Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 23 de 60

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Complexo de Cinderela

A evitação como fuga de si mesma

Quando Tim othy, o filho m ais novo, entrou na escola, Caroly n com eçou a falar em "fazer algum a coisa". "Helm ut, realm ente acho que tenho de fazer algum a coisa", dizia.

"Por Deus, por favor, faça algum a coisa", ele respondia. "Você está m e enlouquecendo."

Acontece que Caroly n perdera a com batividade e o ânim o que a tinham am parado durante os anos de adolescência. A reação de Helm ut fazia-a sentir-se abandonada, com o se ele não quisesse cuidar dela, com o se tudo o que ele quisesse dela fosse ser deixado em paz. Caroly n desej ava a opção de sair e fazer algum a coisa, m as certam ente não queria sentir a obrigação de fazê-lo. Ela deveria poder ter algum a escolha quanto ao m odo de conduzir sua vida. Entretanto, a atenção dada por Caroly n ao tem a da escolha era superficial e falsa. Ela preferia viver sem opções — com o vinha fazendo desde o dia de seu casam ento — a assum ir o risco de experim entar sua própria individuação. Por isso se subm etia. Quando Helm ut com eçou a resm ungar das contas ao m esm o tem po que insistia em que ela passasse a receber em m elhor estilo, Caroly n tom ou suas palavras com o um a ordem . Ocorre que ele estava se tornando conhecido no m undo acadêm ico. "Chega dessa droga de bolachinhas e patê", reclam ava. "Chega desse vinhozinho barato. Isso é para alunos de pós-graduação. O pessoal com quem lido está acostum ado com scotch." Nesse ponto, o que Helm ut realm ente desej ava era um a segunda fonte de renda na fam ília, algo que aj udasse a m elhorar um pouco o nível econôm ico de suas vidas. Ele estava além do nível em que viviam . Seus escritos agora eram publicados regularm ente; falava-se dele no m undo acadêm ico. Em vez de apoiá-lo — queixava-se ele com vários dos colegas m ais íntim os de Yale —, a esposa e os filhos o estavam atrapalhando.

 

A evitação como fuga de si mesma

 

A evitação fóbica de Caroly n foi se tornando cada vez m ais aparente, pois ela nada fazia para desenvolver um novo curso de ação para si m esm a. Respondendo não a algum ditam e interno no sentido do crescim ento e do desenvolvim ento, m as apenas reagindo à pressão de Helm ut pela criação de um palco ilum inado por seu brilhantism o, ela tentou desesperadam ente arranj ar fórm ulas m ais inteligentes de controlar a despesa fam iliar. Fez um curso de extensão universitária grátis sobre seleção de vinhos. Am pliou seu repertório culinário, especializando-se na produção de refeições exóticas que requeriam pouca carne. Quando recepcionavam , em lugar das bolachinhas com patê, ela passou a servir canapés requintados, feitos com pão integral preparado por ela m esm a, regados com o m elhor bordeaux, com prado por m enos de quatro dólares a garrafa nas m ais longínquas e noj entas loj as de bebidas que escarafunchava. A fim de m elhorar a aparência do apartam ento, ela com eçou a freqüentar loj as de artigos de segunda m ão, em busca de tapetinhos, abaj ures de bronze e bandej as recobertas com finíssim a cam ada de prata — enfim , coisas que a aj udassem a criar um am biente de conforto e sucesso. Caroly n nunca lera O segundo sexo. Se o tivesse feito, teria que duelar com as observações de Sim one de Beauvouir sobre os perigos oferecidos às m ulheres pelo excessivo envolvim ento com a casa. "Nessa insanidade... a m ulher se ocupa tanto que se esquece da própria existência", expunha De Beauvoir. "De fato a vida doméstica, com suas tarefas meticulosas e ilimitadas, permite à mulher uma fuga sado-masoquista de si mesma..."

Se Caroly n estava ocupada dem ais para se aperceber das im plicações de tanta ocupação, o m esm o não se dava com Helm ut, que com eçava a achar a esposa um fracasso total. As esposas de seus colegas faziam coisas, m esm o que isso significasse apenas retom ar os estudos. "Puxa, Caroly n, torta de frango de novo?", dizia, cinco m inutos antes de suas visitas chegarem . "Tenho a im pressão de que os Aronsons com eram esse negócio no m ínim o nas três últim as vezes em que estiveram aqui!"

"Eu precisaria de um ano", Caroly n dizia consigo m esm a. "Eu precisaria de um agente, um em presário, um acom panhante. Eu teria de viaj ar ao m enos quatro m eses por ano, às vezes durante sem anas seguidas, e aí, no fim das contas, sei lá se não ia descobrir que não sou m ais capaz de cantar na ópera." Pensou em fazer m edicina, m as essa era um a idéia absurda dem ais para receber m uita atenção. Levaria dois anos apenas para preparar-se para os exam es, depois quatro anos de curso, durante os anos de internato e residência... Com horror, Caroly n se deu conta de que estaria com m ais de quarenta ao iniciar a profissão de m édica, e que a vida até lá seria difícil — terrivelm ente difícil, im possível m esm o. Helm ut sim plesm ente j am ais se aj ustaria aos problem as que sua volta aos estudos criaria.

Sem pre, neste ponto da fantasia, os olhos de Caroly n se enchiam de lágrim as. "Eu provavelm ente nem conseguiria entrar na faculdade de m edicina." Era m ais fácil para Caroly n j ulgar-se "insuficientem ente inteligente" do que enxergar seu grau de dependência de Helm ut. O resultado dessa dependência foi levar Helm ut a m atá-la sim bolicam ente. Ele, um tirano cruel que tinha todos os desej os satisfeitos, não estava m ais sendo-lhe fiel. Som ente nas horas solitárias daquelas noites em que Helm ut perm anecia em New Haven é que Caroly n se perm itia refletir sobre a freqüência daquelas noites fora de casa. Com que facilidade isso se tornara rotineiro! Um a ou duas vezes por sem ana ele telefonava com um a desculpa: o tem po estava ruim e ele ia dorm ir na casa de um am igo; ou então teria que usar a biblioteca até tarde, e não com pensava tentar pegar o trem da m adrugada para logo depois retornar. Quanto fingim ento! E há quanto tem po isso vinha acontecendo! Excetuando o sucesso acadêm ico, que parecia aum entar a cada ano, Helm ut desapontara Caroly n em quase tudo. Ele era pai das crianças apenas no tocante ao suprim ento de suas necessidades físicas. Em bora passasse m ais tem po em casa do que a m aioria dos hom ens, ele raram ente via os filhos, a não ser nos passeios ritualísticos das tardes de sábado.

Quanto ao relacionam ento com e la... bem , Helm ut dificilm ente poderia ser considerado um com panheiro, j á que só se dirigia a Caroly n para falar do estritam ente essencial (para ele): que fosse buscar suas cam isas na lavanderia; que tratasse de livrá-lo da obrigação de com parecer àquelas chatíssim as reuniões de pais da nova escola de Tim othy. Será que ela não podia conseguir que sua m ãe não viesse visitá-los até depois do ano-novo? Pois naturalmente a m ãe dela nada tinha a ver com os convidados para a ceia do 31 de dezem bro (os convidados eram seus am igos do departam ento). Aos trinta e dois anos, onze depois de se ter casado, Caroly n com eçou a apresentar súbitas e prolongadas crises de choro. O m ero pensamento de m udança — um em prego, um as curtas férias sozinha, a m enor escapada que fosse do pesadelo em que sua vida se tinha transform ado — a fazia sentir-se intoleravelm ente cansada e apática. Sua vida era um a roda-viva sem pre igual: a escola das crianças, o açougueiro, a cozinha, a loj a de bebidas. Perdeu peso, m al se im portando com o efeito disso sobre sua aparência, pois seu corpo era-lhe agora um estorvo. Veio a insónia, povoada com a m em ória de estranhos sonhos, com im agens de violência e de m orte. Helm ut a estava pressionando a sair e arrum ar um em prego. Estava insatisfeito com ela. Isso a enraivecia, m as ela não ousava expressar seus sentim entos. Quem é que ele pensava que era, exigindo que ela se modificasse depois de tudo a que renunciara por ele? Ela renunciara à própria vida! E ele? Ele não renunciara a nada. Ele estava tentando expulsá-la do ninho antes que ela estivesse pronta para voar. Não, ela não estava pronta. Alguém havia cortado suas asas. Alguém se esquecera de ensiná-la a voar.

Quando afinal Helm ut decidiu deixá-la, Caroly n contava quarenta anos e ainda não aprendera a lição. O divórcio quase a destruiu. Ela levou m uito, m uito tem po para reunir os cacos de sua vida. Para descobrir que fora ela, e não ele, o instrum ento de seu m artírio. Levou m uito tem po para aprender aquilo a que ninguém pode fugir nesta vida: a responsabilidade. Todas as ocupações e preocupações com as coisas da fam ília tinham -na feito sentir-se responsável, o que foi um enorm e engano. Desde o dia em que Caroly n Burckhardt conheceu Helm ut Anderson, ela não m ais tom ara um a única decisão independente em relação à sua própria vida. Ela se tornara um a auxiliar — e adulta som ente de nom e. Após uns tantos anos de casada, sua evitação fóbica crescera a ponto de fazê-la renunciar a toda a autoridade e outorgá-la a Helm ut, na esperança de que ele a salvasse.

São as m ulheres com m ais de trinta anos as m ais passíveis de serem pegas de surpresa. Fom os criadas e m odeladas para serm os dependentes — para serm os m ães e esposas som ente; para, em últim a análise, o que na realidade consiste num a infância infinitam ente extensa. Com a dissolução de seus casam entos, as m ulheres costum am ficar profundam ente chocadas ao se verem com as rédeas de suas vidas nas m ãos pela prim eira vez. Porque, bem no fundo, elas sem pre acreditaram ter o direito de serem sustentadas e cuidadas por outrem . A questão que se coloca a esta altura é: o que fe z as mulheres assim?