina sinceridade — a capacidade de "ser sem fingim ento, ser em ocionalm ente sincero, ser capaz de colocar-se integralm ente nos próprios sentim entos, no trabalho, nas próprias crenças".
Penso nas m ulheres que conheci e que parecem possuir essa sinceridade. Algum as são pessoas criativas e altam ente talentosas; outras levam vidas m ais sim ples, m enos visivelm ente dram áticas. Mas quer sej am m ulti-talentosas e sofisticadas habitantes de centros urbanos, quer sej am donas-de-casa do interior, a característica de "estar presente" — de se haverem "libertado" — é inegável. A m aneira com o experim entam a vida é qualitativam ente diversa da daquelas que não se libertaram ; a das prim eiras é m ais rica, m enos rotineira, m enos regulada por regras e convenções institucionais. Até sua form a de expressar sua experiência é diferente.
Pearl Prim us, a coreógrafa, conta com o executou seu doutorado em antropologia sim plesm ente sendo:
"Minha vida tem sido com o subir um rio. Vez ou outra eu ouvia cânticos atrás de algum a curva do rio, e lá ia eu e m e ocupava com viver. Às vezes anos se passavam e aí eu m e dava conta: 'Ah, m eu Deus, preciso term inar este doutorado'. Assim , no processo de fazer o doutorado, tenho vivido m uitos rios e m uitas pessoas. A antropologia se tornou parte de m im , em vez de algo super-im posto".
Surge um m om ento — um "m om ento psicológico" que pode durar sem anas ou até m eses, m as que é freqüentem ente experim entado com o um m om ento específico no tem po — no qual os determ inantes de personalidade criadores do conflito parecem se desenredar, e a m ulher é libertada da prisão que a m antinha im obilizada. Quando isso acontece, tudo se torna possível. Pode haver m udança de em prego, m udança de casa, novos relacionam entos, produções criativas nem sonhadas anteriorm ente.
As m ulheres que se libertaram descobrem -se repentinam ente com energia para o engaj am ento. Elas se agarram com tenacidade à vida, sendo ao m esm o tem po livres para acom panhar os altos e baixos de seus eventos. Há a nova experiência de estar com pletam ente viva, na qual se é m ais livre que nunca para tom ar decisões, aceitar ou rej eitar coisas de acordo com os desej os do verdadeiro "eu". Experiências em ocionais poderosas aguardam aqueles que realm ente abandonam os "scripts" sociais. Um a m ulher de Chicago de quarenta e poucos anos, que ainda vive com o m arido e o am a, está tam bém intensam ente envolvida com um hom em com quem trabalha. Ele tam bém é casado, de m odo que o tem po de que dispõem para estarem sós é lim itado. Várias vezes ao ano viaj am j untos à negócios. Em um a dessas viagens, após alguns dias, a m ulher sentiu vontade de esquiar. O am ante não gostava de esquiar, e, além disso, não term inara o trabalho que tinha de realizar em Boston. "Decidi esquiar sozinha", disse-m e ela. "Tom ei um ônibus no m eie da tarde; enquanto subíam os as m ontanhas de Verm ont, com eçou a nevar. Lem bro-m e da sensação de estar sentada sozinha naquele ônibus, olhando pela j anela e vendo as luzes se acenderem nas cidadezinhas por onde passávam os. Senti-m e tão bem , tão segura no reconhecim ento de que podia ser eu m esm a, fazer o que quisesse — e tam bém ser am ada — que com ecei a chorar."
A m ulher que se libertou tem m obilidade em ocional. Ela é capaz de m over-se em direção às coisas que lhe são gratificantes e distanciar-se das que não o são. Ela tam bém é livre para ser bem -sucedida: para estabelecer obj etivos e agir de m odo a atingir esses obj etivos sem tem er o fracasso. Sua autoconfiança deriva de um a avaliação realista de suas lim itações e capacidades. Um dos exem plos m ais inspiradores que conheço de um a m ulher que foi livre para vencer é o de Jean Auel. (Seu prim eiro rom ance, The clan of the cave bear — "O clã do urso da caverna" —, tornou-se de im ediato um sucesso de vendagem .) Eis um a pessoa que se recusou a deixar sua vida à m ercê de ocorrências externas. Em vez disso, ela assum iu a responsabilidade pelo delineam ento de sua vida — m uito em bora existissem outros que dependiam dela. Jean casou-se aos dezoito anos de idade. Aos vinte e cinco j á tinha cinco filhos. Além de cuidar da casa e das crianças e sim ultaneam ente trabalhar com o perfuradora num a fábrica da Tektronix perto de sua casa em Portland, Oregon, ela ainda estudava à noite, para obter um m estrado em adm inistração. (Ela não tinha o bacharelado.) De posse do m estrado, conseguiu subir até a posição de gerente com ercial da Tektronix, responsabilizando-se, assim , por operações financeiras no valor de oito m ilhões de dólares. Então, alguns m eses depois de seu quadragésim o aniversário, ela deixou o em prego; decidira escrever um rom ance.
Tudo com eçou com um a idéia que lhe ocorrera num a noite, e que se desenvolveu num a história sobre um a m enina Cro-Magnon que vive na sociedade m ais prim itiva dos Neanderthals. Jean Auel leu m ais de cinqüenta livros, a respeito dos povos prim itivos. Em seguida fez o prim eiro rascunho — quatrocentas e cinqüenta m il palavras. Ao fazê-lo, aprendeu um a coisa: não sabia o suficiente para escrever rom ances. Portanto, passou a preparar-se para isso. Partiu de leituras dos livros da filha sobre literatura de ficção. Escreveu e reescreveu. Então, após algum as recusas por parte dos editores, m andou um a carta para um agente literário de Nova York que conhecera num encontro de escritores em Portland. Oito sem anas depois, ela assinava um contrato de cento e trinta m il dólares por The clan of the cave bear. Eis um a m ulher que abriu as portas de sua vida aos ventos da m udança. Eis um a m ulher sem m edo de trabalhar, de adentrar áreas não experim entadas — de adentrar o desconhecido, o estranho, o novo. Eis um a m ulher que acredita em si m esm a, e a crença em si própria é a linha m estra do viver plenam ente. Aprendi que a liberdade e a independência não podem ser arrancadas dos outros — da sociedade em geral, ou dos hom ens —, m as podem ser ativam ente desenvolvidas a partir de dentro. Para alcançá-las, terem os que renunciar às dependências que tem os usado qual m uletas para sentir-nos seguras. E, no entanto, a troca não é tão perigosa. A m ulher que acredita em si m esm a não precisa enganar-se com sonhos vazios, com coisas que estej am além de suas capacidades. Ao m esm o tem po ela não vacila em face de tarefas para as quais se acha preparada. Ela é realista, segura e am a a si própria. Ela está finalm ente livre para am ar os outros, porque am a a si m esm a. Todas essas coisas, e nada m enos que elas, constituem a m ulher que se libertou.
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Colette Dowling
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