Complexo de Cinderela
Depressão em todo o país
Originando-se diretam ente da confusão de donas-de-casa com o aquelas de Atlanta, surge um fenôm eno cultural relativam ente novo: a "esposa desativada". Representando um a vasta subcultura de m ulheres que enviuvaram ou foram abandonadas pelos m aridos e que j am ais desenvolveram habilidades com que se sustentarem , as esposas desativadas constituem um a classe em ocionalm ente deficiente de vinte e cinco m ilhões de m ulheres. Levadas a crer que a sociedade as recom pensaria por serem , boas esposas e m ães e por m anterem seus lares reluzindo de lim peza, essas m ulheres se vêem com pletam ente perdidas frente ao desabam ento de suas relações conj ugais. Acreditam -se incom petentes; os talentos possuídos na época em que saíram da faculdade ou do colégio há m uito se atrofiaram . Seus músculos estão inativos; suas m entes, idem. São essas as m ulheres que passaram a vida crendo no m ito de Cinderela, isto é, que sem pre teriam um hom em a seu lado. Os dados estatísticos do Centro para Esposas Desativadas de Maryland mostram a realidade cruel desse sonho. Somente dezessete por cento das mulheres atendidas nesse centro recebiam pensão, por ínfima que fosse, dos ex-maridos. Um terço delas vivia em extrema pobreza. E essas mulheres não eram idosas. Suas idades variavam entre trinta e cinqüenta e cinco anos.
Ao apoiar (m ais ou m enos) o divórcio — e sim ultaneam ente a im portância do trabalho da m ulher que tem filhos —, a sociedade abala a segurança dessas m ulheres. Com o resultado, segundo Milo Sm ith (fundadora da organização Esposas Desativadas e dirigente do centro que tem esse nom e em Oakland, Califórnia), as m ulheres que a procuram m ostram -se agressivas. Não lhes agrada a idéia de que tudo tenha m udado subitam ente. Elas se ressentem de ter de deixar suas cozinhas, aprender um ofício e trabalhar fora. Vivem tam bém m uito deprim idas. "O suicídio é nosso m aior problem a", disse Milo Sm ith. "Já tivem os quatro tentativas de suicídio neste ano, só aqui neste centro."
No dia em que visitei esse centro em particular (há dezenas deles espalhados pelo país), as m ulheres que lá chegavam para pedir aj uda vestiam -se bem e usavam batom verm elho-vivo. Um as tantas, obesas, usavam longas túnicas. Enquanto aguardavam a entrevista, era-lhes servido café por sim páticas recepcionistas e outras em pregadas do centro, todas elas esposas desativadas. Tal com o ex-presidiárias, as ex-esposas sustentadas tentavam aj udar-se m utuam ente. As recém -chegadas tinham os olhos brilhantes e pareciam ansiosas por agradar. A insegurança reluzia em seus olhos com o febre. "Muitas delas chegam aqui num estado lam entável", contou a Sra. Sm ith, um a m ulher de cerca de sessenta anos que iniciou esse trabalho porque havia alguns anos ela m esm a fora um a viúva assustada e sem ofício. "Tornam -se uns lixos am bulantes, viciadas em Valium — e pensar que seus m édicos dorm em com a consciência tranqüila!"
Desoladas desde a partida dos m aridos, arrasadas por um sentim ento de perda não apenas dos m aridos, m as de um estilo de vida que lhes dava a consciência de identidade, essas m ulheres buscavam em seus m édicos m ais do que eles poderiam lhes oferecer — e tudo o que recebiam eram tranqüilizantes. O desespero das esposas desativadas é palpável. A sociedade não sabe o que fazer com elas, e elas — tendo perdido a raison d'être para a qual nasceram e foram criadas — igualm ente não sabem o que fazer consigo m esm as. Sua auto-estim a parece desaparecer da noite para o dia. Apontando para a entrada do centro, Milo Sm ith disse-m e: "Praticam ente toda m ulher que cruza aquela porta assim ilou a idéia de que agora é feia, velha, gorda e inútil". Pior que isso: sentem que essa nova auto-im agem procede de algum a ação concreta contra elas, o que as faz vingativas. "Estas m ulheres desperdiçam suas energias fazendo tudo assum ir um colorido negativo, destrutivo", afirm a a Sra. Sm ith. "São terrivelm ente rígidas e inflexíveis. Isso tudo faz parte do quadro depressivo. Você sugere que façam algo por si próprias e arm am -se de desculpas. A típica esposa desativada arranj a cinqüenta razões para explicar por que é incapaz de fazer aquilo que lhe seria útil. Isso tudo deriva do m edo."
"A m ulher deprim ida é alguém que perdeu", diz Maggie Scarf, falando do "preocupante nível de depressão" que vem se evidenciando em diversos estudos recentes sobre m ulheres., bem com o da tendência ascendente a tentativas de suicídio entre elas (especialm ente entre as m ais j ovens), e da descabida quantidade de pílulas que são tom adas para abafar a dor em ocional. Um a pesquisa conduzida pelo National Institute of Mental Health, term inada no início da década de 70, revela que um terço da população fem inina entre trinta e quarenta e quatro anos usa tranqüilizantes fortes para com bater a depressão. Ocorre que oitenta e cinco por cento delas confessam j am ais terem consultado um psiquiatra.
O que exatam ente a m ulher deprim ida perdeu? "Um a coisa de que dependia vitalm ente", responde Scarf. "O que tenho visto em ergir com um a regularidade quase assom brosa é que a 'perda' em questão é a perda de um relacionam ento em ocional crucialm ente im portante e freqüentem ente auto-definidor." As m ulheres voltam -se para os outros para obter um a auto-definição — o sentido do que são. A extensão com que se vêem através dos olhos do outro é tal que, se algo acontece ao outro — se ele m orre, ou a deixa, ou apenas se modifica de m odo significativo —, elas não m ais conseguem ver-se a si próprias. Com o disse um a m ulher que perdera o hom em que fora seu am ante por três anos (e não tenho dúvidas de que falava por m ilhões de outras m ulheres): "Com eço a ter a sensação de não existir".