Complexo de Cinderela
As catástrofes reservadas a "Anne"
As com posições dos estudantes foram então analisadas pela equipe de pesquisadores, que, graças aos testes proj etivos, acreditam poder perceber as reais atitudes e expectativas dos suj eitos na tem ática da história. A Dra. Horner considerava sinal de que o m edo do sucesso estava operando o fato de os estudantes construírem histórias indicativas de que esperavam conseqüências negativas decorrentes de qualquer grande êxito acadêm ico. As conseqüências negativas incluíam o m edo de serem socialm ente rej eitados, de perderem a perspectiva de arranj ar nam orados (as) ou de se casarem , e o m edo de ficarem isolados, solitários ou infelizes com o resultado do sucesso. A notícia daquilo em que Horner estava trabalhando propagou-se de um a universidade a outra im ediatam ente. Ela verificou haver trem endas diferenças entre as form as com que hom ens e m ulheres respondem à perspectiva de sucesso. Os estudantes do sexo m asculino m ostravam -se exultantes pela possibilidade de desenvolver carreiras brilhantes; tal perspectiva enchia de ansiedade os do sexo fem inino; no¬venta por cento dos hom ens não som ente achavam que se sentiriam à vontade sendo bem sucedidos no trabalho profissional, com o tam bém acreditavam que isso os aj udaria no tocante à popularidade entre as m ulheres; sessenta e cinco por cento das m ulheres testadas por Horner e seus assistentes conceituavam o sucesso com o qualquer coisa entre incôm odo e totalm ente aterrorizador. De acordo com a Dra. Horner, a principal razão para isso era: As m ulheres acreditavam que a obtenção de êxito profissional deterioraria suas relações com os hom ens. Sim plesm ente isso. As m ulheres que tinham nam orados achavam que os perderiam . As que não tinham nam orados pensavam que j am ais os conseguiriam . Diante do risco de um a vida sem am or, as m ulheres aparentem ente preferem renunciar a m uita coisa — abandonar, dar as costas a suas am bições, fugir ansiosam ente para o interior do anonim ato dos oitenta por cento. Não é com elas reinar, solitárias e sem am or, sobre o trono frio da superioridade profissional. Mais que tudo, as m ulheres querem se sentir em relação com um outro. Isto é fundam ental e suplanta qualquer outra coisa.
As catástrofes reservadas a "Anne"
Vej am os com o as m ulheres da University of Michigan lidaram com a perturbadora situação em que Anne se encontrou na faculdade de m edicina. Um a vasta m aioria de m ulheres expressou a idéia de que Anne bem podia ter sido um a leprosa, a j ulgar por todo o isolam ento que seguram ente lhe sobreviria com o conseqüência de seu anôm alo brilhantism o na faculdade de m edicina. Esse brilhantism o ia causar tantos problem as a Anne que não valia a pena exibi-lo. Um a das m oças sugeriu que Anne prontam ente providenciasse um m odo de perder a posição de prim eira da turm a. Pondo de lado seus estudos e aj udando seu am igo Carl, Anne poderia em breve casar-se, largar a faculdade e "concentrar-se na educação dos filhos (de Carl)". A tem ática geral das histórias das estudantes era que Anne podia desistir de contar com a afeição de um am ante se persistisse em ostentar tantos m éritos. As m ulheres expressavam um a espécie de irritação ansiosa em relação a Anne. Ela não era "feliz", diziam . Ou descreviam -na com o um a m oça repulsivam ente agressiva. Essa "Anne", sugeriam , não tinha escrúpulos em passar por cim a dos outros — fam ília, m arido, am igos — em sua abj eta traj etória para a realização de suas am bições.
O que aparentem ente constituía fonte de m aior preocupação era a rej eição social. "Anne é um a pobre coitada que esconde a acne por trás dos livros", escreveu um a delas. "Ela corre para o quadro onde estão afixadas as notas e vê que está à frente. 'Com o sem pre', esnoba, fingindo estar surpresa. A resposta do resto da classe é um coro de resm ungos aborrecidos." Um a outra estudante, depois de questionar se um a m ulher com tanta am bição e inteligência não seria um tanto anorm al, concluiu que Anne deveria recuar rapidam ente. Ela escreveu: "Infelizm ente Anne não tem m ais certeza de realm ente querer ser m édica. Ela está preocupada consigo m esm a e pergunta-se se é norm al... Anne resolve não continuar na m edicina e, em vez disso, m atricular-se em cursos que tenham m aior significado pessoal para ela". Algum as das histórias produzidas eram em si bizarras. Um a m ulher achou a idéia de Anne alegrar-se com o sucesso tão revoltante que a puniu com espantosa brutalidade. "Anne com eça a proclam ar sua alegria e surpresa", escreveu a estudante, "de form a tal que os colegas ficam tão enoj ados com seu com portam ento que pulam por cim a dela e batem -lhe tanto que ela fica perm anentem ente m utilada."
Conquanto às vezes extrem ados, os tem ores dessas m ulheres de que o sucesso arrasará suas vidas sociais não são inteiram ente destituídos de realidade. Idéias tradicionais sobre o que é desej ável em m ulheres continuam surpreendentem ente prevalentes entre a nata da população solteira do sexo m asculino, os j ovens e requintados produtos da Ivy League. Um recente estudo efetuado entre alunos de am bos os sexos de seis faculdades e universidades do nordeste revelou um fato inusitado: a grande m aioria dos estudantes do sexo m asculino espera desposar m ulheres que fiquem em casa e não trabalhem . Eles se vêem com o os provedores da casa, enquanto suas esposas ficam em casa com as crianças. E se elas quiserem trabalhar? "Talvez depois que as crianças entrarem na escola", dizem eles. Talvez.
Em seu livro The future of m arriage, Jessie Bernard afirm a que a agressividade, o desej o e o im pulso para o sucesso, qualidades necessárias para a obtenção de em pregos bem -rem unerados em nossa sociedade, "são precisam ente aquelas não desej adas pela m aioria dos hom ens para suas esposas". Nossos bem -sucedidos profissionais de hoj e — ou pelo m enos os de am anhã, os alunos das escolas da Ivy League — ainda procuram m ães para seus descendentes. Eles não estão procurando m ulheres profissionais que possam desem penhar seus papéis no m undo com tanta sofisticação — e independência — quanto eles. Com eça a evidenciar-se que esse conflito relativo ao trabalho associa-se fortem ente à classe social. Nas pesquisas de Matina Horner, as m ulheres m ais perturbadas com a possibilidade de um futuro sucesso provinham em geral da classe m édia e m édia alta, com pais bem -sucedidos — pais esses não diferentes dos atuais j ovens da Ivy League, que querem por esposas m oças não-em preendedoras. Nesses lares, as m ães ou não trabalhavam ou trabalhavam a um nível bem aquém de um sério com prom isso profissional. As m ulheres a quem o sucesso não incom odava tanto vinham da classe baixa, com m ães que em geral tinham m elhor educação acadêm ica que seus m aridos, e que sem pre tinham trabalhado. As filhas dessas m ulheres não experim entavam conflito entre realização e fem inilidade, porque haviam crescido vendo am bas harm oniosam ente integradas em suas m ães.
A correlação entre classes sociais e os conflitos fem ininos nessa área tornou-se ainda m ais óbvia quando, em estudos posteriores, Horner se deparou com um fascinante paralelo entre m ulheres brancas e hom ens negros. Ela observou que am bos são notavelm ente m ais ansiosos quanto ao sucesso, se com parados a hom ens brancos e m ulheres negras. Som ente dez por cento dos hom ens brancos e vinte e nove por cento das m ulheres negras apresentavam problem as associados ao m edo do sucesso.
Os resultados obtidos por Matina Horner em seus estudos sobre o m edo do sucesso eram tão estim ulantes que ela decidiu dar um passo adiante e averiguar em que grau as atitudes expressas pelas m ulheres nos testes de com pletar histórias correspondiam ao m odo de agir em suas vidas reais. O m edo do sucesso reduz a probabilidade de se vencer? As m ulheres que se m ostravam ansiosas com relação ao sucesso tinham de j ato m enor probabilidade de serem bem sucedidas?
Os m esm os estudantes universitários utilizados no estudo inicial receberam testes que envolviam tarefas com petitivas e não com petitivas. Horner assevera que os resultados "deixaram bem claro" que, quando as m ulheres esperam o pior do sucesso, fazem o im possível para evitá-lo.
O processo constitui um a espécie de profecia auto-concretizadora.
Expectativa de eliciação do
conseqüências negativas conduz a m edo do sucesso Medo do sucesso conduz a m enor sucesso
Um a vez que o m edo do sucesso se instala nas m ulheres, seus níveis de aspiração caem vertiginosam ente, com o a coluna de m ercúrio quando atingida por um a onda de frio. Não é que as m ulheres cortej em o fracasso; elas evitam o sucesso. Por exem plo: apesar de suas m édias acadêm icas se enquadrarem no percentual superior, as m ulheres com alto grau de MDS (m edo do sucesso) optavam pelas ocupações m enos desafiantes, as cham adas "fem ininas" — dona-de-casa, m ãe, enferm eira, professora. Era com o se, evitando carreiras m ais "duras", elas conseguissem provar a si m esm as que ainda m ereciam ser m ulheres. Tom ando-se um a m ulher individualm ente, a evitação do sucesso pode não ser tão rudem ente autodestrutiva quanto a facilitação do fracasso, m as o efeito desse fenôm eno sobre as m ulheres em geral não pode ser subestim ado. Essa nossa tendência a nos dim inuirm os, a desviarm os o desenvolvim ento de nossas habilidades inatas devido ao receio da perda de am or, ê um a conseqüência daquilo a que m e referi anteriorm ente e que cham ei o pânico do gênero fem inino — a nova confusão sobre nossa identidade fem inina. Em lugar de experim entarm os a ansiedade do fazer (talvez de nos sentirm os não fem ininas com o resultado disso), nós nada fazem os.
As m ulheres estão arm ando um triste j ogo de autonegação. Universitárias com alto grau de MDS progressivam ente reduzem seu nível de aspirações à m edida que avançam do prim eiro ao últim o ano de faculdade, segundo os dados obtidos pela Dra. Horner. Se Julia entra na faculdade decidida a tornar-se m édica, ela é bem capaz de, ao chegar ao últim o ano, resolver que nada lhe agradaria m ais do que ser biom édica. A segundanista do curso de história, que agora quer fazer direito ao fim do curso, m ais ou m enos na m etade do últim o ano passa a achar que seria ótim o ser professora de segunda série do prim ário, e, quem sabe, sim plesm ente fazer alguns créditos em m atérias de pedagogia para ter um diplom a de professora. Mam ãe diz que ela está tom ando um a decisão sensata; papai, idem .
Idem para o nam orado Jim . "Ensinar é um a coisa que você sem pre poderá fazer m ais tarde", assegura ele, "depois que as crianças tiverem crescido." E quanto às m ulheres cuj o MDS era baixo? Seus futuros pareciam m uitíssim o m ais prom issores. É espantoso que, em bora tivessem m enor talento natural do que as possuido¬ras de alto MDS, estas m ulheres estavam se preparando para fazer pós-graduação e seguir carreiras em disciplinas científicas "difíceis" (m atem ática, física, quím ica). A esse respeito, as m ulheres com baixo grau de MDS assem elham -se aos hom ens. É com um o caso de hom ens com aspirações que excedem suas reais capacidades. Isso serve para im pulsioná-los na vida m ais do que qualquer outra coisa. Os hom ens são com bativos. Eles podem gerar sua própria fonte específica de ansiedade ao darem passos m aiores que os perm itidos por suas capacidades inatas, m as ao m enos chegam ao m eio do cam inho. As m ulheres se retraem . Reduzem suas possibilidades, alm ej ando bem m enos do que lhes perm ite seu nível (inato) de desem penho. O resultado é que m uitas j am ais passam da beira da estrada. À época em que Matina Horner publicou seus resultados iniciais, em 1968, pensou-se que certam ente as m ulheres j á deviam ter abandonado aqueles tem ores patéticos — se é que na verdade algum dia os tinham experim entado. Afinal de contas, para que servira o m ovim ento fem inista senão para alargar e dissolver as rígidas fronteiras culturais da fem inilidade? Horner conduzira suas prim eiras pesquisas no passado som brio de 1964. As universitárias de 68 eram outra coisa, só queriam saber de explorar todas as suas potencialidades e vencer... ou não?