Complexo de Cinderela
O fundo do poço
Parecia-m e que levaria a vida inteira para reunir forças para sair da capela. Sair de lá, penso, foi um sím bolo de um a saída m aior, um a prem onição de que os rituais do catolicism o nem sem pre m e serviriam de refúgio. Será que existia algum a coisa que m e pudesse abrigar?
Posterguei analisar esse ponto por m uitos anos. O prim eiro hom em de m inha vida, m eu m arido, não podia cuidar de m im ; não em ocionalm ente, ao m enos. Seus problem as psicológicos im pediam -no de contribuir para o estabelecim ento de um relacionam ento estável, quanto m ais oferecer-m e o tipo de segurança interna que eu tanto alm ej ava — e acreditava poder encontrar a partir de outrem .
O segundo hom em de m inha vida, Lowell, recusou-se a cuidar de m im (ou m elhor, recusou-se a desem penhar o tradicional papel de fingir fazê-lo). Ele deixava bem claro que queria um a m ulher que cuidasse de si própria, e eu deixava bem claro que queria que ele o fizesse. O fato de não conseguir aj ustá-lo a m inhas velhas idéias preconcebidas sobre o que um hom em "deveria" fazer criou um im passe psicológico, o qual, m uito posteriorm ente, levou-m e a m odificar algum as atitudes destrutivas.
No futuro im ediato, estendia-se à m inha frente o trabalho de reconstituição das bases prim itivas de crença em m im m esm a. Pode parecer estranho eu não ter crescido assim , m as tais são os fatos. Pode parecer estranho que um a m enina privilegiada por ter nascido num a sociedade privilegiada, com um pai que era professor universitário e um a m ãe perfeitam ente adequada, tenha desenvolvido um a veia de auto-desprezo tão aguda e profunda. No entanto, foi assim que cresci. Duvidando de m inha inteligência. Duvidando de m eus atrativos sexuais. Vej a, aí estava o m aldito duplo vínculo: não confiar em m inha capacidade de vencer no m undo às m inhas próprias custas (o novo papel) e, igualm ente, duvidar de m inha capacidade de ser bem sucedida no velho papel fem inino, o de seduzir um hom em com o propósito de fazer dele seu benfeitor e protetor. Assolada pela confusão com um a tantas m ulheres contem porâneas, sentia-m e incapaz de reconhecer o terreno que pisava. Durante todos aqueles anos em que fiz as coisas "certas", em que cursei a faculdade, trabalhei num a revista, casei-m e, parei de trabalhar, tive filhos, criei-os, para lentam ente retom ar o trabalho enquanto eles dorm iam ou brincavam — atravessei tudo isso sob um estigm a fundam ental: o conflito. Enquanto os parentes m e elogiavam e traziam -m e bolos para m ostrar sua aprovação à m inha aparente aceitação de m eu "papel" no m undo, durante todos aqueles anos de um m odo de agir peculiar, conhecido som ente pelas m ulheres, ocultei de m im m esm a a pessoa que eu era.
O fundo do poço
Com o foi evidenciado pelas respostas ao artigo da New York, havia outras com o eu: m ulheres que se sentiam dependentes, frustradas, zangadas. Mulheres que ansiavam pela independência, m as viviam receosas do que ela poderia significar. O m edo nelas chegava a paralisar seus esforços para se libertarem . Levantava-se a questão: por que ninguém falava sobre o assunto? Quantas mulheres podiam estar sofrendo em confusão e silêncio? Será que o medo da independência ê epidêmico entre as mulheres?