Complexo de Cinderela

Colette Dowling · Capítulo 16 de 60

Páginas do PDF

Complexo de Cinderela

Capítulo III

A reação feminina

No colégio eu m e tornei um problem a para as freiras, que viam em m im um a personalidade paradoxal. Eu era a um só tem po indisciplinada e líder. Eu agia de m odo provocador, m enosprezando aquelas estranhas criaturas de hábitos negros que, contudo, m e intim idavam . Já na segunda série eu era representante da turm a, e freqüentem ente tinha problem as por gozar os professores sem pre que havia oportunidade. Não conseguia resistir ao im pulso de exibir-m e com o a sabichona. Mesm o agora, ao relem brar aqueles dias, recupero a deliciosa sensação de desafiar um sistem a que qualificava de ridículo, e professores a quem não podia respeitar.

Minha confusão era genuína. Dentro do m eu invólucro de sabichona existia um a m enininha — não um a j ovem a cam inho de tornar-se um a m ulher —, um a menininha assustada e confusa, um a m enina a quem , acim a de tudo, perturbava o fato de aparentem ente ninguém saber com o cuidar dela. Enquanto m eus pais achavam que eu estava em boas m ãos, as freiras pareciam estragar m inha educação a cada ano que passava. Eu estava sendo forçada a am adurecer rápido dem ais. Entrara no segundo grau aos doze anos de idade e partira para a faculdade aos dezesseis. Todo m undo se m aravilhava com m inha precocidade, porém ninguém parecia saber do que eu necessitava em ocionalm ente, m uito m enos eu. Eu era um a contrafóbica em potencial: por fora durona, por dentro assustada e tentando desesperadam ente, a todo custo, ocultar m eu m edo.

Term inei a faculdade aos vinte anos. Em m enos de duas horas após o térm ino de m inha form atura eu estava no aeroporto de Washington, D.C., pronta para partir para um a nova vida. Meu futuro fora brilhantem ente selado (assim eu pensava) por um acontecim ento afortunado. Eu participara de um concurso da revista Mademoiselle para universitárias, e de repente descobrira ser um a das vencedoras. Dezenove outras j ovens e eu — as "editoras convidadas" — íam os passar um m ês trabalhando na edição especial sobre faculdades. O que ia acontecer após esse m ês excitante? Quem sabia? Quem ligava? Para pessoas especiais com o nós, obviam ente o m undo j á tinha planos. Quinze anos m ais tarde, quando Sy lvia Plath publicou o pungente relato de sua deprim ente experiência com o editora convidada em The bell jar, fiquei tão incom odada que não consegui term inar o livro na época. Mas enquanto passava pela m esm a enganosa introdução ao deslum brante m undo da editoração de revistas, tinha os olhos totalm ente fechados ao que estava acontecendo dentro de m im . Em term os em ocionais, nenhuma de nós sabia realm ente o que estava ocorrendo. Jovens talentosas e inteligentes, produto dos anos 50, estávam os na realidade avançando para a beira do precipício. Não fazíam os idéia de quanto nossas vidas m udariam , de quanto "quebraríam os a cara" devido às profundas m odificações que ocorriam na cultura. Muito se esperava de nós, contrariam ente às coisas que, até então, se esperavam das m ulheres em geral. Coisas novas para as quais não tínham os sido preparadas.

No final do m ês, com o editora convidada, fui solicitada a perm anecer na revista. Eu nunca dedicara m uito tem po a reflexões sobre trabalho ou sobre o planej am ento de m inha própria vida. Esperando de algum m odo "ser cuidada" de novo, aceitei a proposta de em prego e m ontei um apartam ento com três am igas da faculdade, no East Side de Nova York.

Depois de um ou dois anos, cansada de fazer a m esm a coisa dia após dia, a fascinação pelo em prego com eçou a desvanecer-se, e a tensão por m al ganhar o suficiente para sobreviver com eçou a enervar-m e. Eu m e dizia estar m uito m elhor do que m inhas com panheiras de apartam ento, m oças em cuj as vidas os pais sem pre interferiam , suplicando-lhes que lhes perm itissem pagar suas contas dentárias e com prar-lhes roupas. Com um salário de cinqüenta dólares sem anais, eu levava um a vida pobre, orgulhosa e totalm ente confusa. Não m e ocorreu tentar m udar algum a coisa: um novo em prego, diferentes com panheiros de apartam ento, talvez até um companheiro. No terceiro ano m inha cabeça fervilhava de controvérsias, e passei a beber dem ais nos fins de sem ana. O que estou fazendo aqui? Será que a vida vai ser sem pre isto? Será que nada de novo irá acontecer? Conhecerei algum hom em legal? Será que um dia eu m e casarei?

Finalm ente um a coisa aconteceu. Quatro anos depois de ter descido no aeroporto de La Guardia (Nova York), proveniente de Washington, D.C. — m eus sonhos recepcionados e acalentados pelas luzes de Nova York —, aconteceu: fiquei com m edo.

E foi sem aviso prévio. Havia m ais de três anos eu vinha desem penhando o m esm o trabalho sem futuro de repórter. Nunca tivera coragem de tentar escrever um artigo, em bora m eu orgulho estivesse ferido e eu achasse que deveria estar fazendo alguma coisa. (Recolher artigos de j ornais de estudantes universitários e fazer entrevistas um a vez por m ês estava longe de ser fazer alguma coisa.) Sei agora que o que eu realm ente queria era ser salva, transportada em asas m ágicas para um a nova vida, na qual eu seria confiante, criativa, potente e, acim a de tudo, estaria segura. O insípido e infindável cotidiano de j ovem solteira trabalhando em Nova York, sem um hom em nem perspectivas, estava dim inuindo m inha auto-estim a a cada dia que passava. Eu não estava conscientem ente "procurando um hom em ". Por outro lado, não estava tentando criar um a nova vida. Não fazia idéia de com o poderia preencher o futuro que assom ava à m inha frente, im enso, exigente e potencialm ente obliterador. Lá estava ele, o complexo de Cinderela. Antigamente ele atacava meninas de dezesseis ou dezessete anos, impedindo-as muitas vezes de cursarem uma faculdade e empurrando-as para o casamento. Agora ele tende a atacar as mulheres já com curso superior, após terem experimentado o gosto do mundo. Quando as primeiras sensações inebriantes de liberdade se dissolvem e a ansiedade toma-lhes o lugar, as mulheres começam a ser incomodadas pelo velho anseio de segurança: o desejo de serem salvas. Nem todas as m ulheres sofrem o m edo em seu grau agudo ou fóbico. Para a m aioria delas ele é um coisa difusa e am orfa, algo que vai corroendo as bases im perceptivelm ente. Eu, no entanto, era extrem am ente vulnerável. Nas épocas em que o desej o de ser salva m e assaltou com m ais força (em m eu últim o ano de faculdade, após alguns anos de trabalho sem perspectiva futura, e depois que m eu casam ento se desfez), fiquei com m edo.

Um a tarde, enquanto fazia um a pesquisa no Museu do Brooklin, fui atingida por um a onda de vertigem tão forte que precisei sentar-m e com a cabeça entre os j oelhos. Com o nunca tinha sentido tontura nem desm aiado, a experiência m e aterrorizou. Vivi seis m eses com pavor de ser assaltada por outro daqueles ataques, e não m e iludi. A vertigem m e subia à cabeça quando entrava no ônibus de m anhã para ir trabalhar, ou quando entrava nas loj as, ou quando descia as escadas do m etrô. Massas de pessoas cruzavam com igo, um só corpo de form as em botadas, dando-m e a estranha sensação de estarem sem ligação com o chão que pisavam . O que aconteceria se eu desm aiasse no m eio da m ultidão ou no m eio da rua? Durante seis m eses esses sintom as bizarros tiveram preponderância sobre tudo o m ais. Era com o se constituíssem um a m etáfora para um a questão não pronunciada, m as central: Quem me segurará se eu cair? Ao fugir da faculdade para Nova York, eu pensava estar escapando à sufocante opressão do m eio escolar de m eninas católicas em que crescera. O problem a era que eu não acreditava em m inha capacidade de talhar um lugar para m im no m undo. Com o passar do tem po, onde os dias eram preenchidos com os m esm os rituais im utáveis, m inha auto-im agem com eçou a se deteriorar, e suas velhas bases de sustentação foram substituídas por um a sensação de falta de raízes. A realidade de m eu relacionam ento com m eus pais, m inha religião, todo o m eu background estavam enterrados num passado cuj a influência eu continuava tentando ignorar. Na m esm a m edida em que eu tinha m e rebelado contra a segurança e as restrições de m inha infância — as freiras, as regras, as idas sem anais ao confessionário, o instinto cruam ente infalível de m eu pai de cortar relações sem pre que eu am eaçava resolver algo por m im m esm a, o apoio silencioso de m inha m ãe às atitudes dele —, na m edida em que eu desej ava não ter m ais nada a ver com tudo isso, sim ultaneam ente dependia de tudo isso. Eu crescera com a Igrej a ditando m inhas decisões nas questões m orais e com m eus pais m e dizendo com o resolver as questões seculares de m inha vida. Se por acaso as coisas ficavam confusas, eu deixava que a Igrej a tom asse as decisões práticas; e m eu pai, as decisões m orais. Aparentem ente não fazia diferença quem decidia o quê por m im , contanto que alguém o fizesse. Em setem bro daquele quarto ano em Nova York, as crises de pânico desapareceram tão m isteriosam ente quanto tinham chegado. Por diversos m eses, vivi em guarda, receosa de que, caso olhasse por cim a do om bro, a "coisa" — as terríveis palpitações de m edo — ainda estivesse lá. À certa altura do terceiro ano eu fora a um m édico, que m e assegurara nada haver de errado fisicam ente em m im . Agora que os sintom as debilitantes tinham sum ido, agradeci a Deus pela suspensão de m inha sentença. Resolvi "esquecer" a experiência, preferindo pensar nela com o um interludio inusitado, a vê-la com o um sinal de que algo estava fundam entalm ente errado. Nunca ouvira ninguém descrever um a experiência com o aquela pela qual eu tinha passado, o que a fazia parecer m ais horrível e am eaçadora. É característico da personalidade dependente ignorar os sinais de problemas, examiná-los o mínimo possível, "agüentá-los". ("Quem sabe um dia tudo m udará", Cinderela pensava, varrendo as cinzas do borralho.)