Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 15 de 60

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Complexo de Cinderela

Aparência e linguagem da "filhinha de papai"

Para não dizer que nos leva a nos com portarm os com o bebezinhos.

 

Aparência e linguagem da "filhinha de papai"

 

Num a reunião da Academ ia Am ericana de Psicanálise, em Beverly Hills, Alexandra Sy m onds assom brou seus colegas com a seguinte colocação: "Não é adequado que um a executiva de um banco caia em lágrim as quando seu superior a critica por algo que fez. É inaceitável que um a editora-chefe que ganha trinta m il dólares por ano aj a de m odo sedutor para obter a aprovação de um plano seu j á rej eitado. É incabível que um a professora universitária se m ostre am uada por lhe terem program ado poucas aulas, esperando, com tal com portam ento, cham ar a atenção do reitor e fazê-lo m udar de opinião. Esses são padrões com portam entais de 'filhinhos de papai', e não de m ulheres libertadas atuando autonom am ente".

A dra. Sy m onds não inventara casos fictícios de "filhinhas de papai" bem -sucedidas em suas carreiras. Estava relatando casos reais de pacientes que a tinham procurado pedindo-lhe aj uda — "superm ulheres" em profundo conflito com seus sentim entos de dependência.

À m edida que as m ulheres ascendem profissionalm ente, certas afetações e m aneirism os flagram a confiança que elas tentam aparentar. Aquelas que, no íntim o, não renunciaram à sua condição de "filhinhas de papai" podem de fato enviar m ensagens m uito desconcertantes a colegas e pessoas com quem fazem negócios. Tanto quanto o atual estilo de indum entária da "m ulher de sucesso" — um a m istura de angelical e provocador —, a apresentação dessas profissionais freqüentem ente sugere algo de esquizoide. Elas parecem tão firm es — até que com eçam a piscar, revolver os cabelos e sorrir de m odo sedutor. Tais com portam entos não são sem pre apreciados pelos hom ens com quem elas negociam . Recentem ente tive um a reunião com um j ornalista financeiro, um corretor de ações da Wall Street e um executivo de propaganda. O obj etivo era recolher suas im pressões sobre a m aneira com o as m ulheres se apresentam , agem e falam quando tratam de negócios. Aqui estão alguns excertos da conversa:

JORNALISTA: Há alguns m eses entrevistei um a m ulher num a ótim a posição no m ercado de ações de Nova York. Ela usava um a cam isa de seda branca, muita m aquilagem , brincos de ouro que não paravam de balançar, e tinha unhas com pridas e pintadas de verm elho-vivo. Eu m al conseguia olhar para ela, de tão cham ativa que era sua aparência. Seu m odo de falar era pontuado por diferentes estilos. Mostrava-se por algum tem po séria e extrem am ente segura de si; de repente, entrem eava o discurso com risadinhas, dava de om bros e levantava as sobrancelhas de m odo provocador, para depois reassum ir a seriedade e a com penetração.

CORRETOR: Tam bém vej o isso nas m ulheres com quem trabalho. A gente fica totalm ente desnorteado, com o que aguardando o m om ento em que a próxim a "personalidade" vai aparecer. Com eça-se a procurar sinais que indiquem quando e quem vai em ergir da próxim a vez.

JORNALISTA: A dicção daquela m ulher era super-lenta. Ela era m uito cuidadosa na escolha das palavras, sem pre observando a form a com o falava, o que com unicava. Aí fazia um a coisa que j á presenciei em diversas m ulheres com bons em pregos. Elas term inam as sentenças "am aciando" as palavras e acenando ligeiram ente a cabeça.

PUBLICITÁRIO: Ah, j á vi isso. É um a espécie de j actância m ascarada; elas finalizam as frases com um ar de superioridade m ascarada. E encobrem aquilo de que se podem gabar porque não desej am m ostrar-se realm ente "vendendo" a coisa.

JORNALISTA: É com o se as m ulheres tivessem m edo de se posicionar concretam ente por trás da força de um a afirm ação. Elas vão falando, falando, criando um a boa linha de argum entação, e, de repente, é com o se se vissem ganhando terreno. Aí têm que recuar. Acho que elas tem em o poder.

CORRETOR: Essa dim inuição do tom da voz e o aceno são m uito com uns.

PUBLICITÁRIO: O aceno tem o propósito de fazer-nos concordar.

CORRETOR: Exato.

PUBLICITÁRIO: Notei que as m ulheres são m uito rígidas quando falam de trabalho. Elas nunca dizem algo com o: "Você está ficando louco?" É m uito freqüente ver-se hom ens de negócios deixarem suas personalidades se exprim irem abertam ente. Eles não se preocupam em ser aquilo que acham que deveriam ser. São o que são e fazem negócios. Já as m ulheres são polidas e form ais. Entram na sala em punhando a bandeira da etiqueta. Elas m e lem bram m enininhas de ginásio que são as prim eiras da classe. CORRETOR: É por isso que as m ulheres se adaptam tanto a em pregos com o vendedoras ou chefes de departam entos de reclam ações. As pessoas podem chegar e falar alto, esnobar ou berrar, e elas sim plesm ente perm anecem tranqüilas por trás da base e do blush m eticulosam ente aplicados todas as m anhãs. É com o se elas, pessoas, não estivessem presentes. As roupas, a m aquilagem e a feminilidade são anteparos entre elas e o m undo.

JORNALISTA: Existe um protótipo na adolescência segundo o qual a garota passa a enxergar o m undo de dentro do carro do nam orado. Esse protótipo parece persistir por toda a vida. A m ulher passeia pelo m undo do hom em . Ao entrar no carro dele — ou sej a, em suas instituições —, a m ulher está m eram ente excursionando. Ela não tenta sentar-se no banco do m otorista, fazer as coisas do j eito dela, provocar m udanças. Ela j am ais tenta alcançar o poder. É assim que vej o a dependência fem inina: a eterna passageira do autom óvel do m acho.

As m ulheres não se sentem à vontade sendo incisivas, pedindo diretam ente o que desej am , vendendo aquilo em que acreditam , especialm ente quando isso im plica passar por cim a das opiniões dos outros. Sem pre à espreita — às vezes nos m om entos m ais inesperados —, a tentação de reassum ir o papel de ingénua, ou o de sedutora, ou o de m enininha m im ada volta a atacar. Basta um olhar ou um gesto para fazê-lo — "um aceno de cabeça, ou um dar de om bros", segundo as palavras do j ornalista.

Em Women, money and power ("Mulheres, dinheiro e poder"), a psicóloga Phy llis Chesler sugere que as m ulheres fazem tudo isso deliberadam ente (ainda que nem sem pre conscientem ente), a fim de perm anecerem confortavelm ente no banco do passageiro. "Mulheres de todas as classes, dentro de casa e em público, utilizam um a linguagem corporal básica para com unicar deferência, inconsequência, desam paro... um a postura teoricam ente destinada a pôr os outros à vontade, e os hom ens 'por cim a'. "

Há outras m aneiras pelas quais as m ulheres colocam os hom ens — ou m elhor, quaisquer outras pessoas que não elas m esm as — "por cim a". Ultim am ente, vários estudos têm sido levados a cabo com a finalidade de analisar os padrões de linguagem fem ininos. Eles indicam que o m edo e a insegurança m odelam o m odo com o falam os: nossa dicção, nossa escolha de palavras, nossa entonação, nosso tom costum eiro de hesitação, até m esm o a altura de nossas em issões sonoras (em algum as m ulheres, elas são tão agudas e infantis que parecem apelar por aj uda). O lingüista Robin Lakoff verificou que as seguintes características aparecem consistentemente na fala fem inina:

- Uso de adj etivos "vazios" ("m aravilhoso", "divino", "terrível", etc.), que denotam pouco significado e destituem o discurso de qualidade concreta. As pessoas cuj a fala é entrem eada de adj etivos vazios em geral não são levadas a sério.- Uso de com entários interrogativos ao final de afirm ações. ("Está m esm o quente, você não acha?")

- Uso de entonação descendente ou interrogativa ao final de um a frase, o que lhe retira a ênfase.

- Uso de expressões m odificadoras tais com o: "tipo", "um a espécie de", "acho", que dão ao discurso um a qualidade descom prom etida.- Uso de um vocabulário por dem ais correto e excessivam ente polido (por exem plo, evitando a gíria e expressões populares).

Por gerarem altas controvérsias, as descobertas de Lakoff acionaram nova onda de pesquisas, conduzidas por estudiosos de todo o país. Muito do que eles verificaram reforçava as observações de Lakoff: as m ulheres realm ente utilizam form as não-assertivas de fala. Sally Genet, da Cornell University, elaborou o term o "declarativo difidente" para descrever nossa tendencia a "am aciar" asserções.

Falando do j eito que falam os, nós, do sexo fem inino, estam os definitivam ente fazendo com que algo aconteça — ou não aconteça — em term os de nossa eficácia na com unicação com outrem . "A fala pode não som ente refletir diferenças de poder", nota Mary Brown Parlee, um a das psicólogas da redação da revista Psychology Today. "Ela pode aj udar a criá-las." Em outras palavras, as profissionais que se utilizam do estilo "declarativo difidente" para se com unicar possivelm ente j am ais "chegarão lá".

Há um a nova crise na fem inilidade, qual sej a: o conflito sobre o que é e o que não é "fem inino", que im pede m uitas m ulheres de agir de m aneira integrada e feliz. Há anos a fem inilidade vem sendo associada — m ais: identificada — com dependência. Sucum bindo ao que cham o o "pânico do gênero fem inino", as m ulheres tem em que um com portam ento independente sej a não-fem inino (ver capítulo VI). Podem os não chegar a visualizá-lo com o masculino; ao m esm o tem po, porém , não o sentimos com o fem inino. Num a expressão vívida desse novo pânico do gênero fem inino, um a j ovem corretora do m ercado de ações m e disse: "Penso que alguém — pode ser hom em ou m ulher — m e ensinará a ser com o um hom em , ganhar dinheiro com o um hom em , ser confiante e capaz com o um hom em . Quando isso tiver sido realizado, voltarei a ser m ulher, engravidarei e cuidarei do bebê por uns seis anos. Aí voltarei a ser hom em ". A terrível confusão que as m ulheres estão experim entando em relação à fem inilidade relaciona-se intim am ente com nossa escolha de não viver com o nossas m ães. Os psiquiatras têm verificado que, quanto m ais confinadas e dependentes são nossas m ães, m aior será nossa ansiedade com relação à adoção de atitudes e com portam entos diversos. "A m ãe que se auto-anula, a m ãe que sofre em silêncio, ainda que diga à filha: 'Não se deixe aprisionar com o eu; lute por algum a coisa', pode entretanto sentir-se ressentida e am eaçada pelo fato de sua filha não im itar seu papel auto-restritor", diz Alexandra Sy m onds. O fato de se ter um a m ãe revoltada produz um de três padrões característicos nas filhas. O prim eiro é a depressão leve e crônica — um a tristeza ou depressão que parecem eternam ente presentes. Segundo a Dra. Sy m onds, isso é típico da m ulher intensam ente envolvida com seu trabalho e que dá m uito aos outros, deixando de se nutrir em ocionalm ente.

A segunda síndrom e passível de m anifestação nas m ulheres que tentaram divergir do m odelo da m ãe é a insegurança na área da identidade fem inina (o tipo de confusão expressa pela j ovem corretora de ações). "Fico atônita com o pânico, terror m esm o, que assalta essas m ulheres perante os aspectos de suas personalidades que elas consideram m asculinos", assinalou a Dra. Sy m onds, acrescentando que, até hoje, as m ulheres que lutam por um a vida independente ainda estão ao sabor das ondas ditado pelas expectativas culturais em relação a elas.

O terceiro padrão é representado pelo núcleo oculto de dependência, tão negado e geralm ente disfarçado por trás de m áscaras de auto-suficiência adm iravelm ente convincentes. A m ulher pseudo-independente pode trabalhar fora em período integral, cuidar bem da fam ília, organizar e desem penhar com esm ero as lides dom ésticas e, em geral, m ostrar um a necessidade com pulsiva de ser "perfeita" tanto no lar com o no serviço. Ela tam bém pode chorar a noite inteira quando o m arido está fora de casa.

É com um , atualm ente, a tendência fem inina a tentar resolver os próprios problem as m odificando o rum o das coisas externas: casando-se (ou separando-se), m udando de em prego, m udando de casa, associando-se a um sindicato ou lutando pelos direitos da m ulher. Entretanto, o fato é que, caso ela não haj a resolvido seus conflitos relativos à dependência, sua vida nunca m udará em função de ter achado o hom em "certo", ou o em prego "certo", ou o estilo de vida "certo". Seu trabalho na luta pelos direitos da m ulher pode aliviar sua sensação de isolam ento. Mas nenhum a dessas m odificações externas poderá desatar o nó subj acente a atitudes confusas e autodestrutivas. As m ulheres que desej em com eçar a se sentir m elhor a respeito de si m esm as devem partir da confrontação com o que ocorre dentro delas. Após conversar com psicoterapeutas e psiquiatras de diferentes regiões do país, entrevistar m ulheres e sim plesm ente observar a vida daquelas que viviam a m eu redor, cheguei à seguinte conclusão: a primeira coisa que as mulheres têm que reconhecer é o grau em que o medo governa suas vidas. O m edo, irracional e caprichoso — um m edo sem qualquer relação com capacidade ou m esm o com a realidade —, é epidêm ico entre as m ulheres de hoj e. Medo de ser independente (que pode significar acabar sozinha e desam parada); m edo de ser dependente (que pode significar ser engolida por algum "outro" dom inador); m edo de ser com petente e boa no que faz (que pode significar ter que continuar sendo boa no que faz); m edo de ser incom petente (que pode significar ter que continuar a sentir-se inútil, deprim ida e inferior). O m edo é um a arm adilha presente em todos os estágios da vida da m ulher, desde que ela se torna adolescente e desej osa de exercer atração sobre os hom ens. Arm adilha, porque talvez ela não consiga atrair o hom em e, por outro lado, talvez o consiga, o que irá aprisioná-la e lim itá-la pelo resto de sua vida. O m edo é palpável nas "esposas desativadas", que foram abandonadas pelos m aridos, e nas viúvas que se vêem perdidas devido à m orte de seus m aridos. Ele está presente em m ulheres que tentam lançar-se num a profissão, em m ulheres que querem desfazer seus casam entos, m as não têm coragem de dar o prim eiro passo, em m ulheres que os desfizeram m as se acham totalm ente paralisadas diante da perspectiva de viverem por sua conta.

Talvez o m ais doloroso de tudo sej a que ele está presente inclusive em m ulheres que ascenderam m uito em suas carreiras — e achavam terem ultrapassado esse problem a — apenas para descobrirem que, no ponto X de suas carreiras, num nível no qual a atuação verdadeiram ente independente não m ais poderia ser evitada se quisessem vencer por com pleto, são subitam ente assaltadas pela ansiedade e não conseguem prosseguir. A fobia acha-se tão infiltrada na experiência feminina que assume as proporções de uma peste secreta. Ela se desenvolve ao longo de muitos anos e através do condicionamento social, e é ião insidiosa justamente porque tão aculturada que nem chegamos a reconhecer o que foi que nos aconteceu.

As m ulheres não se libertarão enquanto não pararem de tem er. Não com eçarem os a experim entar um a m udança real em nossas vidas, um a em ancipação real, até iniciarm os o processo — quase que de lavagem cerebral — de diluição das ansiedades que nos im pedem de nos sentirm os com petentes e inteiras.